segunda-feira, 30 de maio de 2011

DUAS DOSES A MAIS (OU A MENOS)


H.  L. Mencken pelo caricaturista David Levine
Henry Louis Mencken (1880-1956)foi um jornalista literário americano, ensaísta, crítico e satírico - o maior iconoclasta de seu tempo. Sua pena era particularmente ácida contra o jingoísmo da classe média da América, os fundamentalistas cristãos e as frivolidades do jornalismo - aquilo que hoje, pseudo-sofisticadamente, chamamos de fait divers e que, desgraçadamente, tentamos levar a sério. O trecho abaixo foi escrito durante a infame Lei Seca - a proibição, em nome de princípios morais, da fabricação e comercialização de álcool nos Estados Unidos. A lei durou entre 1919 e 1933, aumentou a procura pelo álcool e acabou fazendo da Máfia - então um bando de carcamanos desordeiros - um paradigma do crime organizado.    

"O álcool, por assim dizer, nos desenreda. Ele levanta o toldo da sensação e nos torna menos sensíveis aos estímulos eternos e, particularmente, àqueles que nos são desagradáveis. Ao pôr um freio em todas as qualidades que nos permitem tocar a vida e brilhar diante dos colegas - por exemplo, a combatividade, a agudeza, a diligência, a ambição - , o álcool liberta as qualidades que nos enternecem e fazem com que as pessoas gostem de nós: a afabilidade, a tolerância, a generosidade, o humor, a simpatia. [...] Tudo é tão óbvio que me espanto ao ver que nenhum utópico, até hoje, se propôs a abolir todas as lamentações do mundo pelo simples artifício de manter toda a humanidade ligeiramente alta. Note bem, eu não disse bêbada; disse ligeiramente alta - e peço desculpas por não saber como descrever este estado numa frase menos indecorosa. O homem ligeiramente calibrado pelo álcool é capaz de pôr suas melhores qualidades para fora. Ele não é apenas imensamente mais mais amável do que o indivíduo que vive a seco; é também imensamente mais decente. Reage a todas as situações de maneira expansiva, generosa e humana. Torna-se mais liberal, tolerante e agradável. É melhor cidadão, marido, pai e amigo. As inciativas que tornam a vida humana insegura e desconfortável nunca são tomadas por este homem: ele não declara guerras, não rouba nem oprime ninguém. Todas as grandes vilanias da História foram perpetradas por homens sóbrios e, principalmente, por abstêmios. Mas todas as coisas belas, do Cântico dos Cânticos à tartaruga à Maryland, das nove sinfonias de Beethoven ao martini seco, foram concebidas por homens que, na hora certa, trocavam a água de bica por algo mais colorido e com outros ingredientes que não apenas hidrogênio e oxigênio".

H. L. Mencken, Retrato de um mundo ideal (1924)       

O TURISTA DESAPRENDIZ


Alain Finkielkraut
“Graças à anulação da topologia pela tecnologia, a experiência humana, por demais humana, da vizinhança, cede lugar à embriaguez olímpica de uma eqüidistância universal. O homem não é mais vernacular, ele é planetário. Seu círculo imediato não é mais local, mas digital. Ele estava ligado a um território, agora está conectado à rede e doravante só tem que fazer autoctonias. A inerência ao mundo era seu destino, o espetáculo e o chamamento do mundo marcam sua acessão à liberdade. Cibernauta e orgulhoso de o ser, ele abandona a obscena materialidade das coisas pelas delícias infinitas de um espaço insubstancial.


Ele era geográfico e histórico, ei-lo angélico, livre, como os anjos, das fadigas de sua vida na terra e da ordem da encarnação, dotado, como eles, do dom da ubiqüidade e da imponderabilidade. Limitado que era por uma memória mais velha que ele e que o constrangia ao particularizá-lo, libertou-se do fardo do passado, dessa usurpação do dado, dessa alteridade íntima, desse ferimento prejudicial infligido ao sonho de autarcia e dessa presença em si dos mortos que se chama, sem dúvida por antífrase, identidade. Fim da existência fechada: dado que a comunicação e a conexão generalizadas apagaram – miraculoso lifting – as rugas que as fronteiras haviam esculpido no rosto da humanidade, a pertença experimentada se apaga em proveito da relação escolhida: doravante todos os mortos estão disponíveis; “a felicidade se eu quiser, qualquer um pode dar qualquer prenome da terra a seu filho, se conectar, sem sair do quarto, a qualquer divertimento, ter acesso imediato às catástrofes, explorar avidamente as mais longínquas culturas, aparecer de repente em todos os lugares históricos, namorar, de chinelos, vitrines nos antípodas, e navegar à vontade nos bancos de dados da grande miscelânea mundial em que as tradições nos transformaram. Outrora estava-se num ou noutro lugar, dentro ou fora, em seu próprio país ou no estrangeiro; era-se burguês ou boêmio, sedentário ou nômade. Este tende a desaparecer: o que quer dizer que a qualidade de turista, no homem, substitui pouco a pouco a do habitante e que se anuncia uma era em que, com a abolição simultânea das distâncias e dos destinos, todos poderão ser visitantes de tudo”.

Alain Finkielkraut, A humanidade perdida

sexta-feira, 27 de maio de 2011

UM BODE TENEBROSO

Há 50 anos era assassinado o ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo Molina (1891-1961), que chegou ao poder em 1930 com o apoio dos EUA e cujo assassinato, ironicamente, teve a colaboração da CIA. “El Benefactor” (benfeitor), ou “El Jefe”, como gostava de ser chamado, governou a República Dominicana como se fosse sua fazenda particular – sua família chegou a ser proprietária de 70% das terras cultivadas. O culto à sua personalidade também foi um marco do regime: a capital do país, São Domingos, a mais antiga cidade das Américas, fundada pelo irmão de Cristóvão Colombo, Bartolomeu, foi rebatizada de Ciudad Trujillo. Mas o pior de tudo foram os 30 anos de ditadura, que transformaram a República Dominicana um dos países mais sangrentos da América Latina. Calcula-se que 50 mil pessoas tenham sido assassinadas; inclusive entre 20 mil e 30 mil haitianos em 1937, no infame massacre de Parsley. O controle do “generalíssimo” sobre o país era absoluto, em grande parte coordenado pelo SIM, serviço de inteligência militar da ditadura. Profundamente católico e ardentemente anticomunista, Trujillo se inspirava no ditador espanhol Francisco Franco, “caudillo de España por la graça de Diós”. Curiosamente, o ditador dominicano foi um grande defensor do meio ambiente, criando parques nacionais e proibindo os métodos de desmatamento para atividades agrícolas. Sobre o Benfeitor, o secretário de Estado americano, Cordell Hull, teria dito a frase “ele pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta”.

O carro do ditador, alvejado a tiros
Quando John Kennedy assumiu o poder nos EUA, em 1961, os americanos perceberam que teriam que se livrar do velho aliado se quissessem ter argumentos sólidos para combater a Revolução Cubana. A CIA fez contato com alguns dos conspiradores e secretamente lhes enviou armas. Em 30 de maio de 1961 Rafael Trujillo morreu assassinado a tiros numa rua de São Domingos. O filho do ditador, Ramfis, assumiu o poder e quase todos os assassinos e seus familiares foram torturados; vários se suicidaram. Em outubro de 1961, os seis últimos assassinos de Trujillo foram levados para uma fazenda da família e jogados aos tubarões em uma praia próxima. Nas décadas seguintes, o país seria dominado pela figura de Joaquín Balaguer, ex-aliado de Trujillo metamorfoseado em "líder democrata".


