terça-feira, 30 de novembro de 2010

NO REINO DE TÂNATOS

Mario Monicelli (1915-2010)
"Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder." 

(Albert CamusO mito de Sísifo)



Hemingway (1899-1961)

BALADA - Mario Faustino

(em memória de um poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto


Entre o cosmos sangrento e a alma pura.


Sylvia Plath (1932-1963)
Porém, não se dobrou perante o facto

Da vitória do caos sobre a vontade

Augusta de ordenar a criatura

Ao menos: luz ao sul da tempestade.

Gladiador defunto mas intacto

(tanta violência, mas tanta ternura)


Torquato Neto (1944-1972)


"Só vivo porque posso morrer quando quiser; sem a idéia do suicídio, já teria me matado há muito tempo"
(E. M. Cioran, Silogismos da Amargura)





Ana Cristina César (1952-1983)

Pedro Nava (1903-1984)


 "A dificuldade de praticar o suicídio está nisto: é um ato de ambição que só pode ser realizado depois de superada toda a espécie de ambição" (Cesare Pavese)

OSCAR WILDE (1854-1900)

"Porque considero que influir sobre uma pessoa é transmitir-lhe um pouco de sua própria alma; esta pessoa deixa de pensar por si mesma, deixa de sentir as suas paixões naturais. Suas virtude não são mais suas. Seus pecados, se houver qualquer coisa semelhante a pecados, serão emprestados. Ela tornar-se-á eco de uma música estranha, autora de uma peça que não se compôs para ela. O fim da vida é o desenvolvimento da personalidade. Realizar a sua própria natureza- eis o que todos procuramos fazer. Os homens hoje, amedrontam-se deles mesmos. Esqueceram-se dos maiores de todos os deveres, do dever que cada um deve a si próprio. Naturalmente são caridosos. Nutrem o pobre e vestem os andrajosos, mas deixam as suas almas famintas e andam nus. A coragem nos abandonou; é possível que nunca a possuíssemos! O terror da sociedade, que é a base de toda moral, o terror de Deus, que é o segredo da religião - eis as duas coisas que nos governam."

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray
http://www.youtube.com/watch?v=4v_O0zLPsbs&feature=player_embedded

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O CHEFE DO MOSSAD FUGIU DAS AULAS DE HISTÓRIA?



Meir Dagan, chefe do Mossad

Uma das mais surpreendentes revelações dos documentos secretos provenientes das embaixadas americanas pelo mundo que foram divulgados pelo site Wikileaks é a de que o Mossad (serviço de inteligência externa israelense) propunha aos EUA articular um golpe militar para derrubar o regime dos aiatolás no Irã. O plano era um programa em cinco fases com o objetivo de impedir a qualquer custo que Teerã obtivesse êxito no desenvolvimento de seu programa nuclear - o que lhe daria condições de produzir a bomba atômica, quebrando o monópolio que Israel mantém sobre a arma de destruição total na região. A proposta foi apresentada em 2007 pelo general Meir Dagan, chefe do Mossad, ao então subsecretário de Estado americanos para assuntos políticos, William Burns.

É impressionante como a mentalidade de caserna de Israel atingiu tal paroxismo que provocou uma abissal decadência do nível político dos militares israelenses. Antigamente, o país dispunha de líderes militares que, mesmo sendo "duros" no campo de batalha, se revelaram estadistas realistas, capazes de entender o inimigo e a complexidade do conflito, como Moshe Dayan e Yitzhak Rabin. Hoje, dominam a cena israelense tipos messiânicos como esse Dagan, que além de tudo parece ter fugido das aulas de História ou saído da famigerada Escola das Américas - aquela instituição que os EUA tinham no Panamá nos tempos da Guerra Fria que ensiva técnicas de contra-insurgência aos milicos latino-americanos. Uma proposta doidivanas dessas supõe um desconhecimento atroz do passado histórico do Irã.

Revolução Islâmica no Irã em 1979

Mossadegh
Em 1953, instigado pelos britânicos, os Estados Unidos patrocinaram, por meio da recém-criada CIA (Agência Central de Inteligência), um golpe de Estado no Irã contra o então primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh, que havia expropriado a British Petroleum e nacionalizado a indústria petrolífera do país. Em seu lugar, foi reinstaurado o poder do xá Reza Pahlevi, um testa de ferro dos interesses ocidentais que governou e tentou modernizar o Irã a ferro e fogo. A memória desse golpe contra Mossadegh marcou o país e alimentou ressentimentos contra os americanos, que explodiriam décadas depois, em 1979, quando a ditadura do xá foi derrubada por um grande movimento de massas, que depois seria instrumentalizado pelo clero xiita liderado por Khomeini  

O analista americano Chalmers Johnson, morto este mês, retomou um conceito que a velha escola de espionagem emprestara dos militares - Blowback - e o redefiniu para explicar o processo de "bumerangue" provocado pelas "operações encobertas" - ou não tão encobertas - dos EUA em vários países do Terceiro Mundo ao longo da Guerra Fria; em suma, ele tentou entender como essas ações acabaram inevitavelmente se voltando contra os próprios interesses americanos. Irã, Nicarágua, El Salvador, China, Vietnã e Camboja são apenas alguns exemplos. Que um chefe do Mossad desconheça tudo isso a ponto de propor a repetição de ações desse tipo mostra a condição lastimável do atual establishment israelense.    

