quarta-feira, 27 de março de 2013

CÁMPORA, O BREVE



Héctor Cámpora toma posse como presidente em 1973
Continuo meu trabalho de resgate de personagens históricos esquecidos ou mais ou menos esquecidos. Hoje é a vez de Héctor Cámpora que, há exatos 40 anos, foi eleito presidente da Argentina, tendo governado por menos de dois meses. Cámpora se candidatou por uma frente peronista, a Frente Justicialista de Libertação (FreJuLi) porque a ditadura do general Alejandro Augustín Lanusse proibira o general Juan Domingo Perón, exilado na Espanha desde 1955, de concorrer à Casa Rosada.
Perón preparava sua volta triunfal. O slogan da campanha era: “Cámpora no governo; Perón no poder”. Perón o escolhera por sua lealdade, a qual vários companheiros ridicularizavam. Na época circulava em Buenos Aires uma piada; Perón se dirige a Cámpora: “Que horas são?”, pergunta. “A hora que o senhor quiser, meu general”, responde Cámpora.    
Tudo correu bem até que Cámpora vestiu a faixa presidencial, em 25 de maio de 1973. Os problemas com Perón começaram na mesma noite, quando manifestantes Montoneros – a esquerda peronista – abriram as prisões e libertaram presos políticos que estavam condenados ou sendo julgados por tribunais militares. A iniciativa atropelou inclusive a anistia política que tinha sido acordada por Cámpora com as forças políticas argentinas, mas precisava de 48 horas para ser transformada em lei.    
Cámpora (esq.) e Perón
A incapacidade de Cámpora em controlar a situação irritou o velho caudilho, que do exílio madrilenho pôde ver os montoneros ocuparem edifícios públicos e privados. O general antecipou seu regresso e forçou Cámpora a renunciar 49 dias depois de ter assumido. O flerte de Cámpora com a esquerda fez com que ele caísse definitivamente em desgraça com Perón. Ele ficou completamente isolado dentro do peronismo.   
Nas novas eleições, em 23 de setembro de 1973, Juan Perón e sua mulher Isabelita, candidata a vice, tiveram 61% dos votos. Aquelas eleições não seriam da Juventude Peronista e dos Montoneros, mas de seus rivais, a direita peronista e os sindicatos. O tempo daqueles jovens e o do próprio Cámpora tinha passado. O rompimento final se deu no dia 1º de maio de 1974, quando, num comício no balcão da Casa Rosada, Perón chamou os militantes esquerdistas de “imberbes e estúpidos” e os expulsou da Praça de Mayo. Dois meses depois, o próprio Perón estava morto. E a Argentina, sob Isabelita e López Rega, iniciava a descida aos infernos.
Hoje, a esquerda peronista identificada com o governo Kirchner formou uma organização denominada La Cámpora, em homenagem ao velho líder falecido em 1980. A organização é chefiada pelo filho de Nestor e Cristina, Máximo Kirchner.

terça-feira, 26 de março de 2013

UMA EPOPÉIA SOVIÉTICA

Guerrilheiras soviéticas

Há 70 anos ocorreu na Ucrânia uma das maiores expedições punitivas realizadas pelos nazistas durante a II Guerra Mundial. O episódio, estranhamente esquecido, ficaria conhecido como Massacre de Koriukivka, vilarejo da Ucrânia onde as tropas SS assassinaram 6.700 habitantes e queimaram suas casas, em represália às ações dos partisans soviéticos liderados por Oleksiy Federovych Fedorov (1901-1989). A ironia é que os invasores alemães tinham sido inicialmente bem recebidos por parte dos ucranianos oprimidos pelo stalinismo, mas a política de terra arrasada dos nazistas fez crescer rapidamente o apoio à resistência. O vilarejo de Koriukivka foi libertado pelo Exército Vermelho dias depois, em 19 de março. Para se ter uma ideia da tragédia em Koriukivka, o massacre da cidade de Lídice (Tchecoslováquia) no ano anterior, em represália ao assassinato do general SS Reinhard Heydrich, custou a vida de 340 pessoas (1.500 em toda a Tchecoslováquia). Já no episódio das Fossas Ardeatinas, que teve lugar em 24 de março de 1944 em Roma, 335 italianos foram mortos pelos nazistas em represália ao assassinato 33 soldados alemães pelos partigiani.

Oleksiy Fedorov
Já Oleksiy Fedorov se tornaria um dos maiores ícones da resistência soviética. Ele havia lutado em 1920 na Guerra Civil russa nas fileiras do Exército Vermelho e entrado para o Partido Comunista em 1927. Quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética, ele se tornou um dos principais organizadores da resistência armada. Entre 1941-1942 Fedorov comandou unidades guerrilheiras que mataram cerca de mil soldados alemães. Suas unidades guerrilheiras ainda participaram da libertação de outras regiões da União Soviética. Durante a operação na Central Ferroviária de Kovel, em 1943, seus partisans destruíram cerca de 500 vagões de suprimentos alemães, com munição, combustível e equipamentos. Por sua atuação na resistência antinazista, Fedorov recebeu o título de Heroi da União Soviética e a Ordem de Lênin.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O CERCO RELIGIOSO AO ESTADO LAICO



"Quando se legisla sob bases religiosas, abre-se o caminho para todo tipo de intolerância e perseguição religiosa" (W.B Yeats)

“Perseguição não é uma característica original em nenhuma religião, mas é sempre a característica marcante de toda lei baseada em religião, ou religião estabelecida pela lei” (Thomas Paine)

Desde que se tornou República, há 123 anos, o Brasil é um Estado laico ou secular, o que significa que é um Estado que não adota uma religião oficial, nem se confunde com nenhuma confissão religiosa, permite a ampla liberdade de crença e descrença, com igualdade de direitos entre as diversas crenças e “descrenças”. E, acima de tudo, não aceita fundamentações religiosas para definir os rumos políticos e jurídicos do país.

