sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

PESSIMISMO NA TEORIA; OTIMISMO NA AÇÃO

"Dostoiévski escreveu: 'Se Deus não existisse, tudo seria permitido'. Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer.   [...]

"O Grito", Edvard Munch

No fundo, quando Descartes dizia: 'Vencermo-nos antes a nós do que ao mundo', queria significar a mesma coisa: agir sem esperança. [...] contarei sempre com os companheiros de luta na medida em que esses companheiros estão empenhados comigo numa luta concreta e comum, na unidade de um partido ou de um grupo que eu posso controlar mais ou menos, quer dizer, ao qual pertenço como militante do qual conheço em cada instante os movimentos. Mas, então, confiar na unidade e na vontade desse partido é exatamente o mesmo que confiar que o bonde chega à hora ou que o trem não descarrila. Mas eu não posso contar com homens que não conheço, apoiando-me na bondade humana e no interesse do homem pelo bem da sociedade, sendo aceite que o homem é livre e que não há nenhuma natureza humana em que eu possa me basear. [...] Na realidade, as coisas serão tais como os homens tiver decidido que elas sejam. Quer dizer isso que eu deva abandonar-me ao quietismo? Não. Antes de mais, devo ligar-me por um compromisso e agir depois segundo a velha fórmula 'para se atuar dispensa-se a esperança'. Não quer isto dizer que eu não deva pertencer a um partido, mas que não terei ilusões e que farei o que puder."
Jean-Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo  
         

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

GENGIS KHAN, O CIVILIZADOR

"Esse nobre rei era chamado Gengis Khan, que em seu tempo tinha tal renome que não havia em lugar algum, em região alguma, um soberano tão eminente em todas as coisas"
Geoffrey Chaucer,
O Conto do Fidalgo, in Os Contos da Cantuária (c. 1395)

Não me recordo quem cunhou a expressão - talvez tenha sido o Paulo Francis - "Fulano está à direita de Gengis Khan", significando que esse alguém tinha pendores togloditas e psicotapas, tipo Hitler, Videla, Pinochet, Stálin ou Pol Pot. Isso porque o líder mongol Gengis Khan (1162-1227) frequentemente foi associado à barbárie, à violência e à crueldade, como Átila, o Huno. Essa visão foi sedimentada no século XVIII pela percepção europeísta dos iluministas franceses. Estudos recentes, contudo, mostram uma realidade muito diferente: Gengis Khan criou um império que, embora feito à base de conquista - mas qual império poderia atirar a primeira pedra impunemente? -, unificou tribos nômades, favoreceu o comércio, criou o papel moeda e praticou a tolerância religiosa. O historiador e antropólogo Jack Weartherfod, de Minnesota, pesquisou profundamente a história de Gengis Khan e do império mongol e resgatou as conquistas dos mongóis para a civilização:

"Em uma conquista após a outra, o exército mongol transformou a guerra em um acontecimento internacional de múltiplas frentes, que se estendiam por milhares de quilômetros. As técnicas de luta inovadoras de Gengis Khan tornaram obsoletos os cavaleiros da Europa medieval com suas armaduras pesadas, substituídos por uma cavalaria disciplinada que se movimentava em unidades coordenadas. Em vez de confiar em fortificações defensivas, Gengis Khan fez uso brilhante da velocidade e da surpresa no campo de batalha, bem como aperfeiçoou a guerra de sítio a ponto de acabar com a era das cidades muradas. Gengis Khan não apenas ensinou seu povo a lutar através de distâncias incríveis, mas a manter a campanha por anos, décadas e, finalmente por mais de três gerações de luta incessante.

Em 25 anos, o exército mongol subjugou mais terras e povos do que os romanos em 400. Gengis Khan, justamente com seus filhos e netos, conquistou as civilizações mais densamente povoadas do século XIII. [...] O império de Gengis Khan conectou e amalgamou as várias civilizações em torno de si em uma nova ordem mundial. Quando de seu nascimento em 1162, o Velho Mundo consistia numa série de civilizações regionais, cada uma podendo afirmar desconhecer virtualmente qualquer civilização além de sua vizinha mais próxima. Ninguém na China havia ouvido falar da Europa, e ninguém na Europa havia ouvido falar da China e, até onde se sabe, nenhuma pessoa havia feito a jornada de um país ao outro. Quando da sua morte, em 1227, Gengis Khan havia ligado essas áreas por meio de contatos diplomáticos e comerciais que permanecem intactos até hoje.

À medida que destruía o sistema feudal de privilégio aristocrático e linhagem, Gengis Khan construía um excepcional sistema baseado no mérito individual, na lealdade e competência. Encontrou cidades mercantis desarticuladas e langorosas ao longo da Rota da Seda e organizou-as na maior zona de livre comércio da história. Baixou os impostos para todos e aboliu-os completamente para médicos, professores, padres e instituições educacionais. Estabeleceu um censo regular e criou o primeiro sistema postal internacional. Seu império não era de acumulação de riquezas e tesouros; em vez disso, distribuía amplamente as mercadorias obtidas em batalha para que pudessem retornar para a circulação comercial. [ ...] Em uma época em que a maioria dos governantes considerava-se acima da lei, Gengis Khan insistia em que as leis considerassem os governantes tão responsáveis quanto o pastor mais simples. Concedeu libertade religiosa dentro de seus domínios; no entanto demandou lealdade absoluta dos indivíduos conquistados de todas as religiões. Insistiu na soberania da lei e aboliu a tortura, mas armou campanhas importantes para encontrar e matar salteadores e assassinos terroristas. Gengis recusou-se a manter reféns e, em vez disso, instituiu a prática original de conceder imunidade diplomática para todos os embaixadores e emissários, incluindo aqueles de nações hostis contra as quais ele estava em guerra. [...]