A Festa do Bode, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, descreve maravilhosamente a conspiração que eliminou Leónidas Rafael Trujillo.



quinta-feira, 26 de maio de 2011

FALTA ALGUÉM NO TRIBUNAL DE HAIA


O ex-general sérvio-bósnio Ratko Mladic
Foi preso o criminoso de guerra Ratko Mladić, o sanguinário comandante militar das forças sérvias da Bósnia, responsável pelo massacre de mais de 8 mil bósnios muçulmanos na cidade de Srebrenica, em junho de 1995. Segundo o Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (ICTY), Srebrenica foi o maior assassinato em massa na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e fazia parte da política de “limpeza étnica” – eufemismo para genocídio – das autoridades sérvias comprometidas com o ideal da “Grande Sérvia” depois do desmantelamento da Iugoslávia. Mladić era o braço militar do psiquiatra e poeta Radovan Karadžić, dirigente da República Sérvia da Bósnia (Sprska), preso em 2008 e enviado a Haia. Junto com Slobodan Milošević, ex-presidente da Sérvia morto em 2006, eles formavam o trio macabro dos sérvios. Agora, Karadžić e Mladić vão ser julgados pelo Tribunal Internacional em Haia, na Holanda.

Civis massacrados em Srebrenica

Srebrenica era uma cidade bósnia que havia sido colocada sob proteção da UNPROFOR, as forças de paz da ONU na Iugoslávia, e estava sob cerco das forças sérvias. Cerca de 30 mil civis – a maioria, muçulmanos bósnios – tinham se refugiado na cidade para escapar à ofensiva sérvia no nordeste da Bósnia-Herzegovina. A cidade estava sob proteção de apenas 100 “capacetes azuis” holandeses, mal-armados e mal-equipados. Ajudados por uma unidade militar regular da Sérvia, os Scorpions, os sérvios bombardearam a cidade entre 6 e 11 de junho de 1995. Ao entrarem em Srebrenica, separaram mulheres e crianças de homens e meninos. Estes foram retirados da cidade por dezenas de caminhões. Muitos foram barbaramente torturados antes de serem mortos; alguns foram enterrados vivos. A maioria morreu com as mãos amarradas nas costas e um tiro na nuca. Há relatos de pessoas que foram forçadas a matar seus próprios filhos ou a assistirem à execução destes por soldados sérvios.

Os carniceiros Mladic (à esq). e seu líder Karadzic

A prisão de Karadžić e, agora, de Ratko Mladić, é uma vitória contra a barbárie. Mas falta alguém no tribunal de Haia: são os dirigentes da ONU que se recusaram a enviar reforços para que os capacetes azuis holandeses resistissem ao assalto dos sérvios. Havia inicialmente cerca de 600 soldados holandeses em Srebrenica, mas a maioria foi retirada da cidade. Com a diminuição da tropa, a falta de alimentos, combustível e munição, eles ficaram impedidos de oferecer qualquer resistência. Quando as tropas sérvias entraram em Srebrenica, não houve qualquer resistência dos bósnios; muito menos protesto da ONU. O comandante dos capacetes azuis pediu apoio aéreo à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para proteger a cidade do ataque das forças sérvias, mas este lhe foi negado. Os burocratas da UNPROFOR temiam que soldados holandeses detidos como reféns pudessem ser assassinados.

Em 2007, familiares das vítimas de Srebrenica entregaram ao governo holandês os documentos que mostram a omissão da UNPROFOR e dos soldados holandeses frente ao massacre. Eles pedem a responsabilização do Estado holandês e da ONU. O Tribunal Penal Internacional até agora não se pronunciou.







quarta-feira, 25 de maio de 2011

A MORTE DE UM GUERREIRO: ABDIAS DO NASCIMENTO

Abdias do Nascimento, morto ontem aos 97 anos, foi um dos pioneiros na luta contra o racismo no Brasil. Fundador do Teatro Experimental do Negro em 1944, organizou o primeiro Congresso do Negro Brasileiro, em 1950. Em 1968, com o endurecimento da ditadura militar, exilou-se nos Estados Unidos, onde trabalhou como professor universitário. Em 1978 foi co-fundador do Movimento Negro Unificado (MNU). Dois anos depois, em maio de 1980, foi, juntamente com Leonel Brizola – de quem se tornara amigo no exílio – um dos fundadores do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Escolhido vice-presidente do partido em 1981, neste mesmo ano fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, na PUC de São Paulo. Em 1982, Abdias retornou definitivamente ao Brasil. Foi ainda deputado federal, senador e secretário de Estado.
O artigo abaixo, do dramaturgo Nelson Rodrigues, foi escrito há mais de 50 anos e traça um belo perfil de Abdias, da sua luta e da hipocrisia da nossa "democracia racial".  

ABDIAS: O NEGRO AUTÊNTICO

Por Nelson Rodrigues


O que eu admiro em Abdias do Nascimento é a sua irredutível consciência racial. Por outras palavras: trata-se de um negro que se apresenta como tal, que não se envergonha de sê-lo e que esfrega a cor na cara de todo o mundo.


Aí está "Sortilégio", o seu mistério, que vive, justamente, do seu dilaceramento de negro. Eu já imagino o que vão dizer três ou quatro críticos da nova geração: - que o problema não existe no Brasil etc., etc., etc. Mas existe.


E só a obtusidade pétrea ou a má-fé cínica poderão negá-lo. Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto Brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo.


A primeira condição de "Sortilégio" para ser válida como expressão artística de um problema brasileiro está na base da autenticidade. A peça nutre-se de toda a experiência vital do autor. Ele é o "Dr. Emanuel"; 'a semelhança do seu herói, foi atirado no xadrez, como um objeto "doutor africano"; e se fosse casado com uma esposa branca estaria sempre diante do limite do crime, do suicídio, da loucura.


Eis a grandeza do personagem: - a exasperada solidão. E que grande e quase intolerável poder de vida tem "Sortilégio"! Na sua firme e harmoniosa estrutura dramática, na sua poesia violenta, na sua dramaticidade ininterrupta, ela também constitui uma grande experiência estética e vital para o espectador. Não tenham dúvidas que a maioria da crítica não vai entendê-la.


Sobretudo, dois ou três cretinos que se intitulam a si mesmos de "novos". Mas não são "novos" coisa nenhuma. Entre a Sra. Barreto Leite, que tem a idade do Sr. Mário Nunes e os Srs. Paulo Francis e Henrique Oscar, que são garotos, não há diferença. Diga-se a verdade total: - não são novos, nem velhos. São burros. Tanto faz, que tenham 15 ou 80 anos. A burrice os isenta do tempo. Vão se atirar contra "Sortilégio". Mas nada impedirá que o mistério negro entre para a escassa história do drama brasileiro.

Publicado no jornal ÚLTIMA HORA em 26 de agosto de 1957



Entrevista de Lázaro Ramos com Abdias em 2009. Video extraído do blog "Tijolaço", do deputado Brizola Neto.

Untitled from Tijolaco on Vimeo.

O PACTO DE CLASSES, DE VARGAS A LULA

Trechos da brilhante análise do meu amigo Gilberto Maringoni, historiador e cartunista, sobre o novo “pacto de classes” estabelecido pelo governo Lula. O texto integral foi publicado no site Carta Maior.

texto completo em
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5055


“Ao longo de oitos anos, o PT completou uma hábil movimentação para ganhar a confiança do topo do empresariado operante no Brasil. Embora as mudanças programáticas nessa direção já fossem perceptíveis desde a década anterior, a consolidação dessas diretrizes aconteceu com a ação concreta da administração pública.


Começando seu primeiro mandato com um duro ajuste fiscal e com a reforma da Previdência, o Presidente Lula exibiu na prática o programa de governo que desejava tocar dali em diante. Entretanto, ao contrário do que muitos vocalizaram à ocasião, o governo petista não era uma mera continuidade de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.

A gestão Cardoso representou no Brasil a aplicação a ferro e fogo das diretrizes do Estado Mínimo, com uma agressiva política de privatizações, de liberalização da movimentação de capitais e do desinvestimento na expansão de atividades próprias do Estado, como os serviços públicos, as forças armadas e a diplomacia. Nesses anos, o salário mínimo, como consequência, chegou a um de seus mais baixos patamares históricos, de 70 dólares mensais.

A partir de 1999, após a quebra do real, houve uma quase institucionalização da política monetária de corte ultraliberal, com a sacramentação do Banco Central independente e do tripé metas de inflação, juros altos e câmbio flutuante. Nada disso foi mudado na gestão do ex-metalúrgico.