Diferimos, pois, de Estados confessionais, que são aqueles que, embora não se confundam com a religião da maioria, adotam-na como religião oficial, permitindo que ela influa nos rumos do país, além de lhe concederem privilégios. Foi o que aconteceu com o Brasil Imperial e é o que acontece ainda hoje com países como a Argentina, o Paraguai e a Costa Rica, entre outros. E ainda existem as teocracias, nas quais o Estado se confunde com a religião e esta decide os rumos da nação e de seus cidadãos, com os dogmas religiosos pautando as políticas estatais e as relações privadas. É o caso da maioria dos Estados islâmicos, como a Arábia Saudita e o Irã.          

Mas, apesar disso, o laicismo ainda não criou raízes no Brasil. A presença de crucifixos em repartições públicas e instituições escolares, os feriados religiosos, a assinatura, há alguns anos, de uma concordata entre o Brasil e o Estado do Vaticano, na qual se concede privilégios à Igreja Católica  e, mais recentemente, a aprovação, no Rio de Janeiro, de uma lei que estabelece o ensino religioso na grade curricular obrigatória das escolas de ensino fundamental da rede municipal são exemplos disso.

Agora, segundo matéria do jornal O Globo de domingo, mais da metade das escolas públicas brasileiras subvertem a Constituição ao obrigar os alunos a assistir aulas de religião e mesmo a fazer orações. Segundo levantamento feito pelo portal Qedu.org.br, a partir dos dados do questionário da Prova Brasil 2011, em 51% dos colégios há o costume de se fazer orações ou cantar músicas religiosas. De acordo com a reportagem, nas escolas públicas de ensino fundamental que oferecem aulas de ensino religioso (dois terços do total), 49% dos diretores admitiram que a presença nessas aulas é obrigatória. A maior incidência dessas práticas ocorre no Tocantins, onde 73,9% dos diretores admitiram ser comum a prática de cânticos e orações nas escolas. Na sequência, estão os estados de Goiás (67,4%) e Espírito Santo (65,8). Os estados de menor ocorrência são Amapá (35,4%); Rio Grande do Sul (35,1%) e Santa Catarina (34,5%). 

A prática contraria frontalmente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), segundo a qual a religião é uma disciplina facultativa. Como se não bastasse, em 80% dessas escolas não há atividades alternativas para estudantes que não queiram assistir aulas de religião. E a reportagem relata ainda casos de bullying contra alunos praticantes do candomblé ou sem confissão religiosa, levados a cabo inclusive por professores.

Cristina Kirchner e o papa Francisco
Por essas e por outras é que podemos considerar “uma benção” para o Brasil o fato de o Conclave não ter elegido um papa brasileiro. Vocês já imaginaram a pressão que a santa madre igreja católica iria fazer sobre o governo federal para tentar impor sua agenda medieval – combate ao aborto, veto à pesquisa de células-tronco, à camisinha, aos direitos das mulheres, dos homossexuais e de outros “desviantes” – caso isso acontecesse? Para quem duvida, convém prestar atenção nos movimentos da Santa Sé em relação à Argentina. Principalmente agora que Cristina Kirchner disse que o papa Francisco é peronista...
  

sexta-feira, 22 de março de 2013

E POR FALAR EM FELICIANO...


Amina, protesto de peito aberto
Um clérigo muçulmano da Tunísia condenou à morte por lapidação (pedradas) uma jovem de 19 anos que difundiu nas redes sociais uma foto sua fazendo topless com a frase em árabe: “Meu corpo me pertence e não representa a honra de ninguém”. Amina – cujo sobrenome não foi divulgado – é integrante das Femen, organização feminista que se celebrizou pelas táticas provocativas, com mulheres seminuas protestando contra diversas formas de machismo e autoritarismo em vários países.

Adel Almi, o clérigo que emitiu a fatwa – sentença islâmica – disse que a jovem deveria receber entre 80 e 100 chibatadas e depois ser apedrejada até a morte. O pior é que a própria família de Amina concordou com a sentença. “Nossa filha é vítima de manipulação mental, de lavagem cerebral. Devemos lutar contra este flagelo para salvar nossas meninas”, disse a mãe da jovem, sem se importar com o fato de que, para “salvar” a filha, era preciso matá-la. Além dela, o pai, tios e primos da jovem apoiaram a fatwa.

Blaise Pascal
A estupidez religiosa realmente não tem limites. E não venham me falar que isso é coisa de muçulmanos. O “pastor” Marco Feliciano, a bancada evangélica, os neopentecostais, os carismáticos  e a direita religiosa americana estão aí para desmentir essa asneira. 

O Tempora, O Mores! Tomás de Aquino, o maior teólogo do catolicismo, dizia ter medo dos homens de um livro só. O filósofo Blaise Pascal (século XVII), que era jansenista, afirmava que os homens nunca fazem o mal de maneira tão completa quando o fazem por convicção religiosa. Já o doutor Sigmund Freud sabia que nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.   

UMA PROPOSTA FASCISTA... E BURRA!


O coronel (hoje vereador) Paulo Telhada, do PSDB
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal de São Paulo teve o desplante de aprovar a concessão da Salva de Prata – homenagem da Casa por relevantes serviços prestados à sociedade – ao Batalhão das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, mais conhecido como “Rota”. O projeto, de autoria do coronel PM Paulo Telhada (PSDB), ex-comandante do batalhão, justifica a homenagem, entre outras coisas, pelas “campanhas de guerra” realizadas pela PM durante a ditadura militar, nas quais a Rota participou da caçada de guerrilheiros de esquerda. Na justificativa, Telhada destacou a repressão, em 1970, ao foco guerrilheiro instalado no Vale do Ribeira, sob o comando do ex-capitão do Exército Carlos Lamarca.

Seria cômico se não fosse trágico. Homenagear a Rota – unidade notória por realizar execuções extrajudiciais de suspeitos – pelo seu papel na repressão política quando o país discute o que aconteceu com os mortos e desaparecidos é um achincalhe. Não surpreende que o coronel Telhada tenha feito essa proposta; a PM nunca negou suas origens. O brasão de armas da corporação é composto por um escudo com 18 estrelas prateadas que representam “marcos históricos” da PM. Um deles homenageia o golpe de 1964 e a repressão de manifestações populares. O que me causa espécie é esse projeto ter sido aprovado na CCJ da Câmara Municipal.  

