segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

FAÇA O QUE EU MANDO...

Os americanos acusam a Venezuela e outros países cujos governos não lhes agradam de atentar contra a liberdade de expressão, mas fecham os olhos para o que fazem seus aliados – Egito, Arábia Saudita e Paquistão, entre outros. Agora mesmo, em meio à rebelião que assola o país, o Egito proibiu o funcionamento da rede Al-Jazeera, do Qatar, que há tempos vem se notabilizando por realizar uma cobertura jornalística corajosa e independente. Nenhuma palavra de recriminação dos Estados Unidos em relação a essa proibição do governo egípcio. Pior, nas guerras do Iraque e do Afeganistão, há evidências de que as forças americanas atacaram os escritórios da rede. Reproduzo, abaixo uma nota e um vídeo tirados do blog do Luís Nassif:

“Fora ter sido a única emissora de televisão a ser alvo de ataques pelo exército estadunidense em duas ocasiões: em Cabul (Afeganistão) em 2001 e em Bagdá (Iraque) em 2003. Quem disse isso foi Rageh Omaar, repórter da BBC (2000-2006) numa entrevista para o documentário The War You Don't See, de John Pilger. Ele afirma (por volta dos 20 minutos) que o bombardeio do escritório da Al Jazeera em Cabul teve ‘sem dúvida nenhuma e categoricamente’ o objetivo de calar e possivelmente matar os jornalistas da emissora, pois todas as organizações de imprensa dão as coordenadas exatas de seus escritórios para os comandos militares. O curioso, neste caso, é que os jornalistas receberam um aviso de que seriam bombardeados. Em outras palavras, o ataque foi deliberado.”



domingo, 30 de janeiro de 2011

MEMÓRIA DE UM GIGANTE

Nascido a 20 de janeiro de 1882, Franklin Delano Roosevelt foi o mais influente presidente americano do século XX. Seus quatro mandatos consecutivos (1933-1945) foram únicos na história americana. Não há um só republicano que chegue aos pés dele, exceto Abraham Lincoln, que foi do século XIX e na época defendia bandeiras que depois seriam abraçadas pelos democratas. Roosevelt assumiu a Casa Branca em 1933, em maio à Grande Depressão, com seu explosivo coquetel de alto desemprego e conflitos sociais que na Europa abriu o caminho para o fascismo. O primeiro grande sucesso de Roosevelt foi preservar a democracia americana dessa ameaça por meio do New Deal - um vasto programa de corte keynesiano que previa a intervenção governamental para a criação de empregos, apoio à agricultura, legislação trabalhista e fortalecimento do ambiente empresarial. Roosevelt não hesitou em adotar medidas heterodoxas, desvalorizando artificialmente o dólar de maneira a incentivar a produção agrícola interna. Ele também colocou-se contra a tradição política americana, fortalecendo o poder da União vis-à-vis os Estados. Chegou a peitar a Suprema Corte quando esta questionou a constitucionalidade do New Deal. Com a guerra se aproximando da Europa, o presidente desafiou a opinião pública majoritariamente isolacionista, fazendo aprovar o Land-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), que conferia poderes ao Executivo para vender, transferir, trocar, arrendar e emprestar armamentos e equipamentos a qualquer país, sempre que a defesa dos Estados Unidos assim o exigisse. A lei fora motivada diretamente pela situação do Reino Unido, que em janeiro de 1941 não dispunha de reservas de ouro ou dólares para comprar nos EUA as armas que necessitava para fazer frente ao esforço de guerra contra o III Reich. Em dezembro de 1941, os japoneses deram uma mão aos propósitos do presidente, atacando a base americana de Pearl Harbour, no Pacífico, possibilitando os EUA entrarem na guerra. A colaboração com a União Soviética, a partir das cúpulas de Yalta e Teerã, tornou-se o mais importante elemento de sua política externa durante a Segunda Guerra Mundial, embora ele pessoalmente se opusesse à política de equilíbrio de poder e divisão de esferas de influência. Sua oposição aos impérios coloniais levou-o a conflitos com os aliados Winston Churchill e Charles De Gaulle. O mote "A única coisa que devemos ter medo é o próprio medo" tornou-se a divisa de sua administração.  

    




EXERCÍCIOS DE "EGIPTOLOGIA"

Imaginar cenários deveria ser atividade permitida somente a fazedores e amantes da sétima arte, mas ninguém que tenha interesse em política, nacional ou internacional, se furta a fazê-lo. Assim, ousarei traçar alguns cenários sobre a evolução da crise política no Egito - com o risco de ser desmentido amanhã, mas sempre existe a desculpa de que a matéria prima dos jornalistas é feita do imponderável...
 
Aiatolá Khomeini
 Cenário iraniano - Um regime aliado dos EUA é deposto por um movimento de massas liderado por uma vanguarda islâmica fundamentalista, como ocorreu no Irã em 1979. Seria um processo revolucionário; neste caso, o Exército, comprometido até a raiz dos cabelos com o antigo regime, acabaria por ser dissolvido e inteiramente reestruturado. Este cenário é altamente improvável; embora exista uma organização fundamentalista islâmica antiga e influente no Egito, a Irmandade Muçulmana, não há um clero organizado como os aiatolás - os egípcios são sunitas -, nem uma liderança religiosa incontestável como Khomeini.

Presidente Bouteflika
Cenário argelino - Esse é mais factível. Se, na esteira da derrubada de Hosni Mubarak e do estabelecimento de um regime democrático, os fundamentalistas ganharem as eleições, as Forças Armadas podem dar um golpe alegando o perigo de o país se transformar numa teocracia, como aconteceu na Argélia em 1992. Lá, depois de 30 anos de regime de partido único, a FLN promoveu eleições multipartidárias, vencidas pela Frente Islâmica de Salvação (FIS). O Exército anulou as eleições e assumiu o poder com Bouteflika; os fundamentalistas reagiram com o terrorismo e o país mergulhou numa sangrenta guerra civil, com mais de 100 mil mortos. Um golpe nessas circunstâncias poderia inclusive ser visto pelos países ocidentais como um "mal menor", como foi na Argélia.