Aparentemente todos os aspectos da vida europeia - tecnologia, técnicas de guerra, roupas, comércio, alimentação, literatura e música - mudaram durante a Renascença como resultado da influência mongol. Além das novas formas de combate, novas máquinas e novos alimentos, mesmo os aspectos mais rotineiros da vida cotidiana mudaram na medida em que os europeus passaram a usar os tecidos mongóis, vestindo calças e casacos em vez de túnicas e mantos, tocar seus instrumentos musicais com o arco da estepe em vez de dedilhá-los e pintar seus quadros com um novo estilo. Os europeus chegaram a usar a exclamação mongol hurray como uma expressão entusiasmada de bravata e encorajamento mútuo. [...]

Kublai Khan, neto de Gengis Khan, com Marco Polo
Com a passagem dos séculos, os acadêmicos ponderaram as atrocidades e agressões cometidas por homens como Alexandre, César, Carlos Magno ou Napoleão contra suas realizações ou sua missão especial na história. No caso de Gengis Khan e os mongóis, entretanto, suas realizações foram esquecidas, enquanto que seus alegados crimes e brutalidade foram exagerados. Ele se tornou o estereótipo do bárbaro, do selvagem sanguinário, do conquistador implacável que apreciava a destruição por si só. Gengis Khan, a sua horda mongol, e em grande parte o povo asiático em geral tornaram-se criaturas unidimensionais, o simbolo de tudo que está além dos limites civilizados."

Jack Weatherford, Gengis Khan e a Formação do Mundo Moderno



É bom lembrar que um dos herdeiros mais brilhantes de Gengis Khan foi seu neto Kublai Khan, fundador da dinastia Yuan na China, que contratou o italiano Marco Polo como seu embaixador.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

AS MÃOS SUJAS DO LIVRE MERCADO


Stálin e o Gulag soviético
"Normalmente, os sistemas de ideias que exigem a eliminação por inteiro de culturas e povos, com o intuito de instaurar uma visão purificada do mundo, são aqueles baseados em religiosidade extrema e teorias raciais. Mas, desde o colapso da União Soviética, tem ocorrido um acerto de contas coletivas com os grandes crimes cometidos em nome do comunismo. Os arquivos do sistema soviético de informação foram abertos aos pesquisadores, que contaram os mortos - por fomes forçadas, campos de concentração ou assassinato. 

[...]

Argentina, anos 1970
Mas o que dizer da cruzada contemporânea para libertar os mercados mundiais? Os golpes, guerras e chacinas perpetradas para instalar e manter regimes favoráveis aos interesses das corporações nunca foram tratados como crimes capitalistas. Ao contrário, têm sido retratados como zelos excessivos de certos ditadores, nas frentes de batalha da Guerra Fria e da Guerra ao Terror atual. Quando os oponentes mais aguerridos do modelo das corporações são sistematicamente eliminados, como na Argentina na década de 1970 ou no Iraque hoje, essa eliminação é explicada como parte da guerra suja contra o comunismo ou o terrorismo - jamais como uma batalha pelo avanço do capitalismo puro. 

[...]
 
Pinochet e seu guru, Milton Friedman
Keynes propôs (...) esse tipo de economia mista e regulada após a Grande Depressão, uma revolução nas políticas públicas que criou o New Deal e gerou transformações similares em todo o mundo. Foi exatamente contra esse sistema de conciliação, controle e equilíbrio que a contra-revolução de [Milton] Friedman foi deslanchada, buscando desmantalá-la em todos os países. Desse ponto de vista, a versão do capitalismo idealizada pela Escola de Chicago possui algo em comum com outras ideologias perigosas: o desejo declarado por uma pureza inatingível, por um espaço vazio onde construir uma sociedade-modelo constantemente reelaborada.

O anseio pelos poderes divinos de criação total é a razão pela qual os ideólogos do livre mercado são tão apegados à crises e desastres. Uma realidade não-apocalíptica simplesmente não abarca suas ambiações. O que animou a contra-revolução de Friedman, por 35 anos, foi sua atração por uma espécie de liberdade e de oportunidade que só se apresenta em situações de mudanças calamitosas - quando as pessoas, com seus hábitos arraigados e demandas insistentes, são tiradas do caminho -, momento em que a democracia parece praticamente impossível. 

Aqueles que acreditam na doutrina do choque estão convencidos de que somente uma grande ruptura - uma inundação, uma guerra, um ataque terrorista - pode criar o tipo de tela branca, grande e limpa que eles tanto procuram. É nesses momentos maleáveis, quando estamos psicologicamente fragilizados e fisicamente esgotados, que esses artistas do real esfregam as mãos e iniciam seu trabalho de refazer o mundo.

[...]

Algumas das violações mais infames dos direitos humanos de nossa era, que tenderam a ser encaradas como atos sádicos perpetrados por regimes antidemocráticos, foram cometidas com a intenção clara de aterrorizar o público, ou ativamente empregadas a fim de preparar o terreno para a introdução das 'reformas' radicais de livre mercado. Na Argentina da década de 1970, o 'desaparecimento' de trinta mil pessoas sob o governo da junta militar, muitas delas ativistas de esquerda, fez parte da imposição ao país das políticas da Escola de Chicago, do mesmo modo que o pavor foi parceiro para um tipo similar de metamorfose econômica no Chile.

