segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O ESPECTRO QUE RONDA A EUROPA


A maior prova de que o fundamentalismo está vencendo a guerra por corações e mentes no Ocidente é a vitória do "sim" à proposta da extrema direita suíça de proibir a construção de novos minaretes no país. A comunidade muçulmana da Suíça reagiu de maneira cautelosa, mas teme-se que no resto do mundo islâmico haja reações violentas, semelhantes às que ocorreram em 2006, quando foram publicadas na Dinamarca charges do profeta Maomé, ou em 1988, quando o aiatolá Khomeini condenou à morte in abstentia o escritor Salman Rushdie pela publicação do livro Os Versos Satânicos.

Mas agora trata-se de uma questão completamente diferente do que estava jogo nas duas circunstâncias anteriores. As charges e o livro podiam ofender os muçulmanos, mas sua publicação estava ancorada num valor maior, a liberdade de expressão - uma conquista alcançada a duras penas no Ocidente, mas ainda uma miragem na maioria das sociedades islâmicas. O mesmo vale para a proibição do véu - e de qualquer símbolo religioso - nas escolas públicas francesas. Tratava-se então de defender o princípio de laicidade do Estado.
Mas na Suíça quem está ameaçando esses valores democráticos e republicanos não são os fundamentalistas islâmicos, mas a maioria da sociedade, que, ressentida com a imigração, incorporou a intolerância da extrema direita e dos fundamentalistas cristãos (outra vez a "tirania da maioria" de Tocquevile).

A presença de uma população islâmica imigrante cada vez maior na Europa e a ausência de uma estratégia de integração, na melhor das hipóteses, criará sociedades com bantustões como no apartheid sul-africano. E na pior, rufarão tambores pelo Lebensraum (espaço vital). Partidos com discurso anti-imigração crescem na Holanda, Bélgica e até na Grã-Bretanha. Na França, Sarkozy corteja o eleitorado de Le Pen e na Itália, Berlusconi cria milícias contra imigrantes (soa familiar?).
Bin Laden, se estiver vivo, deve estar esfregando as mãos...

domingo, 29 de novembro de 2009

A FOLHA NA SARJETA



A mais recente canalhice da Folha de S. Paulo me fez lembrar a definição de Walter Lipmann de que as notícias não se baseiam em fatos, mas na expectativa dos donos dos jornais sobre o rumo dos acontecimentos. Depois da ficha falsa da Dilma Rousseff e da "ditabranda", o jornalão da Barão de Limeira publicou uma das mais vexaminosas peças do jornalismo marrom dos últimos tempos: num artigo de uma página, o ex-militante da luta armada César Benjamin afirma que, durante um encontro na campanha presidencial de 1994, ouviu Lula se jactar de ter tentado "currar" um companheiro na prisão, em 1980. Maliciosamente, "Cesinha" compara o suposto comportamento escroto do líder sindical ao dos bandidos com quem conviveu na prisão, que, diz, jamais tentaram tocá-lo. Tanta candura fez com que o articulista merecesse do jornal um pé biográfico gigantesco, digno, digamos, de um Lévi-Strauss, se este vivo fosse e perdesse tempo escrevendo para a Folha.

A Folha usou o expediente de publicar a acusação através de um artigo de um esquerdista respeitado mas rancoroso - quem se lembra de César Benjamin hoje? - para não ter que ouvir o outro lado e apurar a denúncia. Que, aliás, caiu por terra no dia seguinte, com o desmentido dos diversos envolvidos na reunião. Só então o jornal resolveu repercutir a acusação. Depois de tentarem, com o episódio da ficha, colar o epiteto de "terrorista" em Dilma Rousseff, acharam que dava para jogar merda no ventilador classificando Lula como "estuprador".

Alguns dizem que, com isso, a Folha jogou sua reputação na lama. Afinal, o jornal apoiou a abertura democrática, a campanha das Diretas Já e o impeachment do Collor. Mas essa reputação, na verdade, foi uma construção marqueteira. Ao contrário do Estadão, a Folha nunca foi censurada pela ditadura. Pior: quando o pau comia solto, o jornal emprestava suas caminhonetes C-14 para servir de cobertura para ações da repressão. E a Folha da Tarde se transformou num sórdido pasquim editado por policiais do DOPS, chegando a anunciar mortes de guerrilheiros (como Eduardo Leite, o Bacuri, acima) "em confronto" com a polícia quando eles ainda estavam presos.

