quarta-feira, 31 de agosto de 2011

UM HOMEM MUITO À FRENTE DE SEU TEMPO

Êta mês de efemérides! Francisco Clementino de San Tiago Dantas, um dos grandes pilares do governo João Goulart, faria cem anos neste dia 30 de agosto. Integralista na juventude, ele se afastou de suas origens e virou assessor pessoal de Getúlio Vargas durante o seu segundo governo (1951-1954), participando da discussão da criação da Petrobras e da Rede Ferroviária Federal. Em 1958 elegeu-se deputado federal por Minas Gerais pelo Partido Trabalhista Brasileiro (o PTB de Getúlio, Jango e Brizola, não essa legenda de aluguel de hoje).

Nomeado embaixador do Brasil na ONU pelo presidente Jânio Quadros em 22 de agosto de 1961, San Tiago Dantas não chegou a assumir o cargo em virtude da renúncia do presidente. A crise que se seguiu à renúncia foi controlada com a instalação do parlamentarismo. San Tiago Dantas foi escolhido para a pasta das Relações Exteriores do gabinete do premiê Tancredo Neves (PSD).

Seguidor da chamada “politica externa independente”, iniciada no governo Quadros – curiosamente sob a batuta do udenista Afonso Arinos –, San Tiago Dantas promoveu o reatamento das relações com a União Soviética. Na reunião de chanceleres dos países americanos de janeiro de 1962, em Punta del Este (Uruguai), discordou da posição de Washington, que exigia a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em março, San Tiago Dantas chefiou a delegação brasileira enviada a Genebra para participar da Conferência de Desarmamento, onde o Brasil se definiu como “potência não-alinhada”. Deixou o ministério em junho, para poder disputar um novo mandato na Câmara. Ainda em junho, Tancredo Neves renunciou e Goulart encaminhou ao Congresso o nome de San Tiago Dantas para substituí-lo. Como ele era apoiado pelos setores nacionalistas e de esquerda do Parlamento e pelos sindicatos, as forças reacionárias vetaram sua indicação. Em outubro de 1962, foi reeleito deputado federal.

Tancredo Neves (à esq.)  e San Tiago Dantas
Em janeiro de 1963, um consulta popular determinou por larga margem de votos o retorno ao regime presidencialista. João Goulart formou um novo ministério e San Tiago Dantas assumiu a pasta da Fazenda, comprometendo-se com um programa de austeridade econômica baseado no Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, de autoria de Celso Furtado, ministro extraordinário para o Planejamento. O plano previa a retomada de um índice de crescimento econômico em torno de 7% ao ano e a redução da taxa de inflação -que em 1962 chegara a 52% - para 10% em 1965. Logo após sua posse no ministério, San Tiago Dantas tomou medidas voltadas para a estabilização da moeda e aboliu os subsídios para as importações de trigo e de petróleo a fim de aliviar a situação do balanço de pagamentos, conforme exigência do Fundo Monetário Internacional. Em março, viajou para os EUA para discutir a ajuda norte-americana ao Brasil e a renegociação da dívida externa.

Em meio à crescente polarização entre conservadores e reformistas, San Tiago Dantas fez um pronunciamento pela televisão em abril, apontando a existência de duas esquerdas: a “positiva”, onde ele mesmo se inseria; e a “negativa”, formada por radicais como Brizola, as Ligas Camponesas e o PCB. Diante das dificuldades encontradas na aplicação do Plano Trienal, Goulart mudou mais uma vez seu ministério, do qual saíram Celso Furtado e San Tiago Dantas.

Quando San Tiago Dantas reassumiu seu mandato na Câmara, setores militares, políticos e empresariais já se organizavam para depor Goulart. A pedido do presidente, ele começou a articular as correntes políticas próximas do governo com o objetivo de evitar o golpe. Em janeiro de 1964, concluiu a elaboração de um programa mínimo voltado para a formação de um governo de frente única, que incluiria desde o PSD até o Partido Comunista Brasileiro. Entretanto, o PSD e a Frente de Mobilização Popular (FMP), liderada por Brizola, manifestaram-se contra. A FMP acusava Goulart de conciliar com grupos contrários às reformas de base e só passou apoiar a formação da frente única quando o golpe militar era iminente. Significativamente, ele morreu em 6 de setembro de 1964, meses depois do golpe militar de derrubou Goulart e instalou a ditadura militar no país
(informações retiradas do site do CPDOC/FGV)Num discurso pronunciado em 1963, quando recebeu o título “Homem do Ano” da revista Visão, San Tiago Dantas definiu seu projeto político:

“a) a certeza de que a sobrevivência da democracia e da liberdade, no mundo moderno, depende de nossa capacidade de estendermos a todo o povo, e não de forma potencial, mas efetiva, os benefícios hoje reservados a uma classe dominante, dessa liberdade e da própria civilização;

b) a certeza de que a continuidade da civilização, com o seu resultado final que é a reconciliação dos homens, depende da nossa capacidade de preservar a paz, substituindo a competição militar entre os povos por técnicas cada vez mais estáveis de cooperação e de convivência, e caminhando para uma integração econômica que nivele as oportunidades, com a rápida eliminação dos resíduos do imperialismo e das rivalidades nacionais.”