Presidente Ben Ali
Cenário tunisiano - Até agora, o Exército egípcio não se envolveu diretamente na repressão às manifestações populares - essa tarefa tem sido desempenhada com esmero pelas forças de segurança, que já mataram mais de 100 pessoas. Os militares egípcios derrubaram a monarquia em 1952, são fiadores do regime e muito respeitados pela população - o que não ocorre com as forças policiais. Na Tunísia, a decisão do comandante do Exército de não atirar contra os manifestantes selou a sorte do presidente Zine El Abidine Ben Ali. "Analistas acreditam que o ponto de inflexão dos militares pode acontecer se eles forem obrigados a disparar contra os manifestantes em grande número. Uma coisa é proteger edifícios do governo, outra é manchar a reputação do Exército matando cidadãos. Ninguém pensa que uma pessoa leal a Mubarak, como o é Mohamed Tantawi, atrasado e impopular ministro da Defesa, desempenharia o papel de desafiar o presidente, o que não significa que seus subordinados não o fariam", diz Neil Macfarquhar, do New York Times.

Iuri Andropov
Cenário soviético - Omar Suleiman, o novo vice-presidente nomeado às pressas por Mubarak e tido como seu sucessor, comandou a inteligência militar egípcia ("mukhabarat")por 17 anos. Ora, em ditaduras de partido único, os serviços secretos são um dos pilares do Estado e, por isso mesmo, conhecem as mazelas do regime. Seus chefes, quando assumem diretamente o poder, tendem a promover reformas. Foi o que aconteceu na antiga União Soviética, com Iúri Andropov e, depois, Mikhail Gorbatchóv. O problema é destampar a garrafa e não mais controlar o gênio, como aconteceu com a perestroika na URSS. 


Nicolae Ceaucescu
 Variação lusitano-romena - Também pode acontecer de o Exército apoiar a rebelião popular, enquanto os serviços secretos permanecem fiéis defensores da velha ordem - como ocorreu em Portugal em 1974 e na Romênia de 1989. No primeiro caso, foram os militares de média patente (capitães) que derrubaram a ditadura salazarista, encontrando resistência da PIDE, a temida polícia política de Salazar. Na Romênia, o ditador comunista Nicolae Ceaucescu foi derrubado por uma rebelião popular à qual o Exército aderiu, mas teve que enfrentar a não menos temida Securitate, o que fez da transição romena a única sangrenta das que ocorreram naquele ano no bloco soviético.

Tudo são hipóteses, contudo. O que acontecerá realmente no Egito nenhum analista pode prever. Lembro-me que nos anos 1970 e 1980 desenvolveu-se, principalmente entre os americanos, uma categoria de especialistas em política soviética - os chamados "kremlinólogos". Quase todos eram brilhantes e conheciam profundamente a realidade soviética. Nenhum deles previu a implosão do bloco soviético em 1989 e da URSS em 1991.          

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A TRAIÇÃO DOS INTELECTUAIS


Julien Benda
O colapso do comunismo provocou uma confusão tão grande na cabeça de intelectuais europeus que tinham sido de esquerda que levou muitos deles a confundir o "adeus às armas" com a entrega delas ao arsenal do imperialismo. Alguns desses intelectuais começaram a defender que tiranias terceiro-mundistas deveriam ser derrubadas por meio de intervenções militares "benignas" do Ocidente, inclusive da Otan. Assim, a ação da aliança militar ocidental na ex-Iugoslávia e as invasões do Iraque e do Afeganistão por tropas americanas e britânicas se converteram em cruzadas "humanitárias" em defesa dos oprimidos da terra. Dessa forma, esses intelectuais revestiram interesses geopolíticos precisos com um manto ideológico pseudo-iluminista, mas na verdade bastante "panglossiano". No Iraque, tratava-se de defender os curdos e xiitas contra a tirania de Saddam Hussein (um ex-aliado dos americanos); na ex-Iugoslávia, proteger os bósnios e kossovares contra a ditadura de Slobodan Milosevic; no Afeganistão, defender o povo contra o Taliban e seu mentor, o terrorista Osama Bin Laden (outro ex-aliado de Washington).

Curiosamente, a maioria desses vira-casadas era francesa: Bernard Kouchner, que virou ministro de Nicolas Sarkozy, os "novos filósofos" André Glucksmann e Bernard-Hénry Levi, entre outros. O episódio nos remete à advertência de Julien Benda (1867-1957) em A traição dos intelectuais: "(eles) adotam as paixões políticas, integram-se ao coro de raças, de facções políticas e adotam as paixões nacionais. Adulam a vaidade dos povos e alimentam a arrogância com que cada um lança sua superioridade à face dos vizinhos". Felizmente, muitos outros intelectuais, como Paul Virilio, inscrevem-se na tradição de Benda:     

Bombardeio da Otan sobre Belgrado, 1999
"Depois da queda do muro de Berlim, assistiu-se ao desenvolvimento de uma estranha 'defesa do gênero humano', popularizada na mídia por numerosos teletons e outros shows interativos (sociais, sanitários, ecológicos...). Na realidade, eles se destinavam a preparar os espíritos para grandes manobras humanitárias, muito menos pacíficas, como as de Kosovo. Manobras bem-sucedidas, como se pôde constatar na ocasião, "o nascimento de um imenso impulso de solidariedade em favor dos kosovares, apoiado pelas vedetes do showbiz, do cinema, das finanças..."
"Aqui, o humanitário substitui o missionário do massacre colonial, ou o messianismo das últimas carnificinas mundiais, perturbando até pressupostos religiosos ocidentais, voando em socorro de populações muçulmanas que em princípio lhes são hostis. 'A fé começa pelo terror' - a divisa do teólogo é mais do que nunca atual - dado que a propaganda de guerra, como a propaganda fide (a propagação da fé religiosa da qual deriva), são as formas mais antigas de marketing publicitário.

