terça-feira, 31 de agosto de 2010

A HERANÇA MALDITA DE PÉTAIN E MUSSOLINI

O governo do presidente francês Nicholas Sarkozy iniciou a deportação de 800 ciganos da etnia rom residentes na França para a Romênia e a Bulgária - países membros da União Europeia desde janeiro de 2007. Antes, Sakorzy já ordenara ao Ministério do Interior a destruição e o esvaziamento da metade das instalações nas quais vivem os ciganos no país. Em 2009, dez mil romenos e búlgaros que estavam na França foram devolvidos a seus países. Hoje vivem na França 400 mil ciganos, 95% dos quais são franceses; na Europa, são 12 milhões desse povo nômade cuja cultura fascinante foi fonte de inspiração para grandes compositores como Lizst, Brahmas e Bela Bartók.

(Brahms, Dança Húngara nº 5, Stiletto Sisters)
http://www.youtube.com/watch?v=nzWcPNf-jEo

"Embora europeus – com direito de ir e vir na União Europeia – os ciganos são indesejáveis no país que aprovou, há 221 anos, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão", escreveu o jornalista Mauro Santayana. "Este é um dos paradoxos da globalização: retorna-se ao livre trânsito para os capitais e as mercadorias, mas se fecha o passo às pessoas. Os ciganos são um povo nômade, sem pátria, com forte cultura própria – e sem dinheiro [...]"  Os expulsos da França são cidadãos europeus de pleno direito, mas, como na distopia orwelliana de 1984, alguns cidadãos têm mais direitos que outros. 

Segundo uma pesquisa publicada pelo jornal conservador Le Figaro, 79% dos pesquisados se declaram a favor do desmantelamento dos povoados de ciganos. Entre o eleitorado de direita, a porcentagem sobe para 94%. Em outra pesquisa, esta publicada pelo jornal comunista L'Humanité, 62% consideram necessários os desmantelamentos e 57% estão de acordo com as medidas relativas à cidadania. E o jornal Le Parisien revela que 48% dos franceses apoiam a deportação e 42% se opõem a ela.

Pétain: "não sereis vendidos, traídos ou abandonados"
Apoiadas pela maioria, as medidas discriminatórias do governo Sarkozy remetem inevitavelmente ao passado colaboracionista da França. O governo de Vichy (1940-1942), dirigido pelo marechal Philippe Pétain, deportou milhares de judeus, ciganos, homossexuais e membros da resistência aos campos de extermínio nazistas. Pouquíssimos sobreviveram. A esquerda comparou as medidas adotadas por Sarkozy às práticas do regime de Vichy. Até mesmo entre a direita a expulsão dos ciganos causou espécie. O ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, que deve concorrer à presidência contra Sarkozy em 2012, disse que as medidas eram “uma mancha de vergonha na bandeira francesa”. A expulsão também foi duramente criticada pela Igreja Católica, destacando-se o cardeal-arcebispo de Paris, André Vingt-Trois. Já o ministro do Exterior, Bernard Kouchner, ex-militante do PCF, fundador do Médicos Sem Fronteiras e antigo defensor dos direitos humanos, manifestou apoio à expulsão, ainda que "constrangido".   

Nicholas Sarkozy em cartaz que o compara a Pétain
Sarkozy sempre defendeu medidas duras no combate ao crime e à imigração ilegal. Ele fala aos sentimentos profundamente xenófobos dos eleitores, roubando votos da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. No passado, Sarkozy, filho de um imigrante húngaro, equilibrava sua política linha-dura com discursos pseudo-progressistas, nos quais destacava a necessidade de dar voz aos muçulmanos franceses e de incluir negros no governo. Hoje, o presidente francês fala claramente em retirar suas nacionalidades.

Em compensação, Sarkozy teve o apoio do governo do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. O ministro do Interior, Roberto Maroni, do partido de direita Liga Norte, declarou ao Corriere della Sera que a França "não está fazendo nada além de imitar a Itália" em relação à deportação dos ciganos. O ministro se referira à determinação do ex-prefeito de Roma, Walter Veltroni - que aliás, tem origem na esquerda - que deportou ciganos a outros países europeus em 2007.

Berlusconi e o "Duce"
Progapanda da Liga Norte
Maroni defendeu ainda a possibilidade legal de expulsão de cidadãos de países da UE, a exemplo do que acontece com os imigrantes clandestinos, sem "repatriações assistidas e voluntárias". Segundo o ministro, o pré-requisito para a permanência em um país da UE é que o estrangeiro tenha uma renda mínima, residência adequada e não onere o sistema social do país onde vive. "Muitos ciganos da etnia rom são cidadãos da UE, mas não preenchem esses pré-requisitos", disse. Maroni declarou ainda que tais mecanismos de deportação dentro do bloco europeu deveriam ser aplicados "a todos os cidadãos da UE e não só aos ciganos da etnia rom". O partido de Maroni, a Liga Norte, foi aquele que distribuiu cartazes dizendo que os índios americanos não colocaram restrições à imigração e hoje vivem em reservas. A Liga também foi a responsável pela legalização das "milícias populares" formadas para o combater a imigração ilegal e a criminalidade. Qualquer semelhança com o "squadrismo" dos camisas negras fascistas é, claro, mera coincidência.   

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

UMA NOVA CAÇA ÀS BRUXAS NOS EUA?

Bill e Hillary  Clinton
Paul Krugman
Num artigo deste domingo no New York Times, o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, afirma que um novo período de "caças às bruxas" está tomando corpo na cena política americana. Ele lembra que os últimos ocupantes democratas da Casa Branca (Bill e Hillary Clinton), que eram tudo menos radicais, foram acusados de quase tudo pela direita, desde tráfico de drogas até assassinato. E o fato de Clinton ter presidido o país num período de prosperidade econômica não o livrou da cruzada moralista dos conservadores, que quase conseguiu afastá-lo da Casa Branca por conta de um episódio menor, um ridículo affair com uma estagiária.