Qual o giro operado por Lula? Primeiro foi o de ganhar a confiança dos chamados mercados, através da manutenção da ortodoxia monetária, especialmente ao longo de seu primeiro mandato (2003-2007). Depois foi mostrar ao grande capital que o desenvolvimento do país estava centrado em pelo menos duas bases: expansão do mercado interno e busca de novos mercados os países em desenvolvimento. Nessas duas vertentes, o dirigente petista teve amplo sucesso.

Celso Amorim formulou e comandou a diplomacia de Lula

A diplomacia brasileira conseguiu atrair novos parceiros, após anos seguidos de déficits em nossa balança comercial ou de resultados medíocres (déficit de US$ 697 milhões em 2000, alcançando um pico de US$ 46 bilhões em 2006), resultantes de anos de sobreapreciação cambial (www.portalbrasil.net/economia_balancacomercial.htm )

Na fronteira interna, a estabilidade monetária, após as turbulências de 1999-2002, possibilitou uma acelerado crescimento do crédito tanto às empresas quanto às pessoas físicas. Esta última modalidade resultou em inédita expansão da indústria de bens de consumo duráveis, em especial da automobilística. Os números do Banco Central são eloqüentes: de pouco menos de 20% em julho de 2004, o total de crédito ofertado na economia chegou a 45,7% do PIB em junho de 2010. Os empréstimos do BNDES, com juros subsidiados (TJLP) de 6% ao ano, saltaram de R$ 35,1 bilhões em 2003, para R$ 140 bilhões em 2010.

Aliado a políticas de valorização do salário mínimo – que teve seu valor majorado em 70% em termos reais ao longo dos dois governos lulistas -, à expansão da seguridade social e a políticas focadas de transferência de renda, o mercado interno sustentou expressivos índices de crescimento e melhoria na distribuição de renda entre os assalariados. Apesar disso, a distribuição funcional da renda – entre capital e trabalho – manteve-se quase inalterada. A participação dos salários na renda nacional, que conheceu um pico de 50% no final da década de 1950 chegou a 35,2% em 1995 e caiu constantemente até o piso de 30,8% em 2004, conhecendo uma lenta recuperação, alcançando 34% em 2010, segundo dados do IPEA.

Henrique Meirelles presidiu o BC nos 8 anos de Lula  


No entanto, a grande política de transferência de renda continuou sendo representada pelas altas taxas de juros, que nunca baixaram de um patamar real de 6% ao ano (isto é, descontada a inflação). Em 2011, a elevação da taxa selic para 12% resultará em uma transferência de cerca de R$ 235 bilhões dos cofres públicos para os detentores de títulos da dívida, o que equivale a pouco mais de 40% do orçamento público federal. Em uma frase, se os pobres ganharam no governo Lula, é certo que os ricos ganharam muito mais.

Essa combinação – juros elevados, expansão creditícia, salário mínimo e políticas focadas – literalmente “bombou” o crescimento econômico brasileiro, sem alterar profundamente a estrutura de classes no país. Lula concretizou uma espécie “capitalismo popular” que gerou folga nas contas públicas para alavancar políticas anticíclicas eficazes durante a crise internacional de 2008-9.

Com medidas de teor keynesiano – pesados investimentos em infraestrutura, elevação do poder de compra aos que têm propensão a gastar – aliadas à manutenção de altas taxas de juros e subsídios ao setor privado, o Estado brasileiro logrou impedir que a oferta de crédito no mercado interno fosse interrompida durante o período mais agudo da crise. Não apenas não houve penalização a nenhum setor do capital, como este recebeu subsídios importantes para não ser capturado pela maré montante das incertezas. Não houve aqui também uma penalização dos trabalhadores. Os níveis reais de salário e de emprego se mantiveram, com poucas oscilações.

Frisa-se aqui o que está subjacente a estas linhas: todas as iniciativas de Lula em momento algum o colocaram em rota de colisão com as forças de mercado. Ao contrário.

O governo Dilma tem se mostrado mais realista que o próprio governo Lula em sua adesão aos mercados como eles são. Trata-se de um passo à frente, que consolida diretrizes anteriores e que, tudo indica, repactua as relações entre as classes sociais no Brasil. Trata-se de algo estrutural, como não se via no país desde o primeiro governo Vargas (1930-45).

Getúlio Vargas conduziu uma revolução burguesa sem a burguesia 

Getúlio Vargas conseguiu empreender um grande acordo, mudando as relações de produção e as relações sociais, modernizando o parque produtivo, utilizando a política fiscal para investimentos em infraestrutura que davam suporte à industrialização e concedendo leis trabalhistas ao crescente operariado urbano. Logrou fazer isso sem tocar na propriedade da terra e conformando sob suas bases dois partidos aparentemente antagônicos, o PSD (representante dos grandes latifundiários e industriais e o PTB, vocalizando os anseios dos trabalhadores). Elemento fundamental para a concretização desse pacto, que duraria até 1964, foi a dura repressão à esquerda comunista. Assim, o pacto getulista teve duas vias, a política e a econômica, que se materializou em novas relações entre as classes sociais.

É bem possível que estejamos assistindo a uma nova pactuação desse tipo em nosso país. O governo não é apenas petista (agremiação que representa as massas assalariadas em sua essência), mas também do PMDB (amálgama partidário a agrupar diversas facções do capital). As bases foram cimentadas por Lula, especialmente durante a crise de poucos anos atrás e conhecem sua arte final na gestão de Dilma Rousseff. Suas bases – repetimos - são altas taxas de juros a remunerar o capital (além de subsídios de várias ordens) e aumentos do salário mínimo e políticas sociais focadas para os trabalhadores.


Uma diferença salta à vista. Enquanto Getulio integrou os trabalhadores ao modelo desenvolvimentista através da concessão de direitos trabalhistas, Lula realiza movimentação semelhante através de aumentos salariais, expansão do crédito e iniciativas focadas, que aumentam o poder de compra dos pobres. Em síntese, a integração atual se faz via mercado."
Gilberto Maringoni, Um novo pacto de classes?

UM FANTASMA VOLTA A RONDAR A EUROPA...



Stéphane Hessel, da Resistência ao nazismo à resistência ao neoliberalismo
Um ancião de 93 anos encarna o que a Europa tem de mais generoso e promissor nestes tempos sombrios de crise econômica, exclusão social e xenofobia. O embaixador Stéphane Frédéric Hessel, ex-membro da Resistência Francesa e um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 1948, é o inspirador do movimento de contestação “15M”, que desde o dia 15 de maio – daí o nome – acampa na Puerta Del Sol, em Madri para protestar contra a selvageria excludente do capitalismo neoliberal e o esgotamento do sistema de representação política. Os jovens contestadores dizem se inspirar no opúsculo Indignez-vous!, publicado inicialmente em outubro do ano passado numa edição de 6 mil cópias e que já vendeu 1,5 milhão na França e foi traduzido para o espanhol, português, basco e italiano. O panfleto argumenta que a França deveria novamente se indignar, como a Resistência fez na época de Vichy – o governo colaboracionista do marechal Pétain – só que, agora, contra o crescimento da desigualdade, o tratamento xenófobo dispensado aos imigrantes ilegais, o cerceamento da liberdade de informação pelos conglomerados da mídia e o isolamento dos palestinos pelo lobby israelense. Hessel apela à desobediência civil e à insurreição não-violenta.

Jovens espanhois se manifestam em Madri
Os manifestantes de Madri foram convocados pelo movimento suprapartidário Democracia Real Já, que não admitem que a crise econômica seja enfrentada novamente com o sacrifício dos trabalhadores, enquanto as corporações multinacionais dominadas pelo grande capital financeiro sejam beneficiadas pelos governos, sejam eles de esquerda, como na Espanha, ou de direita, como na França e no Reino Unido. Esse movimento, que já se espalhou por outras cidades espanholas e européias, guarda um interessante parentesco com as manifestações pró-democracia que irromperam neste ano nos países árabes dominados por ditaduras e monarquias corruptas. “Madri não é Tahrir, mas o vírus é o mesmo: o fastio de uma juventude sem esperança – diante de um mercado minguante que se ‘moderniza’ cortando direitos sociais e empregos – com o único horizonte de contratos imundos, de longa duração. Prevalece a voz oficial, a dos outros, a da linguagem burocratizada, a das entrevistas coletivas sem perguntas, a dos intocáveis”, diz o jornalista Ramón Lobo no El Pais.