Yeltsin bombardeia o Parlamento em 1993

 Na China, em 1989, foram o choque do massacre da praça Tiananmen e as prisões subsequentes de milhares de manifestantes que facilitaram ao Partido Comunista a conversão de amplas partes do país em uma grande zona de exportação, suprida com uma força de trabalho excessivamente aterrorizada para reivindicar seus direitos. Na Rússia, em 1993, foi a decisão de Boris Yeltsin de enviar os tanques para bombardear o Parlamento e prender os líderes da oposição que abriu caminho para a escalada de privatizações e criou os notórios oligarcas do país." 

Naomi Klein, A Doutrina do Choque - A ascensão do capitalismo de desastre   

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

HISTÓRIA DE CRONÓPIOS E FAMAS

Inconvenientes nos Serviços Públicos

"Veja o que acontece quando se confia nos Cronópios. Mal fora nomeado Diretor-Geral da Radiodifusão, aquele Cronópio chamou uns tradutores da rua San Martín e os fez traduzir todos os textos, anúncios e canções para o romeno, língua não muito popular na Argentina.


Às oito horas da manhã os Famas começavam a ligar seus aparelhos de rádio, ansiosos de ouvir os jornais falados, bem como os anúncios do Geniol e do Azeite Cozinheiro, que é de todos o primeiro.

E ouviram, mas em romeno, de modo que só comprendiam a marca do produto. Profundamente assombrados, os Famas sacudiram os rádios, mas tudo continuava romeno, até o tango Esta Noche me Emborracho, e o telefone da Direção Geral de Radiodifusão era atendido por uma moça que respondia em romeno às ruidosas reclamações, com o que se estabelecia uma confusão dos diabos.


Ciente do fato, o Supremo Governo mandou fuzilar o Cronópio que assim manchava as tradições da pátria. Por infelicidade, o pelotão era integrado de Cronópios alistados, que em vez de atirar no ex-Diretor-Geral mandaram bala em cima da multidão concentrada na Plaza de Mayo, com tão boa pontaria que acertaram até seis oficiais da Marinha e um farmacêutico. Acudiu um pelotão de Famas, o Cronópio foi devidamente fuzilado e nomearam para seu lugar um distinto autor de canções folclóricas e de um ensaio sobre a matéria cinzenta.

Esse Fama restabeleceu o idioma nacional no rádio, mas acontece que os Famas haviam perdido a confiança e quase não ligavam os aparelhos. Muitos Famas, pessimistas por natureza, haviam comprado dicionários e manuais de romeno, assim como também vidas do Rei Carol e da Senhora Lupescu. O romeno ficou de moda apesar da cólera do Superior Governo, e ao túmulo do Cronópio chegavam furtivamente delegações que deixavam cair lágrimas e cartões de visita, onde proliferaram nomes conhecidos em Bucareste, cidade de filatelistas e atentados."

Júlio Cortázar, História de Cronópios e Famas

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

CUMPLICIDADE AMERICANA

A versão indonésia do WikiLeaks - IndoLeaks.org - publicou documentos secretos de 1975 com conversas entre o presidente norte-americano Gerald Ford e o ditador indonésio Mohamed Suharto, que governou a Indonésia com mão de ferro entre 1967 e 1998. Nessas conversas, Suharto tenta convencer os EUA de que a invasão do Timor Leste - que deixara de ser colônia portuguesa depois da Revolução dos Cravos de 1974 - seria a única alternativa para evitar o "perigo comunista":

O presidente Gerald Ford e o ditador Suharto (1975)
 "O problema é que aqueles que querem a independência (do Timor) são influenciados pelo comunismo. Aqueles que querem a integração na Indonésia estão sujeitos a uma grande pressão por parte dos que são quase comunistas', aponta Suharto. 'Garanto que a Indonésia não quer interferir na autodeterminação de Timor Leste, mas o problema é gerir o processo de autodeterminação com a maioria a querer a unidade com a Indonésia.

Os dois presidentes tiveram uma reunião a 5 de Julho de 1975 em Camp David, na qual também participou o secretário de Estado Henry Kissinger. Daí a cinco meses, em 7 de Dezembro - data do ataque japonês a Pearl Harbour - a Indonésia iniciava a ocupação de Timor Leste, dez dias depois de Portugal ter declarado a ex-colônia independente. Hoje sabe-se que os EUA tiveram conhecimento prévio da invasão e que os portugueses informaram a administração Ford de que não resistiriam ao "uso da força por parte da Indonésia".

No entanto, estes novos documentos proporcionam um olhar inédito sobre a forma como Suharto convenceu os EUA a permitirem a incursão em Timor. 'Ao auscultar as opiniões do povo timorense, existem três possibilidades: independência; ficar com Portugal ou juntar-se à Indonésia', diz Suharto. 'Com um território tão pequeno e sem recursos, um país independente dificilmente seria viável. Ficar com Portugal é um fardo muito grande, estando Portugal tão longe. Integrarem-se na Indonésia como um país independente não é possível porque somos um Estado unitário. Assim, a única solução é uma integração na Indonésia [não como país independente].

O exército indonésio, ocupante do Timor Leste
A reunião serviu também para Suharto pedir ajuda aos EUA para controlar o comunismo no Sudoeste Asiático, através de uma melhoria das comunicações e da marinha e com mais unidades móveis para "suprimir subversões" na região. Ford aceita estudar uma futura ajuda: "Devíamos criar um comissão conjunta para decidir o que é necessário e o que podemos fazer para satisfazer essas necessidades."