Obama pelo olhar da direita
Manifestação do Tea Party
Agora, uma campanha ainda pior da direita política estaria em curso contra a administração do presidente Barack Obama, diz Krugman. E com dois agravantes: o fato de os Estados Unidos estarem vivendo as consequências da maior crise econômica desde a Grande Depressão de 1929 e de serem presididos por um negro liberal ("esquerdista" no jargão político americano). Krugman cita como evidências dessa caça às bruxas a ascensão do Tea Party - movimento ultraconservador que surgiu para lutar contra os impostos e que incorporou a luta intransigente contra a reforma da previdência e do sistema financeiro -, a violenta polêmica surgida em torno da proposta da construção de uma mesquita perto do "marco zero" do 11 de setembro em Nova York e a crescente audiência de apresentadores racistas e de extrema direita. Alguns comentaristas chegam inclusive a insinuar que Obama é um muçulmano que estaria mancomunado com terroristas islâmicos.

Nessa onda, até Wall Street resolveu partir para a revanche contra a tentativa do governo de regulamentar o mercado financeiro: o bilionário Steve Scharzman chegou a comparar as medidas de Obama para diminuir  as lacunas fiscais dos fundos hedge à invasão nazista da Polônia. Para Krugman, o que torna essas atitudes aparentemente isoladas perigosas é o fato de figurões do Partido Republicano estarem flertando com essa cruzada. O que faz supor, conclui o Nobel de Economia, que se a oposição recuperar pelo menos uma casa no Congresso em novembro, deve-se esperar abertura de processos, acusações e até "autos de fé". 

Joseph McCarthy
A origem da moderna "caça às bruxas" remonta à Guerra Fria. Entre o final dos anos 40 e meados dos anos 50, os EUA viveram um dos episódios mais infames de sua história, conhecido como "macartismo". O adjetivo vem de Joseph McCarthy, um obscuro senador republicano de Wisconsin que presidiu o famigerado Comitê do Senado de Atividades Antiamericanas (HUAC). Foi um tempo em que, a partir do Congresso, os EUA viveram um clima de paranoia e de frenesi inquisitorial anticomunista que desencadeou uma campanha de perseguições a supostos espiões soviéticos infiltrados em diversas instituições do país, criando uma situação de absoluto desrespeito aos direitos civis. Embora alguns acusados realmente tivessem sido espiões soviéticos - como Alger Hiss e Julius Rosenberg - a maioria foi vilipendiada por causa de suas convicções políticas e ideológicas. Assim, caíram na chamada "lista negra" de McCarthy cientistas e funcionários públicos, mas principalmente artistas e escritores. Nomes célebres como Charles Chaplin, Dalton Trumbo, Lilian Hellman, Dorothy Parker, Leonard Bernstein, Bertold Brecht, Aaron Copland, Dashiel Hammett, Arthur Miller, Artie Shaw, Orson Welles, Luís Buñuel, John Steinbeck e Tennesse Williams, entre muitos outros, se viram no banco dos réus do Torquemada de Wisconsin.
Bogart e Bacall

Jornalistas como Edward M. Murrow e astros de Hollywood como Humphrey Bogart, Laureen Bacall e John Huston tiveram a decência de resistir bravamente à sanha persecutória do macartismo. Mas alguns, como o renomado diretor de cinema Elia Kazan, o ator de filmes "B" Ronald Reagan e até Walt Disney delataram seus companheiros. Ironicamente, um dos maiores colaboradores de McCarthy, o jovem congressista Robert Kennedy, se tornaria depois uma das maiores expressões do liberalismo americano. Só em meados de 1950 os abusos da comissão seriam denunciados e o macartismo, desmascarado. Mas, como uma fênix, sua sanha acusatória ressurge de tempos em tempos, sempre quando os democratas e os temas liberais ganham corações e mentes da maioria dos americanos e ameaçam o status quo conservador da América profunda.

domingo, 29 de agosto de 2010

RENEGANDO O PASSADO

Carlos Lacerda, o golpista
José Serra, o renegado
"O desespero é uma quimera, o que o torna tão semelhante à esperança", dizia o escritor húngaro Sandor Petöfi (1823-1849). Despencando nas pesquisas, o candidato tucano José Serra está tão apavorado com a perspectiva de perder as eleições já no primeiro turno que vem fazendo uma campanha errática e esquizofrênica. Tentativas de pegar carona na popularidade do presidente Lula se mesclam a posicionamentos dignos de Carlos Lacerda, o maior golpista de nossa história. Mas agora Serra se superou: ele chegou ao ponto de renegar o próprio passado para tentar obter algum novo apoio. E logo de quem? Dos militares de pijama dos Clubes Militares, muitos saudosistas da ditadura. O desespero é tamanho que Serra parece incapaz de formular a pergunta clássica atribuída ao ditador Josef Stálin: "Mas quantas divisões eles têm?"

 Eles viam ameaça comunista em tudo 
Na última sexta-feira, o candidato da elite cheirosa fez uma palestra no Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, na qual sugeriu que o governo Lula teria implantado a tal "república sindicalista" no Brasil. Como presidente da UNE em 1964, Serra esteve presente no comício da Central do Brasil em 13 de março daquele ano para defender o governo João Goulart, acusado pela direita civil e militar justamente de tentar criar uma "república sindicalista". Na palestra o ex-governador "explicou" aos militares que aquela acusação carecia de sentido na época de Jango... mas que, agora, ela se tornou realidade. Qual é a conclusão lógica desse raciocínio torto? Parece haver uma sugestão subliminar de que hoje, sim, haveria justificativa para uma intervenção militar para derrubar a tal república. Franco Montoro e Mário Covas, que eram tucanos mas tinham um mínimo de coerência ideológica, devem estar se revirando no túmulo.
Mirou o Planalto e acertou o próprio pé

O pior de tudo é que um sujeito que ficou 14 anos exilado por conta de suas ideias políticas aproveitou o ambiente e o clima no Clube da Aeronáutica para atacar a retomada da discussão sobre a Lei de Anistia, fazendo coro com a crítica dos militares a essa iniciativa do governo Lula. Mais grave ainda, contudo, foi o fato de Serra ter proibido o acesso de jornalistas à palestra aos milicos. Logo ele, que vive denunciando - com ampla repercussão midiática - a suposta "censura" que o governo Lula estaria tentando impor aos meios de comunicação. Se como candidato ele foi capaz de impedir a presença de jornalistas num evento público, imagine-se o que ele faria se tivesse o poder federal nas mãos. Nenhuma surpresa, contudo, vindo de quem se acostumou a pedir cabeças de jornalistas desafetos a donos de jornais.