O ex-capitão Carlos Lamarca
Além disso, a referência à repressão à guerrilha do Vale do Ribeira é estúpida. As forças de segurança mobilizaram cerca de dois mil homens, sob o comando do famigerado coronel Erasmo Dias, para cercar pouco mais de 30 guerrilheiros. Lamarca os fez de bobos, conseguindo romper o cerco e fugir para São Paulo com mais quatro companheiros. O que esses fascistas saudosistas da ditadura têm a comemorar neste episódio?   

quinta-feira, 21 de março de 2013

SHARPEVILLE REVELOU O APARTHEID



Hoje se comemora o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A data foi instituída pela ONU em 1969 para lembrar o Massacre de Sharpeville, ocorrido em 21 de março de 1960 nas proximidades de Johannesburgo, na África do Sul. Naquele dia, cerca de cinco mil estudantes e trabalhadores sul-africanos realizaram uma passeata para protestar contra a “Lei do Passe”, que obrigava os negros a portar uma caderneta, uma espécie de passaporte interno, que indicava os locais onde eles poderiam se deslocar. A polícia abriu fogo contra os manifestantes com metralhadoras, matando 69 pessoas – inclusive dez crianças – e deixando 180 feridos. 

O episódio foi um turning point na história da África do Sul, pois chamou a atenção mundial para o apartheid, o regime racista da minoria branca que vigorava há décadas no país; levou o governo sul-africano a decretar a lei marcial e a prender quase 20 mil pessoas e fez com que grupos oposicionistas, com o Congresso Nacional Africano (CNA) à frente, abandonassem a tática de resistência pacífica e partissem para a luta armada contra a opressão.



O apartheid, na verdade, existia há muito tempo na África do Sul. A Lei da Terra, de 1913, por exemplo, destinava aos negros – que representavam 2/3 da população – 7,5% do território, enquanto os brancos, que eram um quinto dos sul-africanos, ficaram com 92,5% das terras. A vitória do Partido Nacional, em 1948, acelerou as leis discriminatórias, entre elas a de registro populacional, que obrigava a população a se definir como branca, negra ou mestiça. O objetivo da minoria branca era separá-las espacialmente e restringir ainda mais direitos aos negros. E o mais incrível de tudo é que os bôers – os sul-africanos descendentes de holandeses que dominavam o país – justificam o apartheid pela leitura da Bíblia feita pela Igreja Reformada Holandesa.   

Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano, foi preso em 1963 e condenado à prisão perpétua em 1964. Ficaria 27 anos no cárcere, mas se tornaria o maior símbolo da luta contra o apartheid. Nos anos 1970, uma nova onda de manifestações abalou o regime. Em 1974, o governo decretou outra lei segregacionista contra a população negra, tornando obrigatório o idioma africâner em todas as escolas do país. Em 30 de abril de 1976, crianças das escolas primárias de Orlando West, em Soweto, entraram em greve, se recusando ir às aulas. A medida teve o apoio da maioria da população negra de Soweto, incluindo professores e trabalhadores.

Os estudantes organizaram um protesto em 16 de junho de 1976, marchando aos milhares pelas ruas de Johanesburgo. O protesto foi duramente reprimido pela polícia sul-africana, que mais uma vez recebeu manifestantes à bala. Calcula-se, desta vez, que mais de 700 pessoas tenham sido assassinadas.


Revoltados com a repressão, os negros intensificaram protestos em todo o país. O regime prendeu, exilou, torturou e matou milhares de pessoas. Em 1977, o militante Steve Biko, do Movimento de Consciência Negra, morreu em consequência das torturas infringidas pela polícia, provocando nova onda de manifestações.

Muito sangue correria ainda até o fim do apartheid, em 1994, quando Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul e conduziu, sem sectarismos, a difícil transição para um regime multirracial.     




quarta-feira, 20 de março de 2013

SE A MODA PEGA...


Depois da pequena Islândia, agora foi a vez da ilha de Chipre recusar a tunga que a troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) queria impor ao povo para salvar os bancos. No sábado passado, com o país quebrado, o “Politburo” da banca europeia propôs emprestar € 10 bilhões para dar início a um processo de resgate financeiro dos bancos cipriotas. Em troca, exigiu que o governo cobrasse um imposto compulsório de todos os correntistas do país – 6,75% em todos os depósitos entre € 10 mil e € 100 mil e 9,99% acima de € 100 mil. Com isso, havia a expectativa de se captar € 6 bilhões. O senador Collor de Melo deve estar exultante, pois além de ter sido pioneiro na arte de tungar correntistas, seu confisco foi muito mais radical do que o proposto pela troika ao Chipre...

O presidente Nicos Anastasiades, como bom conservador, foi à TV dizer que lamentava, mas que não havia outra saída. Mas ontem o Parlamento reagiu à altura, mostrando que a soberania popular está acima das pressões do mundo das finanças: por 39 votos, os deputados rejeitaram o pacote fiscal da União Europeia. Outros 19, todos governistas, se abstiveram. O Parlamento disse que a UE estava chantageando o país. Com isso, cresceram os temores de falência do sistema bancário local e até de uma saída do Chipre da União Europeia. Mas o Parlamento lavou a alma do povo cipriota.    

Mesmo assim, o FMI permanece inflexível. Para a diretora-gerente Christine Lagarde, “as autoridades do Chipre têm que cumprir os compromissos adquiridos”. Em seu discurso em uma conferência sobre o futuro da União Monetária Europeia em Frankfurt, Lagarde afirmou que o setor bancário do Chipre deve realizar uma “reestruturação apropriada”. Já o novo chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, teve que negar que haverá taxação de poupanças em outros países da União Europeia.

Nicósia, com a estátua de Makarios III
O Chipre é um país fragmentado. Nos anos 1970, conflitos entre as comunidades Greco-cipriota (cristã ortodoxa) e turco-cipriota (muçulmana) levaram à divisão do país em uma área grega, ao sul, e outra turca, ao norte. O norte – 40% do território – foi ocupado pela Turquia e a ONU enviou tropas para patrulhar a linha divisória, conhecida como Linha Verde.
A parte grega da ilha ingressou na União Europeia em 2004 e adotou o euro em 2008. Desde então, o país, de um milhão de habitantes, tornou-se um paraíso de lavagem de dinheiro. Estima-se que estão depositados cerca de € 70 bilhões no Chipre e que mais da metade desse valor venha do exterior, principalmente da Rússia e da Ucrânia. Para se ter uma ideia do que está em jogo, o setor bancário representa cerca 700% do PIB do país.   

