sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O TRIUNFO DA VONTADE


Oligarquia paulista comemora
derrota de 1932 como se fosse vitória
Imagine se os argentinos, num acesso de demência, decretassem feriado nacional o dia 14 de junho (data da vitória dos britânicos sobre os argentinos na Guerra das Malvinas), promovendo desfiles militares e de veteranos para lembrar a data, como se comemorassem a vitória. Ou se, tomados pelo mesmo surto, os paraguaios comemorassem o 20 de junho (derrota para a Tríplice Aliança na Guerra do Paraguai) da mesma maneira.


Pois é o que os paulistas fazem todo 9 de julho, há décadas. Inconformada com a perda do poder político depois da Revolução de 1930, a oligarquia cafeeira de São Paulo pegou em armas em 1932 contra o governo central, inicialmente lutando pela secessão, como os Estados sulistas americanos tentaram durante a Guerra Civil nos Estados Unidos. Derrotada no campo de batalha, a elite paulista envolveu a insurreição militar com o véu diáfano da democracia, construindo o mito - que perdura até hoje - de que São Paulo promoveu uma revolução contra Getúlio Vargas "por uma Constituição" - tanto que o evento ficou conhecido como "Revolução Constitucionalista".


Curiosamente, uma verdadeira revolução popular eclodira nas ruas de São Paulo oito anos antes, em 1924, quando a Força Pública e populares se rebelaram contra o governo autocrata de Artur Bernardes - que governava o país sob estado de sítio desde 1922. A cidade foi bombardeada e cerca de 500 pessoas morreram. Derrotadas, as tropas do general Isidoro Dias Lopes reuniram-se à coluna liderada pelos capitães Luis Carlos Prestes e Miguel Costa, que formaria depois a lendária Coluna Prestes. Essa revolução fez parte do ciclo tenentista e teve cara de povo; talvez por isso tenha sido completamente esquecida. Já a "revolução" da oligarquia paulista, derrotada pelo despotismo esclarecido de Vargas, é lembrada ano a ano.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Não há mais desculpas para Cuba
Em 1989, quando a queda do Muro de Berlim colocou o bolchevismo na lata de lixo da História, ninguém acreditaria que as ditaduras stalinistas remanescentes em Cuba e na Coréia do Norte estariam em pé 20 anos depois. A maioria esmagadora dos analistas políticos ocidentais dava de barato que os dias dos herdeiros de Stálin estavam contados. A revista americana Newsweek chegou a fazer uma matéria intitulada The Last Days of Castro (Os últimos dias de Castro) em 1991...

Mas o fato é que, apesar de ter sobrevivido, o castrismo - fonte de inspiração para a esquerda revolucionária dos anos 60/70 - se transformou numa trágica caricatura de si mesmo e ficou pendurado apenas na brocha do "anti-imperialimo", que ganhou sobrevida com los hermanos bolivarianos. Além de ser um estado policial implacável, que prende e fuzila dissidentes, o regime cubano envolveu-se com o narcotráfico e, em 1989, quando descoberto, criou uma farsa judiciária digna dos Processos de Moscou e fuzilou bodes expiatórios, um deles herói militar e adepto da "perestroika", o general Arnaldo Ochoa (acima, à dir.). Sob o pretexto de enfrentar o bloqueio americano, o castrismo criou um verdadeiro apartheid entre cubanos com dólares e cubanos sem dólares - tudo para manter o poder da burocracia comunista. De um ponto de vista democrático e de esquerda, não há como defender esse socialismo de caserna dos irmãos Castro. Isso não significa apoiar o bloqueio americano, muito pelo contrário. Mas a bandeira do anti-imperialismo não pode mais ser usada para justificar ditaduras, como nos anos 70, quando chegou a encobrir o genocídio perpetrado no Camboja pelo Khmer Vermelho - sem falar das barbaridades cometidas pelos regimes "marxistas" da África.
Aliás...
...O ateu Saramago já deu adeus às ilusões milenaristas que emanavam do Caribe. Mas o pio frei Betto, sempre em busca de uma fé, continua rezando pelo catecismo de Fidel Castro...



