quinta-feira, 30 de setembro de 2010

TONY CURTIS (1925-2010): O HOMEM DAS MIL MULHERES


Tony Curtis

Curtis e Marylin Monroe

Curtis e Janet Leigh

Curtis e Lise Deutsch



Quanto mais quente melhor (Some Like It Hot, 1959, de Billy Wilder

O QUE O BRASIL APRENDEU NO HAITI


Lula passa em revista tropas da Minustah no Haiti


Um artigo desta semana da revista britânica The Economist afirma que, nos últimos anos, a participação do Brasil na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) foi determinante para reformular as Forças Armadas do país. O artigo, Policy, not altruism, afirma que, embora o Brasil tenha participado de outras missões de paz sob a bandeira da ONU, somente a partir de 2005, quando passou a comandar a Minustah - hoje a maior força de paz da ONU em curso, com um contigente de 13 mil soldados; 2.300 dos quais brasileiros -, a manutenção da paz se tornou o componente mais importante da política externa do Itamaraty. "O Brasil quer participar da elaboração das regras internacionais, não apenas segui-las", diz a professora Monica Herz, da PUC-RJ, citada pela revista. "Missões de paz são o preço a pagar para ficar entre as nações que fazem as regras". De acordo com a Economist, a Minustah significou a divisão de águas da política externa brasileira, porque removeu o que antes era um artigo de fé do Itamaraty: o princípio de "não-interferência" nos assuntos internos de outros países. "Anteriormente, o Brasil havia se recusado a participar de missões previstas no capítulo 7 da Carta das Nações Unidas, que permite intervenção forçada ("imposição da paz" em oposição à manutenção da paz (peacekeeping), que se realiza no âmbito do capítulo 6 e requer o consentimento dos interessados). O Haiti é uma operação 'capítulo 7' e a participação exigiu contorções diplomáticas de ambas as partes".

Cerca de 2.300 soldados brasileiros estão no Haiti
Essa operação, que já treinou cerca de 15 mil soldados de tropas especializadas - como paraquedistas, brigadas de selva e fuzileiros navais -, ajudou a modernizar as Forças Armadas brasileiras, que pouco tinham mudado até 2005, 20 anos depois do fim da ditadura. "Com a democracia firmemente estabelecida, elas (as Forças Armadas) precisam encontrar um novo papel (o país enfrenta poucas ameaças à sua segurança externa). Missões de paz podem ajudar. 'Nós já deixamos de ensinar aspectos puramente militares para ensinar convergência de objetivos militares e civis", diz o coronel Pedro Pessôa, comandante do Centro de Instrução de Operações de Paz (CIOpPaz). Clóvis Brigagão, da Universidade Cândido Mendes, diz que missões de paz encorajam 'a democratização da mentalidade militar. A velha geração se preocupava com a guerra e a segurança; na próxima geração, teremos um novo Exército, com uma visão internacional e novas ideias sobre prevenção de conflitos, governança civil e Estado de Direito'". A revista britânica diz que a experiência do CIOpPaz está quebrando a tradição "balcânica" das Forças Armadas brasileiras, em que cada força singular agia de maneira independente e estanque. Mas a missão no Haiti foi objeto de muitas críticas, inclusive de setores de esquerda, que acusaram Lula de ter levado o Brasil a participar da intervenção para fazer o "serviço sujo" para os americanos depois que eles ajudaram a afastar Jean-Bertrand Aristide.

O coronel Tejero Molina tenta golpe em 1981 na Espanha
Hoje está claro que essa foi uma opção estratégica para inserir o Brasil no concerto das nações e, de quebra, redefinir o papel das Forças Armadas. E foi uma estratégia pensada, senão por Lula, ao menos pelo Itamaraty. Em relação ao segundo ponto, há alguns exemplos recentes de países que saíram de ditaduras e que precisaram encontrar novas funções para os militares. Talvez o mais interessante seja o da Espanha - cuja transição pacífica do franquismo é tida como modelo. Em 1981, quatro anos depois de reinstaurada a democracia, o país ficou sob a ameaça de um golpe militar liderado por um coronel doidivanas. A firme intervenção do rei Juan Carlos I de Bourbon (que aprendeu com a História, ao contrário da sua dinastia) impediu a consumação da quartelada, mas deixou claro que o establishment militar temia pelo futuro pelo futuro das instituições fardadas. O pronunciamiento foi um alerta. O líder socialista Felipe González, que assumiu o poder me 1982 e era o equivalente de Lula em 2002, entendeu os perigos de se alienar os militares e encontrou uma saída. 

O então premiê Felipe González

Mas, para isso, ele teve que abandonar uma bandeira do PSOE na campanha - a retirada da Espanha da Otan (aliança militar ocidental). O premiê também enfrentou forte oposição de suas bases, mas um referendo nacional de 1986 sobre a Otan fortaleceu sua posição. Com as Forças Armadas participando da aliança ocidental, os militares pararam de brincar de golpistas e se tornaram parte integrante das instituições da democracia espanhola e europeia. Tanto que Javier Solana, deputado socialista que na oposição fizera campanha pela saída da Espanha da Otan, acabaria se tornando secretário-geral da organização.