O "15M, movimento intrapartidário: embrião da nova esquerda?   
E o grande elemento da mobilização em Madri estão sendo as redes sociais da internet. Na Espanha, isso já aconteceu em 2004, quando mensagens enviadas por celular torpedearam uma tentativa do então premiê José Maria Aznar de manipular atentados terroristas da Al Qaeda para tentar ganhar a eleição. Meses atrás, esse “ciberativismo” convocou uma mobilização contra a “Lei Sinde”, que restringe o dowload de músicas, vídeos e criações culturais na internet, a pretexto de defender a propriedade intelectual. Além do Democracia Já, o movimento Juventude Sem Futuro agrupa associações universitárias que lutam contra as reformas trabalhistas e previdenciárias e a mercantilização do ensino. Na Espanha, o desemprego entre os jovens atinge a escandalosa cifra de 40%. A par disso, o acesso às universidades torna-se cada vez mais um funil, preocupado em formar uma elite para trabalhar nas grandes empresas.

O panfleto inspirador
Para esses jovens, os grandes partidos – socialistas ou conservadores – representam apenas e unicamente os interesses do capital financeiro e das multinacionais. “Somos uma iniciativa cidadã para defender todo mundo: desempregados, jovens, precários etc. Queremos que as pessoas esqueçam suas divergências ideológicas e se aproximem desse fórum comum à margem de partidos e de sindicatos.” diz Enrique Dans, um dos líderes do molvimento. “Uma de nossas razões de existir é a saturação que havia nos canais tradicionais de participação política que representam partidos políticos e grandes sindicatos”.

Felizmente, o velho irredentismo voltou a rondar a Europa...

domingo, 22 de maio de 2011

CONTRA A CONVERSÃO FORÇADA - INCLUSIVE À DEMOCRACIA


Hugo Grotius

Uma bela reflexão do professor José Luís Fiori sobre o suposto "direito de intervenção numanitária" das nações ditas civilizadas. 

"Hugo Grotius (1583- 1645), pai do direito internacional moderno, foi herdeiro da tradição humanista e cosmopolita da filosofia estóica, que formulou, pela primeira vez, a ideia de uma sociedade internacional solidária e submetida a leis universais. Mesmo sendo cristão e teólogo, Grotius desenvolveu a tese de que essas leis universais faziam parte de um ‘direito natural comum a todos os povos... tão imutável que não poderia ser mudado nem pelo próprio Deus’. Para o jurista holandês, o direito à segurança e à paz faziam parte desses direitos fundamentais dos homens e das nações. Apesar disso, Grotius considerava que o recurso à guerra também era um direito natural dos povos que viviam dentro de um sistema internacional composto por múltiplos estados, desde que a guerra visasse "assegurar a conservação da vida e do corpo e a aquisição das coisas úteis à existência". Mas apesar disso, Grotius não concebeu nem defendeu a possibilidade de que se propusesse como objetivo a defesa ou promoção internacional dos próprios direitos humanos. Em parte, porque ele era católico e conhecia a decisão do Concílio de Constança (1414- 1418. O mesmo que condenou como herético o reformador John Wycliffe e mandou Jan Hus à fogueira, observações minhas) que fixara a doutrina da ilegitimidade da ‘conversão forçada’, e de todo tipo de guerra visando a conversão de outros povos, como tinha sido o caso das Cruzadas, nos séculos anteriores.



Depois do Concílio de Constança, o conceito de ‘guerra justa’ ficou restrito - para os católicos, e para quase todos os europeus - as guerras que respondessem a uma agressão, e que fossem caracterizadas como um ato jurídico, destinado a reconstituir o status quo ante. Grotius não desenvolveu o argumento, mas se pode deduzir, do seu ponto de vista, que os direitos humanos, como a fé religiosa, são uma luta e uma conquista de cada homem, e da cada povo em particular. Sobretudo, porque ele foi um dos primeiros a se dar conta que num sistema internacional formado por múltiplos estados, era inevitável que coexistissem várias ‘inocências subjetivas’, frente a uma mesma ‘justiça objetiva’. Não havendo forma de arbitrar – ‘objetivamente’ - sobre a razão ou legitimidade de uma guerra declarada entre dois povos que reivindicassem uma interpretação diferente, dos mesmos direitos fundamentais, dos homens e das nações. Nesse sentido, a própria ideia de uma guerra em nome dos ‘direitos humanos’, contém uma contradição conceitual, e é por isso que todas elas acabam se transformando, inevitavelmente, numa ‘guerra de conversão’, ou numa nova forma de Cruzada.

Immanuel Kant

Em última instância, esse também é o motivo pelo qual a discussão sobre Direitos Humanos, no campo internacional, se transformou - depois do fim da Guerra Fria - num terreno cercado de boas intenções, mas minado pelo oportunismo e pela hipocrisia. Porque existe, de fato, uma fronteira muito tênue e imprecisa entre a defesa do princípio geral, como projeto e como utopia, e a arrogância de alguns estados e governos que se auto-atribuem o "direito natural" de arbitrar e difundir, pela força, a tábua ocidental dos direitos humanos. Para compreender a complexidade e a fluidez dessa fronteira, basta ler um outro grande filósofo iluminista e cosmopolita, o alemão Immanuel Kant, dividido entre a sua utopia de uma ‘paz perpétua’, e o seu desejo de converter o ‘gênero humano’ à ‘ética internacional civilizada’. Para Kant, ‘no grau de cultura em que ainda se encontra o gênero humano, a guerra é um meio inevitável para estender a civilização, e só depois que a cultura tenha se desenvolvido (Deus sabe quando), será saudável e possível uma paz perpétua’. (Começo verossímil da história humana, 1796)."

(trecho de um artigo publicado no jornal Valor Econômico de 27 de abril de 2011 sob o título O direito humano à guerra)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O CENTENÁRIO DA MORTE DE MAHLER

O compositor e maestro Gustav Mahler (Kalischt, Boêmia, 7 de Julho de 1860 — Viena, 18 de Maio de 1911) é considerado o principal responsável por estabelecer a ponte entre a música do século XIX com o período moderno. Ele começou a romper os limites da tonalidade, abrindo caminho para a música revolucionária e atonal de Arnold Schönberg, Anton Webern e Alban Berg. Se vivesse hoje, no mundo da espetacularização, seria mais lembrado pela tumultuada relação com a bela mulher, Alma, do que por sua obra. 






Sinfonia nº 5, parte 1, movimento 1, regido por Leonard Bernstein


Das Lied von der Erde Mahler (A Canção da Terra, regida por Bruno Walter)

DE BOAS INTENÇÕES...

Sobre a polêmica do livro Por uma vida melhor, da professora Heloísa Ramos, que relativiza o papel da norma culta e defende o coloquialismo na linguagem, acredito que o debate é necessário e saudável, mas não deveria se transformar num torneio ideológico, como fizeram certos veículos da mídia. Pessoalmente, creio que a postura relativista implícita nas orientações do MEC está cheia de boas intenções – não-discriminação da fala coloquial, compreensão da linguagem como elemento histórico sujeito a múltiplas determinações etc. etc. – mas, na prática, se traduz numa certa contemplação de um suposto universo idílico das “classes populares”. O efeito prático dessa postura, na maioria das vezes, é negar aos oprimidos as condições para a superação de sua subalternidade, reforçando as relações de dominação. Idealizados, os pobres viram "cobaias no laboratório do relativismo", como disse o jornalista Alon Feuerwerker. A obra de Shakespeare, afinal, não equivale a um par de botas, como notou o filósofo Alain Finkielkraut (La Défaite de la pensée). Correndo o risco de parecer antiquado e conservador, reproduzo aqui um belo texto do jornalista Mauro Santayana, a quem considero um dos mais lúcidos analistas e ensaístas do país.

Linguagem e soberania
A civilização se define como a reunião dos homens em cidades, construídas a fim de os proteger das intempéries e tornar a vida mais amena. A troca de experiências levou-os a aspirações ainda maiores, ao êxtase diante da beleza das cores e dos sons, ao surgimento da arte. Recentemente se descobriu o que os arqueólogos consideraram o primeiro instrumento musical: flauta feita a partir do osso de um abutre, e datada, conforme os estudos, de há 35.000 anos.