Aroeira (1967), Geraldo Vandré

domingo, 28 de novembro de 2010

MUITO ALÉM DA TROPA DE ELITE

















A operação contra o narcotráfico desencadeada pelas forças de segurança pública no Rio de Janeiro não tem paralelo na história desse confronto. Pela primeira vez, uma ação coordenada entre a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal, Marinha e Exército - operação que envolveu 1.200 homens - foi coroada de êxito e provocou baixas mínimas. Primeiramente, a ação policial expulsou os traficantes da Vila Cruzeiro, usando blindados da Marinha para transportar policiais e vencer os obstáculos colocados pelos traficantes. Acuados, cerca de 600 bandidos fugiram para o Complexo do Alemão. Enquanto paraquedistas do Exército com experiência no Haiti cercavam as 44 entradas do complexo, as forças policiais entraram na comunidade e fizeram uma operação de varredura em busca dos criminosos. A experiência dos paraquedistas na pacificação do Haiti evitou o envolvimento direto deles na operação propriamente policial. Não houve o confronto violento que se esperava, provavelmente porque os traficantes perceberam que estavam em nítida desvantagem com as forças de segurança.

O nível inédito de colaboração entre o governo do Rio de Janeiro e o Governo Federal permitiu a execução dessa operação tão bem coordenada. E, ao contrário de outras ações dessa natureza, desta vez não houve violência policial indiscriminada, mas o uso da inteligência para buscar os bandidos, além da colaboração da comunidade, que pela primeira vez se sentiu protegida pelo Estado e não numa "terra de ninguém" em que os civis ficavam sob fogo cruzado da polícia e dos bandidos. Completamente diferente do que aconteceu em São Paulo, em 2006. Depois que o PCC declarou "toque de recolher" na cidade, a polícia executou mais de 400 "suspeitos", num ato de vingança rasteira para encobrir o acordo que as autoridades estaduais tinham feito com o traficante Marcola. Com essa ação do Rio, o poder público começa a retomar áreas onde vigorava um poder paralelo que não tem nenhum escrúpulo e fazia os habitantes das favelas de reféns.

Mas é preciso não ter ilusões. A retomada parcial do controle do Estado sobre a cidade, com a política de ocupação das favelas por meio das UPPs, não vai acabar com o narcotráfico, nem no Rio de Janeiro nem no Brasil. Este é um problema multinacional que não terá solução enquanto não se legalizar as drogas, quebrando de vez a espinha dorsal do crime organizado e da corrupção policial. Mas pensar nessa possibilidade hoje em dia é completamente utópico - e portanto, teremos que conviver com o crime organizado por muito tempo ainda. E é preciso lembrar que no Rio de Janeiro existe também o problema das famigeradas milícias - integrantes da banda podre da corporação policial que "vendem" proteção aos ameaçados pelo narcotráfico e também operam com drogas e outras ilegalidades. Segundo alguns estudiosos, as milícias podem ser o estágio superior do narcotráfico, porque economicamente diversificadas. A estes, o Estado ainda não deu combate, pelo menos combate eficaz.

O "capitão Nascimento"

Washington Luís
Outra ilusão correlata dessa vitória parcial do Estado sobre o narcotráfico é acreditar que ações policiais resolverão por si só todos os problemas ligados à violência urbana e à criminalidade. É a "ideologia do capitão Nascimento", cara a uma certa classe média, que crê que um punhado de salvadores da pátria, do tipo integrantes do BOPE, implacáveis e incorruptíveis, seriam a única resposta do poder público contra esse flagelo, sem levar em conta a necessidade de políticas públicas sociais para eliminar as causas dessa violência. É a "Tropa de Elite III", como a capa da Veja desta semana parece sugerir. Trata-se da velha "tese" das oligarquias brasileiras de que a questão social é um caso de polícia - frase de Washington Luís, o carioca que governou São Paulo até ser deposto pela Revolução de 1930. 

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

1935: A REVOLUÇÃO FALTOU AO ENCONTRO

Soldados rebelados do III Regimento de Infantaria (Rio)
Há 75 anos, entre os dias 23 e 27 de novembro, ocorria o levante armado da Aliança Nacional Libertadora (ANL) que a direita apelidou de “Intentona Comunista”. A ANL era uma organização antifascista e anti-imperialista de massas e seu fechamento pelo governo de Getúlio Vargas deu ao Partido Comunista do Brasil (PCB), um de seus integrantes, a falsa sensação de que o país vivia uma situação pré-revolucionária. Liderada pelo partido e com apoio da III Internacional, a rebelião eclodiu basicamente em quartéis (Natal, dia 23; Recife. 25  e Rio de Janeiro, 27), seguiu o padrão clássico de "putsch" militar e foi rapidamente derrotada pelas forças legalistas. Os combates mais dramáticos ocorreram no Rio de Janeiro, onde os insurretos tentaram tomar o III Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, a Vila Militar e a Escola de Aviação do Campo dos Afonsos. Em todo o país, cerca de 120 soldados sublevados e 28 legalistas morreram. Segundo alguns historiadores, o levante de 1935 foi a última manifestação do tenentismo, movimento de oficiais subalternos que, nos anos 1920, se insurgiu contra a corrupção e o voto de cabresto. Os tenentes foram derrotados em 1922 e 1924, criaram a lendária Coluna Prestes e chegaram ao poder com a Revolução de 1930. Desencantada com Vargas, uma ala do tenentismo fundou a ALN para enfrentar o integralismo, versão tupiniquim dos camisas negras fascistas de Benito Mussolini. Mais à esquerda, os tenentes dissidentes de 1930, no entanto, continuavam prisioneiros de arcabouço teórico marcial. O dirigente comunista Luís Carlos Prestes, por exemplo, ex-capitão do Exército, planejou a revolta unicamente em unidades militares, esperando que o povo aderisse a ela espontaneamente. Um foquismo avant la lettre.