Pegando carona na redemocratização, a Folha se tornou o jornal mais influente do Brasil, atingindo o auge nos anos 90, com o impeachment de Collor; depois, veio decaindo até perder importância como formador de opinião. Hoje, mais do que ninguém, a Folha quer porque quer eleger o Serra presidente. É bom lembrar Cláudio Abramo: "a liberadade de imprensa é liberdade do dono da empresa" O problema é que, com essa obsessão, o jornal abandonou a reportagem e se fixou num denuncismo barato, tornando-se uma espécie de linha-auxiliar da Veja. E depois, não sabem porque as vendas estão despencando...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

IN VINO VERITAS



Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
Por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir...
(...)
Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência.
Omar Khayyam (1048-1131), O Rubaiyat


É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas - de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como
achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.
Charles Baudelaire (1821-1867), Embriagai-vos

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

MUITO BARULHO POR NADA


A visita oficial ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, é o mais recente pretexto para a mídia conservadora bombardear a política externa do Itamaraty. A crítica parte de constatações inegáveis: o Irã é uma teocracia que censura, prende, tortura e executa dissidentes; que oprime as mulheres; que pratica a pena de morte com frequência, até contra adolescentes e pessoas acusadas de adultério e de homossexualidade. Além disso, o presidente Mahmoud Ahmadinejad nega abertamente o Holocausto e prega que Israel seja "riscado do mapa". Mas o que mais parece incomodar a mídia bem-pensante é o fato de o Irã pretender enriquecimento de urânio eventualmente para ter condições de fabricar bombas atômicas.

Essas críticas fingem ignorar que as relações entre Estados soberanos são pautadas pelo interesse nacional e pela busca do equilíbrio do poder, não por considerações morais. A ética do Estado não é a mesma do cidadão; este pode - e deve - protestar contra a opressão em outros países, mas não se pode exigir que um Estado soberano dê lições de moral a outro. Se os Estados Unidos ainda fazem isso, é porque não perderam o complexo de "destino manifesto". Mas até eles não misturam os canais quando se relacionam, por exemplo, com a China.

Brasil e Irã têm interesses comuns, a despeito de suas diferenças políticas e ideológicas. Na questão nuclear, o Brasil tem autoridade moral e trânsito até para servir como mediador, caso seja solicitado. Por isso não faz sentido simplesmente engrossar o coro dos que colocam o Irã como integrante do "eixo do mal" por querer desenvolver um programa nuclear. É curioso, aliás, que aqueles que temem a bomba iraniana ou a "proliferação nuclear no Oriente Médio" se calem quando se trata do arsenal nuclear israelense...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

MEMÓRIA DE UMA CHAGA










Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu delírio... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
[..]
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia? Silêncio.
Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
_____________________________
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
(Castro Alves, O Navio Negreiro)


Billie Holiday (1915-1959)
Strange Fruit (fruto estranho)
http://www.youtube.com/watch?v=lGNIX4qa38E&feature=related
(Sobre o linchamento de negros americanos por brancos americanos)






Miriam Makeba (1932-2008)
Khawuleza
http://www.youtube.com/watch?v=V74f9eIi9c0
(sobre a vida dos negros sob o apartheid na África do Sul)



quarta-feira, 18 de novembro de 2009

UMA NOVA BIPOLARIDADE


O sólido mundo bipolar soviético-americano erigido no pós-guerra desmanchou-se no ar em 1989, quando a União Soviética recusou-se a intervir para manter o bloco socialista sob sua órbita, renunciando ao condomínio do poder mundial que exerceu com os Estados Unidos desde 1945. Com o colapso final do comunismo, em 1991, abriu-se uma era dominada por uma única superpotência, os EUA, cujo apogeu foram os anos Clinton. A administração Bush, apesar do discurso triunfalista, revelou que Tio Sam era um gigante sobre pés de barro, tanto do ponto de vista militar e geopolítico (impasse no Iraque, Oriente Médio e Afeganistão) quanto do econômico (o gigantesco déficit fiscal e comercial e a crise financeira de 2008).

Durante certo tempo, imaginou-se que o enfraquecimento da liderança americana abriria espaço para o tão sonhado multilateralismo, fortalecendo-se, por exemplo, o G-20 (países industrializados mais os emergentes). Ledo engano. A visita do presidente Barack Obama à China revelou uma realidade que se desenhava há algum tempo: a emergência de uma nova bipolaridade, agora entre Washington e Pequim. A novidade é que, desta vez, ela não se assenta sobre um equilíbrio militar, mas econômico; por isso, os elementos de confluência entre Washington e Pequim são maiores do que os que existiam entre Washington e Moscou. Apesar de combalido, o poderio dos EUA permance incontrastável e a retomada de seu crescimento econômico é vital para a China - e para o resto do planeta. Mas a China é a economia que mais cresce no mundo; além disso, tem uma quantidade de títulos americanos que faz de Pequim o principal fiador do déficit dos EUA. E a manutenção da moeda chinesa desvalorizada torna a China comercialmente imbatível.