No Brasil, a participação dos militares na Minustah abriu caminho para a nova identidade das Forças Armadas, que seria depois consolidada no Plano Nacional de Defesa. É bom lembrar que, durante o governo FHC, a discussão girava em torno da transformação ou não das nossas Forças Armadas em polícia contra o narcotráfico, papel que os americanos queriam reservar aos militares latino-americanos. Apesar da oposição na caserna a esse projeto, muitos no governo e no Itamaraty de então flertavam com tal ideia.        

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

OS VERDES EM SEU LABIRINTO

Alfredo Sirkis

Fernando Gabeira

No debate da Rede Record de TV no último domingo, os "verdes" Alfredo Sirkis, candidato a deputado federal e ex-coordenador da campanha de Marina Silva, e Fernando Gabeira, candidato do PV ao governo do Rio de Janeiro, ironizaram o comentário de Plínio de Arruda Sampaio, candidato do Psol à Presidência, sobre países com armamento nuclear. Questionado por José Serra sobre sua opinião sobre a luta pelos direitos humanos e pela democracia e a aproximação do governo Lula com países como o Irã, que "são ditatoriais e estão claramente na corrida pela bomba atômica", Plínio respondeu que a opinião do tucano sobre o Irã era hipócrita porque "se os Estados Unidos têm direito à bomba atômica, o Irã também tem". "Você viu que o Psol agora defende a bomba atômica?", comentou Sirkis. "Eu falei que eles não saíram do século XX", cutucou Gabeira. A ironia talvez camufle um profundo incômodo dos dois ex-guerrilheiros. 
Marina Silva, candidata do PV
Se Plínio ainda está no século XX, os verdes não ficam atrás. Hoje, até ecologistas pioneiros como James Lovelock, autor da "Hipótese Gaia", reviram seus conceitos e admitem que a energia nuclear é a melhor opção para reduzir os efeitos do aquecimento global. O tempo passou na janela e só Gabeira e Sirkis não viram; pensam que ainda estamos nos anos 80, quando a oposição à energia nuclear colocava o ambientalismo como alternativa à "sociedade industrial". Posteriormente, os temas ecológicos seriam absorvidos pelos partidos tradicionais e a energia nuclear deixaria de ser o "bicho-papão" que era na Guerra Fria.
 Já a candidata à Presidência pelo PV, Marina Silva, não saiu ainda do século XIX. Como parte do movimento ambientalista, ela é adepta da deepy ecology (ecologia profunda), corrente ecológica fundamentalista que, apesar de ser dissidente da esquerda tradicional, deita raízes no pensamento romântico, reacionário e anti-humanista surgido como reação ao Espírito das Luzes, à Revolução Francesa e à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. 
Caspar David Friedrich
Defendem uma concepção "holística" - na verdade, totalitária -, segundo a qual a humanidade não constitui senão a ínfima parte do Universo, sendo este uma entidade quase divina, infinitamente mais elevada do que toda e qualquer realidade individual. Como diz o filósofo francês Luc Ferry, para os ecologistas profundos, "a natureza conteria em si mesma certos objetivos, certos fins, como, por exemplo, o instinto de conservação, independentemente de nossas opiniões subjetivas [...] O homem não seria mais, como no âmbito do humanismo republicano, o ser autônomo que se quer autor das normas e das leis. [...] o ecologista profundo é guiado pelo ódio à modernidade, pela hostilidade ao tempo presente". Tal postura tem conotações claramente autoritárias: "No longo prazo, quer agrade ou não a este ou àquele, será necessário de fato recorrer à força, se for o caso, para lutar contra os que continuam a deteriorar o meio ambiente", dizia um comunicado do Greenpeace de 1979. Cada um interprete a frase como quiser, mas alguns dos papas da ecologia profunda chegaram a propor "secar na nascente a superpopulação do Terceiro Mundo" ou até a defender uma mortalidade maciça de seres humanos para defender o equilíbrio ambiental... 

Mas, ao menos em questões comportamentais, os verdes originais, inclusive no Brasil, eram libertários: em diversas campanhas anteriores, Gabeira chocou a direita e incomodou a esquerda ortodoxa por levantar bandeiras a favor da liberação das drogas, do aborto e do casamento homossexual. Sirkis também defendia as mesmas bandeiras. Agora, imaginem vocês esses vanguardistas, que um dia foram tão modernos e tão descolados, sendo obrigados a carregar o andor de Marina Silva, que uniu o ecologismo mais "xiita" ao moralismo religioso tacanho, ainda por cima traduzido num insuportável discurso politicamente correto...
Só 55% do esgoto de São Paulo é tratado 
O pior de tudo, no entanto, é o PV estar fazendo o papel de linha-auxiliar de José Serra. Como disse Luiz Carlos Azenha no seu blog, o partido de Marina se concentra na "preservação" da Amazônia - os verdes já chegaram a apoiar a presença de Ongs estrangeiras em território brasileiro para "fiscalizar" o desmatamento e a situação da população indígena. Mas eles são incapazes de atacar os verdadeiros problemas ambientais de uma metrópole como São Paulo, que tem 20 milhões de habitantes. "Qualquer política agressiva para enfrentar o problema requereria o aumento dos impostos e, provavelmente, a adoção e cumprimento de normas rígidas que incidiram na margem de lucro dos grandes financiadores da aliança PSDB/PV", diz Azenha. "Por outro lado, qualquer solução para os córregos e a várzea do rio Tietê exigiria uma reforma urbana [...] além de exigir dinheiro, ou seja, mais impostos, essa reforma incidiria sobre os interesses dos grandes grupos imobiliários e de construção civil que, para todos os efeitos, legislam sobre a ocupação urbana de São Paulo [...]. Um verdadeiro Partido Verde deveria denunciar estes concluios que degradam a vida humana na metrópole. mas, em vez disso, o PV prega que troquemos o plástico por sacolas de pano no Pão de Açúcar". Quando se trata de metrópoles como São Paulo, os verdes sabem ser pragmáticos...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