Soldados rebeldes são conduzidos à prisão em Ilha Grande

“O programa da ANL continuava vago como sempre fora - característica dos tenentes - e cheio de ambiguidades. Por exemplo, a ANL apresentava um programa de governo, mas não se colocava a questão do poder [...] Esta posição era reflexo exatamente da proposta ideológica dos tenentes: nacionalista e democrática, julgava poder transformar o país econômica e socialmente sem modificar o regime. Tal como agiram – os mesmos, por sinal – no início dos anos 20. O descompasso entre a proposta ampla e a luta armada para alcançá-la é justamente uma característica dos tenentes, que só acreditavam em levantes de quartel", diz a historiadora Marly Vianna, autora do livro Rebeldes de 1935.

Luís Carlos Prestes preso em 1936
Para Getúlio Vargas, o levante foi o pretexto para desencadear uma selvagem repressão. Prestes foi preso em 1936 com sua mulher, Olga Benário, comunista alemã de origem judaica. Ela estava grávida e mesmo assim foi deportada para a Alemanha nazista, onde morreria num campo de concentração em 1942. Prestes amargaria nove anos de prisão. O dirigente alemão Harry Berger (Arthur Ernest Ewert), da III Internacional, enlouqueceria na prisão em conseqüência das torturas da polícia de Filinto Müller, nosso aprendiz de Himmler e patrono do torcionário Sérgio Fleury. E, durante décadas, a direita criou o mito de que os comunistas tinham covardemente assassinado soldados legalistas “enquanto dormiam” – calúnia ironicamente desmentida por um dos próceres da ditadura militar de 1964 e anticomunista convicto, o coronel Jarbas Passarinho.

O III RI, na Praia Vermelha (RJ)

"O levante [...], apesar da derrota, também deixou um saldo positivo. [...] Não se pode julgar um movimento como positivo apenas quando ele é vencedor, ou desprezaríamos a Comuna de Paris, a Revolução de 1905 na Rússia, os movimentos revolucionários do início dos anos 20, na Europa Central, a Guerra Civil Espanhola, para citar algumas situações históricas [...] Além da luta antifascista, anti-imperialista e da experiência da organização popular, o levante deixou para o movimento operário e socialista do Brasil a importância do exemplo", diz Marly Vianna.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS FORTES


Dilma Rousseff
Dilma Rousseff será a primeira ex-ocupante do cargo de chefe da Casa Civil a assumir a Presidência da República. Criada em 1938, a pasta é encarregada de coordenar as ações do governo, os outros ministérios e de avaliar as propostas legislativas a serem encaminhadas pelo Executivo ao Congresso Nacional. Historicamente, o cargo foi exercido por personalidades políticas poderosas - algumas se tornaram o que se costuma chamar de "o poder atrás do trono". No primeiro governo Lula, José Dirceu chefiou a Casa Civil, dividindo com o ministro da Fazenda Antônio Palocci a condição de "superministro" e, consequentemente, de presidenciável. Até que o mensalão o derrubou. Dilma foi içada ao posto, inicialmente como personagem secundária, mas logo ganhou fôlego, com o PAC e a intenção de Lula de fazê-la sua sucessora. A pasta "emana" tanto poder que até os desvios de uma burocrata menor como Erenice Guerra quase levaram a candidatura Dilma ao desastre eleitoral. Talvez por isso seja lícito supor que, seja quem for o chefe da Casa Civil do próximo governo, provavelmente terá menos poder do que tiveram historicamente muitos de seus ex-titulares.

Golbery do Couto e Silva
No nosso híbrido presidencialismo, o chefe da Casa Civil geralmente exerce as funções de um primeiro-ministro sui generis. Não como um premiê dos sistemas parlamentaristas clássicos, em que o cargo é ocupado pelo líder do partido que ganha as eleições, mas como um primeiro-ministro da V República de De Gaulle - antes, portanto, da coabitação -, nomeado pelo presidente. Na história recente do Brasil, talvez o mais poderoso chefe da Casa Civil tenha sido o general Golbery do Couto e Silva, que exerceu essa função nos governos Ernesto Geisel (1974-1979) e João Figueiredo (1979-1985). Um dos articuladores do golpe de 1964, criador do Serviço Nacional de Informações (SNI - ele diria depois que criara "um monstro") e especialista em geopolítica, Golbery foi o grande estrategista do fim da "anarquia militar" da ditadura, enquadrando os serviços de repressão e os generais da linha-dura ao comandante-em-chefe (Geisel), o que levaria ao processo de "distensão lenta, segura e gradual" e, depois, à abertura política. Verdadeira eminência parda de Geisel e Figueiredo, Golbery deixou o cargo em 1981, em consequência da tentativa de atentado terrorista no Riocentro praticada por agentes militares da repressão, quando percebeu que Figueiredo não tinha o mesmo pulso de Geisel para enfrentar os "ultras" e os remanescentes do “porão”.

Lourival Fontes
Talvez o mais enigmático ocupante dessa pasta tenha sido Lourival Fontes (1899-1967), político e jornalista de tendências fascistas. Ele foi o chefe do poderoso DIP (Departamento de Imprensa e Proganda) do Estado Novo de Getúlio Vargas - mal comparando, uma espécie de Goebbels brasileiro. Com a volta de Vargas ao poder pela via democrática, em 1950, Lourival assumiu a Casa Civil da Presidência, onde permaneceu até o desfecho da crise política que levaria ao suicídio do presidente, em 1954. Intelectual refinado, Lourival foi casado com a poetisa e jornalista Adalgisa Nery, que era viúva do pintor Ismael Nery e  militante de esquerda.