Civis mortos por bombardeios da Otan na Sérvia, 1999
Por isso, seria conveniente, ao final do equilíbrio do terror, substituir o medo partilhado do fogo nuclear - o que chamei de fé nuclear - pela administração de múltiplos terrores íntimos e cotidianos. Portanto, ao lado de um terrorismo ordinário cada vez mais ativo, o público pôde ver, durante a última década do século XX, os anúncios publicitários repulsivos da Benetton ou ainda os grandes espetáculos que se fizeram em favor da luta contra a Aids, o câncer etc., coma exibição, diante das câmeras, de doentes terminais, de deficientes incuráveis... "Prevenir é curar!" Ameaças veladas, eugenia rasteira, terrores secretos, motivos de desconfiança, mal-estar, de ódios recíprocos. 
[...]
Diante da opinião pública, o exercício inédito do novo direito de intervenção nos assuntos internos de uma nação soberana sem dúvida teria sido impossível sem essa longa preparação psicológica, esse cinema total nascido durante a guerra fria [...]

Paul Virilio
Quando se pretende travar uma guerra em nome dos 'direitos do homem', uma guerra humanitária, renuncia-se ao direito de negociar a cessação das hostilidades com o adversário. Se o inimigo é um inimigo do gênero humano, não há outra escolha senão a desmesura de uma guerra total e de uma capitulação incondicional."

Paul Virilio, Estratégia da Decepção



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O HORROR DAS DITADURAS


Manifestação no Cairo contra o governo de Mubarak
Grandes manifestações populares contra governos autoritários ou ditaduras que duravam décadas: primeiro, na Tunísia, agora no Egito. Eppur si Muove, como diria Galileu Galilei. Espero que um dia o movimento atinja a Arábia Saudita e as monarquias do Golfo Pérsico. Único temor: que as manifestações democráticas sejam canalizadas por fundamentalistas islâmicos, como aconteceu no Irã em 1979. De qualquer forma, sempre é bom ver ditaduras serem abaladas. E ninguém dissecou mais o modus operandi das autocracias - ou dos processos que levam a elas - que o cineasta grego Costa-Gavras com seus clássicos Z, A Confissão, Estado de Sítio e Missing, principalmente.  
















 








terça-feira, 25 de janeiro de 2011

OS LACAIOS ESTÃO ATIVOS

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - que se achava íntimo de Bill Clinton - e boa parte da tucanalha continuam atacando a política externa do governo Lula. De um lado, cobram o uso do chicote contra arroubos da Bolívia, Venezuela e Argentina; de outro, pregam a submissão aos interesses de Tio Sam disfarçada de necessidade de assumir "responsabilidades compatíveis com a importância global do país". O acordo do Brasil com o Paraguai em torno do Itaipu é o mais novo cavalo de batalha da turma dos punhos de renda, herdeiros da subserviência lacaia de Juraci Magalhães ("O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil"). Enquanto isso, bombas de efeito retardado da era FHC, como o Tratado de Salvaguardas Tecnológicas Brasil-EUA, que praticamente cederiam a base de lançamento de foguetes de Alcântara aos americanos, continuam em tramitação no Senado.   


"PONTOS CARDEAIS: ENTREGUISMO AO NORTE; IMPERIALISMO AO SUL

Fernando Lugo, Lula e José Mujica em Itaipu

A oposição quer boicotar acordo assinado em julho de 2009 entre o ex-presidente Lula e o presidente Fernando Lugo, que triplica os valores pagos ao Paraguai pela energia de Itaipu vendida ao Brasil. Pela cessão de boa parte da cota paraguaia - historicamente remunerada abaixo dos preços de mercado - o governo Lugo passaria a receber U$ 360 milhões por ano, contra US$ 120 milhões atuais. Segundo o deputado do PSDB Antonio Carlos Mendes Thame, trata-se de 'um ato de entreguismo do Brasil'. Lembra um pouco a histeria da mídia conservadora, em 2006, quando se pintou de verde-amarelo e declarou guerra à Bolívia, exigindo que o Brasil retomasse as refinarias da Petrobras nacionalizadas por Morales. Quatro anos depois, os mesmos nacionalistas cobravam a entrega do pré-sal às petroleiras internacionais, de faca na boca contra a regulação soberana aprovada pelo governo Lula. [...]
(Carta Maior; 4º-feira, 19/01/2011)


"EUA tentaram impedir programa brasileiro de foguetes, revela WikiLeaks


José Meirelles Passos

Ainda que o Senado brasileiro venha a ratificar o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas EUA-Brasil (TSA, na sigla em inglês), o governo dos Estados Unidos não quer que o Brasil tenha um programa próprio de produção de foguetes espaciais. Por isso, além de não apoiar o desenvolvimento desses veículos, as autoridades americanas pressionam parceiros do país nessa área - como a Ucrânia - a não transferir tecnologia do setor aos cientistas brasileiros.

Base de Lançamento de Foguetes de Alcântara

A restrição dos EUA está registrada claramente em telegrama que o Departamento de Estado enviou à embaixada americana em Brasília, em janeiro de 2009 - revelado agora pelo WikiLeaks ao GLOBO. O documento contém uma resposta a um apelo feito pela embaixada da Ucrânia, no Brasil, para que os EUA reconsiderassem a sua negativa de apoiar a parceria Ucrânia-Brasil, para atividades na Base de Alcântara no Maranhão, e permitissem que firmas americanas de satélite pudessem usar aquela plataforma de lançamentos.

Além de ressaltar que o custo seria 30% mais barato, devido à localização geográfica de Alcântara, os ucranianos apresentaram uma justificativa política: "O seu principal argumento era o de que se os EUA não derem tal passo, os russos preencheriam o vácuo e se tornariam os parceiros principais do Brasil em cooperação espacial" - ressalta o telegrama que a embaixada enviara a Washington.

A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que "embora os EUA estejam preparados para apoiar o projeto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil". Mais adiante, um alerta: "Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil".

