terça-feira, 29 de junho de 2010

O FASCÍNIO DAS ARMAS


Deu no New York Times:
Cerca de 10 mil americanos morreram em consequência de violência com armas de fogo durante os quatro meses em que a Suprema Corte debateu se a proibição do uso de armas aprovada por alguns estados, como Chicago e o Distrito de Columbia, era inconstitucional. Na segunda-feira 28, a Corte entendeu, por 5x4, que nenhum estado ou cidade americana pode limitar o direito dos cidadãos de possuir armas de fogo.
A polêmica começou há dois anos, quando Suprema Corte, invocando a Segunda Emenda, derrubou a proibição de armas imposta pelo Distrito de Columbia, interpretando que ela autoriza qualquer cidadão a portar armas e não apenas as milícias de autodefesa. A Segunda Emenda diz textualmente: "sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido." É justamente a segunda parte desta emenda que tem justificado, ao longo dos anos, que todo e qualquer cidadão norte-americano possa adquirir e portar armas com quase nenhuma restrição.
"Uma vez mais, a maioria conservadora da Corte impôs sua leitura seletiva da História americana", diz o Times, lembrando que os juízes citaram a vitória americana contra a Grã-Bretanha na Guerra da Independência (1776-1812) e a da União na Guerra da Secessão (1861-1865) como exemplos de que os autores da Constituição estavam certos ao considerar a posse de armas como um direito constitucional fundamental. "Os membros da Corte ignoraram o cotidiano de Chicago, onde 258 estudantes de escolas públicas foram baleados no ano passado - e 32 deles morreram", diz o Times.
A Associação Nacional do Rifle (NRA), claro, comemorou a decisão. "Esta é uma reivindicação da grande maioria de cidadãos americanos, que sempre acreditou que a 2ª Emenda é um direito e uma liberdade individual que vale a pena defender". Já os defensores do controle de armas criticaram o veredito, citando estatísticas que mostram uma média anual de 30 mil mortes, incluídos 12 mil assassinatos, por disparos de armas de fogo. Estima-se que nos Estados Unidos exitam cerca de de 200 milhões de armas em circulação.
Estranha, a alma ianque. A questão da posse de armas como direito inalienável do americano parece estar no DNA da nação. Hoje os conservadores adaptaram seus discursos aos novos tempos, esgrimindo as causas politicamente corretas da Independência e da guerra contra a escravidão para justificar a nação em armas. Mas não faz muito tempo que ninguém na América tinha dúvidas de que a conquista violenta do Oeste bravio tinha sido uma grande epopeia. A espoliação e o massacre dos índios e a conquista de terras mexicanas só começou a ser questionada a partir da década de 1970, em meio ao atoleiro no Vietnã.
Os conservadores que apoiam o direito de possuir armas de fogo também apoiam, naturalmente, a pena de morte - e ela continua vigente em 36 dos 50 Estados americanos, depois de ter sido suspensa por um breve período de tempo (1972-1976). À exceção dos EUA, os países que ainda adotam a pena capital são ditaduras ou semiditaduras: Irã, China, Coréia do Norte, Cuba, Arábia Saudita, Egito, Iraque, Paquistão. Toda a Europa e a maioria da América Latina a aboliu. Curiosamente, os mesmos conservadores que defendem o direito à posse de armas de fogo e a pena de morte consideram que o aborto é um crime...
Será que foi por causa dessa obsessão armada dos americanos que John Lennon cunhou a frase "a felicidade é uma arma quente"?
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PS.: As armas acima, uma Luger (à esq.) e uma Walther P-38, são alemãs. Os EUA têm as Colt e as Smith & Wesson, mas o design das alemãs é mais bonito do que o das americanas...

sábado, 26 de junho de 2010

A FANTÁSTICA MÚSICA DO MALI

Dreams of Kirina: apresentação do cantor Baaba Maal num concerto da Playing for Change Foundation em homenagem aos músicos do vilarejo de Kirina, no Mali. A ancestralidade musical de alguns desses músicos remonta a 75 gerações. A fundação financiou uma escola de música para o vilarejo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