O irônico disso tudo é que Serra sempre mostrou profunda aversão pelos militares. Feridas do exílio, poder-se-ia imaginar. Mas não; trata-se de pura arrogância e ignorância. Ele nunca se pronunciou o sobre o papel que as Forças Armadas devem ter num Estado Democrático de Direito. Nunca teve familaridade alguma com a área de Defesa. Não seria surpresa, portanto, que, se chegasse ao Planalto, Serra reveria todo o programa de reformulação das Forças Armadas posto em curso pelo atual governo. Sob Lula, o papel dos militares foi redefinido e as forças singulares estão sendo reequipadas com base no Plano Nacional de Defesa, de maneira a propiciar o renascimento da indústria de defesa nacional, por meio da transferência de tecnologia dos fabricantes de equipamentos militares. Mas será que a turma de pijama se dá conta disso?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

"MEXICANIZAÇÃO?" ELES SE ESQUECERAM DO SERJÃO...

A possibilidade crescente de que Dilma Rousseff ganhe as eleições já no primeiro turno levou a mídia conservadora a construir uma nova "ameaça" para conjurar a catástrofe, já que a demonização da "terrorista" parece ter dado com os burros n'água. Agora, trata-se do perigo da "mexicanização", ou seja, se a vitória de Dilma e Lula for tão acachapante como se prevê, estaremos caminhando inexoravelmente para um governo sem oposição, em que o PT estaria prestes a controlar todos os mecanismos do Estado. Tese antes ventilada apenas nos escaninhos da academia, a "mexicanização " vem sendo esgrimida por editorialistas, cientistas políticos de alta plumagem - como Bolivar Lamounier -, debatedores e já virou o mote de alguns candidatos - principalmente de ex-esquerdistas como Roberto Freire e Fernando Gabeira.


Mas, afinal, que diabos é a "mexicanização"? Trata-se daquilo que Vargas Llosa chamou uma vez de "ditadura perfeita": o regime implantado no México pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) - o nome é uma contradição em termos -, no poder entre 1929 e 2000. O regime, de fato, era sui-generis: embora formalmente democrático, com eleições, liberdade partidária e de imprensa, na prática submetia toda a vida política e institucional do país ao tacão do PRI, que controlava a máquina burocrática do Estado. Os sociólogos denominavam tal situação de "regime de Partido-Estado", em que até os funcionários públicos tinham que ser filiados ao PRI. O modelo foi copiado pelo Partido Colorado do Paraguai durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989). No México, contudo, havia um ritual de "alternância de poder", com eleições presidenciais a cada seis anos, mas a escolha do sucessor era feita por um processo denominado "dedazo", em que o presidente de turno impunha ao partido o nome escolhido, sem direito a contestação.

Sérgio Motta: PSDB planejava ficar 20 anos no poder
Voltando à vaca fria, é uma piada de mau gosto a oposição demo-tucana manifestar agora a preocupação com a alternância de poder e vir agitar o fantasma da "mexicanização". Parece aquele repórter que, recém-chegado ao campo de batalha,  escreve: "Agora é guerra!" Quando estavam por cima, PSDB e PFL (atual DEM) verbalizaram claramente seu desejo de se perpetuar no poder. Para quem não lembra, no primeiro mandato de FHC, o então ministro da Comunicações Sérgio Motta, depois que o PFL lançou o Projeto 2000 na presunção de se transformar no maior partido do país, disse com todas as letras: “O PSDB tem projeto de poder para 20 anos; está aí para ficar. É o PSDB 2015 contra o PFL 2000”, ironizou o trator. “É uma proposta bastante ambiciosa, que os militares também tiveram", alfinetou o então senador pefelista Antônio Carlos Magalhaes, aliado incômodo de FHC. Já Inocêncio de Oliveira, líder do PFL na Câmara, deu de ombros: "Tudo bem, deixa o PSDB ir até 2015. O PFL vai além. Temos muito mais chances de ficar no poder até 2030".

"O sono da razão produz monstros"
Expressando a percepção da elite sobre o projeto continuísta dos tucanos e pefelistas, o articulista Luis Adolfo Pinheiro, então colunista do Jornal de Brasília, escreveu esta pérola: “Até que enfim apareceu o secretário-geral de um grande partido para dizer de público que sua agremiação tem projeto para ficar 20 anos no poder. Num país que ama a improvisação e detesta olhar um ano atrás, o ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso causou furor, para não dizer mal-estar. A feliz declaração do secretário-geral do PSDB é oportuna e bem-vinda, até para obrigar a imprensa brasileira a levantar os olhos para o futuro que está além do horário de fechamento dos jornais. Que a sadia provocação do ministro seja vista pelos demais partidos que apóiam FHC como um desafio ainda maior de permanecerem não vinte, mas trinta anos no poder”. (extraído do livro Sérgio Motta - O Trator em Ação, de José Prata, Nirlando Beirão e Teiji Tomioka.
Porque ele pôde mudar as regras do jogo?  