O Senado brasileiro se nega a ratificar o TSA, assinado entre EUA e Brasil em abril de 2000, porque as salvaguardas incluem concessão de áreas, em Alcântara, que ficariam sob controle direto e exclusivo dos EUA. Além disso, permitiriam inspeções americanas à base de lançamentos sem prévio aviso ao Brasil. Os ucranianos se ofereceram, em 2008, para convencer os senadores brasileiros a aprovarem o acordo, mas os EUA dispensaram tal ajuda.

Os EUA não permitem o lançamento de satélites americanos desde Alcântara, ou fabricados por outros países mas que contenham componentes americanos, "devido à nossa política, de longa data, de não encorajar o programa de foguetes espaciais do Brasil", diz outro documento confidencial.

(Publicado em O Globo, 25/01/2011) 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O QUE PODEMOS APRENDER COM OS AMERICANOS

Dilma Rousseff e o sendor John McCain
 Circulam rumores de que a presidente Dilma Rousseff estaria revendo algumas prioridades estabelecidas no governo Lula na área de Defesa com vistas a melhorar as relações do Brasil com os Estados Unidos. Um dos sintomas dessa suposta nova postura da diplomacia brasileira seria a suspensão do projeto FX-2, de compra de 36 caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), e de 11 navios de patrulha oceânica para a Marinha, que atuariam na proteção da área do Pré-Sal.

O caça americano F-18 Super Hornet
Comenta-se que, no caso dos caças, o Planalto poderia topar comprar os F-18 Super Hornet americanos em troca da garantia do Congresso de transferência de tecnologia e da queda das barreiras alfandegárias contra a exportação de etanol aos EUA. O fato de a compra dos caças ter passado para o controle do Ministério da Indústria seria uma sinalização dessa estratégia, cujos contornos ainda não estão claros. A conversa de Dilma com o senador John McCain também teria tratado disso. Mas dá pra confiar na boa vontade dos americanos, que jamais, em tempo algum, transferiram tecnologia militar sensível, nem sequer para seus aliados da Otan? Acreditar nisso seria abdicar de nossa estratégia de defesa tão penosamente construída pelo governo Lula. Quem garante que, depois disso, não viriam novas exigências de Tio Sam, como, por exemplo, a assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não-Proliferação Nucler (TNP) em troca, que sabe, de uma cadeira permanente num Conselho de Segurança da ONU devidamente desidratado? Convenhamos, seria muita ingenuidade supor que o Congresso ou o governo dos EUA se disporiam a enfrentar o poderoso lobby dos produtores de etanol americano a dois anos das eleições gerais. Quem se lembra do unilateralismo da proposta da Alca?  

Seria melhor mirarmos-nos no exemplo dos americanos da escola realista, como Theodore Roosevelt - aquele do "fale macio, mas carregue um grande porrete" -, que sempre souberam colocar o interesse nacional acima de qualquer ingenuidade moralista. 
            
"Não estou disposto ao papel que até mesmo Esopo ridicularizou quando escreveu que os lobos e os cordeiros concordaram em desarmar-se. Os cordeiros como prova de boa fé dispensaram os cães de guarda e foram comido pelos lobos [...]


"Ainda não há possibilidade de se estabelecer um poder internacional... efetivamente capaz de enfrentar o mal, e sendo assim é uma tolice, é péssimo para uma nação grande e livre, privar-se do poder de proteger seus próprios direitos [...] Nada ajudaria mais a iniquidade... do que os povos livres e esclarecidos... deliberadamente tornarem-se impotentes, deixando armados despostismos e barbarismos de toda espécie.

[...]

Theodore Roosevelt
"Considero abominável a atitude [...] de confiar em fantásticos tratados de paz, em promessas impossíveis, em todos os tipos de pedaços de papel sem nenhum apoio de força eficaz. É infinitamente melhor para uma nação e para o mundo manter em política externa as tradições de Frederico, o Grande, ou de Bismarck, que adotar a postura de Bryan ou Bryan-Wilson como posição nacional permanente... Uma integridade moral de água com açúcar, desamparada da força, é muitíssimo pior, muito mais nociva, que a força de todo divorciada da boa moral."

domingo, 23 de janeiro de 2011

RÉQUIEM PARA UM PARTIDO

Antônio Gramsci
Em janeiro comemoram-se os 120 anos de nascimento de Antônio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano (PCI),  pensador e dirigente marxista original e fecundo; e os 90 anos de fundação do PCI, que chegou a ser o maior partido comunista do Ocidente - o que assustava Washington - e o mais independente da "linha justa" soviética - o que incomodava Moscou. Gramsci foi um dos primeiros a perceber a originalidade da Revolução Bolchevique de 1917 ao escrever que ela era uma "revolução contra O Capital" de Karl Marx - uma crítica aos marxistas ortodoxos que, fazendo uma leitura dogmática da obra do pensador alemão, diziam que uma revolução socialista só poderia ocorrer em países capitalistas economicamente avançados. Mas, fundamentalmente, Gramsci percebeu que, nas sociedades ocidentais, uma transformação socialista só seria possível com uma estratégia totalmente diferente daquela utilizada pelos bolcheviques na Rússia: lá, o Estado era forte e a sociedade civil, gelatinosa; então, impunha-se uma "guerra de movimento"; em outras palavras, o assalto violento ao poder. No Ocidente, ao contrário, havia uma vigorosa sociedade civil e o Estado era mais poroso; fazia-se necessário, então, travar uma "guerra de posições" - construir consensos para se estabelecer a hegemonia ideológica das classes subalternas na sociedade civil antes de se lançar à conquista do poder político. Uma formulação que soava quase como uma subversão dos cânones marxistas-leninistas emanados de Moscou, mas que depois se mostrou muito mais eficaz para as lutas operárias no contexto europeu ocidental do que as teses economicistas da III Internacional. Aprisionado pelo fascismo, Gramsci amargou nove anos no cárcere, onde aprofundou suas reflexões teóricas ("Cadernos do Cárcere") e morreu logo depois de ter sido libertado, em 1937. Não fosse por isso, certamente ele teria sido uma das vítimas dos expurgos stalinistas.