LÊNIN CONTRA MARX

"A revolução dos bolcheviques [...] é a revolução contra O Capital de Karl Marx. O Capital de Marx era, na Rússia, mais o livro dos burgueses que dos proletários. Era a demonstração crítica da necessidade inevitável que na Rússia se formasse uma burguesia, se iniciasse uma era capitalista, se instaurasse uma civilização de tipo ocidental, antes que o proletariado pudesse sequer pensar na sua insurreição, nas suas reivindicações de classe, na sua revolução. Os fatos ultrapassaram as ideologias. Os fatos rebentaram os esquemas críticos de acordo com os quais a história da Rússia devia desenrolar-se segundo os cânones do materialismo histórico. Os bolcheviques renegam Karl Marx quando afirmam, com o testemunho da ação concreta, das conquistas alcançadas, que os cânones do materialismo histórico não são tão férreos como se poderia pensar e se pensou"
Antonio Gramsci, A Revolução contra O Capital

quinta-feira, 24 de junho de 2010

OS JESUÍTAS FORAM OS BOLCHEVIQUES DA IGREJA?

“A ordem dos jesuítas, fundada na primeira metade do século XVI para combater o protestantismo, nunca ensinou que qualquer meio, mesmo o mais delituoso, de acordo com a moral católica, seja admissível, contanto que leve ao ‘fim’, isto é, ao triunfo do catolicismo. Essa doutrina contraditória e psicologicamente inconcebível foi malignamente atribuída aos jesuítas pelos seus adversários protestantes – e às vezes católicos – que, por sua vez, pouco se preocupavam com escrúpulos na escolha dos meios para atingir seus próprios ‘fins’. Os teólogos jesuítas – preocupados como os de outras escolas, com o problema do livre arbítrio – ensinavam na realidade que o meio, considerado em si mesmo, pode ser insignificante, mas que a sua justificação ou condenação moral depende do que se procura alcançar. Assim, um tiro de arma de fogo é, em si, um fato sem importância: disparado sobre um cão raivoso que tenta morder uma criança é um ato louvável; disparado para matar ou praticar violência é um crime. Os teólogos da Companhia de Jesus não queriam dizer nada mais do que estes lugares comuns. Quanto à sua moral prática, os jesuítas não foram piores do que os padres e monges das outras ordens; aliás, foram mesmo superiores. De qualquer maneira, deram prova de maior tenacidade, de maior audácia e maior perspicácia. Os jesuítas constituíam uma organização militante, fechada, rigorosamente centralizada, agressiva, perigosa não só para os seus inimigos, mas também para os seus aliados. Pela sua psicologia e pelos seus métodos de ação, os jesuítas da época ‘heróica’ distinguiram-se do padre comum, como os guerreiros da Igreja se distinguem dos que comerciam à sua sombra. Não temos motivos para focalizar um ou outro. Mas seria totalmente indigno considerar o guerreiro fanático com os olhos do comerciante estúpido e preguiçoso”
Leon Trotsky, A moral deles a a nossa