Álvaro Lins

Mas houve outros ilustres ocupantes do cargo que, ao contrário de Lourival Fontes e de Golbery, tinham impecáveis credenciais democráticas. O jornalista, escritor e crítico literário Álvaro Lins (1912-1970) foi chefe da Casa Civil de Juscelino Kubitschek durante dez meses em 1956; posteriormente, como embaixador do Brasil em Portugal, entrou em rota de colisão com a ditadura salazarista. Ele foi um dos responsáveis pela concessão de asilo ao general português dissidente Humberto Delgado, que depois seria assassinado pela PIDE (polícia política salazarista). Sentindo-se abandonado, Lins rompeu com JK. Foi substituído por outro jurista, Victor Nunes Leal, autor do clássico Coronelismo, enxada e voto; ele depois seria ministro do STF até ser afastado pela ditadura, em 1969. O jurista, jornalista, ensaísta e político socialista Hermes Lima chefiou a pasta entre setembro de 1961 e setembro de 1962, durante o breve interregno parlamentarista do governo João Goulart. Na sequência Lima seria primeiro-ministro de fato e, finalmente, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Os militares o aposentaram com o AI-5. O advogado Evandro Lins e Silva, que durante a ditadura se tornaria um dos grandes defensores dos direitos humanos, substituiu Hermes Lima, mas ocupou o cargo por apenas seis meses (janeiro a junho de 1963).

Darcy Ribeiro

Lins e Silva foi sucedido pelo antropólogo Darcy Ribeiro, fundador da Universidade de Brasília (UnB), uma das mais brilhantes cabeças do país, posteriormente um dos expoentes do brizolismo. Quando eclodiu o golpe de 1º de abril de 1964, Darcy Ribeiro queria que Jango resistisse à conspiração a bala. Se o presidente tivesse lhe dado ouvidos, não teria caído - ou, pelo menos, não tão facilmente.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

E SE O SERJÃO NÃO TIVESSE MORRIDO?


Sérgio Motta, ministro das Comunicações de FHC
Transcrevo abaixo, ligeiramente editado, texto de Alberto Dines publicado no Observatório da Imprensa sob o título: Sérgio Motta & Franklin Martins: Quem é mais radical


“A História como piada: a telenovela da regulação da mídia deve ganhar lances sensacionais (ou patéticos, depende de quem a observa) quando se examinar com a devida atenção um projeto de lei preparado em segredo há 12 anos pelo homem forte do governo de Fernando Henrique Cardoso, seu amigo e confidente, o então ministro das Comunicações Sérgio Motta.

O ministro Franklin Martins
A mídia acostumou-se a classificar como radical o jornalista Franklin Martins, atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Todas as suas iniciativas são imediatamente carimbadas como atentados à liberdade de imprensa e logo rejeitadas.


Nossa mídia tem memória curta ou simplesmente ignora quem foi o Serjão, Sérgio Motta, um trator que nada fazia pela metade. A Lei de Comunicação Eletrônica de Massa concebida por ele não era radical, era revolucionária: criava uma agência reguladora, impedia a propriedade cruzada de mídia eletrônica, interferia no vicioso sistema de concessões de radiodifusão, cuidava do conteúdo da programação, criava mecanismos para proteger os assinantes da TV paga, forçava o funcionamento do Conselho de Comunicação Social e facilitava a sobrevivência da TV Pública facultando-lhe o direito de veicular publicidade comercial.


Evidentemente não previu o extraordinário crescimento da internet nem contou com o atual estágio de desenvolvimento da telefonia móvel. Convergência de conteúdos era uma noção desconhecida. O projeto era holístico, como se dizia à época, integral. Ambicioso, audacioso e, sobretudo, estatizante. Tão estatizante que o petista e democrata Daniel Herz chegou a reclamar do excesso de prerrogativas oferecidas ao Executivo.

Esta incursão na história recente carrega evidentemente algumas doses de ironia. O projeto foi recebido com absoluta naturalidade, não causou alvoroço nem comoção, não foi bombardeado pela mídia. Ao contrário, algumas matérias da Folha de S.Paulo foram até simpáticas à iniciativa do governo porque àquela altura – antes da assinatura do Tratado de Tordesilhas entre os grupos Folha e Globo – o jornal dos Frias freqüentemente se atritava com a Vênus Platinada dos Marinho. O que era extremamente salutar em matéria de oxigenação.


[...]

Sérgio Motta não conseguiu terminar o seu revolucionário projeto, morreu em 1998, foi sucedido por Luiz Carlos Mendonça de Barros e, em seguida, pelo deputado federal e ex-líder do governo, Pimenta da Veiga, autor de uma nova e desastrosa versão destinada à cesta do lixo. À época, corria que fora redigida pelos consultores da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert)”

Pois é. Com Serjão a malfadada regulamentação da mídia teria sido "pior" e as famiglias nem sequer chiaram. Por que será? Talvez não tivessem se dado conta. Talvez achassem que a lei não iria pegar e que por isso não valia a pena criar caso. Mas se Serjão não tivesse morrido e tivesse implementado essa lei, possivelmente as coisas teriam sido diferentes; certamente o ministro seria acusado de ser o Saint-Just de FHC e dificilmente resistiria no poder. Mas, como a História não é feita de "ses", jamais saberemos...   

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

OS HEROIS E OS CÚMPLICES

 
Folha de S. Paulo, abril de 1964: apoio de primeira hora à ditadura

A sórdida campanha da grande mídia em torno do processo movido pela ditadura militar contra a presidente eleita Dilma Rousseff tenta criminalizar as ações armadas de guerrilheiros contra a tirania "da mesma forma como a Coroa portuguesa atribuiu como criminosa a insurgência política de Tiradentes", como bem lembrou o jornalista Paulo Henrique Amorim. "E lá estavam as velhas conhecidas familias Marinho, Frias, Mesquita e Civita, da velha mídia, engajadas em demonizar os guerrilheiros, em entusiasmados editorais, colunas e na deturpação do noticiário. Hoje, coerentes com o passado em prol da ditadura, fazem o mesmo ao colocarem suas mãos sujas no processo de Dilma, vilipendiando a verdade", diz Amorim.