quarta-feira, 28 de outubro de 2009

DOCE VENENO


A face antidemocrática do
politicamente correto

Doce flor do mulculturalismo tapuia, a senadora Marina Silva, pré-candidata do PV à Presidência, voltou a dizer que é contra o aborto, mas defendeu a realização de um plebiscito para decidir a questão. Essa manifestação de "democratismo" de certos adeptos do "politicamente correto" mal disfarça um impasse. A senadora poderá defender também a realização de um plebiscito para saber se o criacionismo deve ser ensinado nas escolas em pé de igualdade com a teoria da evolução. Nos dois casos Marina não estará se arriscando a proferir um discurso diferente do das "massas". Mas ela ousará submeter a pena de morte a um escrutínio popular? A maioria dos brasileiros já foi favorável à execução legal e quem garante que não voltará a sê-lo, sob o impacto de um crime violento ou de uma campanha agressiva? É fácil estar com "o povo" quando nossas opiniões coincidem com as dele, mas o que fazer quando ocorre o contrário? Pior: devemos seguir a maioria se ela ela optar por instaurar ou manter leis repressivas ou retrógradas? Lembremo-nos que o fascismo e o nazismo chegaram ao poder pelo voto popular. Intoxicado com "as raízes" ou "as tradições populares", o multiculturalismo - ersatz do romantismo político - é incapaz de raciocinar em termos dos valores humanistas, iluministas e universais consagrados pelas Revoluções Americana e Francesa: direitos humanos, liberdades civis, separação Estado-Igreja. Afinal, como ensinava Alexis de Tocqueville, a "tirania da maioria" pode ser tão antidemocrática quanto a opressão da minoria.



FHC VAI TRAGAR?


Um debate necessário e urgente

Durante seu governo, FHC aliou-se incondionalmente à política antidrogas dos EUA - na época liderados por Bill fumei mas não traguei Clinton -, fundamentalmente repressiva e ineficaz, como mostra o exemplo da Colômbia. Agora, no âmbito da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, FHC está defendendo a descriminalização da maconha para o consumo pessoal. Alvissarás! Esperemos que essa posição não seja mero oportunismo para dar projeção ao "Farol de Alexandria".
O debate sobre a questão das drogas precisa romper a hegemonia reacionária sobre o tema. A Lei Seca já mostrou há muito tempo que a proibição é o principal alimento do crime organizado. A descriminalização é o primeiro passo para a liberação das drogas - única maneira eficaz de se combater o narcotráfico. Trata-se de saber se teremos a coragem de transformar um problema de segurança pública insolúvel num problema de saúde pública - espinhoso, mas ainda assim menos traumático para a sociedade. No futuro, talvez possamos lidar com as drogas como hoje lidamos com o tabaco e a bebida. O argumento "liberal" de que não é justo que a sociedade pague pelo tratamento de viciados é hipócrita: quantos bilhões já foram consumidos e quantos mais serão para montar e sustentar o vasto aparelho repressivo de combate ao narcotráfico, sem resultados visíveis?
Mas, voltando à vaca fria, é fato que a defesa da discriminalização da maconha por ex-lideranças políticas em busca de uma causa pode ser só um factóide. Como o "Príncipe dos Sociólogos", outros integrantes da Comissão - os ex-presidentes César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México) - na época em que estavam no poder em seus países também se aliaram à insana posição americana. Apesar disso, é insustentável a postura de alguns eternos críticos de "esquerda" que usam o mesmo discurso moralista e reacionário da direita sobre as drogas só para condenar FHC. A César (não o Gaviria...) o que é de César...

BARACK JOHNSON OBAMA?




Progressista em casa, realista no mundo


O presidente americano, Barack Obama, enfrenta seu maior desafio externo no Paquistão e no Afeganistão, eixo geopolítico por ele batizado de Af-Pak, que substituiu o Iraque como prioridade na "luta contra o terror". É lá, e não em Bagdá, que estão as bases da Al-Qaeda e do Talibã; é lá onde se esconde Osama Bin Laden. É do Af-Pak que a Jihad se irradia pelo mundo e é lá que ela deve ser enfrentada. A abordagem de Obama é tida como "realista", a velha escola de política externa que orientou líderes republicanos como Teddy Roosevelt, Richard Nixon e George Bush (pai) , mas também democratas como Harry Truman, John Kennedy e Lyndon Johnson. Ao contrário da outra escola de política externa, a idealista, que queria transformar o mundo num "lugar seguro para a democracia" (Woodrow Wilson, Jimmy Carter), os realistas trabalham com conceitos como "razão de Estado", "interesse nacional" e "equilíbrio do poder". Não pretendem mudar o mundo, mas tirar o melhor proveito do conflito de interesses. Obama já deixou claro que pretende ser progressista no campo doméstico, mas dificilmente conseguirá sê-lo no plano externo. Os recentes atentados e a escalada militar no Afeganistão projetam sobre o democrata a sombra de Lyndon Johnson, um presidente que gostaria de ter ficado conhecido como o texano que assinou a Lei dos Direitos Civis, mas acabou entrando para a História como o responsável por afundar o país no atoleiro do Vietnã...
Será o Af-Pak o Vietnã de Obama?