Que San Tiago Dantas seja pouquíssimo conhecido e estudado no Brasil de hoje é um dos legados da miséria cultural da ditadura.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

POR QUE NÃO ME UFANO DA GLOBALIZAÇÃO


A primeira bandeira da República das oligarquias
Falar mal do Brasil é o esporte nacional das nossas "elites" - na verdade, nossas oligarquias. É o velho complexo de vira-latas que elas nutrem em relação ao país e, principalmente, ao seu povo desde sempre e o transmitem às classes médias. Para eles, somos o atraso e o subdesenvolvimento; bom mesmo só o que vem do "primeiro mundo", o que é globalizado, "cosmopolita" e pós-moderno. A classe média que lê a Veja é inocente útil, mas as oligarquias sabem muito bem que interesses defendem. Aqui, dois exemplos da ação das grandes corporações em países emergentes como o Brasil - coisas que a grande mídia, em sintonia com a oligarquia, costuma ignorar:     

Prêmio Nobel denuncia laboratórios farmacêuticos por bloqueio de pesquisas


O pesquisador norte-americano denuncia que os laboratórios só investem em medicamentos que são necessários para a vida toda

Thomas Steitz, Prêmio Nobel de Química de 2009
 (Fonte: Redação de La Vanguardia, de 29.08.2011)

Prêmio Nobel de Química de 2009, o norte-americano Thomas Steitz disse que os grandes laboratórios farmacêuticos não investem na pesquisa de antibióticos que possam curar definitivamente e que, ao contrário, preferem centrar seus negócios em medicamentos que seja necessário tomar durante toda a vida.


“Muitas das grandes indústrias farmacêuticas fecharam suas pesquisas sobre antibióticos, porque eles curam as pessoas e o que estas empresas querem é um fármaco que se tenha que tomar a vida toda. Eu posso parecer cínico, mas as farmacêuticas não querem que as pessoas se curem”, disse Steitz.


Pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes da Universidade de Yale, Steitz averiguou o funcionamento que deveria ter um novo antibiótico para combater certas cepas resistentes à tuberculose, que surgem sobretudo no sul da África. O desenvolvimento desse medicamento precisa de grandes investimentos e da colaboração dos laboratórios para avançar na pesquisa. “Fica muito difícil encontrar um laboratório interessado em trabalhar conosco porque, para essas empresas, vender antibióticos em países como a África do Sul não gera apenas dinheiro”, lamentou. “Elas preferem investir em medicamentos para a vida toda”.


Por enquanto, segundo Steitz, estes novos antibióticos são “só um sonho, uma esperança, até que alguém esteja disposto a financiar o trabalho”.

Steitz pede que os países invistam mais na pesquisa científica. No caso dos antibióticos, a resistência das bactérias a eles tornará necessário continuar pesquisando “indefinidamente”.


Steitz conseguiu revelar como funciona o ribossomo, a parte da célula encarregada de fabricar proteínas a partir dos aminoácidos, o que lhe valeu o Prêmio Nobel, junto com os colegas Ada E. Yonath e Venkatraman Ramakrishnan.


Essa descoberta abriu uma nova linha de pesquisa em antibióticos, ao dar a conhecer o mecanismo pelo qual as bactérias se tornam resistentes a eles.


Suas pesquisas se centram agora em determinar as regiões do ribossomo para as quais dirigir e fixar os antibióticos, ou seja, os pontos chave em que o medicamento seria mais eficaz.


Atualmente, além da tuberculose, o laboratório de Steitz trabalha em vários compostos para combater cepas resistentes da pneumonia e o estafilococo áureo resistente à meticilina, que causa mais mortes que o HIV em alguns países, como os EUA.

_____________________________________


Filme do cineasta Silvio Tendler, que mostra o cenário assustador que se encontra o país em relação ao uso indiscriminado de agrotóxicos.

O Brasil é o país que mais pulveriza agrotóxicos nos alimentos. É recordista em consumo desses químicos. Um brasileiro consome em média 5,2 litros de agrotóxicos anuais. Os agrotóxicos provocam uma série de problemas de saúde, desde lapso de memória em crianças até má formação dos fetos. E, apesar de o governo tentar proibir uso de muitos químicos, a justiça concede liminares a favor das grandes corporações químicas.

Para conseguir crédito junto aos bancos, o pequeno produtor é obrigado a usar transgênicos e pesticidas. Doenças provocadas por esses químicos nos trabalhadores do campo consomem 1,8% do PIB em tratamentos médicos. (do site docverdade.blogspot.com)




sábado, 27 de agosto de 2011

A GRANDE TRAGÉDIA - ATO II - A "FINEST HOUR" DE BRIZOLA


O governador Brizola comanda a resistência
Com a renúncia de Jânio Quadros, os ministros militares - marechal Odilo Denys (Guerra) brigadeiro Grün Moss (Aeronáutica) e almirante Sílvio Heck (Marinha)- se opuseram à posse do vice-presidente constitucional, João Goulart, do PTB, sob a alegação de que ele era “comunista”. Jango fora eleito com Jânio porque, à época, a legislação permitia a eleição de presidente e vice-presidente de coligações diferentes.


Mas o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, insistiu na necessidade de se cumprir a Constituição a qualquer custo. Entrincheirou-se no Palácio do Piratini (sede do governo gaúcho) e, em 27 de agosto de 1961, requisitou os transmissores da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, e formou a “Cadeia da Legalidade”, uma rede de rádios gaúchas que, a partir do porão do Palácio, conclamava o povo a ir às ruas a fim de dar o seu apoio à normalidade constitucional. De Porto Alegre, através das ondas médias e curtas do rádio, Brizola fazia pronunciamentos a todo país, conclamando o povo a defender a legalidade. Em seguida, as demais emissoras de Porto Alegre e as emissores do interior do Estado, uniram-se à Guaíba, formando a grande Rede da Legalidade, que chegou a ter 104 emissoras em cadeia em todo o país.