GUATEMALA: UM MASSACRE ESQUECIDO

O ex-ditador guatemalteco Efraín Ríos Montt

Começou ontem o julgamento do ex-ditador da Guatemala, general Efraín Ríos Montt, de 86 anos, que governou o país entre 1982 e 1983. Ele é acusado pela morte de 1.771 indígenas no momento mais tenebroso da guerra civil que durou 36 anos – de 1960 a 1996 – e deixou entre 200 mil e 250 mil mortos. Outro general, José Rodríguez, de 68 anos, também está sendo julgado. Vejam só: nós nos chocamos – com justa razão – com as ditaduras da Argentina e do Chile, que mataram, respectivamente, 30 mil e três mil pessoas. Mas na Guatemala – um país hoje com 15 milhões de habitantes – foram mais de 200 mil mortos ou desaparecidos pela repressão e poucos se indignam. Talvez porque as vítimas sejam indígenas.   

Vala onde foram enterrados vários índios massacrados pelos militares e esquadrões da morte
Não por acaso, a Guatemala foi o primeiro país latino-americano em que a CIA patrocinou um golpe de Estado: em 1954, os militares derrubaram o coronel reformista Jacobo Árbenz, eleito democraticamente. Os americanos atribuíram aos comunistas o fato de Árbenz ter expropriado as propriedades da norte-americana United Fruit para realizar uma ampla reforma agrária. Depois do golpe, a Guatemala foi palco de sucessivos governos militares e serviu de base para o treinamento de cinco mil cubanos anticastristas, muitos dos quais participariam da frustrada invasão da Baia dos Porcos, em 1961. Começaram a surgir manifestações estudantis e, a seguir, grupos guerrilheiros de esquerda. Enquanto os “Boinas verdes” norte-americanos treinavam o Exército guatemalteco na arte da contrainsurgência, a extrema direita formava esquadrões da morte como o Mão Branca e o Exército Secreto Anticomunista para aterrorizar os camponeses. O genocídio foi tão explícito que em 1979 os EUA suspenderam toda ajuda militar ao país.

Ríos Montt e Rodríguez são apenas os primeiros militares da Guatemala a serem julgados por crime de lesa humanidade. Melhor que nada, mas ainda faltam muitos militares, políticos e empresários nos bancos dos réus.

terça-feira, 19 de março de 2013

UMA LIÇÃO À ESQUERDA 'PAPA HÓSTIA'

José "Pepe" Mujica e sua mulher, a senadora Lucia Topolansky

No meio de tanta badalação midiática - até em alguns setores progressistas - em torno da escolha do novo papa, o presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, voltou a destoar do coro dos contentes e se recusou a ir a Roma para beijar a mão do novo pontífice em razão de suas convicções pessoais – ele é ateu – e também por respeitar a laicidade do Estado. Um gesto raro em nuestra mui católica Latinoamerica.    

A primeira dama e senadora do Uruguai, Lucia Topolansky, foi quem esclareceu as razões do marido: “O Uruguai é um país laico desde o século passado. Nesse particular, nós diferimos do resto da América Latina. Temos um grande respeito pela religião; aqui há liberdade de culto, mas nós (ela e o marido) não somos religiosos. Como o vice-presidente Danilo Astori é, o presidente achou mais oportuno que ele viajasse a Roma”.    

Apesar disso, a senadora Topolansky reconheceu a importância do acontecimento – a eleição do papa – e disse que ficou surpresa que o herdeiro de Bento XVI tenha sido um argentino. “É bom que o papa seja rioplatense e que tome mate”, disse. “Como as coisas têm sempre uma leitura política, é uma novidade que o papa seja um latino-americano”, arrematou Topolanksy.

Depois da eleição de Bergoglio como papa, a BBC chegou a compará-lo ao presidente uruguaio: “Francisco é o Pepe Mujica do Vaticano”, disse a emissora britânica em referência aos hábitos franciscanos de ambos. Mas o velho tupamaro não caiu na tentação fácil de ser comparado ao papa jesuíta e fez questão de manter distância do pontífice. “A única coisa que temos em comum é que gostamos de mate e de tango”, despistou Mujica.

Nestes tempos sombrios de espetacularização da política, Mujica representa a lucidez da velha esquerda anticlerical, radical (no sentido marxiano de tomar as coisas pela raiz) e democrática. Nenhum outro líder da esquerda mundial atual disputa com ele a herança das tradições libertárias de Jean Jaurès; Leon Blum, Pietro Nenni e Enrico Berlinguer.   

segunda-feira, 18 de março de 2013

DACHAU: O INÍCIO DA BARBÁRIE

Dachau hoje: memorial

Há 70 anos, em 18 de março de 1933, os nazistas construíram nas dependências de uma antiga fábrica de munição em Dachau, nas proximidades e Munique, o primeiro campo de concentração regular para prisioneiros políticos. Para lá, foram enviados militantes social-democratas, comunistas e sindicalistas. Tempos depois, foram encarcerados ciganos, Testemunhas de Jeová e homossexuais. Durante os primeiros anos poucos judeus foram enviados para Dachau; mas o número de judeus no campo cresceu exponencialmente depois da Kristallnacht (noite dos cristais) em 1938.      

Em 1942, foi construída a área do crematório ao lado do campo principal, bem como uma câmara de gás que não chegou a ser utilizada porque Dachau não era um campo de extermínio, como Auschwitz-Birkenau, Treblinka, Sobibor e Chelmno. Dachau também era um centro de treinamento para os guardas SS de outros campos; sua organização e rotina tornaram-se modelo para os demais. Dachau era dividido em duas seções – a área do campo e a área do crematório. Um dos 32 quartéis era reservado para experiências médicas com seres humanos.