O homem chegou ao momento mais alto de sua razão na chamada idade axial, que, conforme Karl Jaspers, ocorreu entre o século VIII antes de Cristo e o século II de nossa era. O desenvolvimento da inteligência e dos sentimentos de transcendência, naquele milênio, na China, na Índia e no Mediterrâneo, praticamente esgotou o potencial da mente humana. O que marcou o período foi o aprimoramento da linguagem escrita, que transmitiu ao futuro a experiência do passado e incitou o desenvolvimento das idéias. A partir daí, o processo tem sido o polimento de um poliedro translúcido. Sua essência, volume e forma não se alteraram. É como se fosse um depósito de luz, espécie de prisma, que reflete o todo cósmico, para orientar a construção permanente do homem.

A linguagem evoluiu dos primeiros grunhidos, que expressavam o medo, o pedido de socorro, a conquista da fêmea ou do macho, o êxtase diante da beleza de um pássaro, ou a tristeza do luto, até os cantos de Homero, os dramas gregos, as novelas de Cervantes e os poemas de Shakespeare. A civilização é, assim, o processo da evolução da linguagem. Sem a inteligência comum dos grupos, a que chamamos cultura, os sentimentos humanos minguariam, cedendo lugar aos instintivos grunhidos dos hominídeos. Demolir a linguagem é demolir o homem. Quando se trata de política de Estado, é crime contra o povo.



Não surpreende que o Ministério da Educação aceite a iniciativa de professores de português em destruir a bela língua que surgiu no norte da Península Ibérica, a partir do dialeto galego, e cuja expressão literária se deve a prosadores como Fernão Lopes. Além de essa agressão vir desde o governo de Fernando Henrique, ela é coerente com o estiolamento do processo civilizatório, a que estamos assistindo nesta passagem de milênio. Significa a completa falência do estado contemporâneo, aqui e alhures. Muitos dos professores que advogam a anarquia da linguagem – felizmente, não todos – ao estimular a redução das frases a meras aproximações da mensagem, fazem-no, provavelmente, em causa própria. Não conhecendo os mecanismos da sintaxe, da semântica, da morfologia, são incapazes de ensinar. Os pais e avós se espantam com os grosseiros erros de linguagem cometidos por certos mestres.


A língua não é exata. Toda linguagem, dizem os especialistas, é imperfeita. Os idiomas se sujeitam às mudanças da sociedade, mas, dialeticamente, ao enriquecerem, enriquecem seus usuários, e, ao empobrecerem, corroem a cultura e a ética das nações. Essa erosão contribui para o embrutecimento assustador do homem, que se manifesta no envenenamento de moradores de rua nas grandes cidades brasileiras e no pandemônio psíquico de pessoas, como o matador de crianças no Realengo. E se expressa também no terrorismo de Estado.

Quando “especialistas” em educação expõem as teorias mais confusas e pedantemente elaboradas, prenhes de termos técnicos e vazias de significado, cabe ao Estado determinar o retorno às cartilhas de há 60 anos, para o aprendizado da Língua Pátria, em toda a sua riqueza, e à tabuada, base da razão matemática. Só a velha escola pode trazer homens novos ao mundo, capazes de entender o tempo e salvar a espécie da destruição que a ameaça.


Textos como os de “Contos Pátrios”, escritos por bons escritores (como Olavo Bilac e Coelho Neto) deveriam ser adotados. A língua é o fundamento da soberania.”


Mauro Santayana

terça-feira, 17 de maio de 2011

A PAIXÃO INSANA PELA VERDADE


Alexandre VI, o papa devasso 
Num livro famoso, A Marcha da Insensatez, a historiadora americana Barbara Tuchman atribui a Reforma Protestante do século XVI à corrupção e concupisciência dos papas da Renascença, particularmente a Rodrigo Bórgia, o famoso Alexandre VI, pai dos não menos famosos César e Lucréia Bórgia. O contraponto a esse pontífice  foi o frade dominicano Girolamo Savonarola, considerado por muitos um protestante avant la lettre, que arrebatava multidões com um discurso fundamentalista e purista e fundou uma teocracia em Florença até ser deposto e enviado à fogueira por ordem de Alexandre VI. A distância histórica permite afirmar que a ação deste último trouxe muito mais avanços do que a do frade extremista que queimava livros hereges e queria destruir a “cultura pagã” da Renascença. Afinal, como disse Orson Welles um famoso “caco” do filme O Terceiro Homem: “Na Itália, por trinta anos sob os Bórgias, eles tiveram guerra, terror, assassinato e derramamento de sangue, mas produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, eles tiveram amor fraternal, quinhentos anos de democracia e paz, e o que eles produziram? O relógio-cuco”.

Lucrécia Bórgia, "devoradora de homens"
Os Bórgias eram oriundos de Valência (Espanha), na época um rico entreposto comercial e principado regido pelo rei Fernando de Aragão. A ascensão de Rodrigo Bórgia na estrutura de Igreja Católica foi favorecida pelo seu tio Afonso de Bórgia, papa Calisto III (1455-1458). Ordenado padre em 1468 e criado cardeal em 1471, Rodrigo era uma combinação renascentista de excelente formação teológica com  enorme avidez por riquezas materiais e pela luxúria. Chegou a Roma com sete filhos naturais de diversas mulheres. Em 1492, aos 61 anos, foi eleito ao trono de São Pedro, ao que parece comprando todo o colégio de cardeais. O "papa espanhol" adotou o nome de Alexandre VI e rodeou-se de catalães e valencianos de confiança. Ele transformou a Santa Sé num antro de orgias, simonias, conspirações e assassinatos. Desregramentos à parte, foi sob o papado de Alexandre VI que nasceu o Tratado de Tordesilhas, que separou as terras americanas entre Espanha e Portugal. Sob seu pontificado Roma também deu proteção aos judeus – um fato inusitado numa igreja de longa tradição antissemita.


César Bórgia, modelo de O Príncipe
O Vaticano não tinha exército e a Itália de então era um amontoado de ducados, principados, e repúblicas, como Veneza e Florença, que guerreavam entre si. A Espanha e a França tinham interesses em manter o Vaticano sob controle. O papa fez de César Bórgia, seu filho legítimo, o comandante de seu exército. Maquiavel irá elogiar o espírito guerreiro e a liderança de César Bórgia, em quem se inspirou para escrever O Príncipe. Para formar o seu exército, Alexandre VI recorreu aos judeus perseguidos pelos reis espanhóis Fernando e Isabel. Essa postura inusitada e o fato de que a corte de Alexandre VI era um antro de corrupção desenfreada - um exagero até mesmo para os elásticos padrões da Renascença - alimentaram uma virulenta reação de cunho messiânico ao seu papado.    

Girolamo Savonarola...
Sob estímulo dos reis católicos de Espanha e França, então inimigos do Vaticano, prosperou em Florença um movimento político de caráter religioso comandado pelo frade dominicano Girolamo Savonarola, que arrebatava multidões com um discurso fundamentalista, denunciando a “imoralidade” e a vida de prazeres dos florentinos e a bandalheira do Vaticano. Com esse discurso, Savonarla implantou uma teocracia em Florença. Inimigo do renascimento artístico e cultural, esse clérigo messiânico estimulou a destruição de livros e obras de arte, incluindo trabalhos de Botticelli, de inestimável valor. Proibiu o jogo, a bebida, as festas e elevou a sodomia, até então punida com multa, a crime capital, punível com a pena de morte. Em 1497, o fanático líder religioso promoveu a famosa Fogueira das Vaidades: seus emissários recolheram objetos que pudessem caracterizar alguma forma de frouxidão moral, como espelhos, tabuleiros de jogos, cartas, vestidos luxuosos, livros sobre temas pagãos, cosméticos, perfumes, quadros mostrando figuras nuas e outros objetos, fazendo de tudo uma imensa fogueira no centro de Florença.