Mas tudo isso foram apenas intenções, diriam as polianas. Não, não foram: em 1997 Fernando Henrique enviou ao Congresso uma emenda constitucional para permitir a própria reeleição. Ele mudou a regra do jogo com o jogo em andamento, como se diz; pior: mudou a Constituição em proveito próprio. Seguiu os exemplos de Alberto Fujimori, no Peru, e Carlos Menem, na Argentina. Imaginem a reação da mídia conservadora ("equidistante" e "independente", como a Folha se autointitula) se Lula tivesse feito algo remotamente semelhante. Certamente iriam bater nos quartéis como as "vivandeiras" de 1964. Basta lembrar que, em 2008, durante meses, um factóide - o terceiro mandato que Lula estaria articulando - alimentou manchetes, debates e editoriais indignados e furibundos. Lula foi comparado a Luís XIV ("O Estado sou Eu"), Bonaparte e Hugo Chávez. Por pouco não pintaram-no como um novo Hitler.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO???

Gabeira, hoje uma espécie de tucano verde em extinção 
Seria patética senão fosse trágica a leviandade com que Fernando Gabeira vem tratando a questão da luta armada contra a ditadura, da qual ele participou como integrante do MR-8. Fazendo eco a um discurso da extrema-direita cada vez mais disseminado, o deputado da Veja agora diz que os guerrilheiros dos anos 60 e 70, como ele, "não lutavam pela democracia, mas pela ditadura do proletariado". Na ânsia de atingir a candidata do PT, Dilma Rousseff, também ex-guerrilheira, o  deputado do PV do Rio de Janeiro se presta a renegar seu passado, oferecendo-o de bandeja aos saudosistas do porão. E quem se banqueteia são seus atuais companheiros, demos e tucanos com DNA de corvos.


Interessante notar que o primeiro livro de Gabeira, O que é isso companheiro?, publicado em 1980, já usava esse expediente de tentar explicar o passado com a lógica do presente. Na narrativa, os protagonistas da luta armada aparecem como se já na época não acreditassem mais na viabilidade da via revolucionária para a tomada do poder. Ora, os militantes fariam essa crítica das armas bem depois, com as prisões, as torturas, as mortes, o exílio - a derrota, enfim. Ninguém jamais teria posto a vida em risco por ideias que considerasse irrealizáveis.

Na verdade, a reconstrução da memória histórica com base na experiência e nas convicções do presente é um fenômeno sociológico. “Sempre quando os povos transitam de uma fase para outra da história, e quando a seguinte rejeita taxativamente a anterior, há problemas de memória, resolvidos por reconstruções mais ou menos elaboradas, quando não pelo puro e simples esquecimento”, explica Daniel Aarão Reis, historiador da UFF, também ex-guerrilheiro. E, de fato, nos anos 1980, a própria a memória da luta armada foi reconstruída como "resistência democrática à ditadura" - o que ela não pretendia ser à época. Mas essa era a maneira de resgatar o "combate nas trevas" e os que tombaram, porque àquela altura os próprios sobreviventes da guerrilha consideravam que o caminho das armas tinha sido politicamente equivocado.

Che Guevara e Fidel Castro
Junta Militar do Brasil em 1969
Mas, como lembra Denise Rollemberg, nos anos 60 e 70 os valores democráticos não estruturavam a sociedade brasileira e não eram cultivados nem pela direita no poder nem pela esquerda na clandestinidade - armada ou não. Havia de um lado a ditadura alinhada aos EUA da Guerra Fria; de outro, a aura romântica da Revolução Cubana, de Che Guevara, da Revolução Cultural, da Guerra do Vietnã. E a fetichização da guerrilha. Era o Zeitgeist (o "espírito da época"). As desilusões vieram depois. Quem viveu naquela época ou a estudou sabe muito bem como a percepção desses eventos então era bem diversa da sensibilidade política atual.

Mas isso não autoriza, como parece sugerir Gabeira, colocar no mesmo nível os que resistiram à ditadura - mesmo com meios e por fins que hoje sabemos equivocados - e os algozes que os torturaram, mataram e os fizeram "desaparecer". Fazer isso é corroborar o discurso a-histórico que hoje serve à direita hidrófoba. Seria como comparar o guerrilheiro Gabeira ao torturador Sérgio Fleury. Seria aceitar a postura que justifica a tortura e os assassinatos no DOPS e no Doi-CODI sob a alegação de que na época havia uma "guerra" e que um dos lados foi vencido e agora quer "vingança" e "revanchismo". Gabeira sabe ou deveria saber que isso é uma manipulação sórdida da história: havia uma ditadura, houve resistência armada e houve repressão. E o Estado, que já havia suspendido a cidadania e interditado o caminho da democracia, tornou-se criminoso quando exerceu a violência contra cidadãos sob custódia, sem defesa.

Talvez Gabeira tenha querido se tornar apenas mais uma celebridade.
Gabeira e a tanga nos anos 1980
Gabeira nos anos 1960
É uma pena. Ele já foi uma promessa. Quando voltou ao Brasil com a anistia, em 1979, chacoalhou a velha esquerda ortodoxa denunciando seu atraso cultural. Tornou-se defensor pioneiro de temas então considerados tabus, como a liberação das drogas, os direitos dos homossexuais, o feminismo e, posteriormente, o ecologismo. O verão de 1980 ficaria conhecido como Verão da Abertura e Gabeira, com sua famosa tanga de crochê, foi a melhor tradução dos novos tempos. O que é isso companheiro? virou best-seller. O livro incomodava, mas era necessário, porque buscava ajustar contas com o stalinismo e o messianismo da esquerda revolucionária. Eu o li em estado de êxtase - mas só até tomar conhecimento da Autobiografia de Federico Sánchez, de Jorge Semprún,  publicado no mesmo ano e que também fala sobre a desilusão com a Revolução, mas é muito mais denso e muito mais bem escrito.   