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NÃO CREIO PORQUE É ABSURDO

Credo quia absurdum (Creio porque é absurdo) - Tertuliano (155-222), teólogo cristão

"Os que padecem desta neurose (religiosidade) [...] terão que admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do Universo: não podem mais ser o centro da criação, o objeto de eterno cuidado de uma Providência beneficente. Estarão na mesma posição de uma criança que abandonou a casa paterna, onde se achava tão bem instalada e tão confortável. Mas não há dúvidas de que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a vida 'hostil'" (Sigmund Freud, O Futuro de Uma Ilusão)







Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?”
Epicuro (431a.C-270a.C)







"Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo”
(Friedrich Nietzsche, O Anticristo)




“Se não há um deus, estamos corretos; se há um deus indiferente, não sofreremos; se há um deus justo, não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade; mas, se há um deus injusto, temos muito a temer – assim como o cristão.”
(George Smith, Nobel de Física 2009)


OU, COMO DIRIA KANT, OUSAR PENSAR!



"O Iluminismo (Aufklärung) é a saída do homem de sua minoridade, da qual ele próprio é o culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a orientação de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere Aude (ousar pensar!). Tem coragem de fazer uso do teu próprio entendimento. Tal é o lema das Luzes” (Immanuel Kant, Was Ist Aufklärung?)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O OVO DA SERPENTE

O comportamento de turba, como o dos estudantes que hostilizaram uma colega na universidade a pretexto da roupa inapropriada, leva à destruição da democracia



"A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito à vulgaridade e o impõe em toda parte. Como se diz nos Estados Unidos: ser diferente é indecente. A massa faz sucumbir tudo o que é diferente, egrégio, individual, qualificado e especial. Quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado”
José Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas (1930)




  • “Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido. [...] Tal aversão ao contato não nos deixa nem quando caminhamos em meio a outras pessoas. A maneira como nos movemos na rua, em meio aos muitos transeuntes, ou em restaurantes, trens e ônibus, é ditada por esse medo. [...] Somente na massa é possível ao homem libertar-se do temor do contato [...] Tão logo nos entregamos à massa não tememos o seu contato. Na massa ideal, todos são iguais. Nenhuma diversidade conta, nem mesmo a dos sexos. Quem quer que nos comprima é igual a nós. Sentimo-lo como sentimos a nós mesmos. Subitamente, tudo se passa então como que no interior de um único corpo. Talvez essa seja uma das razões pelas quais a massa busca concentrar-se de maneira tão densa: ela deseja libertar-se tão completamente quanto possível do temor individual do contato. Quanto mais energicamente os homens se apertarem uns contra os outros, tanto mais seguros eles se sentirão de não se temerem mutuamente. Essa inversão do temor do contato é característica da massa”

    Elias Canetti, Massa e Poder (1960)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O PATRONO DA DIREITA PAULISTA...


CARLOS LACERDA (1914-1977)
“Lei tem que ter origem legítima para ser legal”

Legal, né? Às favas com os escrúpulos da democracia.
Mas tem mais:

“Eu recomendava o que chamava na ocasião, e talvez tenha errado em dar esse nome, o 'regime de exceção'. Eu não chamava de 'regime de exceção' por ser um regime sem garantias para os cidadãos, nem um regime, enfim, autoritário-fascista. Eu o chamava de 'regime de exceção' por ser um regime de transição, durante o qual seriam feitas reformas que permitissem ao país entrar num regime democrático mais autêntico: eleições de verdade, com o povo mais receptivo ao raciocínio do que à emoção”

Não, não foi o Reinaldo Azevedo o autor dessas pérolas - aliás, menos raivosas do que as que perpetra hoje o Gustavo Corção pós-moderno da última flor do fascio. Essas reflexões são de Carlos Lacerda, líder poltico da direita udenista, brilhante orador e golpista incurável, apelidado "O Corvo" por seus inimigos.
Embora seja carioca, Lacerda pode ser considerado o patrono da direita paulista que, na falta de um Getúlio Vargas, baixa o sarrafo no governo Lula...



segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A SEGUNDA VINDA



W. B. Yeats (1865-1939)
[...]

Tudo se desmancha no ar.

O centro não segura a imensa

anarquia solta sobre o mundo.

A terrível maré de sangue invade tudo

e as cerimônias da inocência estão afogadas.

Os melhores não têm convicção; enquanto

que e os piores estão cheios de paixão intensa.
(1920)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

POLÍTICA POR OUTROS MEIOS: A FORÇA


"Todos os profetas armados vencem e os desarmados são vencidos. Porque, além do que já foi dito, a natureza dos povos é lábil: é fácil persuadi-los de uma coisa, mas é difícil que mantenham sua opinião. Por isso, convém ordenar tudo de modo que, quando lhes falte a crença, se lhes possa fazer crer pela força" (Maquiavel, O Príncipe)


"O poder nasce da ponta do fuzil"


MAS...