... para quem matar pela verdade era uma virtude
Os desmandos de Savonarola foram tantos que, em 4 de maio de 1497, explodiu uma a revolta popular. Os florentinos reabriram tavernas e promoveram a jogatina em locais públicos. A família Médici foi reconduzida ao poder, enquanto Savonarola, preso e excomungado por Alexandre VI, acabou enforcado em 23 de Maio de 1498. Seu corpo foi queimado na Piazza della Signoria, onde muitas de suas vítimas tinha morrido na fogueira. Diz-se que Leonardo da Vinci teria retratado Savonarola na sua famosa obra A Última Ceia no rosto de Judas Iscariotes. Si non è vero... 


Até hoje, Alexandre VI simboliza a devassidão e a corrupção; enquanto Savonarola representa a pureza dos princípios. Entre  devassos e virtuosos, fico com os primeiros. Afinal, sempre é bom lembrar a advertência de Guilherme de Bakersville a Adso de Melk em O Nome da Rosa, de Umberto Eco: "Teme, Adso, os profetas e os que estão dispostos a morrer pela verdade, pois de hábito levam à morte muitíssimos consigo, frequentemente antes de si, às vezes em seu lugar. [...] Talvez a tarefa de quem ama os hOmens seja fazer rir da verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade".  

segunda-feira, 16 de maio de 2011

NÃO É COM ELES...

Artigo de Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008, revela o discurso torto da direita, que quer jogar sobre as costas dos cidadãos a responsabilidade pelo colapso econômico recente.   

"Os últimos três anos foram um desastre para a maioria das economias ocidentais. Os Estados Unidos registram desemprego em massa e de longo prazo pela primeira vez desde os anos 30. Enquanto isso, a moeda comum europeia está se desmantelando. Como é que tudo saiu tão errado?



Bem, o que tenho ouvido com frequência cada vez maior das elites econômicas - homens que se declaram sábios e costumam ser respeitados quanto pontificam a respeito do tema - é que a maior parte dos problemas aconteceu por causa do público. A ideia é a de que essa confusão surgiu porque os eleitores queriam alguma coisa sem ter de pagar por ela, e políticos desprovidos de força de vontade decidiram conquistar o eleitorado ao realizar suas vontades insensatas.


Portanto, o momento parece bom para apontar que essa interpretação de que a culpa é do público não só distorce as coisas em favor da elite como está completamente errada.

A verdade é que estamos vivendo hoje um desastre que foi criado de cima para baixo. As políticas que resultaram nos problemas que vivemos não surgiram em resposta à demanda do público. Foram, com poucas exceções, políticas defendidas por pequenos grupos de pessoas influentes - no mais das vezes, as mesmas pessoas que agora estão tentando dizer aos demais cidadãos que é preciso seriedade. E ao tentar transferir a culpa à população em geral, as elites estão fracassando em realizar uma reflexão muito necessária quanto aos erros catastróficos que cometeram.


Permitam-me concentrar minha atenção ao acontecido nos Estados Unidos, e depois comentar de passagem a situação na Europa.

Hoje em dia, os norte-americanos não param de receber sermões sobre a necessidade de reduzir o déficit orçamentário. Esse foco mesmo representa uma distorção de prioridades, porque nossa preocupação imediata deveria ser criar empregos. Mas suponha que a conversa se restrinja ao déficit, e faça a seguinte pergunta: o que aconteceu ao superávit orçamentário de que o governo federal norte-americano desfrutava em 2000?

A resposta é tripla. Primeiro, vieram os cortes de impostos de Bush, que elevaram a dívida nacional norte-americana em cerca de US$ 2 trilhões nos 10 anos passados. Depois, as guerras no Iraque e Afeganistão, que custaram cerca de US$ 1,1 trilhão em dívidas adicionais. E por fim a Grande Recessão, que resultou tanto em colapso na arrecadação tributária quanto em aumentos consideráveis nos gastos com benefícios aos desempregados e outros programas de seguro social.

Quem foi responsável por todas essas decisões que causaram estouro de orçamentos? Não foram as pessoas comuns.


O presidente George W. Bush reduziu os impostos para servir à ideologia de seu partido, e não em resposta a uma imensa demanda popular - e a maior parte dos cortes beneficiou uma minoria pequena e já afluente.

Da mesma forma, Bush escolheu invadir o Iraque porque era algo que ele e seus assessores desejavam fazer, e não por que os norte-americanos estivessem exigindo guerra contra um regime que nada teve a ver com o 11 de setembro. Na verdade, foi preciso conduzir uma campanha de vendas muito enganosa a fim de conquistar o apoio dos norte-americanos à invasão, e mesmo assim os eleitores jamais apoiaram a guerra de forma tão sólida quanto a elite política e de sabichões políticos norte-americana.


Por fim, a Grande Recessão foi causada por um sistema financeiro descontrolado, que ganhou força demais devido a uma desregulamentação imprudente. E quem foi responsável por essa desregulamentação? Pessoas poderosas em Washington, estreitamente ligadas ao setor financeiro. Permitam-me menção especial a Alan Greenspan, que desempenhou papel crucial tanto na desregulamentação financeira quanto na aprovação dos cortes de impostos de Bush - e que agora, claro, está entre aqueles que nos passam sermões quanto ao déficit.

Portanto, foi o mau juízo das elites, e não a cobiça do homem comum, que causou o déficit nos Estados Unidos. E a situação na Europa é bastante parecida.

Nem seria preciso dizer que não é isso que as autoridades econômicas europeias alegam. A história oficial na Europa hoje em dia é que os governos dos países em crise cederam mais do que deveriam às massas, prometendo demais aos eleitores enquanto arrecadavam impostos de menos. E a história, devo admitir, procede de maneira razoavelmente precisa com relação à Grécia. Mas isso não foi de modo algum o que aconteceu na Irlanda e Espanha, ambas as quais tinham dívida baixa e superávit orçamentários pouco antes da crise.

A verdadeira história da crise europeia é que os líderes do continente criaram uma moeda única, o euro, sem criar as instituições necessárias a lidar com as contrações e expansões que surgiriam na zona do euro. E o esforço por unificar a moeda europeia foi o exemplo mais claro de projeto imposto de cima para baixo, uma visão de elite imposta a eleitores fortemente relutantes.

Será que isso tudo importa? Por que deveríamos nos preocupar com os esforços para transferir aos cidadãos comuns a culpa pelas más políticas?


Uma resposta é a simples prestação de contas. As pessoas que defenderam políticas causadoras de estouros de orçamento, nos anos Bush, não deveriam ser autorizadas a agora se retratarem como parte da linha dura orçamentária; as pessoas que elogiaram a Irlanda como exemplo de gestão econômica não deveriam pregar sobre governo responsável.


Mas a resposta mais ampla, em minha opinião, é que, ao inventar sobre nossa atual situação histórias que absolvem as pessoas responsáveis por ela, estaremos perdendo a oportunidade de aprender com a crise. A culpa precisa ser atribuída a quem a merece, e nossas elites precisam arcar com os seus erros. De outra forma, causarão estrago ainda maior nos próximos anos.”

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ILUSÕES PERDIDAS


François Mitterrand, maio de 1981, "a força tranquila"
Trinta anos atrás, François Mitterrand, do Partido Socialista, era eleito presidente da França, tornando-se o primeiro - e até agora único - presidente de esquerda da V República. A eleição de Mitterrand, na terceira tentativa de chegar ao Elysée, abriu uma grande expectativa de profundas transformações sociais pela via democrática, mas essas expectativas se frustraram rapidamente e Mitterrand tornou-se o modelo de governo de esquerda que faz da necessidade virtude e implanta com êxito o programa econômico da direita. Esse modelo se repetiria depois nos governos "socialistas" da Espanha, Grécia, Itália e Portugal. E o pior, dá o que pensar sobre experiências semelhantes abaixo do Equador. Transcrevo, abaixo, um paper que resume exemplarmente as expectativas e as frustrações dos chamados "anos Mitterrand".       

"A chegada da esquerda ao poder na França, em 1981, ocorreu num contexto muito particular: profunda divisão da direita (a esquerda ganhou, não porque era majoritária, mas porque se achava diante de uma direita dividida), crise do Welfare State sob os efeitos combinados da internacionalização crescente do mercado interno e dos dois choques petrolíferos, de 1973 e 1979, e, enfim, crise monetária e fiscal sem precedente.

