terça-feira, 5 de outubro de 2010

O FUTURO PERTENCE A BERLUSCONI?

Está em curso um interessante debate sobre a possibilidade de ocorrer um paradoxo num futuro próximo: a oposição conservadora poderá vencer as eleições com os votos da mesma base social que hoje se beneficia dos programas sociais do governo e apoia Lula. É a tese de que a "classe-medização" da sociedade levaria o país inexoravelmente para o centro (ou para a direita) do espectro político. Estaria o lulismo produzindo seus próprios coveiros?  


Sob Lula, as classes D e E descobriram o consumo
 
O governo Lula abriu um ciclo marcado pelo crescimento econômico voltado para o mercado interno, mas sobretudo pela inclusão social de segmentos – as chamadas classes “D” e “E” – antes completamente marginalizados da sociedade brasileira. Segundo o sociólogo André Singer, Lula foi “o mais varguista dos sucessores do dr. Getúlio” – isso porque estabeleceu uma “ligação com os setores populares antes desarticulados. Ao construir, desde o alto, o povo em ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou”, ressalta Singer. No primeiro mandato, essa inclusão resumiu-se a algumas medidas de aumento do consumo popular, na contramão da ortodoxia econômica, como o Bolsa Família e o crédito consignado, além do aumento real do salário mínimo. Na análise de Singer, até 2005, a ligação entre Lula e os setores populares era virtual, posto que o governo optara por não entrar em confronto com o grande capital, mantendo uma política ecônomica ortodoxa. Mas a partir dali, quando Lula se viu ameaçado pelo escândalo do mensalão, as coisas começaram a mudar.

Demorou, mas Lula acabou incorpando Vargas

“Foi só então que, empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que identificou nele o propósito de redistribuir renda sem confronto”, diz Singer (a velha “Astúcia da História” hegeliana?, perguntaríamos nós). Ele explica também que foi preciso o segundo turno de 2006 para que ficasse claro que o povo tinha tomado partido. “Pela primeira vez, o andar de baixo tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que define o realinhamento iniciado quatro anos antes”. Isso permitiu a Lula maior desenvoltura no segundo mandato. Lançou-se o PAC (Programa de Aceleração do Desenvolvimento), que criou um ciclo virtuoso de crescimento econômico e geração de empregos. Nem mesmo a crise de 2009 foi capaz de interromper esse ciclo, graças à política keynesiana do governo de desonerar os impostos de bens de consumo, como carros e a linha branca, apostando no mercado interno.

Berlusconi
O problema é que a inclusão desses setores antes marginalizados se fez de maneira despolitizada, como na era Vargas. Esses setores não precisavam participar de manifestações, não ingressaram em sindicatos e associações, não fizeram greves – antes, são muito ciosos da “ordem”. E, como disse o jornalista Paulo Henrique Amorim, essa classe média emergente é incapaz de perceber que a sua ascensão só foi possível porque houve uma importante vitória política: Lula tirou o oxigênio ideológico do projeto neoliberal do tucanato paulista. E quando a classe média ascende sem saber por quê o que acontece?, indaga Amorim. “A classe média pode ir perfeitamente para o Berlusconi. Aliás, a classe média é a massa com que o Berlusconi faz a pizza”.

O professor Wanderley Guilherme dos Santos fez uma agudíssima análise que vai na mesma linha (a citação é longa, mas vale a pena): “grande parte das políticas sociais em curso dispensa intermediários. Os atingidos têm acesso diretos aos benefícios, extinguindo-se o pedágio de gratidão que deveriam pagar aos agentes executivos das ações distributivas [...] Nessa mesma medida o voto gratidão ou se transforma em voto-confiança ou migra. Em breve a população brasileira sentirá a rede social em expansão como estado da natureza [...] Parte considerável da nova classe média tende ao conservadorismo por entender com absoluta lucidez que existem limites à mobilidade social ascendente [...] É sociológica e economicamente impossível que a totalidade das pessoas que alcançaram ou venham a alcançar em breve o topo salarial [...] se transfiram para um patamar acima na estratificação social, dando início a nova trajetória ascendente [...] A ascensão intergeracional é outra história. Em uma geração, porém, o jovem que entusiasmava com o fervilhante trânsito social é o mesmo adulto maduro que, seguro em sua posição atual e aposentadoria próxima, teme promessas de solavancos sociais. O mais provável é que o solavanco o desaloje. Alguns chamam o fenômeno de ‘aversão ao risco’, mas podemos chamá-lo, sem ofensa, de ‘potencial de votos conservadores’. Em próximas eleições, o aceno da consolidação de conquistas feitas pode ser tão ou mais atraente do que prometida alvorada de grandes transformações”. O professor conclui que, no futuro, será nesse depósito que a história obrigará os conservadores, a contragosto, a buscar votos.

A questão é: dadas as condições históricas do Brasil, seria possível ter sido diferente? E será que é possível modificar esse curso? Em todo o mundo, com raras exceções, as classes médias que se estabilizam socialmente tendem ao conservadorismo político e até a posições ultradireitistas, quando sentem qualquer ameaça ao seu status. Se for assim - e tudo indica que será - a esquerda terá que repensar sua agenda para o futuro próximo.


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