Apesar de inúmeras contradições e desvios, o PCI se mostrou um verdadeiro herdeiro das ideias gramscianas; ele foi fundamental na articulação da resistência ao fascismo e tornou-se um grande partido de massas depois da guerra. Por duas vezes - 1948 e 1976 - o PCI deixou Washington de orelhas em pé ao ficar muito próximo de conquistar o poder na Itália pela via democrática. Policamente, evoluiu do "policentrismo" de Palmiro Togliatti (um stalinista reciclado) ao Eurocomunismo de Enrico Berlinguer, que consagrou a ideia de "democracia como valor universal" e não apenas como tática para se chegar ao poder. Nesse período, seus teóricos travaram um vibrante diálogo com o filósofo político socialista Norberto Bobbio.  
Em 1991, sob o impacto da implosão do bloco soviético - do qual já mantinha considerável distância - o PCI cometeu um harakiri político e virou Partido Democrático de Esquerda. De lá para cá só perdeu força e identidade: uniu-se ao que restou da Democracia Cristã e hoje é uma pálida sombra de seu passado. O PCI descreveu à perfeição a trajetória do transformismo, conceito cunhado por Gramsci para analisar a coptação de organizações radicais pelas classes dominantes.   

Exposição em Roma sobre a história do PCI

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A JUDICIALIZAÇÃO DA POLÍTICA

Há cerca de 20 anos assistimos, nas democracias ocidentais, a um deslocamento da cidadania cívica para uma espécie de "cidadania jurídica". O fortalecimento do mercado acentuou a crise de representação política, propiciando um crescimento do papel do Poder Judiciário - fenômeno que alguns estudiosos classificaram como "judicialização da política".

Para o francês Antoine Garapon, o enfraquecimento dos poderes Legislativo e Executivo faz da Justiça "o último refúgio de um ideal democrático desencantado" e o sucesso da Justiça nas sociedades contemporâneas é inversamente proporcional ao descrédito das instituições políticas clássicas. Já Andreas Kalyvas afirma sem rodeios que existe uma tendência autoritária nesse processo em que o "liberalismo legal" dá lugar à soberania popular. Na medida em que o Judiciário cumpre papéis antes destinados ao Executivo e ao Legislativo, ocorre uma concentração de poder neste último, composto de magistrados não-eleitos. O novo paradigma é dado pelos Estados Unidos e ele cita como exemplos a tentativa de impeachment do presidente Bill Clinton em 1997-98, em que o Partido Republicano transformou supostos "vícios privados" do mandatário em crimes públicos, na tentativa de subverter o princípio da legitimidade popular. Na sequência, a Suprema Corte americana decidiu o resultado das eleições presidenciais de 2000 contrariando a vontade popular, num verdadeiro golpe legal. Tudo isso foi feito aplicando-se o sistema legal estabelecido, o que demonstraria que um Estado de Direito pode fazer da legalidade um instrumento contra a legitimidade democrática onde a Constituição volta-se contra a soberania popular; a "norma abstrata contra a vontade popular, a lei contra sua fonte simbólica instituinte: o povo". Trata-se de uma distopia que nem George Orwell, Yevgeny Zamyatin ou Aldous Huxley poderiam imaginar. 
   

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

UM DIA MUITO ESTRANHO


Edgar Allan Poe

Paul Cézanne

O dia 19 de janeiro é uma daquelas datas em que a história se concentra de tal forma que o vulgo passa a acreditar em desígnos e o historiador a falar em "saturação histórica". Neste dia, nasceram o escritor e poeta americano Edgar Allan Poe (1809-1849), precursor da literatura fantástica, de suspense e da ficção científica modernas; o pintor francês Paul Cézanne (1839-1906), que fez a ponte entre o impressionismo e o cubismo;
e a cantora brasileira Nara Leão (1942-1989), a grande musa da Bossa Nova.


Elis Regina

Nara Leão
Mas também nesse dia morreram, tragicamente, a cantora e compositora americana Janis Joplin (1943-1970), símbolo maior da música pop e da contracultura dos anos 1960 no que ela tinha de mais libertária; e Elias Regina (1945-1982), uma das maiores intérpretes da Música Popular Brasileira de todos os tempos.  
Como diria o poeta, Navegar é preciso, viver não é preciso.

Janis Joplin, o símbolo da música pop e da contracultura

Nara Leão, Depoimento

Nara Leão, Joana Francesa

Janis Joplin, Summertime

Janis Joplin, Piece of My Heart

Elis Regina, Me Deixas Louca

Elis Regina, O Bêbado e o Equilibrista


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O ESCÁRNIO A UMA NAÇÃO

Jean-Claude Duvalier à epoca em que era ditador vitalício do Haiti 
Pobre Haiti! Não bastassem a tragédia social (nunca vi país tão miserável), o terremoto, o caos político, o (ou a) cólera e agora a volta desse salteador assassino chamado Jean-Claude Duvalier, conhecido como Baby Doc. Ele foi o herdeiro da tirania cleptomaníaca de seu pai, François Duvalier, o Papa Doc, que instaurou um reino de terror dominado por sua guarda pretoriana, os tontons macoutes (bichos papões na língua créole). Em 1971, com apenas 19 anos, Baby Doc assumiu a presidência vitalícia do Haiti e logo recebeu o apoio da administração Nixon, interessada em prestigiar aliados anticomunistas.

Papa Doc e Baby Doc
Baby Doc sangrou o país até não poder mais, usando todos os meios, legais e ilegais, para enriquecer ainda mais sua família. Beneficiário de monopólios comerciais e do narcotráfico, ele explorava inclusive o tráfico de cadáveres de haitianos para centros médicos estrangeiros. Seu casamento, em 1980, custou a bagatela de US$ 3 milhões (ao câmbio da época), pagos com dinheiro público. Mesmo sem uma oposição organizada, os tontons macoutes torturavam e trucidavam à torto e à direito. Calcula-se que 60 mil pessoas foram assassinadas no Haiti e que cem mil fugiram para o exterior durante o reinado de terror da dinastia Duvalier.