Diante dessa situação, o questionamento do Estado social francês tornou-se, do ponto de vista dos interesses do capitalismo francês, uma necessidade incontornável, que a direita estava, política e socialmente,incapacitada de realizar e de obter a aprovação da sociedade.
A emergência de novas camadas sociais, ligada a uma profunda mudança tecnológica, desempenhou, igualmente, um papel determinante na vitória da esquerda. Entre 1945 e 1975 o movimento operário, as camadas burguesas e as classes assalariadas tradicionais configuravam um relativo equilíbrio. O desenvolvimento do Estado social durante esses trinta anos gloriosos favoreceu o aparecimento de novas assalariadas (funções públicas, serviços etc.) que se tornaram objeto de disputa muito intensa entre o Partido Comunista e o Partido Socialista.

Desde 1972, François Mitterrand escrevia: “Nosso objetivo fundamental é refazer um grande Partido Socialista no espaço ocupado pelo Partido Comunista, a fim de demonstrar que, sobre os 5 milhões de eleitores comunistas, 3 milhões podem votar nos socialistas”. O programa comum exprimiu claramente a vontade do Partido Socialista de reunir essas camadas ao seu redor, e François Mitterrand teve um êxito além do esperado.

I
O programa comum da esquerda foi organizado em torno do tema da ruptura com o capitalismo. Propunha-se construir um novo socialismo: democrático, autogestionário, centrado na reconquista do mercado interno e solidário com os países do Sul.

Mas, a ascensão política da esquerda, sua capacidade de captar as novas camadas sociais, aconteceu paradoxalmente num contexto de derrocada dos ideais da esquerda e de desvio ideológico-conservador (cf. os novos filósofos etc.). A esquerda ganhou politicamente no momento em que a intelligentsia da esquerda tornou-se liberal. O conjunto do contexto internacional revelava esse desvio: revolução conservadora Reagan/Thatcher, enfraquecimento da URSS, crise do terceiro mundismo e emergência da revolução religiosa nos países muçulmanos.


Quando, em 1981, a esquerda vence as eleições, o emprego está, na França, no centro das preocupações. O número de desempregados atinge 1,7 milhões e a taxa de inflação chega a 13%. A esquerda quer retomar o consumo, nacionalizar os bancos e os setores-chave para a criação de emprego e a reconquista do mercado interno, romper com a lógica do franco forte a fim de retomar as exportações e, enfim, refundir o sistema fiscal para uma maior justiça. A experiência de pôr em prática essa política se desenvolve durante dezoito meses, exatamente entre maio de 1981 e março de 1983. Trata-se de um período-chave para a compreensão da situação atual. Durante esses poucos meses, a esquerda fará três escolhas negativas: recusar a desvalorização e aderir à lógica do franco forte, recusar sair do Sistema Monetário Europeu e recusar a reforma fiscal. Essas três recusas assinalam a passagem de uma esquerda reformista, crítica, solidária com o Sul, para uma esquerda conservadora e indiferente à “miséria do mundo”. É simbólico o discurso de solidariedade para com o Terceiro Mundo que fez François Mitterrand em Cancún em 1982. Mais simbólica ainda a pequena frase de Michel Rocard, seis anos mais tarde: “A França não pode acolher toda a miséria do mundo”. Entre essas duas datas passam-se seis anos de uma mudança completa, política, ideológica e cultural, da esquerda.

Mitterrand e Helmut Kohl: unificação alemã e moeda única

1) A recusa da desvalorização impeliu a esquerda a uma política de retomada e a obrigou a aderir à moeda alemã. A desvalorização teria estimulado as exportações, mas ela necessitava de uma vontade política forte em face do modelo liberal representado por Ronald Reagan nos Estados Unidos, Margareth Thatcher na Grã-Bretanha e Helmut Kohl na Alemanha. A esquerda fez então a escolha da política alemã de construção européia ao fim de um rude debate interno que se encerrou com a saída do Partido Comunista e do CERES de Jean-Pierre Chevènement do governo.

2) A esquerda também se recusa a sair do Sistema Monetário Europeu em nome de constrangimentos europeus. Assim, ela faz da Europa sua principal referência, e toda política que entra em contradição com a política liberal européia é portanto rejeitada. A intervenção, na France Inter (emissora de rádio), no dia 9 de fevereiro de 1990, de Henri Emmanuelli, primeiro-secretário do Partido Socialista, é reveladora da renúncia fundamental da esquerda: "Nós fizemos nosso Bad Godesberg. Nós o fizemos a 23 de março, às 11 horas da manhã. O dia em que decidimos abrir as fronteiras e não sair do SME, nós escolhemos uma economia de mercado". Henri Emmanuelli não evoca sequer a possibilidade de uma economia mista. A ruptura é brutal, dupla: ruptura com o programa anticapitalista e aí incluída a ruptura com a possibilidade de um capitalismo social keynesiano. Os dirigentes socialistas evocarão, então, para justificar essa mudança de rumo, a emergência de uma nova “cultura de governo” contra a cultura política tradicional da esquerda. Essa cultura será caracterizada pelo rigor salarial, a recusa da indexação dos salários aos preços, a recusa de lutar contra a desindustrialização, a submissão à Comissão de Bruxelas, o aumento do desemprego, o enfraquecimento dos sindicatos. Enfim, pela distribuição dos principais trunfos do Welfare State.

Diante dessa evolução, a imprensa conservadora-liberal angloamericana exulta. O U.S. News and World Report fala da "transição francesa do socialismo ao reaganismo" (17.12.84), o Financial Times faz da França de Mitterrand um exemplo de inteligência e o Wall Street Journal grita "Hurra para Mitterrand" (6.7.84).

3) A promessa de reforma fiscal foi também traída. No relatório que lhe foi encomendado pelo governo, Pierre Ury fez numerosas proposições para a melhoria dos sistemas fiscais mais desiguais da OCDF. Mas esse relatório foi cuidadosamente posto de lado pelo presidente Mitterrand.


A esquerda recusa os adiantamentos sobre o capital, libera os preços e se opõe ao ajustamento pelos salários.

A direita jamais foi capaz, anteriormente, de empreender tal política. A indicação de Jacques Delors à frente da Comissão de Bruxelas encarna essa política; ele torna-se o responsável pela aplicação da política liberal na Europa. Stanley Hoffman, especialista americano sobre a França, sintetiza de forma notável a situação: “O sucesso dos socialistas foi particularmente nítido onde não se esperava nada. Eles se revelaram mais capazes que os seus predecessores de gerar a austeridade, reduzir a inflação e comprimir os salários. Reabilitaram a concorrência (inclusive no setor público), celebraram o espírito de empresa, iniciaram a desregulamentação e, assim, prepararam o terreno da direita" (quanto ao que Hoffman se felicita).

II

Nem ele teve tanto poder quanto Mitterrand

Essas três recusas (desvalorização, fiscalização, saída do Sistema Monetário Europeu) definiram toda a experiência da esquerda, não apenas entre 1981 e 1983, mas também até os dias de hoje. Elas implicam uma mutação ideológica profunda: passagem do socialismo de esquerda para o liberalismo de esquerda; união em torno de François Mitterrand, que impõe suas escolhas ao Partido Socialista reforçando as instituições da V República. Jamais um presidente terá tido tanto poder quanto François Mitterrand. De Gaulle tinha contra si o Partido Comunista e os sindicatos. Mitterrand não tem oposição, e a direita lhe sorri. Confrontada com o problema histórico-estratégico do desmantelamento do Estado social, a esquerda consegue fazer sem dificuldade o que a direita não pôde realizar entre 1975 a 1981.

Uma das conseqüências fundamentais dessa política é o aparecimento da Frente Nacional. Nos anos 70, a extrema direita era inexistente. Em 1983 ela representa 3% do eleitorado, 13% em 1986 e, hoje, entre 15% e 18%. É nesse contexto de agravamento da situação social e de aumento de idéias xenófobas e racistas que a esquerda perde as eleições legislativas de 1986. Perde por pouco, graças ao gênio manipulador de Mitterrand. Durante os dois anos de sua presença no governo (1986-1988), a direita vai radicalizar o programa da esquerda, notadamente acentuando a liberação do mercado de trabalho (supressão de autorização da licença). Assim que a esquerda retorna ao poder, em 1988, confirmará esse desmantelamento.