UM UDENISTA MUITO MELHOR DO QUE OS TUCANOS

"Por trás da luta pela legalidade e contra Getúlio, de que fui porta-voz, havia também a recusa do partido, militarista e conservador, em aceitar a fatalidade de certas mudanças"
(Afonso Arinos de Melo Franco, líder da UDN, brilhante orador, autor de um discurso que foi considerado a pá de cal no governo de Getúlio Vargas em 1954. Posteriormente, Arinos seria um dos artífices da "política externa independente" do governo Jânio Quadros, que continuou sob Jango Goulart. Arinos também foi autor da primeira lei contra o racismo no Brasil, em 1951. Um liberal-conservador de velha cepa que, com o tempo evoluiu para posições progressistas. Já os tucanos, que nasceram "social-democratas", estão à beira de entoar "Anauês" e vivas a "Deus, Pátria e Família", no melhor estilo do integralista Plínio Salgado e do "teefepista" Plínio Correa de Oliveira.   

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O VALE-TUDO DO PARTIDO MIDIÁTICO

"Acontece que somos negociantes de frases, vivemos de nosso comércio"  (Honoré de Balzac, Ilusões Perdidas)

Marcha da Família em 1964: hoje a classe média não vai às ruas 
 As duras reações do presidente Lula e da candidata do PT, Dilma Rousseff, à radicalização da campanha midiática contra o governo serviram de pretexto para que os grandes veículos de comunicação, desesperados ante a perspectiva de Serra perder a eleição no primeiro turno, levantassem a bandeira da "ameaça à liberdade de imprensa". Ela se junta às denúncias sistemáticas sem provas, à campanha suja na web, à verve dos articulistas inflamados, dos editoriais tenebrosos e dos protestos da turma do "Cansei" - até agora pálidos arremedos das "marchas da família com Deus pela liberdade" que mobilizaram a classe média contra João Goulart em 1964. Recicla-se também a tática udenista do "mar de lama" usada contra Getúlio Vargas em 1954.
Jango e a "república sindicalista"
A grande mídia acusa Lula de autoritário mas não se escandaliza com o fato de José Serra fazer uma palestra fechada no Clube da Aeronáutica revivendo o fantasma da "república sindicalista" - a justificativa dos militares para derrubar Jango. Pior: faz coro com o tucano. Articulistas da Veja e do Globo vão ao Clube Militar - um antro de reacionários de pijama saudosos do AI-5, da censura e das torturas - falar sobre "a democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão". Serra pede a cabeça de jornalistas, agride-os em debates e confisca fitas e é Lula quem ameaça a liberdade de imprensa... 
   
Como já disse Altamiro Borges, "toda a gritaria sobre a quebra do sigilo fiscal dos tucanos e outros factoides tem dois objetivos: o primeiro é tentar levar José Serra para o segundo turno, mesmo que seja com a ajuda da candidata verde Marina Silva. O segundo, como subproduto, é evitar o definhamento da candidatura demo-tucana contamine as disputadas estaduais. Os sinais, nesse sentido, são nítidos e indicam que a baixaria vai crescer nestes últimos dias de campanha eleitoral".   

Essa indignação contra as "ameaças à liberdade de imprensa", portanto, não passa de tática de guerrilha midiática. Os meios de comunicação tupiniquins repetem o modelo da Fox americana, que virou o "braço midiático" do Partido Republicano e promove uma campanha tão extremada contra o governo que o próprio Barack Obama foi obrigado a reagir. Ninguém, a não ser os fanáticos do Tea Party, achou que essa reação do presidente americano constituiu uma ameaça à liberdade de expressão...