Guerrilheira da Resistência Francesa
 Aqueles que pegaram em armas contra a ditadura civil-militar de 1964, mesmo se estavam politicamente equivocados, foram herois, como herois foram os integrantes da resistência francesa, italiana e iugoslava ao nazismo na Europa. Já os donos dos jornalões foram cúmplices de um regime criminoso, o qual eles não apenas apoiaram como - no caso da Folha de S. Paulo - emprestaram veículos impressos e rodantes para ajudar os torcionários. Para estes, a ditadura só podia ser "ditabranda".

Dos 339 militantes assassinados pela ditadura militar, destaco três, cujas mortes completam 40 anos este ano. São eles: Mário Alves, dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Joaquim Câmara Ferreira (Toledo), dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN) e Eduardo Collen Leite (Bacuri), também da ALN - os dois últimos mortos pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Mário Alves (1923-1970) Baiano, filho de latifundiários, participou da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o Estado Novo. Ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1939 e foi um dos líderes do movimento antifascista em Salvador. Dirigiu os jornais comunistas Novos Rumos e Voz Operária. Com o golpe de 1964, foi preso mas libertado um ano depois em função de um habeas corpus. Crítico da linha moderada do PCB, foi afastado em 1967 junto com outros dirigentes, como Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, Jacob Gorender e Apolonio de Carvalho. Com Gorender e Apolonio fundou o PCBR. Foi preso em 16 de janeiro de 1970 pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro. Morreu sob torturas no dia seguinte, tendo sido barbaramente seviciado.

Joaquim Câmara Ferreira ("Toledo" - 1913-1970) Paulistano, era jornalista e dedicou sua vida à militância. Ingressou no PCB em 1933 e dirigiu diversos jornais do partido. Liderou o trabalho clandestino no setor ferroviário. Preso e torturado no DOPS durante o Estado Novo, elegeu-se vereador em Jaboticabal (SP) pelo PCB. Perdeu o mandato em 1947, com a cassação do registro do partido. Foi para a URSS realizar estudos políticos. Em 1967, rompeu com o partidão pela esquerda e, junto com Carlos Marighella, fundou a Ação Nacional Libertadora (ALN). Participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrik em setembro de 1969, que foi trocado por 15 presos políticos. Preso em São Paulo em 23 de setembro, Toledo foi levado para um sítio clandestino; torturado pela equipe do delegado Sérgio Fleury, ele morreria em consequência dos ferimentos. Segundo as informações oficiais, ele morreu no dia 23 de outubro, mas data essa foi uma armação da repressão para justificar outro assassinato, o de Bacuri.

Eduardo Collen Leite ("Bacuri" - 1945-1970) Mineiro, começou na Política Operária (Polop), vinculando-se posteriormente à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), da qual se retirou para fundar a Resistência Democrática (Rede) e, em 1969, ingressar na ALN. Participou de diversas ações armadas e foi protagonista de dois sequestros de diplomatas. Preso em 21 de agosto de 1970 no Rio de Janeiro pela equipe do delegado Fleury, Bacuri foi levado para um cárcere privado e depois para o Cenimar (serviço secreto da Marinha) e para o DOI-CODI. Bacuri foi barbaramente torturado durante 109 dias em diversas dependências policiais e militares. Em outubro foi removido para o DOPS de São Paulo. No dia 25, os jornais divulgaram que Bacuri tinha sido levado para identifcar Toledo e conseguira fugir. Na verdade, ele continuava sendo submetido a torturas no DOPS, conforme testemunhas de 50 presos políticos da época, que inclusive realizaram um protesto para tentar impedir seu assassinato. Uma das mais torpes manchetes da época foi a da Folha da Tarde, de propriedade da Folha da Manhã, que também editava a Folha de S. Paulo e estava nas mãos do DOPS: " METRALHADO E MORTO OUTRO FACÍNORA".
Bacuri foi retirado da cela do DOPS com o corpo cheio de hematomas e queimaduras em 27 de outubro de 1970. Nunca mais foi visto.

"Liberdade, abre as asas sobre nós" - Hino da Proclamação da República
http://www.youtube.com/watch?v=en9qiUUXrBY&feature=related

domingo, 21 de novembro de 2010

A OTAN ENCONTROU UMA NOVA "RAISON D'ETRE"?

O presidente Truman assina a criação da Otan em 1949
Fundada em 1949 como uma das cunhas da política americana de contenção da União Soviética na Europa - a outra era o Plano Marshall - a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental) passou 40 anos de existência sem precisar disparar um tiro. Sua contraface soviética, o Pacto de Varsóvia, ao contrário, mobilizou suas tropas em pelo menos duas ocasiões, não para enfrentar uma investida ianque, mas para manter o alinhamento de seus satélites à órbita de Moscou: na Hungria, em 1956 e na Tchecoslováquia em 1968. A razão da existência da Otan desvaneceu-se entre 1989, quando o Muro de Berlim veio abaixo, e mais ainda em 1991, quando a sólida fortaleza soviética desmanchou-se no ar. O fim do  "perigo comunista" mergulhou a organização numa profunda crise de identidade da qual ela só sairia com a eclosão da guerra civil na ex-Iugoslávia, particularmente na Bósnia e na província do Kosovo. Incapaz de dar fim a uma carnificina em seu quintal que se arrastava por quatro anos, a Europa não teve outra alternativa senão apelar aos americanos, que acionaram a Otan. Com seu batismo de fogo, a organização recobrou a força. Revigorada, a Otan se expandiu tripudiando sobre seu finado adversário, o Pacto de Varsóvia: ex-integrantes do bloco soviético, como Polônia, Hungria e República Tcheca, passaram a integrar a Aliança Atlântica - o que naturalmente deixou o urso russo de orelhas em pé.