Massacre em Santa Cruz, 1991
 A ocupação durou 24 anos e o Timor Leste foi anexado como a 27ª província indonésia. Nesse período, a ditadura de Suharto, a pretexto de combater a resistência à ocupação, praticou uma política de genocídio contra a população timorense, com centenas de aldeias destruídas por bombardeios do Exército, muitos com bombas de napalm. Em 12 de novembro de 1991, o Exército disparou contra manifestantes no cemitério Santa Cruz, em Dili, matando pelo menos 200 pessoas. Em 1999, sob intensa pressão internacional, a Indonésia permitiu a realização um plebiscito que decidiu pela independência. Antes de se retirar, contudo, milícias indonésias massacraram, sob as vistas grossas do Exército ocupante, centenas de pessoas suspeitas de trabalharem pela independência. Depois, os líderes da resistência Xanana Gusmão e José Ramos Horta lideraram o país.

Significativamente, o 3º volume de memórias de Henry Kissinger, Years of Renewal, um cartapácio de quase 1.300 páginas, não tem uma mísera citação sobre o Timor Leste. E a Indonésia é citada de maneira completamente marginal, em assuntos como o conflito no Sudeste Asiático. Christopher Hitchens tem razão em considerar o ex-secretário de Estado americano um criminoso de guerra - além do Timor, Kissinger se envolveu com crimes no Vietnã, no Chile e em Bangladesh - e compará-lo ao ex-ditador sérvio Slobodan Milosevic.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A SEGUNDA MORTE DE CARLOS ANDRÉS PÉREZ


CAP no segundo mandato (1989-1993)
Carlos Andrés Pérez morreu pela primeira vez no seu segundo mandato como presidente da Venezuela, entre 1989 e 1993. Ele fora eleito em dezembro de 1988, em meio a uma grave crise econômica, com um discurso anti-neoliberal em que descrevia o FMI e o Banco Mundial como "genocidas" e o primeiro como "uma bomba de nêutron, que mata as pessoas mas deixa intacto os edifícios". Ao tomar posse, em fevereiro de 1989, Pérez "esqueceu o que disse" e aplicou a receita dos genocidas de cortar gastos públicos, aumentar tarifas e liberar o preço dos combustíveis.

O Caracazo: 500 a 3000 mortos
Conseguiu um empréstimo de US$ 4,5 bilhões do FMI, mas provocou uma rebelião social como nunca antes naquele país, conhecida como Caracazo, cuja repressão deixou entre 500 e 3000 mortos. A situação social se deteriorou e, em 1992, CAP, como era conhecido, sofreu duas tentativas de golpes militares: a primeira, em 4 de fevereiro de 1992, liderada pelo tenente-coronel Hugo Chávez Frías, que anos depois seria eleito presidente; a segunda, muito mais sangrenta, em 27 de novembro daquele ano. Em 1993, Pérez foi afastado do cargo por ter desviado dinheiro de um fundo secreto. Foi condenado a 28 meses de prisão.

No primeiro mandato
O Pérez que morreu naquela época foi o dirigente nacionalista e democrático forjado na luta contra a ditadura do general Pérez Jimenez, sob a liderança de Rómulo Betancourt e Rómulo Gallegos, que enfrentou prisões e o exílio. Foi o Pérez que venceu as eleições presidenciais de 1974 percorrendo quase todos os vilarejos do país defendendo a ideia de que o petróleo deveria ser usado como uma ferramenta de países subdesenvolvidos como a Venezuela para chegarem ao Primeiro Mundo, provocando a emergência de uma nova ordem internacional, mais equitativa. Aproveitando a crise de energia provocada pela Guerra do Yom Kippur, em 1973, Pérez nacionalizou as indústrias de petróleo, aço e alumínio do país. A gigantesca alta dos preços do petróleo provocou uma bonança econômica inédita na Venezuela, aumentando a capacidade do Estado de investir em programas sociais, mas ao mesmo tempo criando uma dependência do petróleo que fez do país uma Arábia Saudita andina, com PIB per capita altíssimo, mas quase nenhum investimento em infraestrutura ou na diversificação da economia. O modelo se revelou um gigante com pés de barro. 

Pérez com o Omar Torrijos (esq.)
Mesmo assim, Pérez promoveu programas de desenvolvimento sustentável quando ninguém falava nisso, o que lhe valeu o prêmio Earth Care em 1975. CAP teve um papel fundamental nos acordos entre o presidente americano Jimmy Carter e o dirigente panamenho Omar Torrijos que levaram ao acordo de devolução do Canal do Panamá aos panamenhos em 1977. Ele também ajudou a consolidar a transição democrática na Espanha, inclusive fretando um avião para trazer de volta a Madri o líder socialista Felipe González, então exilado.    

No final, o opróbio
Nem as denúncias de corrupção do primeiro governo tiraram a aura de progressista de Pérez. Fora do governo, ele se tornou vice-presidente da Internacional Socialista, na época em que era liderada por Willy Brandt, apoiando a expansão da organização para a América Latina, então dominada por ditaduras militares de direita. Pérez sustentou uma oposição tenaz a ditadores como Anastasio Somoza, da Nicarágua, e Augusto Pinochet, do Chile, que tinham apoio dos EUA. Quando retornou ao poder, simbolizava a esperança da volta dos bons tempos. Poucas vezes na história moderna dos povos as expectativas viraram pó tão rápida e tragicamente.