Por outro lado, alguns fatos do passado remoto e recente protagonizados pelos oligopólios de comunicação brasileiros mostram o quão falazes são seus compromissos com a democracia e a liberdade de expressão:

Golpismo: O Globo, Estadão, JB e a Folha da Manhã deram apoio sistemático à mobilização contra o governo constitucional de Jango Goulart e ao golpe militar que o derrubou em 1º de abril de 1964;

Apoio logístico à repressão: a Folha da Manhã forneceu viaturas para o trabalho da repressão em 1968 e 1969 e deixou a Folha da Tarde ser editada por policiais do DOPS nos anos 1970; 

Subserviência canina ao poder: a Folha de S. Paulo, veículo que jamais foi censurado, afastou o jornalista Cláudio Abramo da Direção de Redação por pressão do ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977;

Falcatruas eleitorais: a Rede Globo tentou fraudar a eleição de Leonel Brizola ao governo do Rio de Janeiro no escândalo Proconsult em 1982;

Manipulação: em 25 de janeiro de 1984 a Rede Globo tentou esvaziar as notícias sobre a gigantesca manifestação pelas diretas em São Paulo ao apresentá-la como "festa do aniversário da cidade";

Mais manipulação: a Rede Globo fez uma edição escandalosa do debate final entre Lula e Collor em 1989 para beneficiar o "caçador de marajás", candidato da direita e dos grupos dominantes;

Interesses escusos: a Veja cravou a falsa versão do legista Badan Palhares sobre a morte de Paulo César Farias com a matéria "Caso Encerrado" (1996). Queria fazer um acordo com a família Farias para ter acesso aos arquivos de PC. Mesmo depois de essa versão ter sido desmoralizada por outros veículos, a revista jamais publicou uma linha de correção;    

Denuncismo barato: em 2006 a Veja acusou, sem nenhuma prova, o presidente Lula de ter contas no exterior em e o PT de ter recebido US$ 5.000 das Farc par a campanha eleitoral;

A falsa ficha da Dilma
Ligações perigosas: o pseudojornalista Diogo Mainardi, de Veja, agiu como cão de guarda do banqueiro Daniel Dantas, principalmente no caso das negociações da Brasil Telecom com a Telemar;

Má-fé: a Folha usou uma falsa ficha policial de Dilma Rousseff para fazer uma reportagem sobre a ação dela na guerrilha; recentemente, acusou a ex-ministra de causar prejuízos aos cofres públicos por uma lei da época do governo FHC. Depois, ignorou a repercussão negativa nas redes sociais;


Esqueceram-se do mensalão do DEM?
 A imprensa e a mídia têm o sagrado dever de investigar e denunciar o poder. A informação é um instrumento básico para que os cidadãos possam exercer seus direitos numa democracia. O problema é que aqui no Brasil a grande mídia virou partido político e trafega em via única. Só os escândalos do PT causam indignação. O mensalão tucano em Minas, os escândalos da governadora Yeda Crusius no Rio Grande do Sul, o mensalão do DEM em Brasília - em que o ex-governador "demo" Roberto Arruda, aquele que seria vice na chapa do Serra, foi filmado pegando dinheiro de propina - não merecem um décimo da "ira santa" que os jornalões e televisões destilam contra Lula e o PT. Isso sem falar nos escândalos da "privataria" da era FHC. E quando uma personagem patética como essa tal de Soninha Francine, a "nova cara" da política, diz que a paralisação do metrô de São Paulo foi um "complô petista", a mídia repercute sem questionar. Será que é porque o governo paulista garante recursos polpudos por meio de assinaturas de jornais e revistas para as escolas e instituições do Estado? 

Tomás de Aquino
 É pouco, muito pouco.

Algo me diz que os barões da mídia têm mais motivos para embarcar nessa guerra suja e sem quartel do que supõe nossa vã filosofia. Além das vantagens materiais imediatas e do indisfarçável preconceito classista contra Lula, os Marinho, Civita, Frias e Mesquista devem temer que um governo Dilma encaminhe uma reforma que quebre a propriedade cruzada - a possibilidade de uma empresa de comunicação ser dona de rádios tevês, jornais e revistas - ou modifique a lei que limita a participação de capital externo em 30%.   

Só isso explicaria tanto sangue nos olhos.

Pessoalmente, contudo, acho que é mais factível crer no "boi voador" de Tomás de Aquino do que na aprovação de leis que mexam com esse oligopólio da grande mídia. Talvez seja mais razoável esperar que as mídias sociais se consolidem como contrapoderes à mídia tradicional. 

terça-feira, 21 de setembro de 2010

OS DISCÍPULOS TACANHOS DE CATÃO


D'Urso e a turma do "Cansei": udenismo revisitado

Catão, o censor

A turma do "Cansei", aquela que ressuscitou o udenismo em São Paulo, está de volta, desta vez envergando as vestes de Catão, o censor. Só que com uma verve bem mais pobre do que a do patrício romano. Um dos líderes da "mobilização das dondocas" da elite branca - na definição impagável do ex-governador Cláudio Lembro -, o presidente da seção regional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luiz Flávio Borges D'Urso, sugere, com todas as letras, a volta à censura no Brasil. Ele assinou uma nota pública na qual pede a exclusão das obras da série "Inimigos", de Gil Vicente, da próxima Bienal, onde será (seria?) exibida. São desenhos feitos em carvão, nos quais o artista se retrata assassinando autoridades como o presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A nota da OAB-SP diz que as obras "demonstram desprezo pelo poder instituído, incitando ao crime e à violência" e que "uma obra de arte, embora livremente e sem limites expresse a criatividade de seu autor, deve ter determinados limites pafra sua exposição pública. Um deles é não fazer apologia ao crime". 