Em Dachau, como em outros campos nazistas, os médicos realizavam experiências nos prisioneiros, como testes de alta altitude usando câmaras de descompressão; experimentos com malária e tuberculose; hipotermia, e testes experimentais para novos remédios. Os prisioneiros também eram forçados a serem cobaias em testes de métodos de dessalinização da água e de estancamento de perda de sangue excessivo. Centenas de prisioneiros morreram ou ficaram incapacitados como resultado destas “experiências”.

Abril de 1945: os americanos chegam a Dachau
Em abril de 1945 havia mais de 67 mil prisioneiros em Dachau. Destes, 43 mil eram prisioneiros políticos, 22 mil judeus e o restante era dividido entre outras categorias. Em 29 de abril de 1945, ao libertarem Dachau, as forças norte-americanas encontraram mais de 30 vagões lotados com corpos em estado de decomposição avançado que haviam sido levados para Dachau. Calcula-se que, de 1933 a 1945, cerca de 200 mil pessoas passaram por Dachau e, destas, mais de 30 mil morreram.

Visitar Dachau ou qualquer outro campo nazista é uma experiência única de testemunhar o lado mais sombrio e tenebroso do ser humano.
    

quinta-feira, 14 de março de 2013

ALEXANDRE VANUCCHI LEME, 40 ANOS

Alexandre Vanucchi Leme era estudante de Geologia da USP nos anos 1970 e militava no grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo. Em 16 de março de 1973, aos 22 anos, ele foi preso pela Operação Bandeirante (Oban) e levado para o quartel da Rua Tutóia, em São Paulo. Foi torturado durante dois dias e acabou morrendo. Temendo a repercussão do fato, os agentes da repressão divulgaram a versão de que ele se suicidara. Posteriormente, mudaram a versão para tentativa de fuga seguida de atropelamento.

Foi então que, pela primeira vez desde 1968, os estudantes resolveram reagir. Consegueriam o apoio do recém-nomeado arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, que celebrou, ao lado de Dom Angélico Sandalo Bernardino, uma missa em memória do estudante assassinado. Durante a cerimônia, o compositor Sérgio Ricardo canta sua música “Calabouço”, composta em homenagem ao estudante Edson Luís, assassinado pela polícia durante manifestação no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968. A morte de Edson Luis foi o estopim para as grandes manifestações estudantis daquele ano.

Cerca de três mil pessoas compareceram à missa na Catedral da Sé, que foi cercada por todos os lados por agentes da repressão armados até os dentes. A cena se repetiria com mais intensidade dois anos depois, em outubro de 1975, quando D. Paulo, o pastor presbiteriano James Wright e o rabino Henry I. Sobel realizaram um culto ecumênico na mesma Catedral em memória do jornalista Vladimir Herzog, igualmente preso e morto nas dependências do quartel da Tutóia – então já DOI-Codi – e, para o qual a repressão deu a mesma versão mentirosa de suicídio. Lentamente, renascia a resistência contra as trevas da ditadura instalada em 1964.

FAZ ESCURO MAS EU CANTO: SÉRGIO RICARDO CANTA ‘CALABOUÇO’



quarta-feira, 13 de março de 2013

UM ANTIPAPA?

Cardeal Bergoglio, agora papa Francisco I
O conclave elegeu o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como novo papa da Igreja Católica. Ele será o primeiro pontífice não-europeu em 1.300 anos, o primeiro oriundo das Américas e, embora também seja o primeiro papa jesuíta, adotou o nome de Francisco I. Não sei – e creio que poucos sabem – o que passou pela cabeça dos cardeais que o elegeram. O fato é que, mais uma vez, nenhum vaticanista conhecido acertou as previsões, já que Bergoglio nem circulava na lista dos principais papabili. Falaram tanto em renovação e elegeram um cardeal oriundo de uma das igrejas mais reacionárias do planeta. E, como se não bastasse, contra Bergoglio pesam, há tempos, suspeitas de ter colaborado com a ditadura militar argentina (1976-1983).

Em 2005, por exemplo, Bergoglio foi denunciado na Justiça por supostas ligações com o sequestro de dois missionários jesuítas em 23 de maio de 1976, realizado por um comando da Marinha. As vítimas eram Orlando Virgilio Yorio e Francisco Jalics, companheiros de Bergoglio na Companhia de Jesus, cuja congregação fazia trabalhos de ajuda social numa localidade do bairro de Bajo Flores. O advogado e ativista dos direitos humanos Marcelo Parrilli, que fez a denúncia, se baseou em artigos de jornal e no livro Igreja e Ditadura, de Emilio Mignone, fundador do Centro de Estudos Legais e Sociais.


O cardeal sempre se orgulhou das boas relações que mantinha com os comandantes militares, particularmente com Emilio Massera, da Marinha. Num documento datado de 1976 Bergoglio justifica o apoio da Igreja Católica à ditadura: “de nenhuma maneira pretendemos formular uma posição de crítica ao governo”, pois um fracasso do Processo “levaria, com muita probabilidade, ao marxismo”.

Em 2011, veio à tona a possível participação de Bergoglio em um caso de sequestro de bebês, prática comum da ditadura, que assassinou várias mulheres grávidas ou com filhos pequenos. O Tribunal Oral Federal nº6 convocou o cardeal a depor no processo de Estela de la Cuadra, uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio. Segundo Estela, o cardeal papa tem relevantes informações sobre o desaparecimento de sua sobrinha, Ana, roubada dos braços da mãe em uma delegacia de La Plata.

Também em 2011 a Justiça da França solicitou que a Justiça argentina tomasse o depoimento de Bergoglio pela suspeita de participação no desaparecimento de um padre francês que morou na Companhia de Jesus. O testemunho de uma monja em 1984 já indicava a relação do então chefe da congregação com o sequestro que resultou nas mortes de Gabriel Longueville e do sacerdote Carlos de Dios Murias.