quarta-feira, 23 de junho de 2010

NA AMÉRICA PELO MENOS NÃO FLORESCEM CÉSARES

As Forças Armadas americanas são há muito tempo as mais poderosas do mundo, mas seus comandantes militares em geral primam pela discrição e pela subordinação rigorosa ao poder civil. Alguns, no entanto, se consideram semideuses. George S. Patton, comandante do 3º Exército americano na Europa durante a Segunda Guerra, foi o mais fanfarrão, mas certamente o mais importante foi o general Douglas MacArthur, heroi condecorado, comandante das tropas americanas no Pacífico, líder da ocupação no Japão e comandante das forças da ONU na Coréia. Em 1950, sem consultar a Casa Branca, MacArthur cogitou de jogar bombas atômicas contra os chineses que intervieram no conflito ao lado dos norte-coreanos. Foi demitido sumariamente em abril de 1951 pelo presidente Harry Truman, que teria dito à filha: "acabo de demitir Deus..." MacArthur voltou aos EUA e foi ovacionado por multidões. Chegou a ser instado pelos republicanos para se candidatar a presidente. Num discurso famoso, ele disse, referindo-se a si mesmo, que "as grandes estrelas não morrem nunca... elas simplesmente desaparecem". E ele simplesmente desapareceu do cenário político americano. E o general que chegou à Casa Branca, Dwight Eisenhower, foi o mais civil dos militares americanos. Já Alexander Haig, ex-comandante da Otan que chegou ao posto de secretário de Estado, tentou assumir as rédeas do o governo em 1981, quando o presidente Ronald Reagan sofreu um antentado. Deu-se mal, perdeu prestígio e acabou renunciando no ano seguinte.
Stanley McChrystal, até ontem comandante das forças da Otan e dos EUA no Afeganistão, conhecido pelo apelido de Comandante Jedi, foi a manifestação mais recente de indisciplina. Ele foi demitido pelo presidente Barack Obama depois de ter ridicularizado seus superiores civis numa entrevista à revista Rolling Stone. O título da reportagem é O general em fuga. Stanley McChrystal, o comandante de Obama no Afeganistão assumiu controle da guerra ao nunca se esquecer de quem são os inimigos de verdade: os maricas da Casa Branca. Saiu fora da linha, dançou. Como disse Obama: "(A atitude de McChrystall) faz pouco do controle civil dos militares que está na base de nossa democracia". Nos EUA, pelo menos, não há perigo de "pronunciamientos" ou "fúria das legiões".

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SALVE A BATINA DO BISPO TUTU!

Clérigos de qualquer confissão costumam ser, por definição, reacionários quando o assunto envolve sexualidade ou pesquisa genética. Mesmo os mais progressistas em matéria social torcem o nariz quando se fala em contracepção, aborto, homossexualismo e células-tronco. Talvez uma notável exceção seja o bispo anglicano sul-africano Desmond Tutu, de 78 anos. Face mais visível da luta contra o apartheid depois de Nelson Mandela e Prêmio Nobel da Paz de 1984, Tutu presidiu a Comissão de Verdade e Reconciliação, que conseguiu a proeza de investigar os crimes do regime de supremacia branca trocando a confissão dos culpados pela anistia. Nos anos 90, quando houve um crescimento gigantesco de casos de Aids na África do Sul e o governo de Tabo Mbeki preferiu ignorar a epidemia, Tutu usou todo seu prestígio para exigir uma política nacional de combate à doença. Em outras plagas, padres e bispos ficam pregando a abstinência sexual como forma de combater a disseminação da Aids.
Recentemente, Tutu aceitou participar de um experimento de sequenciamento do genoma desenvolvido pela Penn State University, dos Estados Unidos, para pesquisar os riscos de doenças genéticas. Enquanto isso, a Igreja Católica continua condenando peremptoriamente as pesquisas para o desenvolvimento de células-tronco a partir de embriões.
Por tudo isso, SALVE A BATINA DO BISPO TUTU!, como dizia o Gilberto Gil:
http://www.youtube.com/watch?v=Vf_Kna-ehZs&feature=related (Canção pela Libertação da África do Sul, anos 80. Não me perguntem porque Gil dedica a música ao Mario Schemberg...)

domingo, 20 de junho de 2010

OS 70 ANOS DA 'FINEST HOUR' DE CHURCHILL

"A 'batalha da Grã-Bretanha' está para começar. Desta batalha depende a sobrevivência da civilização cristã. [...] Toda a fúria e o poder do inimigo devem muito em breve se virar contra nós. Hitler sabe que terá que nos fazer sucumbir nesta ilha ou perder a guerra. Se nós pudermos enfrentá-lo, toda a Europa poderá ser livre e a vida no mundo poderá continuar sua direção de campos amplos e ensolarados.