Seria cômico se não fosse trágico. A seção paulista da OAB, que no passado ditatorial lutou contra o cerceamento da liberdade de expressão, agora quer tutelar o gosto do público. Como se fôssemos todos criancinhas que precisassem de "proteção" paternal para não fazer bobagens. A obra em questão é de uma ruindade e de um mau gosto atrozes e o autor já conquistou seus 15 minutos de fama, mas só ao público cabe julgá-la. Pelo critério provinciano, tacanho e retrógado da OAB-SP, museus como o Louvre, o MoMa, o Hermitage, o Metropolitan e o Prado estariam entregue às moscas. Pior de tudo, a nota da OAB criminaliza uma obra de arte em nome do Estado de Direito - aquele que, justamente, tem como um dos pressupostos a garantia da liberdade de expressão. Voltaire, que aliás não era advogado, compreendeu muito bem o espírito do direito à livre expressão: "não concordo com uma só palavra do que dizes; mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo".

Voltaire
Não se pode exigir que suas excelências cansadas da OAB-SP conheçam Voltaire ou critérios artísticos; mas pode-se supor que eles conheçam, senão o espírito, pelo menos a letra da Carta Magna brasileira, que consagra a liberdade de expressão como uma de suas garantias fundamentais e proíbe a censura: "É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (Inciso IX do Art. 5º); "A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição" (Art. 220); "É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística" (§ 2º do Art. 220).

A direita e a oligarquia paulista estão conseguindo fazer uma edição melhorada (ou piorada) do Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá), de Stanislaw Ponte Preta.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A LIBERDADE DE EXPRESSÃO NEM SEMPRE SE RESUME À LIBERDADE DE IMPRENSA

  "Nos velhos tempos, a humanidade tinha a roda de tortura; agora, tem os jornais" (Oscar Wilde)
A grande imprensa "censurada" por Lula

A grande mídia brasileira se transformou, pelas palavras de seus próprios próceres, no verdadeiro partido de oposição, em substituição aos partidos conservadores tradicionais, incapazes de cumprir essa missão. A sórdida, sistemática e feroz campanha levada a cabo diuturnamente contra o governo do presidente Lula, o PT e a candidatura de Dilma Rousseff e a defesa canina do candidato tucano José Serra fizeram da grande mídia o porta-voz dos setores mais elitistas, retrógrados e oligárquicos do país. E a pouca repercussão dessas denúncias junto à maioria da população faz cair por terra qualquer veleidade desses setores de expressar os anseios democráticos da sociedade civil ou mesmo de ser o principal formador da opinião pública, como no passado. Agora, a grande mídia se resume a "dar o norte" e abrir os caminhos às forças de direita.

Esse fenômeno de transformação da mídia em sentinela avançada dos partidos conservadores tradicionais começou a tomar corpo na Venezuela, quando Hugo Chávez, então um outsider da política, chegou ao poder pela primeira vez em 1998. Chávez pode ser boquirroto, fanfarrão, ter tendências autoritárias e alimentar sonhos caudilhescos, mas até agora ele foi eleito e reeleito em eleições limpas e suas reformas foram submetidas a plebiscitos igualmente limpos. Mas a mídia venezuelana não o viu assim. Quando percebeu que não conseguiria enquadrar Chávez no seu figurino, ela desencadeou uma violenta e sistemática campanha contra o mandatário. Segundo Renato Rovai, autor de um livro fundamental sobre esse processo (Midático Poder), os barões da mídia da Venezuela unificaram seu conteúdo jornalístico num consórcio conhecido como una solo voz: "Um repórter faz o trabalho para todos os veículos e o tom editorial é formatado verticalmente. A reportagem é divulgada pelas emissoras com o mesmo enfoque, sem contradições... Os talk shows e programas de debate escolhiam a dedo os entrevistados... O direcionamento do conteúdo, por absurdo que possa parecer, chegava até aos programas humorísticos, que exploravam as mesmas piadas e preconceitos caricaturais para tratar do presidente", diz Rovai. Qualquer semelhança com as "denúncias" da Veja que na sequência são amplamente repercutidas, quase sem contraditório, pelo Jornal Nacional, Folha, Globo e Estadão, não é mera coincidência.  