Embaixador Charles Elbrick
A tentação de Gabeira de virar celebridade pode ser percebida na narrativa do livro. Quem o lê sai com a impressão que ele foi peça fundamental na montagem da operação que resultou no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969, e sua troca por 15 presos políticos. Depois, graças a depoimentos de outros participantes do episódio e ao filme Hércules 56, soube-se que o papel do futuro tucano verde foi o de mero soldado raso. A operação foi uma "parceria" entre a Dissidência da Guanabara (DG, futuro MR-8) e a Ação Libertadora Nacional (ALN de Carlos Marighella), que comandou a ação. Os protagonistas principais foram Joaquim Câmara Ferreira, Virgílio Gomes da Silva, Paulo de Tarso Wenceslau e Franklin Martins. O livro deu origem a um filme homônimo, esteticamente sofrível e politicamente lamentável, em que Gabeira é o mocinho e Virgilio Gomes da Silva, comandante militar da operação posteriormente assassinado, é demonizado.

Os 15 presos políticos trocados pelo embaixador Elbrick
Talvez a melhor definição do episódio seja a do jornalista Flávio Tavares, um dos 15 trocados pelo embaixador: "A ação foi o equívoco triunfal. A repercussão internacional desmoralizou os EUA e deu ao mundo a idéia do se que vivia no Brasil. Mas deu pretexto para a repressão se organizar mais. Deu à resistência uma dimensão que ela não tinha, mas a população amedrontada não nos acompanhava. Não era uma ação para dizimar diplomatas, era para salvar da prisão pessoas que estavam à beira da morte, como eu".

Em matéria de passado, como dizia meu analista, é melhor ficar com postura de Edith Piaf: Je ne regrette rien (eu não me arrependo de nada):

terça-feira, 24 de agosto de 2010

24 DE AGOSTO: UM DIA DE FÚRIA

24 de agosto de 79 - Pompéia destruída - Uma das maiores tragédias da Antiguidade, a erupção do vulcão Vesúvio destruiu as cidades de Pompéia e Herculano, matando cerca de duas mil pessoas. "Torna-se evidente que o que vimos, e estamos vendo, é a maior catástrofe da história do nosso mundo, e que os deuses fizeram cair sobre a região de Campânia, em particular sobre a cidade de Pompéia, uma tragédia como ninguém experimentou antes. Há três dias, o ventre da terra explodiu nas vizinhanças, e reduziu esse belo lugar a pó e cinzas, e ninguém conhecerá a razão", escreveu o orador Plínio, o Moço (61-114),
testemunha do dia em que a cidade se afogou em cinzas.

24 de agosto de 1572 - Noite de São Bartolomeu - Foi o início dos violentos massacres que vitimaram cerca de cem mil huguenotes (protestantes franceses) por ordem da família real francesa, católica. A carnificina eclodiu durante as bodas de Marguerite de Valois, irmã do rei Carlos IX, com Henrique de Navarra, de origem hugenote - aquele que disse "Paris vale uma missa" para justificar sua conversão ao catolicismo. O rei Carlos IX foi convencido pela mãe, Catarina de Médicis, de que os protestantes que estariam em Paris por ocasião do casamento iriam conspirar para derrubar a monarquia católica. Os ataques prosseguiram várias cidades durante meses. As águas dos rios ficaram infestadas por cadáveres insepultos e o mau cheiro se espalhou pelas cidades. O crime foi abençoado pelo papa Gregório XIII e os hugenotes tiveram que abandonar tudo e fugir para outros países, inclusive para o Brasil. Aqui, onde a expedição de Villegagnon já estivera, os calvinistas tentaram estabelecer uma colônia para os perseguidos, a França Antártica, posteriormente derrotada pelos portugueses.


24 de agosto de 1954 - Suicídio de Getúlio Vargas - Acossado pela direita civil e militar e pela mídia golpista da época, que não aceitava a política nacionalista e trabalhista do governo, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se no Palácio do Catete, deixando uma Carta Testamento na qual denuncia "a campanha subterrânea dos grupos internacionais" que "aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho". Em outro trecho, diz a carta: "Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma". Soa familiar? O gesto trágico de Vargas - completamente incomum na tradição conciliadora das elites brasileiras - pegou seus inimigos de surpresa, revoltou as massas e forçou os conspiradores a recolher as armas. O projeto de conquistar o poder foi aditado e as forças reacionárias só chegariam ao poder dez anos depois, com o golpe de Estado de 1964. Mas então os militares se livrariam dos "companheiros de viagem" civis e se encastelariam no poder por 21 longos e tenebrosos anos.  

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

HOMENS EM TEMPOS SOMBRIOS: LEON TROTSKY

Há 70 anos, em 20 de agosto de 1940, Leon Trotsky, um dos líderes da Revolução Bolchevique de 1917, era assassinado no México, onde estava exilado, por um sicário de Stálin, Ramón Mercader. Falar de Trotsky ou de Revolução Bolchevique hoje em dia parece ser um convite a contrair irritação nas vias respiratórias depois de ter revirado o pó do baú da vovozinha. Afinal, num mundo onde a ideia de democracia virou consenso, pensar em revoluções socialistas e regimes de partido único soa atualmente tão demodée quanto o absolutismo de Luís XIV. No entanto, até 25 anos atrás, o comunismo ainda era uma força política poderosa e influente em todo o mundo. É verdade que foi uma utopia que se degenerou em regimes totalitários ou semi-totalitários de triste memória na Rússia e na Europa do Leste. Mas o comunismo soviético representou um contraponto fundamental à selvageria natural do capitalismo - além de ter sido imprescindível para a derrota do nazismo na II Guerra Mundial. Como disse certa vez Alexander Yakovlev, um dos formuladores da glasnost de Mikhail Gorbatchev, o grande legado da Revolução de Outubro não deve ser buscado na Rússia, mas no Ocidente. O motivo é que a simples existência do país dos sovietes deixava os líderes dos países capitalistas temerosos de que os Partidos Comunistas inspirados por Moscou tomassem o poder, o que levou muitos à criação do Welfare State social-democrata. Tanto que, depois da queda do Muro de Berlim e do colapso do comunismo, a "nova ordem mundial" neoliberal avançou com as garras e o apetite de aves de rapina sobre os direitos e as conquistas dos trabalhadores ocidentais. Até que a queda do outro muro, o de Wall Street em 2008, colocasse em dúvida o modelo de capitalismo sem peias sacralizado pelo Consenso de Washington.