Brizola no Palácio
As tropas da Brigada Militar – a Polícia Militar gaúcha – foram colocadas em estado de alerta para defender o Palácio e armou-se o clima de guerra civil. O Brasil dividiu-se; de um lado estavam os legalistas, mobilizados por Brizola e apoiados por parte considerável da sociedade civil; do outro, os golpistas militares e seus aliados na UDN. Os ministros militares ordenaram às tropas federais que invadissem o Rio Grande do Sul; houve deslocamento de tropas e navios de guerra e até uma tentativa de bombardear o palácio, que foi abortada por sargentos da Base Aérea de Porto Alegre.

Brizola e o general Machadco Lopes, do III Exército
O general Machado Lopes, comandante do III Exército, com controle sobre os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, recusou-se a obedecer às ordens do marechal Denys e declarou seu apoio ao movimento da legalidade. Seu gesto provocou um racha nas Forças Armadas e foi decisivo para o fracasso da tentativa golpista, pois à época o III Exército era a tropa mais poderosa do Brasil. O governador de Goiás, Mauro Borges, também aderiu ao movimento e mobilizou o estado em defesa da legalidade. As tropas federais ocuparam Anápolis, a 48 km de Goiânia.

Enquanto isso, no Congresso, políticos se mobilizavam para debelar a crise. Entre eles, estava Tancredo Neves, hábil parlamentar mineiro que tinha livre trânsito entre as partes conflitantes. Ele tinha sido ministro da Justiça de Getúlio Vargas, em 1954 e, embora conservador, era comprometido com a democracia. Chegou-se a um consenso para garantir a posse de Jango e “salvar a honra” dos golpistas com a aprovação do parlamentarismo, que reduzia os poderes do presidente.

Por meio da emenda constitucional nº 4, aprovada em 2 de setembro de 1961, alterava-se o regime republicano brasileiro. João Goulart foi informado que poderia ser empossado desde que aceitasse dividir o poder executivo com um primeiro-ministro indicado pelo Congresso.

Jango toma posse
O vice-presidente, que estava retornando ao Brasil via Uruguai, concordou com a proposta para evitar derramamento de sangue. Voou então de Porto Alegre para Brasília para assumir um cargo com poderes reduzidos. Tomou posse no Congresso Nacional no dia 7 de setembro de 1961. Tancredo Neves foi seu primeiro primeiro-ministro. O parlamentarismo seria derrubado em 1963, por meio de um plebiscito.

A Cadeia da Legalidade foi um dos momentos mais dramáticos e mais belos da resistência democrática no Brasil. Estranhamente, o movimento é completamente ignorado pela grande mídia – certamente por causa do protagonismo de Leonel Brizola. Esta foi, sem dúvida, sua finest hour.





quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A GRANDE TRAGÉDIA - ATO I

Hoje completam-se 50 anos da renúncia de Jânio da Silva Quadros à Presidência da República, ocorrida sete meses depois de ele tomar posse e sete anos depois do suicídio de Getúlio Vargas. E, para quem aprecia a Cabala, a renúncia abriu uma crise institucional que desembocaria, sete anos depois, no Ato Institucional nº 5, o “golpe dentro do golpe”.

Eleito por uma coalizão liderada pela UDN, Jânio teve a maior votação já obtida por um candidato a presidente até então (6 milhões de votos). Em apenas 13 anos, ele ocupara os cargos de vereador, deputado federal, prefeito de São Paulo, governador do estado e presidente. Sua eleição ao Planalto ocorreu na sequência dos anos de euforia de JK, quando o país estava confiante em seu futuro. Na posse, Jânio pintou um quadro desastroso das finanças públicas. Mas sua política errática – conservadora e alinhada ao FMI no plano interno e voltada ao bloco socialista e não-alinhado na política externa – desconcertou tanto aliados quanto inimigos. Em pouco tempo, Jânio Quadros estava em guerra com o Congresso e com o mentor de sua candidatura, o golpista-mór Carlos Lacerda.

Em depoimento ao neto John, pouco antes de morrer, Jânio confirma o que já se suspeitava: a renúncia foi uma tentativa de voltar “nos braços do povo” com mais poderes – um golpe de Estado. Abaixo, as declarações do próprio Jânio sobre a renúncia ao neto, publicadas em 1996 no livro Memorial à História do Brasil, inacreditavelmente ignorado pela mídia:

“Quando assumi a presidência, eu não sabia da verdadeira situação político-econômica do País. A minha renúncia era para ter sido uma articulação: nunca imaginei que ela seria de fato aceita e executada. Renunciei à minha candidatura à presidência, em 1960. A renúncia não foi aceita. Voltei com mais fôlego e força. Meu ato de 25 de agosto de 1961 foi uma estratégia política que não deu certo, uma tentativa de governabilidade. Também foi o maior fracasso político da história republicana do país, o maior erro que cometi (…). Tudo foi muito bem planejado e organizado. Eu mandei João Goulart (vice-presidente) em missão oficial à China, no lugar mais longe possível. Assim, ele não estaria no Brasil para assumir ou fazer articulações políticas. Escrevi a carta da renúncia no dia 19 de agosto e entreguei ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, no dia 22. Eu acreditava que não haveria ninguém para assumir a presidência. Pensei que os militares, os governadores e, principalmente, o povo nunca aceitariam a minha renúncia e exigiriam que eu ficasse no poder. Jango era, na época, semelhante a Lula: completamente inaceitável para a elite. Achei que era impossível que ele assumisse, porque todos iriam implorar para que eu ficasse (…). Renunciei no Dia do Soldado porque quis sensibilizar os militares e conseguir o apoio das Forças Armadas. Era para ter criado um certo clima político. Imaginei que, em primeiro lugar, o povo iria às ruas, seguido pelos militares. Os dois me chamariam de volta. Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26. Achei que voltaria de Santos para Brasília na glória. Ao renunciar, pedi um voto de confiança à minha permanência no poder. Isso é feito frequentemente pelos primeiros-ministros na Inglaterra. Fui reprovado.O país pagou um preço muito alto. Deu tudo errado’’.