Pedro Carmona e os militares golpistas
Nas semanas que antecederam o golpe de 11 de abril de 2002 - que levaram o patético representante da burguesia venezuelana, Pedro Carmona, a uma efêmera ditadura de algumas horas - as emissoras de televisão, rádio e jornais criaram um clima de terror no país: patrocinaram um locaute patronal e estimularam confrontos de ruas em Caracas. A mídia foi o principal protagonista do golpe de Estado que afastou Chávez temporariamente do poder - muito mais protagonista, aliás, do que os setores direitistas das Forças Armadas, o que criou uma modalidade "pós-moderna" de golpe. Tudo foi armado com a participação midiática. Um militar golpista, o almirante Héctor Ramírez disse a um repórter da CNN que Hugo Chávez tinha mandado franco-atiradores atirar contra o povo e que tinham provocado a morte de seis pessoas. A declaração foi dada duas horas antes dos conflitos. "Naquele momento, não existiam mortos ou feridos. Nem confronto armado. Tampouco era possível saber da existência de franco-atiradores. Héctor Ramírez e seus colegas golpistas de farda, porém, sabiam de tudo que ia acontecer. Os meios de informação, que esperavam para autorizar-lhe a entrada ao vivo, também". Mas o golpe midiático não conseguiu se impor. Motoboys com celulares, rádios comunitárias e a internet foram os instrumentos centrais da resistência popular que forçou os golpistas a voltar atrás. "Quando ficou claro que não havia mais como resistir ao contragolpe, o poder midiático deu o espetáculo final. As emissoras de rádio e TV da Venezuela tiram seus sinais do ar e provocam o maior apagão informativo da história da mídia latino-americana até então. Nenhum dos meios comerciais realizou a cobertura da volta de Hugo Chávez ao Palácio de Miraflores", escreve Rovai.
Midiático poder: a mídia substitui os partidos
 Mas os proprietários de jornais, rádios e TVs não desistiram. Apostaram tudo para desestabilizar o governo e o país apoiando o locaute petroleiro patrocinado pela estatal PDVSA, então controlada pela oposição golpista. Foi então que o governo venezuelano passou a investir nos meios alternativos de comunicação, estimulando rádios e TVs comunitárias e, principalmente, redistribuindo as verbas publicitárias do Estado, investindo também em emissoras estatais e públicas. Daí a gritaria da mídia venezuelana - com ampla repercussão nos jornalões e na Globo aqui - contra as tentativas do governo Chávez de solapar a "liberdade de expressão". Como lembrou Altamiro Borges, "no segundo golpe, a mídia privada já não dispôs da exclusividade da informação/manipulação. 'Chávez tinha onde falar. Diferentemente do golpe midiático-militar, o governo contava tanto com a resistência dos meios de informação alternativa que se fortaleceram e multiplicaram após abril de 2002, quando com o fortalecimento da mídia estatal, que proprocionava nova correlação de forças na disputa midiática". O poder destes veículos alternativos também foi decisivo no referendo revogatório de agosto de 2004, quando a mídia privada voltou a se unir numa campanha violenta para revogar o mandato de Chávez. Novamente derrotada, ela acabou se dividindo. A Venevisión, do bilionário Gustavo Cisneros, optou por conter a fúria golpista e se aliou a Chávez. A RCTV manteve a mesma linha até que o governo se recusou a renovar-lhe a concessão. 

O livro de Renato Rovai chama da atenção para o debate sobre "a democratização da mídia e a responsabilidade social dos veículos de informação". O avanço da internet e das novas mídias sociais têm permitido a construção de redes contra-hegemônicas, como a que derrotou as manobras midiáticas e depois o próprio governo conservador do primeiro-ministro espanhol José María Aznar em 2004. "Essa nova rede informal pode vir a ser o que costumo definir, utilizando-se de uma metáfora do escritor uruguaio Eduardo Galeano, como um bando de marimbos que, atuando conjuntamente, poder derrotar um rinoceronte". 

O jornalista Cláudio Abramo
O jornalista Cláudio Abramo desafinava o coro dos contentes quando afirmava que, em países como o Brasil, marcado por oligopólios da mídia, a "liberdade de imprensa é, quase sempre, liberdade da empresa". O ex-premiê espanhol Felipe González gostava de distinguir entre opinião pública e opinião publicada... Recentemente, o prof. Venício A. de Lima escreveu que um dos temas mais difíceis no campo das comunicações é estabelecer as diferenças entre liberdade de expressão e liberdade de imprensa: "a primeira se refere à liberdade individual e ao direito humano fundamental da palavra, da expressão. A segunda, à liberdade da 'sociedade' e/ou de empresas comerciais - a imprensa e a mídia - de tornar público o conteúdo do que consideram 'informação jornalística' e entretenimento'". Levantar essa discussão no Brasil costuma render acusações de pretender a volta da censura. Nos EUA, James Madison, um dos Pais Fundadores, dizia que um governo democrático sem uma imprensa controlada pelo povo seria um prelúdio à farsa.    

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O ETERNO RETORNO DA MÍDIA

"De certa forma, as tecnologias avançadas  nos devolvem à pré-história do jornalismo. Na sociedade de informação, os canards parisienses e os menanti ou gazzetanti venezianos agiam livremente. Na rede, as notícias se misturam a boatos, enganos e fantasias, custam menos que uma gazzeta, pois são oferecidas gratuitamente e buscam apoio econômico em práticas da antiguidade clássica. Como Horácio, aspiram ao mecenato de algum imperador, mesmo que tenha a aparência de uma garrafa de Coca-Cola. Descobrimos também o retorno aos tempos épicos do jornalismo, nos quais um um único homem com uma pena e uma resma de papel se dispunha a desafiar o mundo [...] A rede permite a existência do jornal feito por um único redator e dirigido pessoal e especificamente a um único leitor, pois propicia a personalização da informação, a maximização da especialização, a convergência entre o produtor e o  receptor da informação"
Juan Luis Cebrián, diretor do jornal espanhol El Pais

MÉXICO: 200 ANOS DE LABIRINTO

"Pobre México; tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos"
atribuída a Porfírio Díaz, ditador mexicano (1876-1911)
 
 

  "(...) Gente das cercanias, moradores dos subúrbios da história, nós, latino-americanos, somos os comensais não convidados que se enfileiraram à porta dos fundos do Ocidente, os intrusos que chegam à função da modernidade quando as luzes já estão quase apagando - chegamos atrasados em todos os lugares, nascemos quando já era tarde na história, também não temos um passado ou, se o temos, cuspimos sobre os seus restos; nossos povos ficaram dormindo durante um século, e enquanto dormiam foram roubados - agora estão em farrapos; não conseguimos conservar sequer o que os espanhóis nos deixaram ao ir embora; apunhalamo-nos entre nós...
  