Mas, se nós falharmos, o mundo inteiro [...] irá afundar no abismo de uma nova era de trevas, tornada mais sinistra e talvez mais prolongada, pelas luzes da ciência pervertida. Vamos, portanto, nos unir em torno de nossos deveres. E saber que, se o Império Britânico e a Comunidade dos Estados Britânicos durarem mil anos, os homens ainda dirão: 'Este foi o seu melhor momento'"

Winston Churchill, 18 de junho de 1940, discurso à Câmara dos Comuns

A civilização cristã eu não sei, mas a civilização deve muito a ele, que se recusou a fazer um acordo com Hitler no momento mais grave da guerra, quando a França capitulava, a União Soviética era aliada do III Reich e os EUA ainda estavam oficialmente fora do conflito

sábado, 19 de junho de 2010

UMA DEMOCRACIA SEQUESTRADA?

A maior parte da chamada esquerda revolucionária que lutou contra a ditadura militar no Brasil aprendeu, a duras penas, que as liberdades democráticas não eram apenas uma tática de acumulação de forças para derrubar o regime e abrir o caminho ao socialismo. A democracia deixou de ser adjetivada como "burguesa" e foi assumida como "valor universal" (na feliz definição de Carlos Nelson Coutinho), o que implicava na rejeição da autocracia leninista e na adoção de princípios políticos liberais, como liberdade de expressão, pluralismo, eleições livres e alternância de poder. Nessa trajetória, um dos grandes pensadores que ajudou a esquerda brasileira a atravessar o Rubicão foi o filósofo italiano Norberto Bobbio, cuja obra foi uma tentativa de conciliar o liberalismo (político) com o socialismo (democrático).
Mas apesar de sua defesa apaixonada do sistema representativo, Bobbio era o primeiro a reconhecer que o paradoxo da democracia moderna é sua efetivação em condições cada vez mais desfavoráveis: "nada é mais difícil que fazer respeitar as regras do jogo democrático nas grandes organizações: e as organizações, a começar pela estatal, tornam-se sempre maiores" (a "lei de ferro da oligarquia", na definição de Robert Michels). "O processo de democratização e o processo de burocratização não somente ocorrerem ao mesmo tempo, mas o segundo é consequência direta do primeiro" [...] "Tecnocracia e democracia entram sempre em choque. A tecnocracia é o governo dos especialistas, isto é, daqueles que sabem uma só coisa, mas sabem, ou deveriam saber bem; a democracia é o governo de todos, isto é, daqueles que deveriam decidir não com base na competência, mas com base na própria experiência. O protagonista da sociedade industrial é o sábio, o especialista, o experto; o protagonista da sociedade democrática é o cidadão comum, o homem da rua [...] Segundo o ideal democrático, o único especialista em negócios políticos é o cidadão [...]. Mas, na medida em que as decisões se tornam sempre mais técnicas e menos políticas, não fica mais restrita a área de competência do cidadão e, consequentemente, sua soberania? Não é, portanto, contraditório pedir sempre mais democracia em uma sociedade sempre mais tecnicizada? [...] Pedir mais democracia significa pedir a extensão das decisões que competem àquele que, pelas condições objetivas do desenvolvimento da sociedade moderna, se torna sempre mais incompetente: o que é válido sobretudo no setor da produção, justamente o que escapou até agora a qualquer forma de controle popular, e que é aquele no qual se vence ou se perde o desafio democrático". O texto é da década de 70 (Qual Socialismo?) e permanece atual, bastando trocar o "setor da produção" por "setor financeiro".
Lembrei-me de tudo isso agora, por ocasião da morte de José Saramago. Em uma de suas conferências veiculadas no YouTube, ele diz claramente que hoje discutimos tudo, menos o conceito de democracia, que aparece como uma "santa no altar". O escritor diz que, na verdade, a democracia na era globalizada foi "sequestrada, condicionada e amputada" e que o poder do cidadão se limita a trocar governos; as grandes decisões são tomadas no âmbito das organizações financeiras internacionais (FMI, Banco Mundial, OMC, OCDE), nenhuma delas democrática.
A luta contra ditadura fez com que a esquerda desse adeus às ilusões bolcheviques, adotando a defesa irrestrita da democracia antes dita "burguesa", mas para ampliá-la, como defendia Bobbio. Mas não dá para discordar de Saramago. Se ele tiver razão, temo que, em sentido amplo, o espaço de democracia que nos resta é a "negativa" (a democracia dos modernos, apud Benjamin Constant, em contraposição à dos antigos, em que os cidadãos decidiam os destinos do Estado), cujo alcance máximo é a ampliação das liberdades individuais.
http://www.youtube.com/watch?v=m1nePkQAM4w