Há tempos, o jornalista Geneton de Moraes Neto postou em seu blog um ácido comentário sobre a cochilada dos editores da grande mídia em relação às revelações contidas no livro:

“A mais sincera confissão já feita por Jânio Quadros sobre os reais motivos que o levaram a renunciar à Presidência da Republica no dia 25 de agosto de 1961 somente foi publicada em 1995, em escassas sete páginas de um calhamaço lançado por uma editora desconhecida de São Paulo em louvor ao ex-presidente.

[...]

Jânio morreria no dia 16 de fevereiro de 1992, aos 75 anos de idade. O neto fez segredo sobre o que ouviu. Somente publicou as palavras do avô quatro anos depois. Ao contrário do que fazia diante dos jornalistas – a quem respondia com frases grandiloqüentes, mas pouco objetivas sobre a renúncia – Jânio Quadros disse ao neto, sem rodeios e sem meias palavras, que renunciou simplesmente porque tinha certeza de que o povo, os militares e os governadores o levariam de volta ao poder. Não levaram.


Talvez porque já pressentisse o fim próximo, Jânio admite,diante do neto, pela primeira vez,que a renúncia foi “o maior fracasso político da história republicana do Pais,o maior erro que cometi”.


A já vasta bibliografia sobre a renúncia ganhou, assim, um acréscimo fundamental, feito pelo próprio Jânio – a única pessoa que poderia explicar o enigma. Desta vez, a explicação parece clara.


Um detalhe inacreditável – que revela como as redações brasileiras são povoadas por uma incrível quantidade de burocratas que vivem assassinando o jornalismo: a confissão final de Jânio mereceu destaque zero nas páginas da imprensa brasileira, o que é estranho, além de lamentável.


A imprensa – que passou três décadas perguntando a Jânio Quadros por que é que ele renunciou – resolve deixar passar em brancas nuvens a confissão final do ex-presidente sobre a renúncia, acontecimento fundamental na historia recente do Brasil.


Tamanha desatenção parece ser um subproduto típico de uma doença facilmente detectável nas redações – a Síndrome da Frigidez Editorial. Joga-se notícia no lixo como quem se descarta de um copo de papel sujo de café . Leigos na profissão podem estranhar, mas a verdade é que há notícias que precisam enfrentar uma corrida de obstáculos dentro das próprias redações, antes de merecerem a graça suprema de serem publicadas! Isto não tem absolutamente nada a ver com disponibilidade de espaço, mas com competência, faro jornalístico.


Se a última palavra do um presidente sobre um fato importantíssimo não merece uma linha sequer em jornais e revistas que passaram anos e anos falando sobre a renúncia, então há qualquer coisa de podre no Reino de Gutenberg. Quem paga a conta, obviamente, é o leitor, a quem se sonegam informações.


O caso da confissão de Jânio sobre a renúncia é exemplar: a informação fica restrita aos magros três mil exemplares do livro do neto. E os milhares,milhares e milhares de leitores de jornais e revistas, onde ficam ? A ver navios. É como dizia o velho Paulo Francis: “Nossa imprensa: previsível, empolada, chata. Como é chata, meu Deus!”.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

GIAP FAZ CEM ANOS

O general vietnamita Võ Nguyên Giáp completa 100 anos neste dia 25 de agosto. Filho de camponeses e ex-professor de História, ele se tornaria um dos maiores gênios militares de todos os tempos ao liderar seus compatriotas em guerras contra os franceses e depois os americanos – sem falar nas derrotas que ele impôs aos chineses e cambojanos em 1979.

Sua carreira militar começa em 1939, quando Giáp foge com Ho Chi Minh para a China para participar de treinamento guerrilheiro. Quang Thai, sua mulher tailandesa e também comumista, é presa no Vietnã em 1943 pela Segunda Seção da Sûreté, braço do serviço secreto francês encarregado de reprimir os revolucionários, sendo torturada até a morte.

No início dos anos 1940, Giáp atua como conselheiro de Ho em operações de guerrilha. À época, o Vietnã e a China estavam sob ocupação japonesa. Em 1941, Giáp participa da fundação da Liga Vietnamita para a Independência (Viet Minh). Quando os japoneses se rendem em 1945, Ho Chi Minh, declara a independência do Vietnã em Hanói. Giáp é nomeado Ministro da Defesa e comandante do Exército. Mas em 1947 a França reocupa a Indochina e os comunistas se internam na selva, iniciando uma guerra de guerrilhas que se estenderá até 1954.

Vitória vietnamita em Diên Biên Phú, 1954

A batalha final contra os franceses ocorre na fortaleza de Diên Biên Phú, em 1954. Os franceses, superiores em homens e armas, deslocam tropas paraquedistas da Legião Estrangeira atrás das posições inimigas, concentrando-as em grandes linhas ao redor da fortaleza para forçar os vietnamitas a um confronto direto. Giáp monta uma operação de cerco mobilizando milhares de civis que, por dentro das picadas da floresta fechada, a pé ou com bicicletas, trazem todo o equipamento de artilharia necessário para contrabalançar o poderio francês.