  Não obstante, desde o chamado modernismo de final de século, nestas nossas terras hostis ao pensamento brotaram, aqui e ali, dispersos mas sem interrupção, poetas, prosadores e pintores que são comparáveis aos melhores de outras partes do mundo. Seremos agora, por fim capazes de pensar por nossa própria conta? Poderemos conceber um modelo de desenvolvimento que seja a nossa versão da modernidade? Projetar uma sociedade que não esteja fundamentada na dominação dos outros e que não termine nem nos gelados paraísos policiais do Leste nem nas explosões de náusea e ódio que interrompem o festim do Ocidente?"
Octavio Paz, O labirinto da solidão 


Este povoado está cheio de ecos. Parece até que estão aprisionados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você anda, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risadas. Umas risadas já bem velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso…”

Juan Rulfo, Pedro Páramo

UM LEU O PRÍNCIPE E NÃO ENTENDEU; O OUTRO NÃO LEU E ENTENDEU...


Nicolau Maquiavel

FHC: amado só pelos grandes 

"A um Príncipe pouco devem importar as conspirações se é amado pelo povo, mas quando este é seu inimigo e o odeia, deve temer  tudo e todos. Os Estados bem organizados e os príncipes prudentes preocuparam-se sempre em não reduzir os grandes ao desespero e satisfazer e contentar o povo, porque essa é uma das questões mais importantes que um Príncipe deve ter em mente. [...] um Príncipe deve estimar os grandes, mas não se tornar odiado pelo povo."



Lula: ações que atraem virtude

"Se forem observadas prudentemente as coisas referidas, o Príncipe novo parecerá de ascendência antiga e se tornará assim mais seguro e firme no Estado do que se ele de fato aí estivesse há muito tempo. Um Príncipe recente é muito mais vigiado em suas ações do que um hereditário, e quando essas ações revelam virtude, atraem muito mais aos homens e os obrigam muito mais do que a antiguidade do sangue. É que os homens são muito mais sujeitos às coisas presentes do que às passadas e, quando encontram o bem naquelas, alegram-se e nada mais procuram; antes, tomarão a defesa do Príncipe se este não falhar nas outras coisas a suas promessas. E ele dessa forma terá a dupla glória de ter fundado um principado novo e de o ter ornado e fortalecido com boas leis, boas armas e bons exemplos, assim como o antigo Príncipe terá a dupla vergonha, por ter, nascendo Príncipe, perdido o Estado por sua pouca prudência"
Nicolau Maquiavel, O Príncipe     

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A REVOLUÇÃO QUE A OLIGARQUIA PAULISTA NÃO ESQUECE...E NÃO PERDOA

Getúlio Vargas e os revolucionários de 1930

A Revolução de 1930, que completa 80 anos em 3 de outubro, foi na verdade um golpe militar contra a República Velha dominada pelas oligarquias cafeeiras de São Paulo e Minas Gerais. Foi a última rebelião do tenentismo, movimento da baixa oficialidade do Exército brasileiro que se insurgiu contra o domínio oligárquico-latifundiário com as revoltas em 1922 (18 do Forte de Copacabana) e 1924 (Revolução de São Paulo, que desembocou na formação da Coluna Miguel Costa-Luís Carlos Prestes, ou simplesmente Coluna Prestes). Há quem diga, no entanto, que a "intentona comunista" de 1935 foi a última rebelião tenentista...

Getúlio Vargas
 Por não ter sido uma revolução popular, 1930 não trouxe de imediato uma mudança radical nas relações de produção, nem deslocou abruptamente a hegemonia política da oligarquia agrário-exportadora para a burguesia  industrial. Se a primeira estava em decadência, ainda tinha força, enquanto que o poder econômico dos industriais era incipiente, apesar de crescente. Já as classes médias e o operariado não tinham autonomia política em relação às classes dominantes. Essas características levaram à formação de um "Estado de Compromisso", segundo a definição de Bóris Fausto, entre setores da oligarquia e da burguesia industrial. Nestas condições, o Estado ganhou uma autonomia relativa em relação às classes dominantes e pôde levar a cabo uma "revolução pelo alto" que criou as condições para a constituição de uma economia industrial sem a burguesia industrial como "sujeito histórico" dessa transformação.       

A nova ordem obteve o apoio dos trabalhadores ao definir direitos trabalhistas como férias, 13º, horas extras e direito de sindicalização e de greve na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O universo dos eleitores foi ampliado com a legalização do voto feminino. Parte dessas conquistas democráticas foram suprimidas durante o Estado Novo (1937-1945), mas as bases da industrialização estavam lançadas. 

