sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ETERNA MÁGOA

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Tranpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Augusto dos Anjos (1884-1914)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

AS REINAÇÕES DE LILITH


“A origem da mentira está na imagem idealizada que temos de nós próprios e que desejamos impor aos outros”

Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos”
Anaïs Nin
(1903-1977) Autora francesa que desde os 11 anos escrevia diários eróticos, lida que manteve pelo resto de sua vida


“Faça qualquer asneira, desde que seja com entusiasmo”

“Vício é o mal que fazemos sem prazer”


Sidonie Colette
(1873-1954)
Escritora francesa, escandalizou a sociedade burguesa da época com seu comportamento sexual livre e seus escritos libertários

Josephine Baker canta La Petite Tonkinoise

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

DESPERTAR OU MANIPULAR A PLEBE? SHAKESPEARE EXPLICA

“Amigos, romanos, cidadãos dêem-me seus ouvidos. Vim para enterrar César, não para louvá-lo. Se o bem que fazemos é enterrado com os nossos ossos, que seja assim também com César. O nobre Brutus disse a vocês que César era ambicioso. E se é verdade que era, a falta era muito grave, e César pagou por ela com a vida, aqui, pelas mãos de Brutus e dos outros. Pois Brutus é um homem honrado, e assim são todos eles, todos homens honrados. Venho para falar no funeral de César. Ele era meu amigo, fiel e justo comigo. Mas Brutus diz que ele era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Ele trouxe muitos prisioneiros para Roma que, para serem libertados, encheram os cofres de Roma. Isto parecia uma atitude ambiciosa de César? Quando os pobres sofriam César chorava. Ora a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Brutus diz que César era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Vocês todos viram que na festa do Lupercal, eu, por três vezes, ofereci-lhe uma coroa real, a qual ele por três vezes recusou. Isto era ambição? Mas Brutus diz que ele era ambicioso, e Brutus, todos sabemos, é um homem honrado.
[...]
Ontem, a palavra de César seria capaz de enfrentar o mundo, agora, jaz aqui morta. Ah! Se eu estivesse disposto a levar os seus corações e mentes para o motim e a violência, eu falaria mal de Brutus e de Cassius, os quais, como sabem, são homens honrados. Não vou falar mal deles. Prefiro falar mal do morto. Prefiro falar mal de mim e de vocês do que destes homens honrados.

Mas, eis aqui, um pergaminho com o selo de César. Eu o achei no seu armário. É o seu testamento. Quando os pobres lerem o seu testamento (porque, perdoem-me, eu não pretendo lê-lo), e eles se arrojarão para beijar os ferimentos de César, e molhar seus lenços no seu sagrado sangue.

Tenham paciência amigos, mas eu não devo lê-lo. Vocês não são de madeira ou de ferro, e sim humanos. E, sendo humanos, ao ouvir o testamento de César vão se inflamar, ficarão furiosos. É melhor que vocês não saibam que são os herdeiros de César! Pois se souberem... o que vai acontecer? Então vocês vão me obrigar a ler o testamento de César? Então façam um círculo em volta do corpo e deixem-me mostrar-lhes César morto, aquele que escreveu este testamento.

Cidadãos! Se vocês têm lágrimas, preparem-se para soltá-las! Vocês todos conhecem este manto. Vejam, foi neste lugar que a faca de Cassius penetrou. Através deste outro rasgão, Brutus, tão querido de César, enfiou a sua faca, e, quando ele arrancou a sua maldita arma do ferimento, vejam como o sangue de César escorreu.
[...]
Aqui está o testamento, com o selo de César. A cada cidadão ele deixou 75 dracmas. E mais, para vocês ele deixou seus bens. Seus sítios neste lado do Tibre, com suas árvores, seu pomar, para vocês e para os herdeiros de vocês e para sempre. Este era César. Quando aparecerá outro como ele?"

(Discurso de Marco Antônio nos funerais do ditador Júlio César, segundo William Shakespeare (em Júlio César). Depois de ouvi-lo, a multidão, que viera comemorar a morte do tirano, se revolta e sai à caça dos conspiradores para vingar César.