sexta-feira, 18 de junho de 2010

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE

"No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, casou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar"
José Saramago (1922-2010)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

COISA DE POBRE...

Matéria de Patrícia Campos Mello no Estadão informa que a direita americana escolheu o futebol como seu novo alvo, identificando-o como "esporte de pobre", resultado da crescente influência hispânica nos EUA, e também das "políticas socialistas" (?) de Barack Obama. "A esquerda está impondo o futebol nas escolas americanas, porque a América está se 'amarronzando'", disse o analista conservador Dan Gainor, do Media Research Center. "Os esquerdistas são contra nossa rejeição ao futebol, da mesma maneira que são contra nossa rejeição ao socialismo", disse Matthew Philbin, do Culture and Media Institute. "Eles estão nos enfiando o futebol goela abaixo", rosnou o radialista Mark Belling. A matéria informa também que nos últimos dez anos, o futebol realmente conquistou tantos adeptos que hoje rivaliza com o beisebol e o basquetebol, tradicionais esportes americanos. Na visão lunática desses trogloditas, talvez Obama seja o alter ego do Pelé...

terça-feira, 15 de junho de 2010

TUDO O QUE NÃO É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR

A Bélgica é mais nova como nação do que o Brasil. Nasceu em 1830, depois de passar décadas sob o domínio de austríacos, espanhois, franceses e holandeses. Falar em "nação" é um certo exagero: a Bélgica é uma abstração e nunca teve um senso de nacionalidade como os demais países europeus. Sua criação foi obra do império britânico, que juntou flamengos (da região de Flandres, de origem holandesa) e valões (da Valônia, francófanos) para criar um bolsão e evitar a anexação da Valônia à França quando a Revolução de 1830 agitou Paris. O primeiro rei belga, Leopoldo I, era alemão (da dinastia Saxe-Coburg-Gotha, origem da casa dos Windsor britânica).
Ironicamente, o território belga foi palco de grandes batalhas em que a Europa se dilacerou, desde Waterloo, onde Napoleão foi definitivamente derrotado em 1815, até Ypres, Passchendaele (Primeira Guerra Mundial) e Ardennas (Segunda).
A Bélgica se equilibrava sobre um pacto federativo que se imaginava duradouro, mas que agora, com a vitória do partido separatista N-VA, do flamengo Bart de Wever, pode chegar ao fim. E pior, se a Bélgica se "evaporar", mesmo pacificamente como defende De Wever, haverá reflexos graves na União Europeia. Afinal, a Bélgica foi pioneira, ao lado da França e Alemanha, do Plano Schumann-Jean Monnet, que há 60 anos criou as bases da unidade europeia como forma de ultrapassar os traumas das duas guerras mundiais. Como levar adiante essa ideia se, à grave crise econômica que ora assola a comunidade, se juntar a ameaça de um de seus membros-fundadores de implodir?
Não é por acaso que a capital da União Europeia é Bruxelas: a Bélgica foi o modelo sobre o qual projetou-se a ideia da Comunidade Europeia - um superestado artificial capaz de suprimir conflitos nacionais, impedindo a eclosão de novas guerras. Uma bela ideia, mas um tanto utópica, como a proposta de tornar o mundo "um lugar seguro para a democracia" do presidente americano Woodrow Wilson, que abominava o realismo político e o "equilíbrio do poder".
A realidade acaba se impondo sobre as abstrações históricas, como sabiam Churchill, De Gaulle e Stálin, mais do que Roosevelt. E se tudo o que é sólido se desmancha no ar, imagine o que não é...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