Deposto por um golpe militar em 1986, Jean-Claude Duvalier fugiu com a mulher para a Cote d'Azur, onde viveu nababescamente até que o divórcio o deixou depauperado. Jamais foi incomodado por organismos internacionais como a Interpol, que se mostrou expedita em prender o cineasta Roman Polanski e Julian Assange, o inventor do WikiLeaks.

A violência institucionalizada e a corrupção que levaram ao colapso do Estado haitiano foram em grande parte obra da dinastia Duvalier. Agora, o crápula se hospeda num hotel luxuoso na parte nobre de Port-au-Prince e, embora indiciado por corrupção, está pronto para voltar a ter influência política sobre aquele povo infeliz. Povo que um dia, mais de 200 anos atrás, ousou ser livre (o Haiti fez a primeira rebelião escrava vitoriosa das Américas, com Toussaint L'Overture e Jean-Jacques Dessalines) e paga o preço até hoje de tanta ousadia. Tragédia expressa nos versos de dois grandes poetas haitianos contemporâneos, Rodney Saint Éloi e Emmelie Prophéte: 

"Minha cidade morreu (...)
três palavras por anúncio de uma tragédia: cidade morte súbita. (...)
minha cidade amnésica está morta como ontem, sem história, sem naufrágio, ao pé de um mar agonizante na caligem do vento"
(Rodney Saint Éloi)

________________
"Recorda-te um dia
desta cidade despedaçada
entre o barulho a besteira e a dor.
(...)
A loucura se tornou útil.
Dedicamo-nos a desenhar
portas de saída.” 
(Emmelie Prophéte)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A REVOLUÇÃO SERÁ TWITTADA

O regime do ex-presidente da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali, era o queridinho dos mercados e dos governos da Europa e dos EUA. Queridinho porque, sob uma democracia de fachada, ele acabou com a economia estatizada que herdou do pai da pátria, Habib Bourbigua, e iniciou um processo de privatização selvagem, ao estilo pós-soviético. A família Trabulsi, da mulher de Ben Ali, era uma das grandes beneficiárias da cleptocracia instalada em Túnis, controlando bancos, centros comerciais, cadeias de rádio, concessionárias de automóveis e imóveis. "As grandes empresas passaram para muito poucas mãos, as dos Trabelsi e a de outros grupos próximos à família do presidente e do partido do governo. Expropriaram empresas alegando o interesse nacional para dá-las à família do presidente. Agora estão especulando;compram empresas a baixos preços e as revendem com enormes lucros, mas sem redistribuição, como acontecia antes. [...]", diz uma acadêmica tunisiana ao jornal espanhol El País.

O modelito começou a ruir com a crise de 2008, que impactou violentamente a economia tunisiana, particularmente nos setores de turismo, têxtil e outros com baixo valor agregado. O desemprego chegou a 13% da força de trabalho; mas cerca de 30% dos jovens não encontram emprego; essa porcentagem se eleva a 60% entre os que têm diplomas universitários.

A grande repercussão pela imolação do jovem Mohamed Bouazizi, em protesto por não conseguir renovar o registro de sua banca de frutas, desencadeou a onda de manifestações de jovens, à margem de qualquer organização política. Desacreditados, os partidos de oposição e o sindicato único foram a reboque do movimento. E, desta vez, "a revolução foi Twittada", como disse o professor egípcio Firas Alatraqchi: "O Twitter e o Facebook já eram o meio de contornar a censura, mas isso ganhou uma amplitute inesperada. A informação multiplicou-se. E o extraordinário é que as pessoas que não eram militantes entraram na dança, substituindo a sua foto de perfil no Facebook pela bandeira de luto ou ensanguentada", disse a historiadora Leyla Dakhli, especialista em mídia árabe. Sem as redes sociais, dificilmente o gesto de Bouazizi teria tido tanto impacto. Face ao silêncio da mídia tradicional, internautas postaram no YouTube cenas de policiais disparando contra os estudantes, usaram o Twitter e o Facebook para anunciar novos protestos e denunciar mais mortes. E até a rede Al-Jazira, do Qatar, ajudou a divulgar as imagens da repressão nas mídias sociais, mesmo depois de ter seu escritório fechado em Tunis. 


Fenômeno semelhante de "guerrilha midiática", mas com menor abrangência, já havia ocorrido na Venezuela, quando da tentativa de golpe de Estado em 2002; na Espanha, depois do atentado terrorista pouco antes das eleições de 2004; no Irã, nas eleições de 2009; e no Equador, durante a tentativa de golpe contra Rafael Correa, ano passado. Estaremos diante de um novo paradigma de mobilizações, insurreições e, quiçá, de revoluções?         

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ALTIVEZ BRASILEIRA

Despachos diplomáticos vazados pelo WikiLeaks revelam que em 2005 o governo americano pediu ao governo brasileiro a cabeça do general Augusto Heleno Ribeiro Pereira do comando da Minustah, a força de paz da ONU que atua no Haiti sob a liderança do Brasil. O motivo é que Washington queria que os brasileiros aumentassem o grau de violência contra rebeldes e gangues haitianas em Porto Príncipe. A pressão incluía a ameaça americana de enviar tropas caso o Brasil não se mostrasse "mais firme" na repressão às gangues. "O resultado de ações desse tipo em uma área miserável, superpovoada, com milhares de  crianças e mulheres pelas ruas, era imprevisível. Por isso, eu jamais cedi", declarou o general Heleno à Folha de S. Paulo. O ex-comandante da Minustah também deixou claro que recebeu apoio incondicional do Itamaraty, do Ministério da Defesa e do Exército. 
Perguntinha que não quer calar: alguém imagina que o Brasil teria postura tão altiva se o ocupante do Palácio do Planalto fosse Fernando Henrique Cardoso, cujo governo fazia de tudo para agradar Tio Sam, a ponto de um chanceler brasileiro ter se sujeitado a tirar os sapatos para entrar nos States? Perguntinha que não quer calar II: o que diriam os críticos da política externa de Lula, estes à esquerda, que classificaram a participação do Brasil na Minustah como atitude de subserviência aos interesses americanos?   