OS MEIOS SÃO O FIM

"O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível! Mas por que ama também, a destruição e o caos? Dizei-me! [...] Não amará ele a tal ponto a destruição e o caos (é indiscutível que às vezes os ama e muito, não há dúvida sobre isto) porque teme instintivamente atingir o objetivo e concluir o edifício em construçâo? [...] Talvez ele ame o edifício apenas a distância e nunca de perto; talvez ele goste apenas de criá-lo, não de viver nele, deixando-o depois para os animaux domestiques, isto é, formigas, carneiros etc. etc. [...] Suponhamos que o homem não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas, quanto a encontrá-lo realmente... juro por Deus, tem medo. Bem que ele sente: uma vez encontrado isto, não haverá mais o que procurar"
Fiodor Dostoiévski, Memórias do Subsolo

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A QUEM CHAMAREMOS DE HEROIS?

Herois do Exército Brasileiro e da Pátria foram os 18 oficiais e praças mortos no terremoto do Haiti quando estavam em missão da Força de Paz da ONU (Minustah)

Herois também foram os 457 militares – 13 oficiais e 444 praças – da Força Expedicionária Brasileira (FEB) mortos em combate nos campos da Itália durante a Segunda Guerra Mundial

É um crime de lesa-pátria confundi-los, como fazem os nostálgicos da ditadura, com assassinos e delinquentes de farda como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (“Dr. Tibiriçá”), o capitão-bicheiro Ailton Guimarães, o major Sebastião Curió, o general Ednardo D’Ávila Mello (assassino de Valdimir Herzog e Manuel Fiel Filho) ou o psicopata João Paulo Burnier

...E A FRANÇA OPRESSORA

Nos anos 50, os paraquedistas franceses - muitos ex-integrantes da Resistência - implantam o terror sobre a população civil da Argélia, então colônia francesa, e a tortura contra militantes nacionalistas. Em resposta, a Frente de Libertação Nacional (FLN) argelina desencadeou ações terroristas contra civis franceses. O filme A Batalha de Argel (1965), também de Gillo Pontecorvo, é a dramática narrativa daqueles dias
http://www.youtube.com/watch?v=Ca3M2feqJk8&feature=related

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A FRANÇA RESISTENTE...

Casablanca (1942), de Michael Curtiz

Os franceses desafiam os nazistas no Marrocos ao som da Marselhesa
http://www.youtube.com/watch?v=tRaK44teGwk

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A FABRICAÇÃO DE UM MITO: COMO TIRADENTES DERROTOU FREI CANECA

Num livro brilhante, A Formação das AlmasO imaginário da república no Brasil, o historiador José Murilo de Carvalho analisa o processo de criação de um mito, Tiradentes, cuja imagem foi idealizada pelos donos do poder, tanto da República Velha quanto do Estado Novo, para transformá-lo num herói nacional, acima das classes, do espaço e do tempo. Sintomaticamente, até a esquerda homenageou Tiradentes – houve um grupo guerrilheiro com esse nome. Já a memória de Frei Caneca, líder revolucionário radical e conseqüente, ficou esmaecida pelo Tempo e desconstruída pela História contada pelos vencedores:
“Frei Caneca e seus companheiros tinham se envolvido em duas lutas reais, uma pela independência, a outra contra o absolutismo do primeiro imperador. Ele morreu como heroi desafiador, quase arrogante, num ritual seco de fuzilamento – já que nenhum carrasco se dispusera a enforcá-lo. Foi mártir como Tiradentes, mas, ao contrário deste, Frei Caneca foi um mártir rebelde, acusador, agressivo. Não morreu como vítima, como portador das dores de um povo. Morreu como líder cívico e não como mártir religioso, embora, ironicamente, se tratasse de um frade”.

“Tiradentes foi o contrário. O patriota virou místico. A coragem que demonstrou vinha, ao final, do fervor religioso, não do fervor cívico. Assumiu explicitamente a postura de mártir, identificou-se abertamente com Cristo. O cerimonial do enforcamento, o cadafalso, a forca erguida a altura incomum, os soldados em volta, a multidão expectante – tudo contribuía para aproximar os dois eventos e as duas figuras, a crucificação e o enforcamento. O esquartejamento posterior [veja-se o quadro Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo, à dir., NC], o sangue derramado, a distribuição das partes pelos caminhos que antes percorrera também serviram ao simbolismo da semeadura do sangue do mártir”.