Em decorrência da derrota francesa, o Vietnã é dividido, com o norte governado pelos comunistas liderados por Ho Chi Minh e o sul um governo vinculado aos Estados Unidos. Hanói organiza um movimento guerrilheiro no sul, o Vietcong, e os norte-americanos passam a dar apoio militar e financeiro ao governo sul-vietnamita. Os EUA acabam se envolvendo diretamente a partir de 1964 e chegam a enviar 500 mil soldados para lutar contra o Exército norte-vietnamita e o Vietcong.

Ofensiva norte-vietnamita do Tet, 1968
As forças lideradas por Giáp enfrentam o mais poderoso Exército da terra com uma desgastante guerra de guerrilhas. Na Ofensiva do Tet, em 1968, norte-vietnamitas e vietgongs chegam a combater nas ruas de Saigon, capital do Vietnã do Sul. Os EUA perdem 58 mil sldados e os vietnamitas, 4 milhões, entre civis e militares. Os norte-americanos deixam o país em 1973; dois anos depois, os norte-vietnamitas derrubam o governo fantoche do general Van Thieu e unificam o país. Giáp se torna ministro da Defesa e brevemente primeiro-ministro.


Ele enfrentaria ainda dois outros países: em 1979, tropas vietnamitas invadem o Camboja e depõem o regime do Khmer Vermelho; em represália, a China invade o Vietnã, mas se retira “estrategicamente” logo depois.


Giáp retira-se das funções públicas em 1991. Ultimamente, o veterano líder militar abraçou causas ecológicas ao se tornar um crítico da mineiração de bauxita no país, alegando que estudos dos anos 1980 apontam essa exploração como ambientalmente danosa.








terça-feira, 23 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AGOSTO - MÊS DO DESGOSTO?

Agosto sempre foi um mês aziago para a política brasileira. As maiores tragédias nacionais ocorreram neste fatídico mês. Tá certo, outros episódios mais trágicos, como o início da I Guerra Mundial e as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, também foram paridos em agosto. Mas o número de crises e tragédias ocorridas aqui neste mês impressiona:  

5 de agosto de 1954 – Atentado contra o deputado Carlos Lacerda, líder da oposição a Getúlio Vargas, na rua Tonelero, mata um oficial da Aeronáutica e desencadeia uma campanha pelo afastamento do presidente.



24 de agosto de 1954 – Pressionado pela oposição udenista e pelos militares, o presidente Getúlio Vargas suicida-se no Palácio do Catete, provocando imensa comoção popular e adiando em dez anos o golpe da direita cívico-militar.

Jânio passa a tropa em revista em 25 de agosto de 1961


25 de agosto de 1961 – O presidente Jânio Quadros renuncia depois de sete meses de mandato, mergulhando o país numa profunda crise institucional. O gesto foi interpretado como uma maneira de obter poderes especiais para governar acima do Congresso e dos partidos. A oposição das Forças Armadas à posse do vice-presidente constitucional, Jango Goulart, quase leva o país à guerra civil.  

31 de agosto de 1969 – A doença do ditador militar Arthur da Costa e Silva leva os ministros militares a vetar a posse do vice, o civil Pedro Aleixo, até que o Alto Comando do Exército escolhesse um novo general para dirigir a ditadura. 

Acidente mata JK na Presidente Dutra

22 de agosto de 1976 – Morre, em misterioso acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, um dos líderes civis da oposição à ditadura militar.
19 de agosto de 2003 – Em atentado promovido pela insurgência iraquiana morre em Bagdá o embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Melo, chefe do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.  

LÍBIA: ONDE O ESTADO NÃO TEM VEZ

Tribos são a base da organização social do país e da rebelião contra Muammar Gaddafi (*)

Cláudio Camargo

O líder revolucionário russo Vladimir Lênin disse certa vez que há décadas em que nada acontece, mas, em compensação, há semanas ou meses em que os acontecimentos se precipitam de tal maneira que fazem a humanidade avançar décadas. Ele se referia, principalmente, aos eventos de 1917 na Rússia, onde, em poucos meses, foi derrubada uma dinastia com quase 300 anos, os Romanov e, na sequência, estabeleceu-se o primeiro regime socialista da História. A onda revolucionária que está em curso no Oriente Médio se encaixa nessa definição: em poucos dias, as massas da região parecem ter despertado de seu sono secular, derrubando ditadores longa e firmemente estabelecidos na Tunísia e no Egito. E, como um rastilho de pólvora, a rebelião se espalhou pela região, ameaçando as autocracias do Marrocos, Bahrein, Iêmen, Jordânia e Síria, onde a ditadura resiste ferozmente. E na Líbia, onde, depois de meses de uma luta sangrenta que teve uma mãozinha da Otan - afinal, o país é produtor de petróleo -, chegou ao fim o reino de terror de quatro décadas de Muammar Gaddafi.

Muammar Gaddafi

Mas há diferenças profundas entre esses processos. Tanto na Tunísia quanto no Egito, o Exército teve papel fundamental na queda dos ditadores. Nos dois casos, os comandantes militares se recusaram a reprimir a multidão que saiu às ruas. No Egito, o Exército inclusive assumiu provisoriamente o poder, no lugar do ditador Hosni Mubarak – ele próprio um oficial da Aeronáutica. Em ambos os casos, as Forças Armadas, embora nunca tivessem deixado de ser guardiões dos respectivos regimes, conservaram uma autonomia institucional e um prestígio social que lhes permitiram se distanciar dos governos e garantir a estabilidade política.