Monsenhor Bergoglio e o ditador Jorge Rafael Videla
O mínimo é que se pode dizer é que Bergoglio, que foi bispo primaz da Argentina, nunca abriu a boca para denunciar os crimes da ditadura, ao contrário do que fizeram vários de seus pares no Brasil, como D. Paulo Evaristo Arns, D. Helder Câmara e D. Tomás Balduíno, entre outros, e que por isso viraram personae non gratae da ditadura militar. E a TV Globo, com sua sabujice, já saiu dizendo que o novo papa “se afastou” dos militares. Ora, se ele se afastou é porque antes estava próximo, não?     

PLEBISCITO PARA INGLÊS VER


O plebiscito armado pelo Reino Unido nas Malvinas – ou Falklands, como querem os britânicos – trouxe o resultado óbvio: mais de 90% dos kelpers, os habitantes nativos das ilhas, votaram por permanecer sendo súditos de Sua Majestade Britânica.

O que me impressionou na cobertura jornalístico desse evento foram são as “análises” ancoradas no mais primário tipo de maniqueísmo: de um lado, matérias à “esquerda”, denunciando o neocolonialismo britânico e ignorando o direito de autodeterminação dos povos; de outro, a direita colonizada falando em autodeterminação como se nunca tivessem existido fenômenos como o colonialismo e o imperialismo.

O fato é que, com o Reino Unido afundando na recessão e o governo conservador amargando altas taxas de impopularidade, o premiê David Cameron inventou este plebiscito para desviar a atenção dos britânicos e lhes insuflar o sentimento nacionalista. É o velho Panis et Circensis da Roma antiga. Cameron, aliás, nem precisaria conhecer a história antiga (tenho dúvidas de que ele conheça), pois ele está repetindo a tática usada em 1982 por sua antecessora em Downing Street, 10, Margaret Thatcher. Na época, os facínoras que ocupavam a Casa Rosada tiveram a brilhante ideia de invadir as Ilhas Malvinas para unir o país em torno deles e dar sobrevida à ditadura, já que a Argentina amargava uma grave crise econômica e social. Apostaram na aliança com os EUA e no fait accompli, mas quebraram a cara. O pior é que grande parte da esquerda mundial apoiou os gorilas argentinos, em nome do anti-imperialismo. 

Desgastada politicamente no front doméstico, a Dama de Ferro viu na desastrada iniciativa dos militares argentinos uma oportunidade para resgatar a popularidade. Despachou uma esquadra para o Atlântico Sul e retomou sem dificuldade o controle das ilhas, granjeando apoio popular em casa. Com isso, mesmo com a insatisfação dos britânicos com a recessão e o desemprego, ela ganhou facilmente as eleições daquele ano. Ironicamente, Thatcher, que tanto admirava tiranias latino-americanas como a de seu amigo Pinochet, ajudou a pregar o último prego no caixão da ditadura argentina.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O PRÓXIMO PAPA: APOSTAS


O cardeal Carlo Maria Martini e Umberto Eco
Não haverá papa progressista. Ele será, no mínimo, conservador. Isso porque não existem mais cardeais “progressistas”. O último deles foi Carlo Maria Martini, morto no ano assado. Depois da razzia promovida pelos dois últimos papas, o colégio cardinalício oscila entre o reacionarismo dos Pios IX, X e XII e o conservadorismo de Pio XI, João Paulo II e Bento XVI. Dos atuais “papáveis” citados pela mídia, dois, no máximo três, têm perfis menos reacionários: o filipino Luis Tagle, 55 anos, recém-nomeado cardeal; o hondurenho Oscar Rodríguez Maradiaga, 62 anos; e, em certa medida, o italiano Gianfranco Ravasi. À exceção deste último, que integra a Cúria Romana, os dois anteriores têm escassas chances de serem eleitos.

Há uma certa “torcida” midiática pelo cardeal brasileiro (ou seria alemão?) Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, como no conclave passado houve por Cláudio Hummes. Acredito que seu nome está sendo lançado muito mais para ser “queimado” do que para outra coisa. Depois que saíram de cena Paulo Evaristo Arns e Aloysio Lorscheider – este último quase eleito papa em 1978 – o nível clero brasileiro não é tido lá em alta conta na Santa Sé.

Angelo Scola, cardeal de Milão, da Comunhão e Libertação 
O fato é que o grande papabili é o arcebispo de Milão, cardeal Angelo Scola, tido como candidato in pectore do ex-papa (???), aliás, papa emérito, Bento XVI. Seria uma escolha “natural”, mas talvez desastrosa para uma igreja que busca estancar a sangria de fiéis. Integrante do grupo ultraconservador Comunhão e Libertação, Scola é de um reacionarismo militante contra o aborto, a engenharia genética, o controle da natalidade e, particularmente, o feminismo e a homossexualidade. Esses dois últimos temas ele define como traços culturais da modernidade, além do individualismo, libertinagem, narcisismo, relativismo e niilismo. Ex-patriarca de Veneza, Scola era um dos papabili no Conclave que elegeu Ratzinger em 2005.

Cardeal Gianfranco Ravasi, o menos reacionário  
Já o cardeal Giancarlo Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, seria uma escolha razoável se a Igreja quisesse alguém para buscar uma saída para a crise em que se encontra mergulhada. Intelectual capaz de citar tanto Santo Agostinho quanto Sartre, Ravasi está antenado com a cultura moderna (usa Twitter, gosta de rock – dizem até que ouve Amy Winehouse...) e surpreendeu os mais retrógrados prelados quando disse que o evolucionismo de Charles Darwin não está necessariamente em confronto com a fé. (Ufa! Finalmente chegaram ao século XIX...). Ele também disse que mantém diálogo com muitos amigos não-crentes – o que o aproxima de Carlo Maria Martini, que manteve longo diálogo epistolar com Umberto Eco. O vaticanista John Allen Jr. define Ravasi como uma mescla de Carlo Maria Martini e Ratzinger – o que, na certa, daria um Frankstein. Mas o fato de Ravasi ser italiano, da Cúria Romana e não ter experiência pastoral pode pesar negativamente contra sua escolha.   
Correm por fora os cardeais Marc Ouellet (Canadá); Christoph Schönborn (Áustria); Sean Patrick O’Malley (EUA); Leonardo Sandri (Argentina) e Peter Erdö (Hungria). O ganês Peter Turkson, citado insistentemente por agências internacionais, tem poucas chances de vir a ser o primeiro papa negro. Em outubro passado, ele foi duramente criticado por divulgar um vídeo alarmista insinuando que a alta taxa de natalidade dos muçulmanos fará com que eles “dominem” a Europa no futuro. E Turkson também já defendeu a pena de morte para homossexuais.