A titânica luta de Trotsky contra Stálin granjeou-lhe a fama de heroi trágico. Mas sua trajetória é bem mais complexa e bem menos linear do que supõe a vã filosofia maniqueísta - marxista ou não. Em 1902, Trotsky aproximou-se de Vladimir Lênin, líder do então Partido Operário Social Democrata Russo, mas logo se tornou crítico das idéias deste sobre o papel do partido como vanguarda revolucionária. Na Revolução de 1905, como presidente do soviete de São Petersburgo, Trotsky defendeu a “democracia de massas” contra o partido leninista. Mas em 1917, quando o czarismo caiu, Trotsky se reaproximou dos bolcheviques e se tornou, junto com Lênin, um dos dirigentes máximos da Revolução de Outubro. Dizem que, naquele momento, Lênin aceitou as teses de Trotsky sobre a inevitabilidade de uma Revolução Socialista - e não apenas "democrática-burguesa" - e que Trotsky, em contrapartida, engoliu o "centralismo democrático".    

Uma vez no poder, Trotsky demonstrou um fervor de "cristão novo" na defesa da tese leninista sobre o papel dirigente do partido. E ele se saiu "melhor que a encomenda", enterrando a postura libertária do passado e revelando-se até mais autoritário do que Lênin, como mostram sua condução implacável do Exército Vermelho, a repressão impiedosa que ele dirigiu contra os operários da base naval de Kronstadt – que em 1921 se rebelaram contra a autocracia bolchevique – e a vigorosa defesa que fez da “militarização do trabalho” em plena fase de estabilização política do regime.

Foi como Comissário de Guerra, aliás, que Trotsky mostrou sua impressionante capacidade de organização. Para enfrentar os exércitos de 21 países que, aliados às tropas “brancas” russas da contra-revolução, tentavam derrubar o regime comunista, Trotsky criou, praticamente do nada, o Exército Vermelho. Convencido de que a guerra moderna exigia conhecimentos militares especializados e férrea disciplina, ele ordenou o recrutamento compulsório dos camponeses e não vacilou em pôr no comando antigos oficiais do Exército czarista, embora vigiados por “comissários políticos” do partido. Baixou o centralismo punindo exemplarmente com a pena de morte atos de deserção ou indisciplina. Com isso, entrou em choque com a velha guarda bolchevique, que queria uma milícia popular dirigida por comunistas, com oficiais eleitos pela tropa. “Aviso que se qualquer unidade recuar sem ordens para tal, o primeiro a ser fuzilado será o comissário da unidade, e depois o comandante”, dizia Trotsky em uma de suas ordens. A dramática vitória militar contra os brancos e estrangeiros e o apoio irrestrito de Lênin fizeram triunfar a visão de Trotsky de um Exército não-partidário – mas atraíram a oposição de Stálin e da velha guarda.

O sucesso de Trotsky lhe subiu à cabeça e ele achou que poderia aplicar a fórmula vitoriosa nos campos de batalha nas fábricas. Acabada a guerra, a economia russa estava degringolada pela destruição do parque produtivo. Durante a Guerra Civil (1918-1921), esteve em vigor o “comunismo de guerra”, que estatizou totalmente a economia, requisitou a totalidade da produção agrícola e suspendeu todas as liberdades. Em 1920 Trotsky foi encarregado de organizar o transporte ferroviário na Rússia – um setor então controlado pelos sindicatos. E ele repetiu a fórmula que havia adotado na formação do Exército Vermelho: colocou os ferroviários sob lei marcial e intensificou o trabalho. Quando o sindicato protestou, Trotsky afastou seus dirigentes e nomeou interventores. Agiu da mesma forma nos sindicatos de trabalhadores em transportes. Os resultados foram superiores às expectativas e a reabilitação dos transportes ocorreu muito antes do previsto. Entusiasmado pelo êxito, Trotsky passou a defender a “militarização dos sindicatos”, que consistia numa atualização do “comunismo de guerra”, com a mobilização forçada de trabalhadores ociosos e a substituição de dirigentes sindicais “rebeldes” por líderes nomeados pelo governo e comprometidos com metas de produção. Mas a proposta de Trotsky foi derrotada pela Nova Política Econômica (NEP) de Lênin, que restabelecia parcialmente as práticas capitalistas de produção ao permitir que os camponeses vendessem o excedente no mercado. A partir daí, Trotsky ficaria cada vez mais isolado. A morte de Lênin, em 1924, abriu caminho para que seus adversários, principalmente Stálin - a quem ele subestimara completamente, mas que detinha o controle do aparelho burocrático do partido - o afastassem do poder.

Trotsky defendia a radicalização da revolução no campo, com o fim da NEP, a expropriação dos camponeses e a estatização da propriedade da terra. Em aliança com Nikolai Bukhárin, teórico da "via capitalista" no campo, Stálin manteve a NEP e abraçou a ideia de "socialismo num só país". Uma vez eliminada a "oposição de esquerda", anos depois, o próprio Stálin se voltaria contra Bukhárin, implantando em seguida a política trotsquista. Foi a "coletivização forçada" da agricultura, que, por meio de uma "acumulação primitiva de capital" sui generis, fez da União Soviética uma potência industrial - a ferro e fogo. A Trotsky, expulso do partido, exilado, vagando de país em país até se fixar no México, não restou outra coisa senão teorizar sobre a "Revolução Permanente" e fundar a IV Internacional - um clube de diletantes que fez muito barulho por nada - na esperança de implementá-la. Até ser atingido pelo quebra-gelo de Ramón Mercader.