O QUE ROUSSEAU E POMBAL TÊM A NOS ENSINAR


Voltaire contra o fatalismo religioso e o conformismo filosófico
 No dia 1º de novembro de 1755, Lisboa foi destruída por um violento terremoto de 9 graus na Escola Richter, seguido por um tsunami e vários incêndios. Cerca de 60 mil pessoas morreram. O terremoto ocorreu no Dia de Todos os Santos e muitas pessoas estavam nas igrejas quando a terra começou a tremer. Por causa disso, a Igreja Católica disseminou a ideia de que, se tal tragédia acontecera, fora porque os lisboetas a mereciam; eles estavam, portanto, pagando pelos seus “pecados”. Contra esse fatalismo reacionário se insurgiu o grande Voltaire, que escreveu um libelo intitulado Poema sobre o Desastre de Lisboa ou exame do axioma “Tudo está bem”. Na verdade, o filósofo iluminista usava o pretexto do terremoto para fustigar tanto seu colega Leibnitz, cujo otimismo filosófico sustentava que a natureza era um Todo harmonioso criado por Deus e que por isso estávamos no melhor dos mundos, quanto a Igreja, para a qual o mal tinha origem não na Providência divina – que era bondosa e perfeita –, mas no homem que, com o pecado original, fizera um mau uso de seu livre-arbítrio e se desviara de Deus. Voltaire diz que o homem, ser racional e sensível, não poderia se calar nem diante do absurdo da “falha” da organização do universo nem da crueldade do Deus cristão. Todo esse horror “é o feito das leis eternas que um Deus livre e bom necessita escolher?” Quanto ao argumento da tragédia como punição pelos pecados, Voltaire pergunta: e as crianças? Que pecado elas cometeram? E por que Lisboa e não Paris ou Londres, certamente tão “devassas” quanto? 
Jean-Jacques Rousseau: o homem é responsável

As diatribes de Voltaire tiveram uma resposta à altura em Jean-Jacques Rousseau, outro expoente do Iluminismo. Em sua Carta sobre a Providência, ele diz que os fenômenos naturais, como os terremotos, maremotos e vulcões, fazem parte da regularidade da natureza, embora o homem muitas vezes não consiga explicá-los nem identificar suas causas. Se para Voltaire Deus não se importa muito com o que acontece na Terra com suas criaturas, nem é tão bondoso ou poderoso para evitar tragédias, para Rousseau a Providência divina organizou o Todo da melhor maneira possível. Ela age por leis gerais e não influencia o cotidiano dos homens a cada momento. O filósofo genebrino critica tanto Voltaire, por culpar os céus pelas desgraças do mundo, quanto os devotos, que acham que a Providência se imiscui o tempo todo nos assuntos mundanos.

Mais importante, para Rousseau o mal não provém da natureza, ele nasce da ação humana – aqui ele retoma uma concepção de fundo cristão (agostiniana), mas a laiciza: o mal é perpetrado não por uma desrregulagem das leis naturais, mas pelos conflitos de interesses na vida em comunidade. No caso específico do terremoto de Lisboa, Rousseau diz que a tragédia se agravou por culpa das pessoas que se amontoaram em casas de seis andares, dos gananciosos que tentaram salvar seus bens e principalmente dos “senhores da cidade, os únicos homens que levamos em conta”.

Eu ainda sou mais simpático a Voltaire e à sua crítica ao universo panglossiano de Leibnitz – a “absurdidade” do mundo seria adotada depois pelos filósofos existencialistas, particularmente por Albert Camus –, mas a carta de Rousseau sobre o terremoto abre a possibilidade para uma abordagem moderna do problema, porque coloca as a questão da responsabilidade humana em situação de desastres naturais.

Na catástrofe provocada pelas enchentes no Rio e São Paulo, ouvimos algumas autoridades culparem as chuvas "muito intensas". É uma tragédia anunciada que se repete ano a ano. Como se a natureza fosse culpada pela ocupação desordenada das encostas, pela ausência de políticas públicas e pelo descaso com obras de saneamento e desassoreamento de rios. Como ensinou Rousseau, é o “abuso que fazemos da vida que a torna penosa”. Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal – para quem era necessário “enterrar os mortos e cuidar dos vivos” –, compreendeu isso muito bem no século XVIII e reconstruiu Lisboa de maneira a evitar catástrofes semelhantes no futuro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

SOBRE A "METAFÍSICA MILITAR"


O presidente americano Dwight Eisenhower em 1961
 "Devemos nos guardar contra a influência do complexo militar-industrial. O potencial para o desastroso crescimento de um poder incontrolado existe e persiste. Não devemos nunca deixar o peso dessa combinação ameaçar nossas liberdades ou o processo democrático. E não devemos tomar nada como garantido"
Presidente Eisenhower 

No seu discurso de despedida em 17 de janeiro de 1961, o presidente americano Dwight Eisenhower alertou que a “fusão” dos interesses das Forças Armadas e das grandes corporações – que ele chamou de “complexo militar-industrial” – era uma grave ameaça à democracia. A advertência não vinha de um pacifista babão ou romântico: “Ike” era general do Exército e havia sido comandante-em-chefe das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. Por isso mesmo, ele sabia das conseqüências de uma nova guerra – embora nos oito anos em que passou na Casa Branca (1953-1961) a corrida armamentista só tenha crescido. Em 1952, quando Ike foi eleito, os EUA tinham 1000 ogivas nucleares; em 1961, quando ele passou a tocha para John Kennedy, elas já eram 24 mil – uma prova que o missile gap (déficit de mísseis) americano em relação à União Soviética era uma balela para justificar gastos com a Defesa. O orçamento do Pentágono no governo Eisenhower chegou a 50% dos gastos federais (10% do PIB). Talvez por isso, cinqüenta anos depois a profecia de Eisenhower tornou-se auto-realizável: o orçamento do Pentágono mais que dobrou nos últimos dez anos, atingindo a cifra fabulosa de US$ 700 bilhões/ano e os EUA estão envolvidos em duas guerras (Iraque e Afeganistão). Pior: como na Guerra Fria e na Guerra do Vietnã, as exigências de “segurança nacional” são o pretexto para a violação de direitos humanos. Antes eram o financiamento e/ou a execução de golpes de Estado em países do Terceiro mundo e os bombardeios a civis no Camboja e no Vietnã. Hoje, são as torturas de Abhu Grabi, as prisões de Guantánamo e as ações ilegais contra cidadãos americanos e estrangeiros em nome da "guerra contra o terror".