No dia de Natal, Carlos Andrés Pérez morreu pela segunda vez, aos 88 anos, no mais completo opróbrio.    

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ENQUANTO ISSO, NA ARGENTINA


Os canalhas também envelhecem
O ex-ditador e ex-general argentino Jorge Rafael Videla (1976-81) foi condenado à prisão perpétua, por assassinato de opositores e outros crimes contra a humanidade, depois de julgamento na Província de Córdoba - palco, no passado, de vários fuzilamentos. Junto com o ex-presidente, outros acusados foram julgados pelo assassinato de 31 presos da Unidade Penitenciária San Martín de Córdoba, conhecida como UP1, e pelo sequestro e tortura de seis pessoas acusadas pelo regime de estarem "infiltradas em organizações revolucionárias", em 1976. Um dia antes, outros 15 torturadores tinham sido condenados à prisão perpétua por tribunais de Buenos Aires e Mar del Plata.


Videla, de 85 anos, já havia sido condenado à prisão perpétua em 1985, durante o processo histórico contra as juntas militares por crimes cometidos durante a ditadura (1976-1983), que resultaram em 30 mil desaparecidos. A pena dos chefes militares foi anulada em 1990 por decreto do então presidente Carlos Menem; mas o induto foi declarado inconstitucional em 2007, decisão que foi confirmada pela Corte Suprema em abril passado. O tribunal também suprimiu, em 2005, a lei de anistia para os crimes da ditadura. Só neste ano, a Argentina condenou 89 repressores; 47 deles à prisão perpétua. Entre os condenados está o ex-general Luciano Benjamin Menendez, antigo chefe do III Corpo do Exército, que agora acumula cinco condenações à prisão perpétua.

Em declaração ao tribunal de Córdoba antes do veredicto, o ex-ditador não só assumiu toda a responsabilidade pelos atos do "Processo" como qualificou os crimes dos militares como "guerra justa". "Os inimigos de ontem cumpriram o seu propósito, já que hoje governam o país", disse o psicopata assassino.

Uma das melhores radiografias de Videla está no livro El Dictador, de María Seoane e Vicente Muleiro (2001):

Jorge Rafael Videla não perdoa e não aprende
"'A solução final' argentina que Videla havia proposto ao governo de Isabelita Perón e que depois dirigiu com Massera e Agosti se assentou num tripé constituído pela tortura como arma eficaz 'porque essa foi uma guerra de inteligência' (Videla), a transformação dos prisioneiros em desaparecidos que não têm entidade, não estão vivos nem mortos, são desaparecidos, e a construção de campos clandestinos de detenção como instituição central de poder ditatorial. Esse tripé se montou primeiro no ato sedicioso de derrubar um governo constitucional e, em seguida, na construção de um poder diurno e outro noturno. O Exército diurno se preparava para guerrear com o Chile ou 'recuperar' as Malvinas e cumpriria com as formalidades do Estado. O exército subterrâneo modelaria a Argentina à força do medo para adaptá-la à política econômica executada por Martínez de Hoz. Houve, em concordância, um Videla diurno que representava a ala 'moderada' e que no plano diplomático se mostrava um homem liberal, razoável e cauteloso frente os filhos de Átila [...]. E houve um Videla noturno, 'eu sabia tudo o que se passava, eu estava acima de todos' (segundo ele próprio), que recebia informes da inteligência, que conhecia a localização de cada campo clandestino de concentração de prisioneiros, que revisava e assinava as ordens operativas [...]. Um Videla diurno que parecia ter limites morais frente ao uso pessoal que Massera fazia do poder [...]. O Videla que avançava com a espada de um cruzado, que afirmava não usufruir pessoalmente do poder para realizar negócios, mas que tolerava negociatas alheias toda vez combatê-las significasse dividir o bloco de poder ditatorial. [...] As brigas entre Videla e Massera seriam um xadrez sinistro, mas eles nunca se enfretaram pelo caráter da repressão: eles a consideravam a essência mesma do poder conquistado pela guerra 'anti-subversiva'".

Ustra: covarde
Enquanto isso, no Brasil, o Executivo e o Judiciário se acocoram frente à chantagem dos saudosistas da ditadura militar e mantêm a infame lei de anistia que perdoou torturadores e assassinos. Como se não bastasse, torcionários notórios como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do Doi-CODI, são tão covardes que sequer têm coragem de assumir seus atos criminosos, como o facínora Videla. Chore por nós, Argentina...


MIREM-SE NO EXEMPLO DE ALEXANDRE, O GRANDE

O presidente americano, Barack Obama, sancionou a lei que permite que os homossexuais nas Forças Armadas assumam abertamente sua condição. A lei é uma grande conquista do movimento gay e dos defensores das liberdades civis, além de uma vitória política do presidente, que desde a campanha eleitoral de 2008 havia defendido o fim da chamada Don’t Ask, Don’t Tell (Não pergunte, não diga), de 1993, revogada semana passada pelo Congresso. Desde então, mais de 13 mil militares americanos foram afastados da caserna por assumirem sua homossexualidade. A medida é rejeitada por muitos oficiais de alto escalão, como o atual comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, general James F. Amos, e deve demorar cerca de 60 dias para ser implementada. Um relatório do Pentágono concluiu que a revogação da norma proibitiva não prejudicaria as Forças Armadas, mas uma pesquisa recente revelou que 30% dos soldados são contrários à permissão, que também tem o veto dos capelães militares. Depois de conseguir aprovar a reforma da previdência, Obama consegue resgatar outra bandeira de Bill Clinton derrubada pela oposição conservadora. O fato é que hoje a maior potência militar de todos os tempos acabou com um tabu muito caro aos trogloditas da extrema direita.