NADA MERECE CERTEZA

"A necessidade de certeza é natural no homem, mas nem por isso deixa de ser um defeito intelectual. Se você levar seus filhos a um piquenique num dia duvidoso, eles exigirão uma resposta dogmática sobre se fará bom ou mau tempo e ficarão decepcionados por você não ter certeza. Segurança do mesmo tipo é exigida, na vida adulta, daqueles que se comprometem a conduzir as populações à Terra Prometida. 'Liquide os capitalistas, e os sobreviventes gozarão a eterna bem-aventurança'. 'Extermine os judeus, e serão todos virtuosos'. 'Mate os croatas e deixe reinar os sérvios'. 'Mate os sérvios e deixe reinar os croatas'. São amostras de slogans que ganharam ampla aceitação em nossa época. Um pouquinho de filosofia tornaria impossível aceitar absurdos sanguinários desse tipo. Mas, enquanto os homens não forem treinados para recusar julgamentos na ausência de provas, eles serão seduzidos por profetas infalíveis, e os líderes serão, provavelmente, fanáticos, ignorantes ou charlatães desonestos. Suportar a incerteza é difícil, como é também suportar a maior parte das demais virtudes"
Bertrand Russell (1872-1970)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

QUEM IMITA QUEM?


Christina Aguilera/Not Myself Tonight




Lady Gaga/Alejandro
OU AMBAS IMITAM ELA?:
Madonna/Die another day
Houve quem classificasse o clip da Lady Gaga de "estética fascista", invocando o texto "fascinante fascismo", de Susan Sontag. Francamente...

terça-feira, 8 de junho de 2010

UMA REBELIÃO ESQUECIDA

O Levante de Varsóvia teve início em 1º de agosto de 1944, organizado pela resistência polonesa contra a ocupação nazista da Polônia. Quando a rebelião se iniciou, as tropas do Exército soviético estavam no lado leste do rio Vístula, que corta a cidade. Mas os russos detiveram seu avanço avassalador, porque o movimento de resistência que organizou a rebelião não era comunista e o ditador Josef Stálin tinha planos de fazer da Polônia um satélite soviético. Durante 63 dias, a resistência travou encarniçados combates contra os nazistas até ser derrotada. Pelo menos 16 mil guerrilheiros morreram em combate e 150 mil civis foram massacrados pelos alemães, enquanto 25% dos edifícios de Varsóvia foram destruídos nos combates urbanos. Um ano antes, os nazistas já tinham reprimido violentamente a rebelião do Gueto de Varsóvia. Em 1945, no fim da guerra, 90% da cidade tinha sido destruída.
http://www.youtube.com/watch?v=GoKYOFQw0cE&feature=related