“Na figura de Tiradentes, todos podiam identificar-se, ele operava a unidade mística dos cidadãos, o sentimento de participação, de união em torno de um ideal, fosse ele a liberdade, a independência ou a república. Era o totem cívico. Não antagonizava ninguém, não dividia as pessoas e as classes sociais, não dividia o país, não separava o presente do passado nem do futuro. Pelo contrário, ligava a república à independência e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura. A liberdade ainda que tardia”.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O VERBO ENCARNADO: BACH




Prelúdio para Cello Suíte nº 1, de Johann Sebastian Bach, por Mstislav Rostropovich

http://www.youtube.com/watch?v=LU_QR_FTt3E

OUTRA REVOLUÇÃO ESQUECIDA


Se o Brasil não teve algo comparável à Revolução Francesa em termos de consequências históricas, conseguiu fazer um belo ensaio geral: a chamada "Cabanagem" ou "Revolta dos Cabanos", referência às cabanas à beira dos rios e igarapés nas quais viviam amontoados os habitantes pobres da Província do Grão-Pará - que englobava os atuais estados do Amazonas e do Pará. Os cabanos eram índios destribalizados, escravos, escravos alforriados, mestiços livres - a esmagadora maioria da população, que era oprimida por uma minoria branca, principalmente comerciantes portugueses. Entre 1822 e 1831 eclodiram várias revoltas populares no Grão-Pará. Com a abdicação de D. Pedro I, em 1831, os cabanos, liderados pelo cônego Batista Campos, depuseram vários governantes nomeados pelo Poder Central. A Regência Trina retomou o controle da situação em 1833, nomeando o governador Bernardo Lobo de Sousa, que deu início a uma repressão massiva. A revolta recomeçou e se espalhou pela Província, liderada pelos irmãos lavradores Antonio e Francisco Vinagre e pelo seringueiro Eduardo Nogueira Angelim. A Cabanagem teve até um "Marat", o jornalista maranhense Vicente Ferreira Lavor, dono do jornal Sentinela, porta-voz da revolução. Em janeiro de 1835, os revoltosos dominaram Belém e executaram o governador. Criou-se uma Assembléia Legislativa Provincial e o Poder Executivo foi entregue ao fazendeiro Félix Antonio Malcher (Lafayette? Danton?). Mas este, temendo a violência das massas populares - nossos "jacobinos?" - começou a perseguir as lideranças mais radicais, como Francisco Vinagre e Angelim. Além disso, manteve a fidelidade ao poder central. Acabou deposto e executado, substituído por Francisco Vinagre, que também seria deposto, acusado de traição. Vencidos na capital, os cabanos se retiraram para o interior. Liderados por Antônio Vinagre e Eduardo Angelim, enbrenharam-se nas vilas e povoados, conquistaram o apoio popular e retomaram Belém. Angelim (Robespierre?) chefiou o novo governo popular, que durou dez meses. Mas dissidências internas, ausência de um projeto político e a epidemia de varíola enfraqueceram o movimento. O regente Feijó mandou para Belém uma poderosa esquadra que retomou a cidade; os cabanos voltaram para o interior, onde resistiram por mais três anos. Os rebeldes foram finalmente esmagados em 1840. No fim, dos quase 100 mil habitantes do Grão-Pará de então, 30 mil - ou seja, 30% da população- tinham sido dizimados. E depois ainda dizem que a História do Brasil foi incruenta...

"(A Cabanagem) foi o mais notável movimento popular do Brasil... o único em que as camadas mais inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade. Apesar de toda sua desorientação, da falta de continuidade que o caracteriza, fica-lhe contudo a glória de ter sido a primeira insurreição popular que passou da simples agitação para a tomada efetiva do poder", escreveu o historiador Caio Prado Jr.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

HOBBES E FREUD: AFINIDADES ELETIVAS

"Portanto tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; [..] e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta".