General Raymundo Nonato Cerqueira Filho
Tempos atrás, o Brasil assistiu a um debate semelhante, com resultados obviamente diversos. Em 2008 os sargentos do Exército brasileiro Laci Araújo e Fernando Alcântara assumiram sua homossexualidade mas acabaram condenados pela corporação: Fernando deu baixa e Laci foi condenado pelo Superior Tribunal Militar a seis meses de prisão por deserção. O caso agora está no Supremo Tribunal Federal. Em 2010, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a indicação do general Raymundo Nonato Cerqueira Filho designado para o Superior Tribunal Militar (STM). Em fevereiro, o oficial disse ser contra a presença de gays assumidos nas Forças Armadas. “Tem sido provado mais de uma vez, o indivíduo [homossexual] não consegue comandar. O comando, principalmente em combate, tem uma série de atributos, e um deles é esse aí. O soldado, a tropa, fatalmente não vai obedecer. Está sendo provado, na Guerra do Vietnã, tem (sic) vários casos exemplificados, que a tropa não obedece normalmente indivíduos desse tipo”, disse o general Cerqueira Filho. Tanta certeza sobre um tema tão complexo sempre me pareceu suspeita.

Alexandre, o grande
O general deve ter limitados conhecimentos de História. Se assim não fosse, saberia que um dos maiores generais de todos os tempos, o macedônio Alexandre, o grande (356a.C.-323a.C.), construiu o maior império da Antiguidade não obstante o fato de ser bissexual. Aliás, o discípulo de Aristóteles jamais permitiu que questões de ordem pessoal interferissem na condução das batalhas e do Império, como escreveu Plutarco. A homossexualidade era admitida em várias civilizações antigas, como na Grécia Clássica e na Roma dos Césares. O primeiro código penal contra relações entre pessoas do mesmo sexo foi editado por ninguém menos que o líder mongol Gengis Khan e, aliás, por razões militares; no Ocidente, as restrições chegaram pelas mãos dol libidinoso Henrique VIII - o monarca inglês das seis esposas - e da Santa Inquisição, principalmente em Portugal e Espanha e nas respectivas colônias.

Gengis Khan
 No século XIX, as teorias psicológicas desenvolveram a ideia de que o homossexualismo era uma patologia, uma "doença mental". Para enfrentá-la, os eugenistas, aqueles que queriam "melhorar a raça", propunham tratamento à base de choque, castração ou lobotomia. Já os nazistas levaram a eugenia ao ápice, mandando os gays para as câmaras de gás dos campos de extermínio, junto com judeus, ciganos, deficientes e comunistas, entre outros "párias da sociedade", segundo os ideólogos do III Reich.

Nas sociedades democráticas, o preconceito vem sendo combatido desde os anos 60 e os gays já conquistaram direitos até em países de maioria católica como a Espanha. Agora, se o Exército mais poderoso do planeta, atualmente envolvido em duas guerras, não tem medo de ter gays em suas fileiras, por que as demais corporações deveriam ter?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NATAL, UMA FESTA PAGÃ


O deus babilônico Marduk (dir.) e o monstro Tiamat
Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, o Natal não é, originalmente, uma festa cristã, mas pagã. Ele remonta ao festival de Zagmuk, na antiga Mesopotâmia, cerca de quatro mil anos atrás. Zagmuk significa, literalmente, “início do ano”. O festival celebrava a batalha de Marduk, deidade babilônica, sobre os monstros do Caos simbolizados por Tiamat, deus primordial dos oceanos. O Zagmuk durava 12 dias – entre 17 de dezembro e 1º de janeiro, que incluía o solstício de inverno, por volta do dia 22 de dezembro - a noite mais longa do ano no Hemisfério Norte. Segundo a tradição, no último dia da batalha, o rei deveria ser sacrificado para lutar ao lado de Marduk. Mas, para poupá-lo, um criminoso era vestido com as roupas reais e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo depois morto em oferenda a Marduk. Para compensar o sacrifício de um criminoso, outro prisioneiro era libertado durante o festival. Esse último costume foi assimilado pelos judeus, que adotaram a prática durante o Pessach (Páscoa judaica), como mostra a passagem bíblica da libertação de Barrabás em detrimento de Jesus.

Festas Saturnais na Roma antiga
O Zagmuk foi adaptado por egípcios, persas e pelos gregos. Os persas transformaram o 25 de dezembro em homenagem a Mitra, deus e Sol da Virtude. Os gregos celebravam a luta de Zeus contra o titã Cronos, o senhor do Tempo. Os romanos herdaram e adaptaram esse costume dos gregos, transformando-o nas chamadas Saturnais (em homenagem a Saturno, o correspondente romano de Cronos), que eram realizadas entre 17 e 24 de dezembro. Os romanos diziam que o solstício de inverno, quando o Sol ficava mais fraco, marcava o início de seu renascimento. O 25 era o Natalis Solis Invictus, o Nascimento do Sol Invicto, comemorado com grandes festas nas ruas, bacanais e jantares onde as pessoas ofereciam aos amigos árvores iluminadas para espantar os deuses da escuridão.