Bombardeio da Otan sobre Belgrado, 1999
Os americanos perceberam então que os europeus tinham pouca ou nenhuma disposição de arcar com o ônus de sua própria segurança. Acostumados por longo tempo à proteção do guarda-chuva nuclear de Washington, os europeus resistiam e resistem a aumentar seus gastos com a defesa, ao contrário dos americanos. Não foi à toa que propostas de criar uma força de defesa europeia independente deram com os burros n'água. O teórico neocon Robert Kagan disse que os europeus, depois de terem ensaguentado o continente por séculos e promovido a maior catástrofe do século XX - as duas guerras mundiais - foram "salvos" nas duas vezes pelos americanos e agora tinham abdicado de sua própria segurança, deixando-a comodamente, à cargo de Washington. "Os EUA são de Marte; a Europa é de Vênus", ironizou Kagan; de acordo com sua análise perspicaz, os europeus podiam se dar ao luxo de viver segundo a "paz perpétua" kantiana enquanto que os EUA tinham que se haver com os problemas de segurança de um mundo hobbesiano (onde o homem continua sendo o lobo do homem).

Quando veio o 11 de setembro, os americanos direcionaram a Otan para o Afeganistão, não apenas para derrotar o Taleban mas também para promover missões de contra-insurreição e reconstrução do país. O objetivo era envolver os europeus na "guerra contra o terror". Foram bem sucedidos num primeiro momento, mas o posterior fiasco da operação deixou os americanos isolados e agora Washington busca meios de sair do atoleiro asiático (outra vez...). O Afeganistão, contudo, foi um desvio de curso, porque, em última instância, a estratégia da aliança sempre se voltava contra a Rússia. Isso ficou claro quando W. Bush propôs um escudo antimíssil a ser instalado na República Tcheca e na Polônia, sob a escusa de defender a Europa do Irã - mas a reação de Moscou deixou claro contra quem na realidade o escudo se dirigia.

Barack Obama na cúpula da Otan em Lisboa
Agora, o presidente Barack Obama estende a mão à Rússia e propõe "integrá-la" na Otan por meio de um novo sistema de defesa antimíssil - e novamente o pretexto é o Irã. Os russos estão desconfiados, mas toparam conversar. De qualquer forma, mesmo que o regime dos aitolás tenha condições de produzir armas nucleares, vai demorar muito tempo ainda para que o Irã tenha condições mínimas de operás-las, quanto mais representar algum tipo de ameaça ao Ocidente. O que faz pensar que a Otan esteja de fato reavaliando seu papel estratégico e forjando uma nova identidade 20 anos depois do colapso do bloco soviético. E um adversário à altura da aliança atlântica não seria um país com meia dúzia de bombas atômicas - se algum dia Teerã vier a tê-las - mas quem realmente hoje tem força econômica e militar para desafiar os EUA: a China comunista.

Definitivamente, o imperialismo não é um tigre de papel.     

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

VIEIRA: A PRÉDICA A SERVIÇO DA RAZÃO

"Príncipes, reis, imperadores, monarcas do mundo: vedes a ruína de vossos reinos, vedes as aflições e misérias de vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E, se não o remediais, como o vedes? Estais cegos.

A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas [...] Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira ou, falando medicamente, em cegueira da primeira, da segunda, e da terceira espécie. A primeira é causada pela desatenção: a dos cegos que vêem e não vêem juntamente; a segunda cegueira é causada pela paixão, a de cegos que vêem uma coisa por outra; a terceira, causada pela presunção: a de cegos que vendo o demais, só a sua cegueira não vêem.

Neste mundo conturbado, quem tem muito dinheiro, por mais inepto que seja, tem talento e préstimos para tudo; quem não tem dinheiro, por mais talento que tenha, não presta para nada.

A admiração é filha da ignorância, porque ninguém se admira senão das coisas que ignora, principalmente se são grandes; e mãe da ciência, porque admirados os homens das coisas que ignoram, inquirem e investigam as causas delas até as alcançar, e isto é o que se chama ciência.

Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz.

Para falar ao vento, bastam as palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.
Eu não temo a morte, temo a imortalidade."

Antônio Vieira (1608-1697), Sermões

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A NECESSIDADE DE UMA "PARANOIA CONSTRUTIVA" NA DEFESA

Klemens von Metternich
Num artigo recente, o jornalista americano Andrés Oppenheimer, referindo-se à sensação de otimismo do Brasil em função de sua pujança econômica atual e da recente projeção internacional, disse que faltava aos brasileiros uma boa dosagem de “paranoia construtiva”. Ele dizia que um comportamento excessivamente otimista e complacente da nossa parte contrasta com a atitude de outros países emergentes, como a China e a Índia, que estão extremamente preocupados pelo fato de não estarem se expandindo tão rapidamente quanto outros países em matéria educação, ciência e setores da tecnologia.

Confesso compartilhar um pouco dessa preocupação, mas numa área não mencionada por Oppenheimer, a diplomacia. Apesar de termos tido, nos últimos oito anos, uma política externa absolutamente assertiva e ousada, eu acredito que o Itamaraty ainda se deixa levar por platitudes idealistas, como a crença na possibilidade de que uma ordem mundial, baseada em certo grau de justiça e na igualdade, possa estar em vias de ser estabelecida por organismo multilaterais como ONU e OMC. Ora, sabemos que a ordem internacional sempre foi tudo, menos igualitária. Desde a Paz de Westfália, de 1648, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos e inaugurou o moderno sistema internacional, estão em vigor o conceito de soberania dos Estados-nações e o princípio de raison d’etat. Em conseqüência, o “equilíbrio do poder” entre os Estados – que opõe interesses concretos, não ideais moralistas – é a única forma de balancear o poder imperialista e minimizar os conflitos entre as nações. Nem mesmo a globalização conseguiu alterar essa realidade. O que conta em política internacional, portanto, é a famosa Realpolitik, a postura realista baseada na diplomacia do príncipe austríaco Klemens von Metternich. Me lembro do reação do chanceler Celso Amorim quando eu lhe fiz uma pergunta invocando esse conceito: “Realpolitik? No século XXI?”, espantou-se.