A segunda experiência da esquerda no poder, entre 1988 e 1993 se organiza, pois, em torno da  radicalização da política liberal. Ela faz apologia do dinheiro, dos ganhadores (fenômeno Tapie), e põe sua energia no avanço do processo da construção européia (Tratado de Maastricht).

Jean-Marie Le Pen, fortalecido por Mitterrand

Mas, na ocasião do debate sobre a adoção do Tratado de Maastricht, a França se encontrava dividida em duas: de um lado, a direita e o Partido Socialista, de outro, o Partido Comunista, o Movimento dos Cidadãos (ex-CERES), a extrema esquerda e a extrema direita (esta sobretudo por razões xenófobas). O "sim" venceu por pouco, provocando na França a continuação e o reforço da política de desmantelamento do sistema social decidido desde 1983, mediante um tipo de plano de ajuste estrutural pelo qual a Comissão de Bruxelas desempenhava o papel do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. É significativo que François Mitterrand, nas eleições presidenciais de 1988, tenha se recusado a se apresentar aos eleitores em nome da esquerda, do Partido Socialista: preferiu fazê-lo em nome da Europa e de sua construção liberal. Sendo os Estados europeus majoritariamente pró-atlantismo, esse enraizamento europeu levou a uma reonentação estragégica da esquerda: o alinhamento da França com os EUA. Daí sua submissão, na Guerra do Golfo. Nesse período, como um eco ao aprofundamento da crise social, na França, responde-se com a continuação da subida da Frente Nacional, que se torna o terceiro partido da França e o primeiro partido popular.

III


Pode-se perguntar quais são as razões de a esquerda ganhar e perder sucessivamente as eleições. A orientação liberal européia não significa somente a submissão à mundialização, mas, de forma mais fundamental, um projeto de sociedade radicalmente oposto às estruturas profundas da sociedade francesa: a americanização e a redução da cidadania ao individualismo, a destruição da identidade coletiva, o questionamento, em suma, do modelo republicano francês. Ora, esse modelo liberal europeu não cessa de atingir não as forças socialistas, mas o núcleo organizador da tradição republicana francesa. Se o liberalismo conseguiu destruir o Welfare State, não pode destruir os valores republicanos de igualdade, de recusa do diferencialismo, da meritocracia, da autonomia do espaço público e da cidadania. Esses são os valores que permitiram resistir à mundialização. Foi em nome desses valores que se desenvolveu o movimento social depois de 1995, em detrimento dos intelectuais apologistas do liberalismo, como Alain Touraine. Na realidade, mais do que nunca, os franceses, confrontados com os distúrbios da mundialização, ligam-se ao Estado regulador. Desde seu retorno, em 1997, a esquerda se defronta com essa pressão.


A experiência da esquerda no poder entre 1981 e 1993 foi, portanto, a da renúncia. Não houve uma política de esquerda. Duas explicações, pouco satisfatórias, são freqüentemente sugeridas para explicar essa atitude. De um lado, a da traição (a esquerda traiu seu eleitorado); de outro, a do "interesse geral": a esquerda deve governar para todos os cidadãos, sejam eles de direita sejam de esquerda.


Não se comentarão, evidentemente, essas duas explicações. É suficiente lembrar que a esquerda não passou de forma alguma para o campo da direita e que continua a se apoiar num eleitorado socialmente à esquerda.

Uma outra explicação, mais séria, consiste em evocar os problemas internacionais para explicar a mudança de estratégia da esquerda. Uma ruptura com o sistema liberal mundializado, dizem, teria significado uma declaração de guerra ao sistema financeiro internacional. Era necessário, então, ser capaz de resistir a seus ataques: assumir o protecionismo e as penúrias, as dificuldades encontradas no mercado internacional, os ataques contra a moeda. Entre 1981 e 1983 a esquerda não tentou uma política de retomada? Ora, a moeda foi atacada, a França estigmatizada pela Alemanha, Inglaterra e EUA.


Esses entraves externos são reais, mas não existem independentemente da capacidade da França de avaliá-los. O que sempre se esquece é que o argumento da interdependência tem uma dupla face: os parceiros são igualmente dependentes da França. O investimento estrangeiro na França pode também ser uma arma nas mãos da França. A França não conseguiu, a respeito do audiovisual, impor aos europeus uma atitude comum em face da invasão audiovisual norte-americana? De fato, a esquerda escolheu, desde o início, não travar a batalha. Quais são as razões profundas que esclarecem essa escolha?

IV
Pode-se, rapidamente, adiantar algumas sugestões para responder a essa pergunta. O que está em questão é, sem dúvida, a tradição cultural da esquerda, sua concepção de política, sua base social e a composição de suas elites dirigentes.

a) Tradicionalmente, a luta da esquerda é menos articulada à transformação social do que à conquista do poder. Não há correlação direta entre poder político e transformação das relações sociais. Conquistar um não significa mudar o outro. A mudança, portanto, só se realiza se as relações sociais se transformam. Uma vez conquistado o poder, as elites da esquerda procuraram, sobretudo, desmobilizar os movimentos sociais e fazer do poder político problema de especialistas da política.

b) A esquerda (como a direita) tem uma concepção instrumental da política. A prática política fica totalmente separada do movimento social. Para os partidos de esquerda, tudo se passa como se os movimentos sociais só fossem úteis quando eles estão na oposição. Ora, para impor um programa de transformação, é preciso se apoiar num movimento social mobilizado e dinâmico. Mas esses movimentos amedrontam a esquerda – simplesmente porque são uma crítica permanente do poder instituído.

c) A base social da esquerda se transformou. Houve uma união entre o antigo proletariado operário e as novas camadas assalariadas que progressivamente se tornaram majoritárias. A concepção de mundo dessas camadas não é revolucionária, é evolucionista. Essas camadas procuram acima de tudo a integração social e não a ruptura. O Partido Socialista considera então que seu eleitorado central não o seguiria numa estratégia de ruptura.

Thatcher e Kohl: mais identidade que diferenças 

Ora, enquanto essas novas camadas médias emergiam, o processo de desindustrialização resultante da política liberal conduziu à marginalização progressiva uma parte das camadas operárias. Tendencialmente excluídas, as velhas camadas operárias abandonaram progressivamente o Partido Comunista, voltando-se para a Frente Nacional, cujo discurso radical aparecia como a única resposta à sua situação. A verdadeira batalha, no futuro, se fará pela reconquista dessas camadas, pela esquerda.

d) O problema das elites mereceria um estudo específico. Digamos somente que as elites de esquerda são cada vez mais dependentes do Estado. O Estado financia os partidos e os sindicatos. Se, assim que chegam ao poder, as elites da direita colocam o Estado a serviço do capital, as elites de esquerda se colocam tradicionalmente a serviço do Estado, portanto, a serviço da reprodução do sistema. A questão da transformação da sociedade torna-se, assim, uma questão perigosa.

Poder-se-iam acrescentar outros elementos para explicar a timidez da esquerda no poder. O certo é que não se trata somente de uma questão de “projeto” ou de desaparecimento da “utopia” transformadora. Trata-se, também, e talvez sobretudo, de um problema social e cultural profundo: quais são as bases sociais da esquerda neste final de século? São elas portadoras de uma verdadeira alternativa civilizadora ao capitalismo mundializado? Sem dúvida, não é fácil responder a essas duas questões, tantas foram as perturbações sociais profundas destes últimos vinte anos, como também a derrota de experiência “socialista” fez explodir as categorias intelectuais da esquerda, tanto a socialista como a comunista. É preciso reinventar tudo."

Sami Naïr, A esquerda e o poder: a experiência francesa (1981-1997)

Artigo apresentado no seminário "Socialismo, liberalismo e mundialização", no Programa de Pós-Graduaçâo em Sociologia da FCL/UNESP/Aiaraquara, agosto de 1997