O imperador Constantino (séc. IV)
 Durante três séculos, os cristãos ignoraram completamente o Natal, tratado como festa pagã que era. Orígenes, um dos pais da Igreja, dizia que, nas Escrituras, não exista “ninguém que haja celebrado uma festa ou celebrado um grande banquete no dia do seu natalício. Somente os pecadores (como os Faraós e Herodes) celebraram com grande regozijo o dia em que nasceram neste mundo”. Segundo The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, “as festividades pagãs das Saturnais estavam demasiadamente arraigadas nos costumes populares para serem suprimidos pela influência cristã. Essas festas agradavam tanto que os cristãos viram com simpatia uma desculpa para continuar celebrando-as sem maiores mudanças no espírito e na forma de sua observância [...] Recordemos que o mundo romano havia sido pagão. Antes do século IV, os cristãos eram poucos [...] e eram perseguidos pelo governo e pelos pagãos. Porém, com a vinda do imperador Constantino (século IV), que se declarou cristão e elevou o cristianismo a um nível de igualdade com o paganismo, o mundo romano começou a aceitar este cristianismo popularizado e os novos adeptos somaram a centenas de milhares. Tenhamos em conta que essa gente havia sido educada nos costumes pagãos, sendo o principal aquela festa idólatra de 25 de dezembro. Era uma festa de alegria [carnal] muito especial. Agradava ao povo! Não queriam suprimi-la.”
Como vemos, o espírito de Natal tem mais a ver com celebrações orgiásticas do que com o bimbalhar dos sinos, o nascimento na manjedoura e o bom velhinho da Lapônia - na verdade, ele era um bispo que se chamava Nicolau e nascera na Turquia no séc.III...

domingo, 19 de dezembro de 2010

MICHELANGELO X BERNINI

"A missão que Michelangelo se impôs consistia, como bem sabemos, em tirar do mármore aquelas formas ideais que, acreditava, ali estavam aprisionadas. Assim, a força heroica de seu Davi (1504) está, precisamente, em sua inumana imobilidade. Só com o corpo frágil e alquebrado de Cristo na Pietà (1498-9) do Vaticano ele excepcionalmente buscou o naturalismo patético, porém esse corpo está no colo de uma Madona cuja beleza atemporal e perfeita a torna uma mãe menos convincente. Michelangelo não estava muito interessado em esculpir corpos e rostos comuns. Sua paixão era aproximar os homens dos deuses. Assim, por mais ilustre que fosse o modelo - o papa Júlio II, por exemplo -, ele nunca se preocupou em fazê-lo posar. Quando lhe perguntaram por que seus bustos dos Medici não se pareciam com os modelos, respondeu que, em mil anos, ninguém saberia como era essas pessoas (nem se importaria em saber, insinuou).























Gianlorenzo Bernini, porém, importava-se muito com a semelhança, a tal ponto que a redefiniu como mais que aparência. A verdadeira semelhança - a que ele queria captar em suas esculturas - era a vivacidade do caráter, expressa nos movimentos do corpo e do rosto [...]. Bernini tirou da estátua o elemento stat - que, em latim, indica imobilidade. Suas figuras escapam da força de gravidade exercida pelo pedestal para correr, contorcer-se, rodopiar, ofegar, gritar, latir, curvar-se em espasmos de intensa emoção.


O Baldacchino, no Vaticano
 






Correndo riscos incríveis com perfurações temerárias, Bernini organizou o mármore a fazer coisas que nunca fizera até então. Obrigou-o a voar e esvoaçar, a fluir e tremer. Libertas do bloco de pedra, suas figuras se entregam a uma febril atividade e, em geral, tendem naturalmente para o ar, para a luz. Acrescente-se a água, como em suas fontes exuberantes, e Bernini se torna um segundo Senhor da Criação, o supremo controlador dos elementos. Assim, na ponte Sant'Angelo, em Roma, seus anjos dançam ao sol. Dentro da basília, suas colunas de bronze sustentam o baldacchino - sobre a tumba de São Pedro -, mas não são estáticas; contorcem-se, cheias de vida, com abelhas e folhas fervilhando em sua superfície. No lado oposto da basílica, a cathedra Petri - o trono de São Pedro, no qual repousa institucionalmente toda a Igreja de Roma -, apoiada nas pontas dos dedos dos apóstolos, parece flutuar numa nuvem de hélio celeste".

Simon Schama, O Poder da Arte       

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

MEMÓRIA DE TEMPOS SOMBRIOS

Guerrilheiros do Araguaia presos pelo Exército
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA), decidiu que o Brasil descumpriu por duas vezes a Convenção Americana de Direitos Humanos: a primeira, por não haver processado e julgado os autores do crime de assassinato de cerca de 60 pessoas durante a Guerrilha do Araguaia, nos anos 1970; a segunda, por ter o STF interpretado a Lei de Anistia de 1979 como o esquecimento de crimes de tortura e assassinatos de presos políticos sob custódia do Estado. O ministro Cezar Peluso, presidente do STF, disse que a decisão da Corte não obriga o Supremo a rever o veredicto. Mas se o Estado brasileiro assinou a convenção, está obrigado a cumpri-la. Como disse Maria Inês Nassif, "o aparelho policial e militar foi altamente prejudicado pela presença de agentes que se acostumaram a viver à sombra e acima da lei. Quando se fala em abuso policial e do poder das milícias nas favelas do Rio, por exemplo, ninguém se lembra que a origem dessa autonomia policial diante das leis e perante o resto da sociedade remonta ao período em que o aparelho de repressão tinha licença para sequestrar, matar e torturar sem se obrigar sequer a um registro policial. E que a manutenção da tortura como instrumento de investigação policial existe, atinge barbaramente os setores mais vulneráveis da população e continua não sendo punido. A anistia a agentes do Estado tem se estendido, sem parcimônia, até os dias de hoje".