Embora não tenham sido totalmente excluídos do novo bloco de poder, os barões do café jamais aceitaram inteiramente a nova ordem. A "Revolução Constitucionalista" de 1932 em São Paulo foi a tentativa da oligarquia agrário-exportadora de restabelecer o status quo pré-Revolução de 1930. A derrota militar da plutocracia paulista, no entanto, não redundou numa derrota política, pois Vargas se reconciliou com ela e concedeu-lhe parte do poder. Mas a elite quatrocentona bandeirante jamais esqueceria e jamais perdoaria, como a dinastia Bourbon na França...

A "vanguarda do atraso" paulistana tem saudades da sociedade patriarcal onde eles davam as cartas e a questão social era "caso de polícia". Isso explica o ódio aos "marmiteiros" e aos torneiros mecânicos.   

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A SOBREVIVÊNCIA DA LÓGICA TRIBAL

Politicamente sempre estive no campo da esquerda, mas "metodologicamente" evoluí (?) do romantismo radical para o ceticismo pragmático. Entre um e outro,  inebriado pelo canto da sereia apocalíptico dos frankfurtianos, cheguei a flertar com o niilismo anarquista. Finalmente, operei a "síntese dialética" e hoje adoto a consigna gramsciana de "pessimismo na teoria; otimismo na ação". Ainda me considero adepto do Iluminismo e da Revolução Francesa, bien sûr!  Contudo, vacinado contra as ilusões românticas, subscrevo a máxima cética (cínica?) churchilliana da democracia como pior dos regimes, salvo os demais. As dúvidas, portanto, nunca mais me abandonaram (Descartes explica?). Entendo a advertência tocquevilleana sobre a "tirania da maioria" tanto quanto me assusta o "fundamentalismo democrático" dos neocons e de seus epígonos ex-esquerdistas. Afinal, Dr. Jekyll e Mr. Hyde (o médico e o monstro) não é apenas uma metáfora da condição humana.

As reflexões abaixo, a partir do filósofo Herbert Spencer (1820-1903), citadas pelo estrategista e historiador militar britânico J. F. C. Fuller, são perturbadoras porque demolem o senso comum sobre a conexão necessária entre democracia, tolerância e paz; os regimes democráticos não estão necessariamente imunes aos horrores do ódio étnico e da guerra. A carnificina nos Bálcãs, a invasão americana no Iraque e a recente expulsão dos ciganos da França, por exemplo, mostram como a utopia liberal-democrática pode ser tão ilusória, opressiva e excludente quanto a distopia socialista. Sonhamos com a paz perpétua kantiana, mas no fundo ainda somos prisioneiros da lógica implacável do "estado da natureza" hobbesiano.

Nós (não importa quem) somos os eleitos, os melhores
"Tribos selvagens e [...] sociedades civilizadas [...] têm tido, continuadamente, que levar a efeito uma autodefesa externa e uma cooperação interna - antagonismo externo e amizade interna. Como consequência, seus membros adquiriram dois conjuntos de sentimentos e ideias ajustadas a essas duas espécies de atividades. Uma vida de constante inimizade externa dá origem a um código onde são inculcadas a agressão, a conquista e a vingança, enquanto a ocupação pacífica é condenada. Inversamente, uma vida de amizade interior, solidamente estabelecida, dá origem a um código no qual são preconizadas as virtudes que conduzem à cooperação harmoniosa - à justiça, à veracidade, ao respeito ao direito dos outros. Como a ética da inimizade e da amizade, que surgem em cada sociedade em resposta, respectivamente, as condições externas e internas, têm que coexistir, o seu encontro dá lugar a um conjunto de sentimentos e ideias absolutamente inconsistentes". Chega-se, assim, a "duas classes de deveres e virtudes, condenadas ou aceitas segundo padrões semelhantes, uma das quais (código de amizade) associa-se às concepções éticas, enquanto que a outra (código da inimizade), não", escreveu Herbert Spencer.

Os outros são abomináveis e devem ser eliminados
Conclui-se, assim, que há duas espécies de moral [...] uma para o grupo interno e outra para o grupo externo, ambas emanando dos mesmos interesses. "Contra estrangeiros é meritório matar, pilhar, praticar vinganças sangrentas e roubar mulheres, enquanto que, para o grupo interno, é válido o oposto. [...]

O homem, tal qual é, só pode ser explicado pelo homem tal qual foi e jamais pelo homem como gostaríamos que fosse - o pensamento ardente do pacifista. Ele é o produto de milhares e milhares de ancestrais selvagens e sanguinários, que lhe legaram seus instintos. O medo, o mais poderoso de todos, é igualmente a sentinela do bárbaro e do homem civilizado. [...]

A força motriz da democracia não é o amor por outrem; é o ódio a tudo que é exterior à tribo, à facção, ao partido ou à nação. A "vontade geral" preconiza a guerra total e o ódio é o mais poderoso dos recrutadores.
John Frederick Charles Fuller (A Conduta da Guerra)

Discordo, contudo, do determinismo da última frase. Ela deve ser tomada como uma advertência contra o ovo da serpente. Para se proteger, a democracia deve se erigir como um "ceticismo institucionalizado".