“Os americanos não tinham intenção de escolher entre canhões e manteiga: eles queriam ambos. O keynesianismo militar – a crença de que a produção de armas poderia subscrever um interminável fornecimento de manteiga – vivia seu apogeu”, escreveu a revista The Atlantic, da Universidade de Columbia. O próprio governo Eisenhower deu ênfase a essa visão, segundo a qual grandes investimentos na defesa funcionariam como um programa de estímulo permanente à economia, como mostrava a experiência da Segunda Guerra Mundial. E, de fato, na década de 1950 se construíam bombardeiros e escolas, frotas de barcos de guerra e casas que se espalhavam pelos subúrbios americanos.

As agências de inteligência americanas
Continua a Atlantic: “Nas cinco décadas desde que Eisenhower deixou a Casa Branca [...] muita coisa mudou. A União Soviética desapareceu – como também o comunismo, ao menos para efeitos práticos. Mas em Washington, continua a prevalecer uma aura de ‘crise que nunca termina’ – a metafísica militar. O Estado de segurança nacional continua a crescer em tamanho, escopo e influência. Nos dias de ‘Ike’, por exemplo, a CIA dominava do campo da inteligência. Hoje, especialistas se referem à ‘comunidade de inteligência’ que consiste de 17 agências. [...] Em julho, o jornal Washington Post afirmou que essa comunidade ‘se tornou tão grande, tão pesada e tão secreta que ninguém sabe quanto ela custa, quantas pessoas ela emprega, quantos programas existem ou exatamente quantas agências fazem o mesmo trabalho’. Depois da reportagem, funcionários rasgaram o véu do segredo e revelaram que os gastos com a inteligência superam US$ 80 bilhões ao ano, substancialmente maiores do que o orçamento do Departamento de Estado (US$ 49 bilhões) e o do Departamento de Segurança Interna (US$ 43 bilhões).”


Um F-18 Hornet sobrevoa o porta-aviões USS Nimitz
 “Na época de Ike, a competição com a União Soviética fornecia a rationale para grandes gastos com a defesa. Hoje, com nenhum inimigo remotamente comparável à mão, os devotos da metafísica militar conjuram uma variedade de argumentos para justificar as demandas orçamentárias do Pentágono. Um deles, geralmente de olho na China, é que o gasto excessivo em defesa irá dissuadir qualquer candidato a concorrer com o predomínio dos EUA. Um segundo argumento transforma modestas ameaças em ameaças existenciais, com a mera existência de Mahmoud Ahmadinejad ou Obama Bin Laden, obrigando a esforços extraordinários até que os EUA eliminem o último meliante – um dia que nunca chega.”

[...]

Crise econômica implodiu o chamado "keynesianismo militar" 
"E com qual resultado? Não há paz nem prosperidade. Em vez disso, soldados americanos vagam exaustos de um conflito a outro enquanto a nação como um todo sofre com a aguda crise econômica. O que deu errado? No rastro de 11 de setembro, quando a administração George W. Bush levou os EUA a realizarem a guerra global ao terror, havia plena confiança de que os militares americanos poderiam ganhar o conflito facilmente. Eventos como Iraque e Afeganistão destruíram tal expectativa. A irrefutável lição da última década é essa: nós sabemos como começar as guerras, mas não sabemos como terminá-las. Durante a bem-armada era Eisenhower, as armas americanas ficaram praticamente em silêncio. Hoje, o engajamento em hostilidades tornou-se o padrão de normalidade, exigindo um preço exorbitante. As guerras do Iraque e do Afeganistão custaram pelo menos US$ 1 trilhão – e o medidor continua funcionando.”

[...]

“Além disso, o keynesianismo militar revelou-se um fracasso. Em contraste com os anos 1950, a extravagância militar está esgotando em vez de aumentar a riqueza da nação. Na era Eisenhower, os Estados Unidos, uma nação credora, produzia domesticamente os bens essenciais que definiam o american way of life – tudo desde carros a televisores. Hoje, nós importamos muito mais do que exportamos, com uma dívida crescente como resultado. Nos anos 1950 nós tínhamos mais paz; hoje nós estamos frequentemente em guerra.”

“Graças aos seus aliados e cúmplices, o complexo militar-industrial-legislativo de guerra continua teimosamente resistente à mudança – um fato o presidente Barack Obama se aprendeu durante seu primeiro ano no cargo. Ao analisar a política de seu governo no Afeganistão, o presidente pediu várias vezes uma série de alternativas políticas. Ele queria opções. De acordo com Bob Woodward, do Washington Post, no entanto, o Pentágono ofereceu a Obama um único caminho – o aumento de tropas pedido por McChrystal. Como relatado no livro de Woodward, Obama’s War, o presidente queixou-se: “Então, qual é a minha opção? Você me deu apenas uma opção?”

[...]

“Ike dificilmente seria surpreendido – ele reservaria seu desapontamento para o povo americano. Meio século depois de ele nos ter chamado a assumir as responsabilidades da cidadania, nós ainda nos recusamos a fazê-lo. E, em Washington, a metafísica militar continua sacrossanta [...].”

Discurso do presidente Eisenhower 17/01/1961
http://www.youtube.com/watch?v=8y06NSBBRtY