Líderes do PCdoB assassinados na Lapa em 1976
Um dia depois da decisão da Corte, completaram-se 34 de um episódio pouco conhecido da história recente do Brasil, a chamada “Chacina da Lapa”, quando agentes do DOI-Codi invadiram uma casa localizada na Rua Pio XI, na Lapa (São Paulo), e assassinaram dois dirigentes do PCdoB – o partido que dirigiu a Guerrilha do Araguaia –, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Horas antes, outro dirigente, João Batista Drummond, que tinha sido preso, foi morto sob tortura no DOI-Codi do II Exército. A ditadura divulgou a versão mentirosa de que Pedro e Ângelo morreram em combate e de que Drummond fora atropelado durante uma tentativa de fuga. Esse foi o último massacre de militantes de organizações da esquerda armada que combatiam a ditadura. Detalhe: o extermínio atingiu não apenas a extrema esquerda como também o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o partidão, que defendia a via pacífica e teve parte de sua direção assassinada no início da era Geisel, o general da "abertura lenta, gradual e segura".  

Geisel defendia a tortura como "mal menor"

Esse episódio desmente alguns intérpretes da história recente, para os quais a repressão e a tortura tiveram fim depois que o general-presidente Ernesto Geisel demitiu o comandante do II Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, em consequência dos assassinatos de Vladimir Herzog (outubro de 1975) e Manuel Fiel Filho (janeiro de 1976). O substituto de Ednardo, general Dilermando Gomes Monteiro, era considerado “aberturista”, isto é, adepto do projeto de distensão de Geisel contra o qual se opunha a linha-dura do regime. Mas o fato é que a “Chacina da Lapa” mostrou que, se Geisel retomou o princípio de hierarquia militar, abalado pela anarquia instalada pelo porão, manteve os métodos repressivos. Não é à toa que Geisel foi o único dos presidentes da ditadura a, posteriormente, admitir a tortura como um “mal menor”.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

AQUI, NÃO LÁ


Susan Sontag (1933-2004)

"Se os intelectuais das décadas de 1930 e de 1960 mostravam-se muitas vezes demasiados crédulos, demasiado suscetíveis a apelos ao idealismo para entender o que de fato se passava em determinadas sociedades sitiadas, recém-radicalizadas, que eles podiam ou não ter visitado (brevemente), os intelectuais rancorosamente despolitizados de hoje em dia, com o seu cinismo sempre a postos, com o seu apego ao entretenimento, com a sua relutância a se incomodarem com qualquer causa, com a sua dedicação à segurança pessoal, parecem no mínimo igualmente deploráveis [...] De maneira geral, o punhado de intelectuais que se considera pessoas conscientes só pode agora ser mobilizado para ações restritas - contra, digamos, o racismo ou a censura -, no âmbito de seus próprios países. Só parecem plausíveis, agora, os compromissos políticos domésticos. Entre intelectuais outrora dotados de preocupações internacionais, os apreços nacionalistas recuperaram o prestígio. (Devo sublinhar que isso parece mais verdadeiro em relação aos escritores do que aos médicos, cientistas e atores). Houve uma implacável decadência da própria noção de solidariedade internacional"

Eterna fumante

Não foi só o bilateralismo global ('eles' contra 'nós'), característico do pensamento político no decurso de todo o nosso breve século XX, desde 1914 até 1989 - fascismo contra democracia, o império americano contra o império soviético - que desmoronou. O que se seguiu após 1989 e após o suicídio do império soviético constitui a vitória final do capitalismo e da ideologia do consumismo, que acarreta o descrédito do 'político' como tal. A única coisa que faz sentido é a vida privada. O individualismo e o culto de si mesmo e do bem-estar privado - em que figura, acima de tudo, o ideal de 'saúde' - são os valores mais aptos a receberem o aval dos intelectuais. ("Como você pode passar tanto tempo num lugar onde as pessoas fumam o tempo todo?", perguntou alguém aqui em Nova York ao meu filho, o escritor David Rieff, referindo-se a suas frequentes viagens à Bósnia.)

George Orwell na Espanha
Seria excessivo esperar que o triunfo do capitalismo consumista deixasse intacta a classe dos intelectuais. Na era do comércio, há de ser mais difícil para os intelectuais, que nada têm de marginais nem de empobrecidos, identificar-se com pessoas menos afortunadas. George Orwell e Simone Weil não deixaram para trás apartamentos e casas de veraneio confortáveis e de alta burguesia quando partiram para a Espanha e lutaram pela República, e ambos quase foram mortos. Talvez o intervalo entre o 'aqui' e o 'lá' seja agora muito grande para os intelectuais. 

[...]

Nas palavras de Emile Durkheim, 'a sociedade é acima de tudo a ideia que forma a respeito de si mesma'. A ideia que a sociedade próspera e pacífica da Europa e da América do Norte formou a respeito de si mesma - mediante as afirmações e as ações de todos os que poderiam chamar-se de intelectuais - é de confusão, de irresponsabilidade, de egoísmo, de covardia... e de busca da felicidade.
A nossa, não a deles. Aqui, não lá."
Susan Sontag, "Lá" e "aqui", in Questão de Ênfase