Como disse Jon Huntsman, embaixador americano na China, "Só há realmente dois países no mundo que podem, juntos, resolver certos assuntos, seja energia limpa, mudança climática, segurança regional, Irã, Coréia do Norte, Afeganistão e Paquistão, chegando até à economia global". Nada mal para um país que, 60 anos atrás, era humilhado pelas potências ocidentais. Nas palavras do estrategista chinês Sun Tzu (544aC-496aC), "dominar o inimigo sem combater é o máximo da habilidade".

domingo, 15 de novembro de 2009

A TENTAÇÃO AUTORITÁRIA


O governador José Serra voltou a demonstrar seu pendor para o autoritarismo ao nomear para a reitoria da USP o segundo colocado da lista tríplice nas eleições da instituição. Embora faça parte do jogo, é a primeira vez que isso acontece desde 1981, quando, em plena ditadura, o então governador Paulo Maluf escolheu o quarto da lista. O reitor nomeado por Serra, João Grandino Rodas, foi aquele que fechou as portas da Faculdade de Direito de São Francisco para impedir uma manifestação estudantil em apoio à greve dos funcionários da USP. Ele tem o apoio do tucanato paulista e é ligado à organização católica ultraconservadora Opus Dei - aquela do Código da Vinci.


Antes, Serra já havia espicaçado a comunidade universitária ao tentar criar uma secretaria especial para o ensino superior que, entre outras coisas, seria responsável por liberar verbas para as universidades públicas, num claro atentado à autonomia universitária. Esse fato desencadeou o protesto dos estudantes da USP em 2008 e a ocupação da reitoria. Em junho último, o governador - que foi presidente da UNE em 1963-1964 - mandou a tropa de choque da PM ao campus da USP para reprimir manifestação de funcionários em greve que tinha apoio dos estudantes. Sem entrar no mérito da justeza das reivindicações ou dos métodos do protesto, causa espécie ver um ex-perseguido político recorrer à força policial para manter a ordem num campus universitário. Imagine o escândalo que a mídia faria se o Lula fizesse o mesmo...

Originário da esquerda católica, Serra viveu exilado entre 1964 e 1977. Mas desde que despontou para a cena política nacional, nos anos 1980, ele vem revelando um pantagruélico apetite pelo poder - fato detectado na época por Tancredo Neves. Como senador, Serra se valia da amizade com os donos dos jornalões para pedir cabeças de jornalistas desafetos. No poder, mostrou-se não apenas centralizador - uma questão de estilo -, mas um político prepotente, arrogante e rancoroso. Baixa leis feito um Simão Bacamarte (personagem de O Alienista, de Machado de Assis), como a Lei antifumo; não recebe adversários, não dialoga, não negocia - vejam-se as greves de funcionários da USP e da Secretaria de Segurança. É o dono da verdade.

Serra tem idéias econômicas não-ortodoxas e poderia, em tese, ser um bom presidente da República. Herdeiro do pensamento cepalino, ele sempre bateu cabeça com a "ekipekonomica" de FHC, Malan e Gustavo Franco. No Ministério da Saúde, venceu uma queda de braço com grandes laboratórios farmacêuticos no caso dos remédios antiaids e dos genéricos. No governo paulista, contudo, Serra abandonou o receituário keynesiano e implementou a agenda privatista clássica do tucanato. O buraco do metrô, em 2007, e o acidente no Rodoaneal, agora, foram resultados desta opção.

O denominador comum dessas posturas é a onipotência. O sujeito tem complexo de Luís XIV (L'etat c'est moi, "o estado sou eu"). Como diria a Regina Duarte: "eu tenho medo".

sábado, 14 de novembro de 2009

PARADOXOS


"Na Itália, por trinta anos sob os Bórgias, eles tiveram guerra, terror, assassinatos e massacres. Eles produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça eles tiveram amor fraternal, quinhentos anos de democracia e paz e o que eles produziram? O relógio-cuco".
Orson Welles para Joseph Cotten, O Terceiro Homem

QUOSQUE TANDEM, MAILSON?


Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
(Até quando, Catilina, irás abusar da nossa paciência?)
Marco Túlio Cícero (106aC-43aC), discurso ao Senado Romano contra a conspiração de Lúcio Sérgio Catilina


Só mesmo na Paulicéia Desvairada pode-se dar ouvidos a um picareta de quatro costados como Mailson da Nóbrega. A mídia abre todos os espaços ao "sabichão", que adora entoar o mantra neoliberal e opinar sobre tudo, principalmente apontado os "erros" do governo Lula. Esse cidadão, funcionário medíocre do Banco do Brasil que foi o último ministro da Fazenda do malfadado governo Sarney, pegou uma inflação anual de 366% e aplicou uma tal de "política do feijão com arroz". Quando deixou o governo, a inflação batia nos 2.751% (mais de 80% ao mês) e o país estava mergulhado na recessão e corroído pela especulação financeira. Depois disso, ele abriu uma consultoria, ficou rico e virou oráculo da "pátria financeira".

E tem mais: esse sujeito que adora pontificar deu uma entrevista na Playboy anos atrás na qual admitiu que Sarney lhe pedira que fosse sabatinado pelo "doutor" Roberto Marinho para ocupar o cargo de ministro. E ele, sem ruborizar, disse que se sentia "honrado"com tal deferência...
Esse é o gênio da raça da "última flor do fascio" (Veja), dos demo-tucanos e da direita paulista.

2.751%
foi a taxa de inflação anual (85% ao mês) legada por Mailson da Nóbrega

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A BUSCA IMPOSSÍVEL



A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebetaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
(Carlos Drummond de Andrade, VERDADE)

O INFERNO E "LA PERDUTA GENTE"


Per me si va ne la città dolente,
Per me si va ne l'etterno dolore,
per me si tra la perduta gente.

(Vai-se por mim à cidade dolente,
Vai-se por mim à eterna dor,
Vai-se por mim entre a perdida gente)
Dinazi a me non fuor cose create
se non etterne, e io etterna duro.
Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate.

(Antes de mim não foi criado mais
nada senão eterno, e eterna eu duro.
Deixai toda esperança, ó vós que entrais.)
(Dante Alighieri, A Divina Comédia, Inferno, Canto III)


Até logo, até logo, companheiro,
Guarto-te no meu peito e te asseguro
O nosso afastamento é passageiro
É um sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.
(Sierguéi Iessiênin, 1924, bilhete escrito com sangue do próprio pulso, a Maiacovsky)


É preciso
arrancar alegria
ao futuro.

Nesta vida
morrer não é difícil
O difícil
é a vida e seu ofício
(Vladimir Maiacovsky, "A Sierguéi Iessiênin") Ele também se suicidaria, em 1930

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O VELHO GRAÇA E A LIBERDADE


"Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer"

Graciliano Ramos (1892-1953), Memórias do Cárcere

O SUB DO SUB


Carlos Menem e FHC lideraram a privataria que quase quebrou o Brasil e a Argentina nos anos 90. Eles foram pioneiros (junto com o golpista peruano Alberto Fujimori, hoje condenado por corrupção) em alterar as regras do jogo no meio dos mandatos mudando as respectivas Constituições para possibitar que fossem reeleitos. Menem e FHC mantiveram uma paridade artificial das respectivas moedas nacionais com o dólar que fez a festa da classe média e quase arruinou a economia de seus países. Os dois também mantinham "relações carnais" com os Estados Unidos - alardeadas por Menem - sem se importar muito se eram correspondidos.


No já célebre artigo publicado no Estadão, FHC define o governo do presidente Lula como "autoritarismo popular" e "subperonista" - referência ao caudilho argentino Juan Domingo Perón. O poder do lulismo viria da "burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão". Não deixa de ser lisonjeiro para um ex-metalúrgico o sociólogo ter que recorrer a Gramsci, Lacerda e a Chico de Oliveira para explicar seu governo...



Com todos os seus erros - e não são poucos - o governo Lula promoveu uma reversão da ortodoxia monetarista-privatista dos tucanos, com uma efetiva recuperação do poder do Estado como indutor do desenvolvimento. Se isso é "subperonismo", o governo FHC, afinado com o neoliberalismo inaugurado nestas plagas por Menem - na verdade por Pinochet -, só pode ser um "submenemismo"!

MAIS CIORAN: FÉ E ÊXTASE


As épocas de fervor se distinguem pelas façanhas sanguinárias. Santa Teresa só podia ser contemporânea dos autos-de-fé e Lutero do massacre dos camponeses. Nas crises místicas, os gemidos das vítimas são paralelos aos gemidos do êxtase... patíbulos, calabouços e masmorras só prosperam à sombra de uma fé - dessa necessidade de crer que infestou o espírito para sempre. O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade



O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma? Disso resulta o fanatismo — tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror



Em um espírito ardente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderíamos defender-nos demasiado das garras de um profeta... Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-lo a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não procurasse comunicá-la aos outros seria um fenômeno estranho à terra, onde a obsessão da salvação torna a vida irrespirável