Mas também não será surpresa se nenhum desses nomes sair consagrado do conclave. Aliás, eu diria até que essa é a hipótese mais provável.

Michel Piccoli vive um papa que tem medo de assumir
Mas meu candidato a papa seria o veterano ator francês Michel Piccoli, impagável como um Sumo Pontífice que não quer assumir o cargo, no filme Habemus Papam, de Nanni Moretti.





     

sexta-feira, 8 de março de 2013

OS DOIS 8 DE MARÇO

Vítimas da repressão policial em NY, 1857
O 8 de março marca o Dia Internacional da Mulher, mas como essa data se consagrou internacionalmente é uma história mais complicada do que se quer fazer crer. Oficialmente, diz-se que a data homenageia as vítimas de uma violenta repressão a uma greve de operárias da indústria têxtil em 1857 na cidade de Nova York. As tecelãs ocuparam as fábricas reivindicando redução da jornada de trabalho (de 16 para dez horas diárias) e equiparação salarial com os homens. Para reprimir o movimento a polícia trancou as grevistas e incendiou os edifícios. Cerca de 130 delas morreram.


A revolucionária Clara Zetkin
Em 1910, durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, na Dinamarca, a revolucionária alemã Clara Zetkin propôs o dia 19 de março como o Dia Internacional da Mulher, para protestar contra a discriminação e a opressão das mulheres nos países industrializados. Em 1911, o Dia da Mulher foi comemorado na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça.

A data foi deixada de lado pela divisão do movimento operário e pela eclosão da Primeira Guerra Mundial, mas foi retomada na Rússia em 1917, criando o estopim para a Revolução de Fevereiro. No dia 8 de março de 1917 (23 de fevereiro pelo calendário juliano) eclodiu em Petrogrado (atual São Petersburgo), em meio às comemorações do Dia Internacional da Mulher, uma a greve de operárias da indústria têxtil contra a fome, o czarismo e para exigir a volta dos homens do campo de batalha. Segundo o líder revolucionário Leon Trotsky, “em 23 de fevereiro (8 de março no calendário gregoriano) estavam planejadas ações revolucionárias. Pela manhã, a despeito das diretivas, as operárias têxteis deixaram o trabalho de várias fábricas e enviaram delegadas para solicitarem sustentação da greve. Todas saíram às ruas e a greve foi de massas. Mas não imaginávamos que este ‘dia das mulheres’ viria a inaugurar a revolução”.

A parte da história que é geralmente escamoteada no Ocidente é que, em 1921, por decisão do próprio Vladimir Lênin, o fundador da União Soviética, essa data foi escolhida em homenagem às operárias, iniciando uma tradição nos países comunistas. Mas, a partir dos anos 1950, a data se transformou numa comemoração festiva, equivalente ao dia dos namorados. Finalmente, nos 1970 o Dia Internacional da Mulher foi resgatado pelo movimento feminista ocidental, que se apossou da data para fortalecer suas reivindicações pela igualdade de direitos de gênero. Em 1977 a ONU finalmente consagrou o 8 de março como Dia Internacional dos Direitos das Mulheres. Mas hoje, no imaginário coletivo, apenas o episódio da greve de Nova York é lembrado.

quinta-feira, 7 de março de 2013

OUSAR PENSAR!


Passou praticamente em branco, no Brasil, a data que marcou os 60 anos da morte do dirigente soviético Josef Stálin (5 de março). Hoje, formou-se um consenso universal, à esquerda e à direita, de que Stálin foi um tirano monstruoso e sanguinário, como se determinados indivíduos fizessem a história por vontade própria, guiados por algum espírito demoníaco. Ora, isso é pré-política. Quem estudar a época sem antolhos ideológicos verá que, quando Stálin morreu, milhões de pessoas choraram sua morte, e não apenas na União Soviética, mas em todo o mundo. É verdade que não se sabia – ao menos a maioria – dos crimes cometidos por Stálin, que seriam revelados somente três anos depois – no XX Congresso do Partido Comunista – e, mas fortemente, em 1961, no XXI Congresso. Mas, na época, acreditem ou não, havia um sentimento de genuína gratidão pelo papel que a URSS teve – com 30 milhões de mortos – na derrota do nazi-fascismo. Hoje, essa informação fundamental para se compreender aquela época trágica desaparece em nome do bom-mocismo ideológico.
 
O texto que apresento abaixo é uma resenha do veterano comunista português Miguel Urbano Rodrigues, de 2009, sobre o livro Stálin – História e crítica de uma lenda negra, do marxista italiano Domenico Losurdo. Escrever com isenção sobre Stálin e o período dramático que ele viveu não é tarefa fácil, principalmente em tempos politicamente corretos e incorretos. Como bom historiador, Losurdo se propõe a analisar o personagem à luz de documentos históricos, sem ceder às tentações ou preconceitos ideológicas. E, como demonstra a resenha, ele o consegue em larga medida. O personagem que emerge do livro é um dirigente multifacetado, misto de gênio político e tirano, mas jamais alguém redutível a esquemas preconcebidos. Podemos gostar ou não gostar de Koba – aliás, quase ninguém gosta. Mas não se pode deixar de analisá-lo dentro de um contexto histórico, apoiado em fatos documentados, não em considerações metafísicas. Um relato histórico não faz de Stálin um líder inocente, ou prisioneiro das férreas “leis da História”. Mas é preciso deixar de lado os estereótipos e “fazer a história a contrapelo”, como ensinava Walter Benjamin. Ou ainda, como pregava o filósofo iluminista Immanuel Kant, Sapere aude! (ousar pensar). Às vezes é difícil, mas é fundamental.

PS.: Amigos e companheiros poderão pensar que virei stalinista. Não é verdade; apenas reafirmo o gosto pela provocação...


Stálin, história e crítica de uma lenda negra – um livro de Domenico Losurdo

Por Miguel Urbano Rodrigues

Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia.

Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin – Storia e critica de una leggenda nera, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava.

Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor.

Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Apontamentos sobre Trotsky – O mito e a realidade. Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo.

Domenico Losurdo aborda no seu Stálin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema.

Stálin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História.

Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stálin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio.

A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio.

A DEMONIZAÇÃO DE STÁLIN

A demonização de Stálin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lênin grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stálin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governança ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor “o socialismo real” mediante métodos criminosos.

Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stálin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stálin.

Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos - Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade.

O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em Janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um “fenômeno histórico” que é também “uma teoria e uma prática política” que exorciza.

DA ESPERANÇA À REALIDADE

Sobre Stálin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polonês Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoísta), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil.

Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz.

quarta-feira, 6 de março de 2013

CHÁVEZ ALÉM DOS CHAVÕES


Salvador Dalli, A tentação de Santo Antonio 
A América Latina não é para principiantes. Essa frase, ou algo parecido, me foi dita há uns 15 anos por um colega argentino quando ambos estávamos na Colômbia cobrindo uma crise que ameaçava o então presidente Ernesto Samper de impeachment. Esse colega, o jornalista Pablo Biffi, do Clarín, dizia que um gringo cartesiano jamais conseguiria entender um fenômeno tipicamente latino-americano como o peronismo – por supuesto! –, em que um líder militar simpatizante do fascismo traz a classe operária ao centro da vida política do país e ganha o ódio eterno dos conservadores e da classe média argentina. “A América Latina é Macondo”, disse ele, lembrando a cidade símbolo do realismo fantástico do romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.

O exemplo do meu colega me veio à mente agora com a morte de Hugo Chávez Frías. Ele, definitivamente, não é um personagem fácil de ser enquadrado nos clássicos manuais de política, embora tanto seus detratores quanto seus apoiadores insistissem em encerrá-lo em modelitos pré-concebidos – “populista” e fanfarrão, para os primeiros; “bolivariano” e progressista, para os segundos. O buraco é mais embaixo, como veremos.


O tenente-coronel Hugo Chávez em 1992
Chávez ganhou notoriedade internacional em fevereiro 1992. Animado por ideias nacionalistas e vagamente esquerdistas, o então tenente-coronel paraquedista do Exército tentou dar um golpe militar contra o então presidente Carlos Andrés Pérez, da Acción Democrática. Pérez tinha sido um dirigente nacionalista no primeiro mandato, nos anos 1970; mas ao voltar ao poder, em 1989, enfiou goela abaixo dos venezuelanos a amarga receita do FMI para enfrentar a crise econômica. O resultado foi o “Caracazo”, revolta popular cuja repressão provocou mais de 300 mortes.


Caracas, símbolo dos contrastes latino-americanos 
Quando Chávez foi eleito presidente da Venezuela, em 1999, o país tinha cerca de 70% da população abaixo da linha da pobreza. Quem conheceu Caracas sabe que a cidade expressa arquitetonicamente a secular fratura latino-americana: uma metrópole cortada por viadutos e autopistas – a modernidade – cercada de morros apinhados de favelas por todos os lados – o “atraso”. Um país nadando na riqueza do petróleo com tal iniqüidade é retrato acabado do reacionarismo das oligarquias que há 500 anos dominam a região. Chávez instituiu programas sociais que, a exemplo do que ocorreu no Brasil desde a ascensão de Lula, redistribuíram a renda nacional pela primeira vez na História do país. Não é à toa que Chávez é adorado pelos setores mais pobres da população. Que essa redistribuição não tenha sido feita de maneira a fortalecer a autonomia dos movimentos sociais e partidos populares é outra história. Mas não dá pra negar essa transformação.


O lado autoritario e messiânico....
Claro, como militar imbuído de um certo messianismo, Chávez teve rompantes autoritários. Várias vezes ele tentou cercear e descaracterizar a oposição. Mas é preciso lembrar algumas coisas: primeiro, foi a oposição, representada por empresários, militares, burocracia estatal e a grande mídia, que rompeu a legalidade ao tentar dar um golpe de Estado em 2002, com aberto apoio dos Estados Unidos. Já Chávez ganhou democraticamente todas as eleições e plebiscitos – à exceção de um – realizados sob seu governo. Todos abalizados por observadores internacionais, inclusive Jimmy Carter. Finalmente, quando a mídia venezuelana esperneia contra o que seria uma tentativa do chavismo de “cercear a liberdade de imprensa”, ela está, como aqui, reclamando da tentativa do governo de quebrar o monopólio da informação, o que tecnicamente se chama “propriedade cruzada” dos meios de comunicação. Situação que, de resto, favoreceu muito a tentativa de golpe de 2002.

O grande pecado de Chávez, a meu ver, é ele não ter criado uma alternativa para diversificar a economia venezuelana, mudando o modelo rentista. É um modelo que usa as divisas advindas da exportação de petróleo para o consumo e faz com que o país se torne totalmente dependente das importações, bloqueando qualquer possibilidade de industrialização. Trata-se de uma versão da “doença holandesa” que costuma acometer países com recursos naturais abundantes. Seria necessária a criação de um fundo soberano, como fez a Noruega, para investir maciçamente na diversificação da economia. Mas ele não teve visão ou capacidade para tanto.


...e o lado popular e democrático 
Mesmo seu proclamado “anti-imperialismo” era mais retórica do que outra coisa. Tanto que a Venezuela chavista jamais deixou de exportar petróleo para os Estados Unidos. Mas essa retórica foi certamente importante para criar uma nova realidade geopolítica, com a formação de um bloco sul-americano para enfrentar o desafio da ALCA, a malfadada área de “livre comércio” das Américas que quase nos engolfou. Seu papel nesse processo não foi secundário, até pelo exagero. O temor de Chávez fez com que o Brasil e Lula – um “moderado” perto do venezuelano – colhesse os frutos.

O fato de Chávez ter sido fanfarrão, boquirroto e simplista pode irritar as elites bem-nascidas da Venezuela e alhures, como a persona de Lula incomoda os nossos reaças de plantão. Mas não deve turvar nosso raciocínio sobre seu papel histórico e seu legado.