"A única maneira de instituir um tal poder comum, capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembléia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade.
Thomas Hobbes (1588-1679), Leviatã


"A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. ....A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfação, ao passo que o indivíduo desconhece tais restrições.
(Sigmund Freud (1856-1939), O Mal-Estar na Civilização

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O FIM DE UMA ERA



David Levine (1926-2009), cartunista do The New York Review of Books


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O COMPLEXO DE VIRA-LATAS OU A MENTALIDADE COLONIZADA

A mídia de direita reproduz subliminarmente os preconceitos mais reacionários da classe média decadente – veja-se o caso de Boris CCCasoy e os garis. Tais preconceitos fazem parte de uma weltschauung (“visão de mundo”) tupiniquim segundo a qual o Brasil é um país atrasado, o povo daqui é vagabundo, ignorante e oportunista – como Macunaíma, o heroi sem nenhum caráter. Quem comunga dessa visão geralmente é fascinado por shopping centers, valores hiperconsumistas e competitivos e pela estética kitsch de Miami e de Las Vegas. Para eles, nunca seremos integrantes do “Primeiro Mundo” – até porque, ninguém ousa dizer, não somos uma nação de maioria branca e de origem européia. “Mentalidade de colonizado”, como diagnosticou Frantz Fanon ou “complexo de vira-latas”, como ridicularizou Nelson Rodrigues, essa visão é quase hegemônica na sociedade brasileira e impede a maioria de reconhecer nossos heróis do dia-a-dia. Até que catástrofes, como o terremoto do Haiti ou a guerra do Iraque, revelam alguns desses personagens e os transformam em heróis trágicos, no sentido grego da palavra. É o caso da médica sanitarista Zilda Arns Neumann (1934-2010), morta no Haiti em plena missão humanitária. Com pouquíssimos recursos, ela levou adiante um programa da Pastoral da Criança que reduziu drasticamente a desnutrição infantil com medidas simples e baratas. Chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Até ontem (13) era desconhecida do grande público. E Sérgio Vieira de Mello (1948-2003), o diplomata brasileiro da ONU que conduziu magistralmente a reconstrução do Timor Leste devastado pela guerra da independência e que depois foi enviado a Bagdá como Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, onde morreu num atentado terrorista. Seria o sucessor de Kofi Annan na secretaria-geral da ONU. Desnecessário dizer o quanto ele era um ilustre desconhecido por aqui até sua morte - quiçá até hoje.
Não é à toa que celebramos tanto a memória de Ayrton Senna, o competidor, mas não a de Sérgio Vieira de Mello, nem a de Chico Mendes. E, daqui a algum tempo, pouco se falará também de Zilda Arns...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O HAITI NÃO É AQUI

O pavoroso terremoto que arrasou o já devastado Haiti e matou cerca de cem mil pessoas, entre elas soldados brasileiros e a ativista de direitos humanos Zilda Arns, é o mais recente e tenebroso capítulo da desventurada história desse pequena (meia) ilha do Caribe. Em pouco mais de um século, a primeira nação a abolir a escravidão nas Américas se tornou o país mais pobre do hemisfério ocidental e um dos mais desesperançados do mundo. Como se chegou a isso?