Mas na Líbia, o coronel Gaddafi enfrentou defecções nas fileiras militares e teve que recorrer às milícias e a mercenários estrangeiros para tentar conjurar a guerra civil que eclodiu no país. Lá, embora o poder também tenha nascido da ponta do fuzil, o Exército não teve protagonismo.

Parte da explicação está nas características históricas, geográficas e sociais da Líbia. Desde a época do Império Romano, o país está dividido em três regiões distintas: a Cirenaica, a leste, a Tripolitânia, a noroeste, e Fezzan, a sudoeste. A organização social líbia se baseia largamente nas 140 tribos e nos clãs familiares dessas regiões. Historicamente divididas, as tribos da Líbia se uniram militarmente com o colapso do Império Otomano, para enfrentar o invasor italiano, em 1911 e nos anos 1920. Em 1931, o ditador fascista Benito Mussolini esmagou a rebelião e fez da Líbia, manu militari, uma colônia italiana. Nesse conflito contra os italianos, destacou-se Omar Mukhtar, o lendário guerreiro líbio cuja história Hollywood retratou no filme O Leão do Deserto (1981), com Anthony Quinn no papel principal. Com a derrota da Itália na II Guerra, a Cirenaica e a Tripolitânia ficaram com os britânicos e Fezzan com os franceses.

A Líbia conquistou sua independência em 1951, com o rei Idris I como monarca. Ele manteve intacta a estrutura tribal do país, equilibrando-se entre os interesses das tribos para governar. Quando assumiu o poder por meio de um golpe militar em 1969, o coronel Gaddafi tinha uma agenda nacionalista e pan-arabista e, inicialmente, tentou suprimir a divisão tribal. Em pouco tempo, contudo, ele se rendeu a ela. Como o ex-ditador Saddam Hussein, do Iraque, Gaddafi ofereceu privilégios econômicos de um lado e manipulou rivalidades inter-tribais, de outro. Colocou grupos rivais no Exército e nas forças de segurança para se prevenir contra um golpe. “(Gaddafi) preencheu os altos comandos militares com oficiais de sua própria tribo, Gaddafa, ou de tribos leais a ele”, diz o jornalista Ameen Izzadeen, do Daily Mirror de Sri Lanka. Ao mesmo tempo, “ele também fez de suas forças paramilitares organizações mais poderosas do que o Exército, lideradas por homens majoritariamente de sua tribo e de outras tribos leais”. De fato, as forças paramilitares de Gaddafi constituem o principal sustentáculo de seu poder. Elas somam cerca de 10 mil homens bem armados e equipados; a melhor unidade é a 32ª Brigada, conhecida como Brigada Khamis, comandada por Khamis Gaddafi, um dos sete filhos homens do ditador líbio.

Omar Mukhtar, líder da resistência

O coração da rebelião contra Gaddafi é justamente a Cirenaica, a parte Leste da Líbia, região rica em petróleo e onde estão as principais tribos hostis ao ditador – Warfalhah e Zawiya, entre outras. E há um dado que poucos no Ocidente têm prestado atenção: a região também é o berço de organizações islâmicas radicais, como o Grupo Islâmico Líbio de Luta (GILL), que participou de ações ao lado dos mujahedins contra os soviéticos no Afeganistão, nos anos 1980. Muitos jihadistas depois retornaram à Líbia, onde em 1996 tentaram assassinar Gaddafi. Com a violenta repressão que se seguiu, a maioria dos integrantes do grupo fugiu do país; alguns se engajaram na luta contra os americanos no Afeganistão e no Iraque. Considerados terroristas perigosos pelo governo líbio e pelos ocidentais, eles são tidos como herois por muitas tribos da Cirenaica, inclusive pelos Imnifa, à qual pertenceu o líder da resistência contra os italianos, Omar Mukhtar. Seu filho, Mohammed Omar Mukhtar, de 90 anos, diz que se equivocam aqueles que reduzem o conflito na Líbia a apenas uma luta entre tribos. “Ele tem esperança que todas as tribos se unam novamente para derrubar Gaddafi, mostrando a mesma unidade que seu pai forjou para liderar a guerra contra os colonialistas italianos”, diz Ameen Izzadeen.

Elas terão seus sonhos de liberdade traídos pelos jihadistas?

“Há temores de que, ao contrário da Tunísia e no Egito, a rebelião na Líbia possa resultar não apenas na mudança do governante, mas também a mudança do regime e talvez o colapso do Estado”, diz Scott Stewart, analista do site STRATFOR. No Egito e na Tunísia, regimes militares fortes puderam manter a estabilidade depois da saída dos ditadores. “Ao contrário, na Líbia, o líder Muammar Gaddafi manteve deliberadamente os militares e as forças de segurança fraturados e fracos e, dessa forma, dependentes dele. Consequentemente, poderá não haver uma instituição capaz de intervir e substituí-lo se ele vier a cair”. Isso significa que a Líbia, rica em petróleo, “poderá cair na espiral do caos, o ambiente ideal para o florescimento de jihadistas, como foi demonstrado pela Somália e pelo Afeganistão”, conclui Stewart. E pelo Iraque, poderíamos acrescentar.