 "O mundo estava saturado de contradições extraordinárias. Em tempo algum o capitalismo esteve tão próximo da catástrofe quanto durante as depressões e colapsos da década de 1930; e em tempo algum mostrou uma elasticidade tão selvagem [...] Nunca tão grandes massas foram inspiradas pelo socialismo; e nunca foram tão impotentes e inermes. Em toda a história do homem moderno, nada é tão sublime e repulsivo quanto o primeiro Estado proletário e a primeira experiência em 'construir o socialismo'. E talvez nenhum homem tenha vivido numa comunhão tão próxima com os sofrimentos e com as lutas da humanidade oprimida e numa solidão tão profunda quanto Trotsky", escreveu Issac Deutscher, o maior biógrafo de Trotsky, em O Profeta Banido.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

HERÓIS ESQUECIDOS

Steve Biko (1946-1977)
Líder estudantil e ativista anti-apartheid sul-africano, foi o fundador do Movimento de Consciência Negra. Figura fundamental da  luta resistência contra o regime de supremacia branca, a ele é atribuida o slogan: "Black is Beautiful", que expressava a necessidade da maioria negra adquirir identidade própria para poder ter consciência de seus direitos e então poder lutar contra a opressão. Torturado e assassinado sob custódia policial, virou símbolo da luta contra o apartheid mas depois caiu no esquecimento. Sua saga foi imortalizada no filme Cry Freedom (1987), de Richard Attenborough, e na música Biko, de Peter Gabriel.

Biko, de Peter Gabriel, com cenas do filme
http://www.youtube.com/watch?v=y7Oo1QSyxUc

A ESTETIZAÇÃO DA POLÍTICA

"Todos os esforços para estetizar a política convergem para um ponto. Esse ponto é a guerra. A guerra, e somente a guerra, permite dar um objetivo aos grandes movimentos de massa, preservando as relações de produção existentes. Eis como o fenômeno pode ser formulado do ponto de vista político. Do ponto de vista técnico, sua formulação é a seguinte: somente a guerra permite mobilizar em sua totalidade os meios técnicos do presente, preservando as atuais relações de produção. É óbvio que a apoteose fascista da guerra não recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lançar os olhos sobre a maneira com que ela é formulada. Em
seu manifesto sobre a guerra colonial da Etiópia, diz Marinetti: “Há vinte e sete anos, nós futuristas contestamos a afirmação de que a guerra é antiestética... Por isso, dizemos: ...a guerra é bela, porque graças às máscaras de gás, aos megafones assustadores, aos lança-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a máquina subjugada. A guerra é bela, porque inaugura a metalização onírica do corpo humano. A guerra é bela, porque enriquece um prado florido com as orquídeas de fogo das metralhadoras. A guerra é bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil, os canhoneios, as pausas entre duas batalhas, os perfumes e os odores de decomposição. A guerra é bela, porque cria novas arquiteturas, como a dos tanques, dos esquadrões aéreos em formação geométrica, a das espirais de fumaça pairando sobre aldeias incendiá-Ias, e a de muitas outras. Poetas e artistas do futurismo ... lembrai-vos desses princípios de uma estética da guerra, para que eles iluminem vossa luta por uma nova poesia e uma nova escultural”.
Fiat ars, pereat mundus (Faça-se a arte, ainda que pereça o mundo), diz o fascismo e espera que a guerra proporcione a satisfação artística de uma percepção sensível modificada pela técnica, como faz Marinetti. É a forma mais perfeita da art pour l'art. Na época de Homero, a Humanidade oferecia-se em espetáculo aos deuses olímpicos; agora, ela se transforma em espetáculo para si mesma. Sua auto-alienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como um prazer estético de primeira ordem. Eis a estetização da política, como a pratica o fascismo".
Walter Benjamin, A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

QUANDO OS VAMPIROS NÃO ERAM UMA FANTASIA DE ADOLESCENTES...

... e estavam muito longe da estética de Hollywood mas muito próximos da catástrofe europeia de 1914 a 1945 


“Será a sombra a pátria de nossa alma?”
Friedrich Hölderlin, Hiperyon


Misticismo e magia - forças obscuras às quais, desde sempre, os alemães se abandonaram com satisfação - tinham florescido em face da morte nos campos de batalha. A hecatombe de jovens precocemente ceifados pareceu alimentar a nostalgia feroz dos sobreviventes. E os fantasmas, que antes haviam povoado o romantismo alemão, se reanimavam tais como as sombras de Hades ao beberem sangue. (Lotte Eisner, A tela demoníaca)




Nosferatu, Uma Sinfonia do Horror (1922, F. W Murnau)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nosferatu, o Vampiro da Noite (Werner Herzog, 1979)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O RESGATE DA SOBERANIA II

O ponto fundamental para o Brasil consolidar a relação Sul-Sul era a integração sul-americana. “A grande prioridade da política externa durante o meu governo será a construção de uma América do Sul politicamente estável, próspera e unida. [...] Para isso, é essencial uma ação decidida de revitalização do Mercosul, enfraquecido pelas crises de cada um de seus membros e por visões muitas vezes estreitas e egoístas do significado da integração”, disse Lula no discurso de posse em 2003. E essa revitalização passava, em primeiro lugar, por um aprofundamento dos vínculos do Brasil com a Argentina, alquebrada por várias crises econômicas. Foi o que aconteceu,  apesar da postura muitas vezes unilateral do vizinho e da grita de alguns setores empresariais brasileiros - com muita repercussão midiática, diga-se - afetados por medidas protecionistas da Argentina. Para o Itamaraty, o que estava em jogo era o futuro da unidade regional e da liderança do Brasil na região, não os desacordos comerciais pontuais. O Mercosul é muito mais do que um projeto de liberalização econômica.  Ele tem altos e baixos, mas avança em meio a divergências e contradições, como as disputas comerciais entre Brasil e Argentina, que “sempre existiram mesmo antes do processo de integração, e sempre foram superadas”, diz o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira. "A União Européia também enfrentou discrepâncias internas, quando alguns países rechaçaram seu projeto de Constituição, e divisões a respeito da guerra contra o Iraque. Não há blocos monolíticos, especialmente quando as assimetrias predominam", acrescenta Moniz.