segunda-feira, 7 de junho de 2010

ESTADO DE SÍTIO MENTAL EM ISRAEL

“O governo Barak-Netanyahu-Avigdor Lieberman não conhece outro modo de responder à realidade na Palestina e em Israel. Só conhece, como recurso, a força bruta, para impor o que bem entendam; e operam descomunal máquina de propaganda, que descreve a força bruta como legítima defesa, ao mesmo tempo em que demoniza os gazenses semimortos de fome, e chama de ‘terroristas’ os que correm em socorro deles. Esse é o único curso possível para aqueles políticos. O inenarrável sofrimento, o custo em vidas humanas, não é problema de Israel. Tampouco é problema de Israel que a opinião pública universal a condene.
O que conta, ao contrário da estratégia declarada de Israel, é que tudo continue exatamente como está. A comunidade internacional é complacente; o mundo árabe é impotente e Gaza está sob controle. Enquanto tudo continuar como hoje, Israel deixa correr sua economia em crescimento. Os eleitores israelenses, que veem como normal o domínio do Exército em todos os aspectos da vida, veem a opressão dos palestinos como única realidade da vida passada, presente e futura, em Israel.
[...]
Mas erra quem supuser que o apoio dos EUA e a fraca reação dos europeus às políticas criminosas de Israel, como a que sitia Gaza, seriam as principais explicações para por que Israel mantém o bloqueio e o estrangulamento de Gaza.
A parte provavelmente mais difícil de explicar aos leitores é o quanto essas percepções e atitudes lançaram raízes profundas na psiquê e na mentalidade dos israelenses. E, sim, é difícil entender o quanto os mesmos fatos disparam reações diametralmente opostas na sociedade israelense e, por exemplo, no homem comum na Grã-Bretanha.
A resposta de homens e mulheres em todo o mundo parte do pressuposto de eventuais futuras concessões aos palestinos e diálogo continuado com a elite política israelense produzirão nova realidade em campo. O discurso oficial no Ocidente pressupõe que haja solução à vista e alcançável, se todos os lados se reunirem em torno de um esforço final rumo à Solução dos Dois Estados.
Nada poderia estar mais distante da realidade, que esse cenário otimista. A única versão dessa solução que seria aceitável para Israel é totalmente inaceitável pelos palestinos, sejam os domesticados líderes da Autoridade Palestina em Ramalá, seja o Hamás, mais assertivo. A única proposta que Israel consideraria é aprisionar os palestinos, sem Estado algum, em enclaves. Em troca, os palestinos desistiriam da resistência.
Assim, antes de sequer poder considerar seja uma solução alternativa – um só Estado democrático para todos, ideia que apoio –, ou explorar algum acordo mais plausível com vistas a dois Estados, seria preciso transformar fundamentalmente a mentalidade oficial e pública dos israelenses. Aquela mentalidade é a principal barreira a qualquer reconciliação pacífica nas dilaceradas terras de Israel e Palestina”
Ilan Pappé, escritor israelense, diretor do Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina da Universidade de Exeter, Reino Unido

sexta-feira, 4 de junho de 2010

UM POUCO DE CAOS, QUE NINGUÉM É DE FERRO

"Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra manifestos (...). Eu redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, numa única fresca respiração; sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem para nem contra e não explico por que odeio o bom-senso” (Tristan Tzara)





"Toda a obra de pintura ou plástica é inútil; que ela seja um monstro
que faça medo aos espíritos servis, e não adocicada para ornar os
refeitórios dos animais com roupas humanas, ilustrações desta triste
fábula da humanidade"
(Idem)
Dada Polka: Girate like a giroscope, collide like a calleidoscope, frieze: do something, anything, something... please:
http://www.youtube.com/watch?v=yFkXg2yFFSM