No final do do século XVIII o Haiti era a joia da coroa das colônias francesas. Sua economia, baseada na produção de cana de açúcar com mão de obra escrava, era a mais produtiva do mundo. A prosperidade era tocada por meio milhão de escravos negros dominados por 30 mil brancos e alguns milhares de mulatos, embriões da futura elite dominante. O preço dessa prosperidade, contudo, era alto. Além da opressão do escravismo, os navios que traziam os escravos voltavam para a Europa com cargas de madeira, desmatando completamente o país. A Revolução Francesa de 1789 proclamou a libertação dos escravos nas colônias e os cativos haitianos se rebelam contra seus senhores. Toussaint L'Ouverture assumiu a liderança do movimento em 1794. Realista, L'Ouverture teve o cuidado de manter o país como grande produtor de açúcar, mas isso obrigou os ex-cativos a retormar o trabalho nas fazendas. Então Napoleão Bonaparte reintroduziu a escravidão nas colônias e as tropas francesas prenderam e deportaram L'Overture, que morreu numa prisão na França. Liderados por Jean Jacques Dessalines, os haitianos derrotaram o exército napoleônico chefiado pelo general Leclerc. A independência foi proclamada em 1804. Radicalizado, o novo governo tentou se livrar do passado baseando a economia exclusivamente na agricultura de subsistência. Além disso, houve a pressão externa: uma nação independente de negros nas Américas colocava em risco o equilíbrio entre senhores e escravos de outros países, principalmente nos Estados Unidos, bem como a estrutura de economia exportadora de bens primários. Daí o embargo e a pressão que o Haiti sofreu dos países ricos ao longo do século XIX. Esse isolamento mergulhou o país na estagnação e no empobrecimento. A instabilidade política tornou-se recorrente. No século XX, o Haiti foi ocupado por tropas americanas durante 19 anos (entre 1915 e 1934). Em 1957, sob as bençãos de Tio Sam, o médico François Duvalier ("Papa Doc") instaurou uma sanguinária ditadura pessoal baseada no terror de sua guarda pretoriana, uma milícia paramilitar conhecida como tontons-macoute (bichos-papões, em créole). A ditadura, já sob o domínio de seu filho, "Baby Doc", caiu em 1986 e o que se seguiu foi um período de caos político, golpes, contragolpes e invasões. O país só conheceu alguma estabilidade com a intervenção da Força de Paz da ONU, a partir de 2004.
A pesada herança colonial e a irresponsabilidade de suas elites fizeram desse pequeno país uma nação sem Estado, sem futuro e sem esperança.
O filme Queimada (1969), de Gillo Pontecorvo, mostra como uma revolução anticolonial pode ser devorada pela sofisticada engrenagem imperialista e pela rapacidade de sua classe dominante. Uma metáfora do Haiti.
http://www.youtube.com/watch?v=lc7MiQclo18&feature=related
Como se não bastasse, agora essa catástrofe natural. Ó deuses, onde estais?

OS 200 ANOS DE UM GÊNIO


Frédéric Chopin (1810-1849)
Prelúdio Op 28 nº 15, por Vladimir Horowitz
Valsa Op. 64 nº 1,"Valsa do Minuto", por Daniel Barenboim
Sonata nº 2, Op 35, "Marche Funebre", por Sergei Rachmaninoff

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A TECNOCRACIA NO COMANDO OU DE COMO AS BANANAS COMEM OS MACACOS




“Tecnocracia e democracia são antitéticas [..] A democracia sustenta-se sobre a hipótese de que todos os cidadãos podem decidir a respeito de tudo. A tecnocracia, ao contrário, pretende que sejam convocados para decidir apenas aqueles poucos que detêm conhecimentos específicos”
(Norberto Bobbio, O futuro da democracia)





A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, destituiu o presidente do Banco Central, Martín Redrado, por ele se recusar a cumprir a decisão do governo de criar um fundo fiscal com reservas do BC. A exoneração soou como um acinte para a "pátria financeira"; segundo alguns jornais, essa foi mais uma manifestação autoritária e populista - eles adoram essa palavra! - da Casa Rosada. Cristina Kirchner pode ser populista e ter pendores autoritários, mas ela foi eleita democraticamente. Como bem lembrou o Clóvis Rossi, não vem ao caso se a decisão presidencial é melhor ou pior para o país do ponto de vista técnico; o que interessa é que, politicamente, como presidente da República, Cristina tem legitimidade para tomá-la. Ao subalterno - no caso o presidente do BC - caberia obedecê-la. Mas na Argentina uma lei dos tempos de Menem concede independência ao BC para formular a política monetária. A Justiça, que já restituiu o presidente do BC ao seu cargo, dará a palavra final.

Sem entrar na discussão técnica da questão - a utilização das reservas é um problema de ordem fiscal e não monetária - cabe lembrar que a idéia da independência do BC foi gerada pelo malfadado "Consenso de Washington" e adotada por vários países, alguns de maneira informal, como o Brasil, outros explicitamente, como a Argentina. Que tal preceito tenha virado lei no país vizinho não muda em nada o fato de que ele subverte completamente o conceito de democracia, pois admite que técnicos sem mandatos tenham mais poder que o mandatário legitimamente eleito. É a "ditadura dos técnicos" na definição de Luiz Carlos Bresser-Pereira. De maneira mais macunaímica, poderíamos dizer que é como se a banana estivesse comendo o macaco.