Mas para poder participar desse concerto das nações, é necessário algum tipo de poder dissuasório. E aqui me valho novamente de outro germânico com fama de reacionário: o chanceler prussiano Otto von Bismarck, que dizia que “a diplomacia sem armas é como a música sem os instrumentos”. Mesmo nestes tempos de hegemonia americana pós-guerra fria, apenas países com poder de dissuasão têm condições de defender seus interesses. O Iraque foi invadido não porque tivesse armas de destruição de massa, mas justamente porque não as tinha. Quem duvida deve responder porque então um país muito mais agressivo como a Coréia do Norte não se sente militarmente ameaçado. Outro exemplo: nos anos 1980, a simples pressão diplomática de Washington fazia o Japão voltar atrás na decisão de desvalorizar sua moeda. Se a China hoje pode resistir a pressões semelhantes não é apenas porque os EUA estão economicamente mais débeis, mas principalmente porque Pequim está sentado sobre um arsenal de cerca de 200 ogivas nucleares.
Infográfico publicado pela revista Época

Ao manifestar apoio à pretensão da Índia de ter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, os EUA levaram em conta o poderio militar daquele país. De fato, os indianos têm uma das Forças Armadas mais poderosas dos países emergentes, contando inclusive com dissuasão nuclear. Os EUA vêem a Índia como um contraponto militar à China no Sul da Ásia. Já o Brasil, em vias de se tornar a 5ª economia mundial, tem uma diplomacia ativa, mas ainda está longe de ter uma força militar correspondente a esse protagonismo. Por isso ainda não é levado inteiramente a sério na cena internacional. Pode enviar soldados e até comandar Forças de Paz da ONU, como no Haiti, mas falar grosso em outras searas ainda é visto como "petulância" pelas grandes potências –postura, aliás, macaqueada aqui pela velha mídia e pelas “elites” – melhor dizendo, oligarquias mal-pensantes.

Thomas Hobbes 


Felizmente, o atual governo pôs em curso uma Política de Nacional de Defesa que redefiniu o papel das Forças Armadas, submeteu-as de fato ao poder civil e reverteu sua obsolescência via recriação da indústria bélica nacional por meio de transferência de tecnologia. A compra dos caças para a FAB – por mais enrolada que esteja – e, principalmente, a retomada do projeto do submarino nuclear foram passos decisivos nessa direção. Como assinala uma reportagem da revista Época assinada por Roberto Lopes e Maria Helena Passos, "se a Amazônia subiu ao topo das prioridades para as três forças, a proteção a riquezas emergentes no Atlântico tende a mudar radicalmente o perfil modorrento que a Defesa assumiu em décadas recentes. Daí a preocupação do almirante Moura Neto, também, com a vigilância das águas, cuja exploração econômica é reconhecida como de direito do Brasil. São 4,4 milhões de quilômetros quadrados, ou metade do território brasileiro". No que é chamado de "Amazônia Azul" pelos militares, continua a reportagem, figuram "as jazidas submarinas que, entre os litorais do Espírito Santo e de São Paulo, prometem transformar o Brasil em exportador de petróleo. E, também, as rotas dos que atacam as tripulações de barcos mercantes, dos contrabandistas de armas e dos traficantes de tóxicos, sob vigilância dramaticamente precária"

Si vis pacem para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra), diziam os romanos. Por isso, em política externa, pelo menos, Thomas Hobbes tem mais coisas a nos dizer do que Immanuel Kant.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

SATURAÇÃO DE REALIDADE

"Você sabe perfeitamente que no ponto culminante de uma crise procedemos sempre por impulso, ao contrário do previsível, praticando a barbaridade mais inesperada, e pode dizer-se que, precisamente nesse momento, se verificara uma saturação de realidade; não lhe parece? A realidade precipita-se, mostra-se com toda sua força e, então, a nossa única maneira de enfrentá-la consiste em renunciar à dialética, essa é a hora em que damos um tiro em alguém, em que pulamos do navio, em que tomamos um tubo de Gardenal [...], em que libertamos o cachorro de sua corrente, em que fazemos qualquer coisa que nos ocorra. A razão só nos serve para dissecar a realidade na calma, ou para analisar as suas futuras tormentas, nunca para resolver uma crise instantânea. Todavia, essas crises são como demonstrações metafisicas, meu caro, um estado que, talvez, se não tivéssemos seguido pelo caminho da razão, seria o estado natural e corrente do picantropus erectus.
[...]
- E essas crises que a maioria das pessoas considera como escandalosas, como absurdas, eu pessoalmente tenho a impressão de que servem para mostrar o verdadeiro absurdo de um mundo ordenado e calmo, com um quarto onde diversos caras tomam café às duas da manhã, sem que, realmente, nada disso tenha o menor sentido [...]