(*) Adaptação de matéria publicada originalmente no Boletim Mundo

sábado, 20 de agosto de 2011

MAIS "TEORIAS CONSPIRATÓRIAS"


O tanque brasileiro EE-T1 Osório, destruído pelos EUA
O Brasil já produziu e exportou blindados, como o Cascavel e o Urutu, e esteve muito próximo de fazer um dos mais modernos tanques de guerra do mundo, o Osório, mas hoje tem que importar esses equipamentos. Isso ocorreu, entre outras coisas, porque os EUA impediram que a Engesa vendesse 700 desses tanques ao Exército da Arábia Saudita em 1989. E o governo, à época, não moveu uma palha sequer para salvar a Engesa, empresa estratégica para o país. 

O contrato, de US$ 7,2 bilhões, acabou ficando com a General Dynamics, fabricante do tanque M-1A1 Abrams, segundo colocado nas provas de desempenho promovidas pela Arábia Saudita.


A Engesa participou com o EE-T1 Osório, realizando testes no deserto sob temperaturas de 50ºC, contra o americano M-1A1 Abrams, o francês AMX-40 e o britânico Challenger. O tanque brasileiro era o único dos concorrentes que atendia a todas as exigências da licitação, vencendo todas as provas.


De acordo com uma entrevista de um ex-executivo da Engesa ao jornal O Estado de São Paulo em 2002, “as luzes de emergência se acenderam no governo americano. A primeira consequência foi a surpreendente declaração de que a concorrência chegava ao fim com dois produtos possíveis de serem comprados, de acordo com o anúncio feito em Riad pelo ministro da Defesa, príncipe Sultan Azsiz Abdulazis. Essa foi a forma encontrada para ceder às pressões de Washington e manter o M1-A1 no páreo".

O tanque americano M1A1 Abrams, da General Dynamics
A Guerra do Golfo em 1990 serviu de escusa para a Arábia Saudita adiar a decisão sobre a compra dos tanques Osório. E, em novembro daquele ano, o governo saudita anunciou que fecharia o negócio com a General Dynamics americana.
A Engesa apostara todas as suas fichas no desenvolvimento do Osório, cuja venda para a Arábia era tida como certa, contraindo uma dívida de mais de US$ 50 milhões. Como o governo não refinanciou a dívida nem encomendou nenhuma unidade do Osório para Exército Brasileiro, a Engesa fechou as portas. 


Depois disso, o Brasil comprou 87 tanques Leopard lAl da Bélgica e 91 M-60 A3 TTS dos EUA.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

TEORIAS CONSPIRATÓRIAS?

O Nióbio é um metal estratégico, usado na indústria aeroespacial – produção de motores de aviões, equipamentos de foguetes e mísseis – e na indústria nuclear. Suas características de elasticidade e flexibilidade lhe permitem inúmeras aplicações, como aços inoxidáveis e ligas de metais não-ferrosos, destinados a fabricação de tubulações para o transporte de água e petróleo a longas distâncias por ser um poderoso agente anti-corrosivo, resistente aos ácidos mais agressivos.

Os relatórios mais recentes do Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) mostram que o Brasil é dono de 97,9% das reservas mundiais de Nióbio. Cerca de 90% da produção está concentrada em Araxá (MG),e 9% em Catalão (GO). Há reservas na Amazônia, inclusive na Raposa Terra do Sol - onde cerca de 19 mil índios vivem numa reserva de 1,7 milhão de hectares. A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), do grupo Moreira Salles, é o grande explorador do Nióbio em Araxá.

Mineração de Nióbio em Araxá, MG, onde estão 75% das reservas mundiais
Segundo documentos das embaixadas americanas, tornados públicos pelo Wikileaks em 2010, as reservas de Araxá são estratégicas para os EUA - afinal, quase 18% das exportações de ferro-nióbio da CBMM têm como destino a América do Norte. De acordo com as revelações do WikiLeaks, em 2009 o Departamento de Estado americano enviou telegrama às representações diplomáticas do país indicando centenas de instalações, empresas e locais no Brasil considerados “sensíveis” à segurança e à economia dos EUA, entre elas as minas de Nióbio de Araxá e Catalão.

O Brasil é o único fornecedor de 45 países, dos quais os maiores importadores são os EUA, o Canadá, Alemanha, Rússia, Japão, Holanda, França, Taiwan, Venezuela, Suécia, México, Colômbia, Coréia do Sul, Arábia Saudita, África do Sul e Luxemburgo. A indústria ótica japonesa compra muito óxido de Nióbio como matéria-prima usada na confecção de óculos.

O Nióbio é tão indipensável à moderna economia mundial quanto o petróleo. No entanto, o país perde cerca de US$ 14 bilhões por ano vendendo esse minério por um preço que, na mesma proporção, seria como se a Opep vendesse a US$ 1 o barril de petróleo. E, enquanto o petróleo provém de várias fontes, e o Nióbio só existe no Brasil.

Mas mesmo sendo quase o único produtor e exportador mundial de Nióbio, o Brasil não fixa o preço do minério; este é fixado pelos compradores, via a London Metal Exchange. É como se os países da OPEP aceitassem que o preço do barril fosse fixado pela Nymex.


Já foi pior, contudo. Em 1997, FHC tentou vender a jazida de Nióbio de São Gabriel da Cachoeira (AM) por R$ 600 mil, sendo que ela - suficiente para abastecer todo o consumo mundial de Nióbio por cerca de 1.400 anos - foi avaliada pela CPRM em US$ 1 trilhão. A ação foi impedida por um grupo de militares nacionalistas, especialmente o almirante Roberto Gama e Silva.

E, no entanto, não damos quase nenhuma importância a isso.
Porque diabos essas informações raramente saem na grande mídia?