"O partido comanda os fuzis, não o contrário" (Mao Tsé Tung, líder da Revolução Chinesa)









(

POLÍTICA POR OUTROS MEIOS: O MERCADO








"Não importa a cor do gato, desde que ele cace ratos" (Deng Xiaoping)

"Enriquecer é glorioso" (idem)

"Enriquecei-vos" (Exortação aos camponeses de Nikolai Bukhárin, líder bolchevique fuzilado por Stálin em 1938)

OS FILÓSOFOS E O GENERAL













"Não se prende um Voltaire!" (Charles De Gaulle, presidente da França dito "de direita", quando lhe sugeriram que prendesse o filósofo esquerdista Jean-Paul Sartre durante a Guerra da Argélia)

SÓ PARA LEMBRAR...




...que a posição do Brasil na crise de Honduras é, apesar dos esperneios da direita paulista, uma questão de princípio, não importa a qualidade do governante. Com a defesa da democracia não se transige. Como dizia o velho Churchill - conservador, aliás, mas não reacionário - "a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras formas que vem sendo tentadas de tempos em tempos" (Democracy is the worst form of government, except for all those other forms that have been tried from time to time).

A MAIOR DE TODAS AS DIVAS

Maria Callas (1923-1977)

http://www.youtube.com/watch?v=6fZRssq7UlM

O mal-estar da pós-modernidade (apud Zygmunt Bauman)

Wassily Kandinsky, Red-Yellow-Blue (1925)

Expressa a idéia de que "tudo o que é sólido desmancha no ar" (Marx), fórmula retomada por Zygmunt Bauman, que elaborou o conceito de "modernidade líquida" para definir nossa sociedade pós-industrial

CANÇÃO PARTISAN


Mireille Mathieu canta a canção dos partisans. Tempos sombrios, mas também gloriosos...


TIQUINHA E PITUCA

Quem disse que gato não faz pose??


NUNCA HOUVE NINGUÉM COMO ELA...

O melhor strip tease de todos os tempos: Gilda, em que Rita Hayworth tira apenas uma luva...

http://www.youtube.com/watch?v=rVI0A4DTVgg

Possibilidades e limites


O que há
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Balada


(Em memória de uma poeta suicida)*
Mário Faustino



Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmo sangrento e a alma pura
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!
Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está comigo nem conTigo:
Tanta violência, mas tanta ternura.

Zeitgeist (o espírito de uma época)




"Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da luz, a estação das trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o paraíso, íamos todos direto no sentido contrário" (Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens).
Essa passagem exprime o Zeitgeist da Revolução Francesa, mas também poderia expressar as perplexidades da nossa trágica época: a dos antifascistas que lutaram na Guerra Civil Espanhola de 1936-1939 ante a omissão das democracias ocidentais e os crimes do NKVD; a dos partisans que se levantaram contra o fascismo na Europa oriental e acabaram sucumbindo aos tanques do stalinismo e, last but not least, a dos jovens brasleiros que pegaram em armas para derrubar a ditadura, sobreviveram à ação da máquina repressiva mas acabaram vendo seus sonhos do "homem novo" se desmancharem nos killing fields do Camboja ou no gulag do Caribe.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Decompondo-se e desafinando




Cioran


Primeiro, o porquê do título - "breviário da autodecomposição": trata-se de uma homenagem ao pensador romeno E. M. Cioran, autor do "breviário da decomposição". O improvável pensador defendia uma filosofia de "pensar contra si próprio", apostando no perigo e alargando a esfera de nossos males, na esteira de Nietzsche, Baudelaire e Dostoievsky, conforme definição de Susan Sontag. Que dizia coisas tão politicamente incorretas quanto perturbadoras e subversivas, como: "Se se pusesse em um prato da balança o mal que os 'puros' espalharam sobre o mundo e no outro o mal proveniente dos homens sem princípios e sem escrúpulos, é o primeiro prato que inclinaria a balança... Os desastres das épocas corrompidas têm menos gravidade do que os flagelos causados pelas épocas ardentes: a lama é mais agradável do que o sangue; há mais suavidade no vício do que na virtude, mais humanidade na depravação do que no rigorismo. O homem que reina e não crê em nada, eis o modelo de um paraíso da decadência [...] as verdades começam por um conflito com a polícia e terminam por apoiar-se nela". Não é para delicados; é o "desafinar o coro dos contentes", como dizia Torquato Neto.