quarta-feira, 2 de junho de 2010

RUMO AO ESTADO TEOCRÁTICO

O jornalista e médico Georges Clemenceau (1841-1929) foi um dos mais brilhantes líderes políticos franceses de todos os tempos. Conhecido como “o Tigre”, destacou-se tanto na oposição quanto no poder. Foi primeiro-ministro da França duas vezes (1906-1909 e 1917-1920); no último período, liderou a França na vitória na Primeira Guerra Mundial. Tenazmente anticlerical e crítico do militarismo, Clemenceau formulou o que talvez sejam as melhores definições sobre a guerra e seus operadores: “Fazer a guerra é de longe mais fácil do que fazer a paz” e “A guerra é uma coisa demasiada grave para ser confiada aos militares”.
A última reflexão continua válida até hoje e, em certas regiões como o Oriente Médio, onde a política e a religião estão interligadas, teria que se acrescentar: “a guerra é uma coisa demasiada grave para ser confiada aos militares ... e aos religiosos”. Veja-se o caso de Israel. As Forças Armadas israelenses – conhecidas como Forças de Defesa – estão entre as mais eficientes do mundo. Tiveram vitórias militares estrondosas em 1948, 1967 e 1973. Mas nos últimos anos, a ação dos militares israelenses, quase sempre brutal e desproprocional às ameaças, vêm se revelando um desastre atrás do outro. O episódio mais recente foi o ataque de comandos israelenses à flotilha internacional que levava ajuda humanitária a Gaza.
Como notou o comentarista Giles Lapouge, talvez isso se deva ao aumento da influência dos religiosos sobre o Exército de Israel que sempre se orgulhou de suas tradições liberais, como a incorporação de mulheres e gays em suas fileiras. Segundo o jornal Haaretz, em 1990 apenas 2% dos oficiais militares israelenses eram religiosos; hoje eles são 30%. “Na brigada Golani, seis dos sete coroneis são religiosos. Na brigada Kfir, especializada em ações antiterroristas na Cisjordânia, sete tenente-coroneis usam a kipá”, diz Lapouge. Há 20 anos, os oficiais do Exército vinham da esquerda (trabalhista) e dos kibutzim; hoje eles vêm de colônias ultranacionalistas. “E o Haaretz explica que, nestas colônias selvagens instaladas ilegalmente, os militares fornecem uma ajuda tácita aos colonos extremistas que residem ali”, conclui Lapouge.
De Estado confessional, Israel está se transformando rapidamente num Estado teocrático. A metamorfose nas suas Forças Armadas, uma das instituições mais representativas do país, é uma prova disso.

terça-feira, 1 de junho de 2010

ISRAEL NA MÃO DE PIROMANÍACOS

Talvez a melhor crítica à ação criminosa de Israel, cujo ataque a flotilha internacional que levava ajuda humanitária à Faixa de Gaza provocou a morte de pelo menos dez civis desarmados, tenha vindo de um israelense, o jornalista e ex-deputado Uri Avnery, do Gush Shalom (Bloco da Paz): "Só um governo que já tenha perdido toda a capacidade de se autoconter e toda a conexação com a realidade comete tal crime. Atirar contra ativistas pacifistas, agentes de obra de auxílio humanitário, de várias nacionalidades, tomá-los como inimigos e enviar força militar massiva, em águas internacionais, atirar para matar, é inconcebível. Ninguém no mundo acreditará nas desculpas e mentiras do governo de Israel e dos porta-vozes do Exército. Hoje é dia de desgraça para o Estado de Israel. Dia de ansiedade, em que os isralenses descobrimos que nosso futuro está entregue a um bando de alucinados, todos de armas engatilhadas, atirando sem qualquer senso de responsabilidade [...]
Dia em que o governo de Israel enlameou o nome do país ante todo o mundo, juntou mais provas, a comprovar que a imagem de um Israel brutal, agressivo, não é invenção da propaganda. [...]
Sim, houve um ato de provocação no litoral de Gaza. Mas os provocadores não foram os ativistas pacifistas convidados a vir à Palestina e que tentavam chegar. Provocação houve, isso sim, praticada pelos comandos armados e encapuzados dos barcos de guerra, a mando do governo de Israel, que, para bloquear o avanço dos barcos dos pacifistas, não vacilou em atirar e matar! [...]
É hora de levantar o cerco que sufoca a Faixa de Gaza e que tanto sofrimento causa aos palestinos. Hoje, o governo de Israel arrancou a máscara da face - com as próprias mãos - e mostrou a verdade: Israel jamais se 'desengajou' de Gaza. Nenhum desengajamento há se Israel bloqueia o acesso à área ou manda soldados com ordem para matar e ferir quem tente chegar a Gaza" (Um governo de piromaníacos põe fogo no Oriente Médio)

DIVAS ETERNAS DO CINEMA