O absurdo é que não pareça um absurdo [...] O absurdo é você sair de manhã e encontrar a garrafa de leite na porta de seu apartamento, ficando muito tranquilo porque ontem aconteceu o mesmo e amanhã voltará a acontecer. É este estancamento, este assim seja, esta suspeitosa carência de exceções. Eu não sei, meu amigo, mas seria preciso procurar outro caminho."
Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha                

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

OS CANIBAIS E OS "CIVILIZADOS"

"Penso que há mais barbárie em comer um homem vivo do que em comê-lo morto, em dilacerar por tormentos e suplícios um corpo ainda cheio de sensações, fazê-lo assar pouco a pouco, fazê-lo ser mordido e esmagado pelos cães e pelos porcos (como não apenas lemos mas vimos de fresca memória, não entre inimigos, mas entre companheiros e compatriotas, e, o que é pior, a pretexto de piedade e religião) do que em assá-lo e comê-lo depois que está morto. [...] Portanto, podemos muito bem chamá-los (aos canibais) de bárbaros com relação às regras da razão, mas não com relação a nós, que os ultrapassamos em toda espécie de barbárie".
Michel de Montaigne (1533-1592), Sobre os Canibais. Essa comparação do filósofo do século XVI entre a barbárie dos canibais que viviam no Brasil e a barbárie da civilização cristã europeia não tem nada a ver com a posterior defesa do "bom selvagem" de Rousseau. Seus índios são sanguinários e cruéis. Mas, para o autor de Ensaios, se aqueles povos são cruéis, nós (supostamente civilizados) também o somos.      

domingo, 14 de novembro de 2010

NA ÁSIA, AS MULHERES CONSOLIDAM DINASTIAS POLÍTICAS

A libertação da Aung San Suu Kyi, a líder da oposição birmanesa e Nobel da Paz de  
Aung San Suu Kyi diante do retrato do seu pai
1991, é uma tentativa da ditadura dos generais daquele país de aplacar a pressão internacional depois da gigantesca fraude das recentes eleições. Ela se consagrou líder em 1988, em meio a violentas manifestações contra o governo militar instalado em 1962 nas quais morreram dez mil pessoas. Suu Kyi galvanizou as massas e, inspirada nas ideias de Mahatma Gandhi, proferiu o famoso discurso em que disse que "não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que o exercem e o medo do flagelo do poder corrompe aqueles que a ele se submetem". As manifestações foram violentamente reprimidas e cerca de dez mil pessoas morreram. Os militares concordaram em realizar eleições para 1990 e ela fundou a Liga Nacional pela Democracia (LND), mas foi colocada sob prisão domiciliar e impedida de concorrer. A LND venceu as eleições mas não levou, porque os militares, que haviam dado um golpe dentro do golpe, não entregaram o poder. Desde então, Suu Kyi passou a maior parte do tempo na prisão ou em prisão domiciliar. Antes do Nobel, ela recebeu o Prêmio Sakharov de Direitos Humanos, em 1990.
Filha do heroi da inependência da Birmânia, o general Aung San - assassinado em 1947 - Suu Kyi confirma a tradição de vários países asiáticos nos quais as mulheres garantiram a continuidade de dinastias políticas depois que os fundadores destas, seus pais ou maridos, foram mortos, a maioria assassinada.

Bandaranaike em 1960
Sirimavo Bandaranaike (1916-2000), do Sri Lanka (antigo Ceilão), foi a primeira mulher a assumir a chefia de governo no mundo moderno. Seu marido, Solomon Bandaranaike, foi primeiro-ministro do Ceilão até ser assassinado por um fanático budista em 1959. Madame Bandaranaike serviu como primeira-ministra por três períodos (1960-65; 1970-77 e 1994-2000). Sua filha, Chandrika Kumaratunga, foi presidente do Sri Lanka entre 1994 e 2005.



Indira Gandhi (1917-1984), única filha de Jawaharlal Nehru, líder da independência da Índia, ela, que não tinha nenhum parentesco com Mahatma Gandhi, tornou-se primeira-ministra entre 1966 e 1977 e entre 1980 e 1984. Realizou amplas reformas, como a nacionalização dos bancos, conseguiu a autossuficiência alimentar da Índia em cereais e iniciou o programa nuclear do país. Para evitar uma ação da Justiça, decretou o estado de emergência e governou dois anos sob regime de exceção. Sua ação repressiva contra a minoria sikh provocou revolta e levou ao seu assassinato, perpetrado por um radical sikh em 1984. Foi sucedida pelo filho, Rajiv, que em 1991 também seria assassinado.


Corazón Aquino (1933-1999), mulher do líder de oposição filipino Benigno Aquino, assassinado pela ditadura em 1983 ao desembarcar no aeroporto quando voltava do exílio. "Cory" assumiu o lugar do marido como líder da oposição e seria eleita presidente das Filipinas num processo que levou à queda do ditador Ferdinand Marcos, em 1986. Sofreu nada menos que sete tentativas de golpe até o término de seu mandato, em 1993. Seu filho, Benigno Aquino Jr., é o atual presidente das Filipinas.

Benazir Bhutto (1953-2007) era filha de Zulfikar Ali Bhutto, presidente do Paquistão (1971-1973) e primeiro-ministro (1973-1977) até ser deposto e executado por ordem do general Zia Ul-Aq. Líder do Partido do Povo Paquistanês, ela foi presa várias vezes pela regime e teve que se exilar em Londres. Com a morte do ditador Zia Ul-Aq, em 1988, o PPP ganhou as eleições e Benazir se tornou a primeira mulher a chefiar um governo num país islâmico. Foi primeira-ministra duas vezes (1988 e 1990 e 1993 a 1996). Nos dois mandatos, foi acusada de corrupção e afastada. Ela também morreu num atentado em 2007, reivindicado pela Al-Qaeda.


Megawati Sukarnoputri - Filha do ex-presidente Sukarno, pai da independência da Indonésia deposto pelo golpe do general Suharto em 1965, ela se envolveu em política depois dos 40 anos, tornando-se líder da oposição à ditadura. Com a renúncia de Suharto, em 1998, seu partido ganhou as primeiras eleições livres mas Megawati só conseguiu ser empossada em 2001. Apesar de ter realizado um governo medíocre, presidiu a cerimônia de independência do Timor Leste, que ficara 27 ocupado pela Indonésia.