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

KARL MARX ESTAVA CERTO?

Na avaliação de Nouriel Roubini, professor de economia na Universidade de Nova York, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistêmico identificado primeiramente por Karl Marx há um século e meio.

Roubini, que há quatro anos previu a crise financeira global, diz que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx estão se provando verdadeiras na atual crise financeira global.

Joseph Lazzaro - The International Business Time


Há um velho axioma que diz que “sábia é a pessoa que aprecia a sinceridade quase tanto como as boas notícias”, e com ele como guia, situa decididamente o futuro na categoria da sinceridade.


O professor de economia da Universidade de Nova York, doutor Nouriel ‘Dr. Catástrofe’ Roubini disse que, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistêmico identificado primeiramente pelo economista Karl Marx há mais de um século.


Roubini, que há quatro anos previu acuradamente a crise financeira global disse que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx está se provando verdadeira na atual crise financeira global.


A crítica de Marx em vigor, agora


Dentre outras teorias, Marx argumentou que o capitalismo tinha uma contradição interna que, ciclicamente, levaria a crises e isso, no mínimo, faria pressão sobre o sistema econômico. As corporações, disse Roubini, motivam-se pelos custos mínimos, para economizar e fazer caixa, mas isso implica menos dinheiro nas mãos dos empregados, o que significa que eles terão menos dinheiro para gastar, o que repercute na diminuição da receita das companhias.

Agora, na atual crise financeira, os consumidores, além de terem menos dinheiro para gastar devido ao que foi dito acima, também estão motivados a diminuírem os custos, a economizarem e a fazerem caixa, ampliando o efeito de menos dinheiro em circulação, que assim não retornam às companhias.

‘Karl Marx tinha clareza disso’, disse Roubini numa entrevista ao The Wall Street Journal: "Em certa altura o capitalismo pode destruir a si mesmo. Isso porque não se pode perseverar desviando a renda do trabalho para o capital sem haver um excesso de capacidade [de trabalho] e uma falta de demanda agregada. Nós pensamos que o mercado funciona. Ele não está funcionando. O que é racional individualmente ... é um processo autodestrutivo”.

Roubini acrescentou que uma ausência forte, orgânica, de crescimento do PIB – coisa que pode aumentar salários e o gasto dos consumidores – requer um estímulo fiscal amplo, concordando com outro economista de primeira linha, o prêmio Nobel de economia Paul Krugman, em que, no caso dos Estados Unidos, o estímulo fiscal de 786 bilhões de dólares aprovado pelo Congresso em 2009 era pequeno demais para criar uma demanda agregada necessária para alavancar a recuperação da economia ao nível de uma auto expansão sustentável.

Na falta de um estímulo fiscal adicional, ou sem esperar um forte crescimento do PIB, a única solução é uma reestruturação universal da dívida dos bancos, das famílias (essencialmente das economias familiares), e dos governos, disse Roubini. No entanto, não ocorreu tal reestruturação, comentou.


Sem estímulo fiscal adicional, essa falta de reestruturação levou a “economias domésticas zumbis, bancos zumbis e governos zumbis”, disse ele.

O economista norte-americano Nouriel Roubini
Fora o estímulo fiscal ou a reestruturação da dívida, não há boas escolhas

Os Estados Unidos, disse Roubini, podem, em tese: a) crescer ele mesmo por fora do atual problema (mas a economia está crescendo devagar demais, daí a necessidade de mais estímulo fiscal); ou b) retrair-se economicamente, a despeito do mundo (mas se muitas companhias e cidadãos o fizerem junto, o problema identificado por Marx é ampliado); ou c) inflacionar-se (mas isso gera um extenso dano colateral, disse ele).


No entanto, Roubini disse que não pensa que os EUA ou o mundo estão atualmente num ponto em que o capitalismo esteja em autodestruição. “Ainda não chegamos lá”, disse Roubini, mas ele acrescentou que a tendência atual, caso continue, “corre o risco de repetir a segunda etapa da Grande Depressão”—o erro de ‘1937’.

Em 1937, o presidente Franklin D. Roosevelt, apesar do fato de os primeiros quatro anos de massivo incentivo fiscal do New Deal ter reduzido o desemprego nos EUA, de um cambaleante 20,6% na administração Hoover no começo da Grande Depressão, a 9,1%, foi pressionado pelos republicanos congressistas – como o atual presidente Barack Obama fez com o Tea Party, que pautou a bancada republicana no congresso em 2011 – , rendeu-se aos conservadores e cortou gastos do governo em 1937. O resultado? O desemprego estadunidense começou o ano de 1938 subindo de novo, e bateu a casa dos 12,5%.

Cortar os gastos do governo prematuramente feriu a economia dos EUA em 1937, ao reduzir a demanda, e Roubini vê o mesmo padrão ocorrendo hoje, ao se seguir as medidas de austeridade implementadas pelo acordo da dívida implemented by the U.S. debt deal act.

Roubini também argumenta que os levantes sociais no Egito e em outros países árabes, na Grécia e agora no Reino Unido têm origem econômica (principalmente no desemprego, mas também, no caso do Egito, no aumento do custo de vida). Em seguida, argumenta que, ao passo que não se deve esperar um colapso iminente do capitalismo, ou mesmo um colapso da sua versão estadunidense, o capitalismo corporativo – capitalismo e mercados livres são rápidos demais e capazes de se adaptarem - dizer que a ordem econômica atual não está experimentando uma crise não é correto.
(publicado originalmente no blog advivo.com.br/luisnassif)