A partir do fortalecimento do Mercosul, o Brasil pôde amadurecer a proposta da criação de um bloco regional sul-americano. O bloco surgiu em resposta à nova estratégia de Tio Sam na região: convencidos do fracasso da proposta da Alca, os americanos lançaram a Alca light ou Alca à la carte, ou seja, acordos de livre comércio bilaterais com países mais propensos a manter a aliança privilegiada com Washington, como a Colômbia, o Peru e o Chile. Com o apoio decisivo do Brasil, foi fundada em 2004, em Cuzco (Peru) a CASA (Comunidade Sul-Americana das Nações), marco referencial para a criação de um espaço sul-americano. Em 2008 a CASA foi renomeada como Unasul (União das Nações Sul Americanas). Na sequência, o governo brasileiro propôs a criação do Conselho de Defesa Sul-Americano – um inédito mecanismo para consultas e cooperação militar no continente. Embora fizesse parte do espírito da Unasul, essa proposta foi tida como uma reação brasileira à recriação, pelos EUA, da IV Frota Naval.

O novo bloco já enfrentou vários desafios, como o conflito entre o Equador e a Colômbia em 2008 - depois que o Exército colombiano matou guerrilheiros das Farc em território equatoriano - e as rusgas permanentes entre a Colômbia e a Venezuela, que chegaram a romper relações diplomáticas. No caso da Bolívia, a mediação da Unasul conseguiu evitar a radicalização entre apoiadores e opositores do presidente Evo Morales. É claro que nem todos os conflitos foram resolvidos a contento, mas o importante é que se instaurou uma nova lógica nas relações regionais. Na medida em que a Unasul se fortaleça, mostrando-se um organismo eficaz para mediar conflitos regionais, os países sul-americanos tenderão a dirimir suas diferenças entre si, sem ter que recorrer à OEA, organismo hegemonizado pelos Estados Unidos.

“A Unasul visa a promover a integração em outras áreas além da econômica e comercial, como em infra-estrutura, energia, cultura, educação, ciência e tecnologia. Visa a constituir também um organismo político para negociação com as grandes potências ou blocos econômicos e políticos, tais como os Estados Unidos, China, Índia e União Européia. Sem dúvida, a Unasul é um importante marco político e um grande feito da diplomacia brasileira”, afirma Moniz Bandeira.

O último ponto das críticas é aquilo que muitos qualificam como "pretensões" do Brasil na arena mundial. Parece que nada irrita mais nossa oligarquia com “complexo de vira-latas” do que essa postura altiva da diplomacia brasileira. Mas como pegaria mal externar essa visão colonizada, os críticos douraram a pílula e passaram a fazer um discurso moralista e "humanitário" para atacar as prioridades do Itamaraty. Lula e Amorim são acusados de desprezar princípios democráticos por manter excelentes relações com violadores de direitos humanos, como Cuba, Irã e Venezuela.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que nosso presidente é meio boquirroto; ele fala demais e, às vezes, fala besteira. Não tinha nenhum sentido, por exemplo, comparar os dissidentes cubanos a bandidos ou dizer que a condenação à morte por lapidação de uma iraniana dizia respeito apenas às leis do país.

Mas as escorregadas verbais do presidente não podem ser atribuídas à orientação diplomática do Itamaraty. E esta se pauta pelo defesa dos interesses nacionais, como qualquer país moderno e soberano. Princípios de moralidade não regem a política externa de nenhuma nação, apesar do discurso humanitário generalizado. É a Realpolitik, se quiserem, consagrada desde o Tratado de Westfália, de 1648, que deu origem aos Estados nacionais e, depois, ao conceito de “equilíbrio do poder”. É claro que, depois da Segunda Guerra Mundial, busca-se amenizar um princípio correlato, o de "não-ingerência em assuntos internos", com declarações de defesa dos direitos humanos e até de "intervenção humanitária" (tipo Bósnia e Kosovo). Mas se a defesa dos direitos humanos fosse um princípio seguido ao pé da letra no concerto das nações, nenhum país democrático teria relações com a China, Arábia Saudita, Paquistão, Birmânia, Egito, Israel ou Síria, entre outros. Os críticos conservadores da diplomacia de Amorim, moralistas ou hipócritas, deveriam ler os clássicos de política externa contemporânea, conservadores como Hans Morgenthau, Henry Kissinger e, sobretudo, George Kennan, o brilhante diplomata norte-americano da Guerra Fria que inventou a política de contenção do comunismo. Escreveu Kennan: “[devemos fazer] uma política fundada no reconhecimento do interesse nacional [...] e estar preparados para implementar esse interesse sem pretensões morais ou apologéticas [...] A prioridade deve ser dada, aqui, não em tentar reformar os outros, mas em evitar as catástrofes apocalípticas que hoje turvam o horizonte do ser humano” (At a Century’s Ending). 

Quando o Itamaraty defende o direito de o Irã desenvolver seu programa nuclear pacificamente, está também defendendo o direito do Brasil de fazer o mesmo, face às pressões dos países industrializados para que assinemos os protocolos adicionais do TNP. E quando, junto com a Turquia, o Brasil faz uma proposta viável para resolver tal impasse, impõe-se como interlocutor confiável no plano mundial. Neste caso, como no caso do golpe em Honduras, um acordo não foi alcançado pela posição intransigente do Departamento de Estado americano. Mas todo mundo reconhece os esforços e a crescente competência da diplomacia brasileira. Exceto a grande mídia brasileira, que torce o nariz para qualquer coisa vinda do governo Lula.

Celso Amorim não está reinventando a roda. Ele apenas coloca num novo patamar a tradição progressista em política externa de San Tiago Dantas, Afonso Arinos, Araújo Castro e Renato Archer. Já a oposição demo-tucana parece ter saudades do "O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil", de Juraci Magalhães, chanceler do marechal Castello Branco, o primeiro presidente da ditadura.