segunda-feira, 30 de julho de 2012

O OUTRO LADO DO HORROR


O grande jornalista Robert Fisk, um dos últimos exemplares da figura de correspondente internacional independente, escreve sobre a tragédia da Síria.

Guerra síria, de mentiras e hipocrisia

O verdadeiro alvo do Ocidente não é o regime brutal de Assad mas seu aliado, o Irã, e suas armas nucleares

Robert Fisk

The Independent

Já houve uma guerra no Oriente Médio com tanta hipocrisia? Uma guerra com tanta covardia e imoralidade, falsa retórica e humilhação pública? Não estou falando sobre as vítimas físicas da tragédia síria. Estou me referindo às mentiras e enganações de nossos mestres e de nossa opinião pública — oriental e ocidental — em resposta à matança, à pantomima perversa que mais lembra uma sátira de Swift do que Tolstoy ou Shakespeare.

Enquanto o Qatar e a Arábia Saudita armam e financiam os rebeldes da Síria para derrubar a ditadura alawita/xiita-Baathista de Bashar al-Assad, Washington não profere uma palavra de crítica contra eles. O presidente Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, dizem que querem democracia na Síria. Mas o Qatar é uma autocracia e a Arábia Saudita está entre as mais perniciosas ditaduras-reinos-califados do mundo árabe. Os governantes dos dois estados herdam o poder de suas famílias — assim como Bashar — e a Arábia Saudita é aliada dos rebeldes salafistas-wahabistas da Síria, assim como foi um dos mais fervorosos apoiadores do medieval Talibã durante a idade da escuridão afegã.

De fato, 15 dos 19 sequestradores-assassinos em massa de 11 de setembro de 2001 vieram da Arábia Saudita, depois do que, naturalmente, bombardeamos o Afeganistão. Os sauditas estão reprimindo sua própria minoria xiita da mesma forma como pretendem destruir a minoria alawita-xiita da Síria. E acreditamos que a Arábia Saudita quer instalar uma democracia na Síria?
Temos então o partido-milícia xiita Hezbollah no Líbano, mão direita do Irã xiita e apoiador do regime de Bashar al-Assad. Por 30 anos, o Hezbollah defendeu os xiitas oprimidos do sul do Líbano contra a agressão israelense. Eles se apresentam como defensores dos direitos dos palestinos da Cisjordânia e de Gaza. Mas, diante do lento colapso de seu aliado implacável na Síria, perderam a língua. Não disseram uma palavra — nem mesmo Sayed Hassan Nasrallah — sobre os estupros e o assassinato em massa de civis sírios por soldados de Bashar e pela milícia Shabiha.

E temos também os heróis dos Estados Unidos — La Clinton, o secretário de Defesa Leon Panetta e Obama. Clinton divulgou uma “advertência” para Assad. Panetta — o mesmo homem que repetiu para os últimos soldados dos Estados Unidos no Iraque a velha mentira sobre a conexão de Saddam com o 11 de setembro — anunciou que as coisas “estão saindo do controle” na Síria. Mas isso está acontecendo há seis meses. Descobriu isso agora? E Obama nos disse na semana passada que “dado o estoque de armas químicas do regime, continuaremos a deixar claro para Assad… que o mundo está de olho”. Mas, não foi aquele jornal do Condado de Cork, chamado Skibbereen Eagle, que temendo a cobiça da Rússia em relação à China declarou “que estava de olho… no czar da Rússia?”. 

Agora foi a vez de Obama enfatizar o pouco que pode influir nos grandes conflitos do mundo. Bashar deve estar tremendo de medo.
Será que o governo dos Estados Unidos realmente gostaria de ver os atrozes arquivos da tortura de Bashar abertos para nós? É que, apenas alguns anos atrás, o governo Bush mandava muçulmanos para Damasco para que os torturadores de Bashar arrancassem suas unhas em troca de informação, presos a pedido do governo dos Estados Unidos no mesmo buraco infernal que os rebeldes sírios implodiram na semana passada. As embaixadas ocidentais diligentemente ofereciam aos torturadores as perguntas que deviam ser feitas às vítimas. Bashar, vejam bem, era nosso bebê.

Ah, existe aquele país da vizinhança que nos deve muita gratidão: o Iraque. Na semana passada, sofreu em um dia 29 ataques a bomba em 19 cidades, com a morte de 111 civis e ferimentos em outros 235. No mesmo dia, o banho de sangue da Síria consumiu um número parecido de inocentes. Mas o Iraque estava no pé da página, enterrado abaixo da dobra, como dizem os jornalistas; porque, naturalmente, nós demos liberdade ao Iraque, uma democracia jeffersoniana, etc, etc, não é verdade? Então essa matança a leste da Síria não tem a mesma importância, certo? Nada que fizemos em 2003 levou ao que o Iraque sofre hoje, certo?
Por falar em jornalismo, quem na BBC World News decidiu que os preparativos para as Olimpíadas deveriam preceder no noticiário os ultrajes da Síria na semana passada? Os jornais britânicos e a BBC no Reino Unido naturalmente deveriam destacar as Olimpíadas, como notícia local. Mas, em uma decisão lamentável, a BBC — transmitindo para o mundo — também decidiu que a passagem da tocha olímpica era mais importante que crianças sírias morrendo, ainda que os despachos viessem do corajoso repórter da emissora, diretamente de Aleppo.

E, naturalmente, há nós, os queridos liberais que rapidamente enchem as ruas de Londres para protestar contra a matança israelense de palestinos. Justo, com certeza. Quando nossos líderes políticos se contentam em condenar os arábes por sua selvageria mas se mostram muito tímidos para dizer uma palavra de tênue crítica quando o exército israelense comete crimes contra a humanidade — ou assiste a aliados fazendo isso no Líbano –, gente comum deve relembrar ao mundo que não somos tão tímidos quanto nossos líderes. Mas quando a matança na Síria atinge de 15 mil a 19 mil pessoas — talvez 14 vezes mais que as mortes causadas pela investida selvagem de Israel em Gaza, em 2008-2009 — praticamente nenhum manifestante, a não ser pelos exilados sírios, foi para as ruas condenar estes crimes contra a humanidade. Os crimes de Israel não atingem esta escala desde 1948. Certo ou errado, a mensagem é simples: demandamos justiça e direito à vida para árabes se eles forem massacrados pelo Ocidente ou seus aliados israelenses;  mas não quando eles são massacrados por outros árabes.

E enquanto isso, nos esquecemos da “grande” verdade. Que esta é uma tentativa de esmagar a ditadura síria não por causa de nosso amor pelos sírios ou nosso ódio pelo nosso ex-amigo Bashar al-Assad, ou por causa de nosso ódio pela Rússia, cujo lugar está garantido no panteão dos hipócritas quando vemos a reação do país às pequenas Stalingrados que se espalham na Síria. Não, esta guerra é sobre o Irã e nosso desejo de esmagar a República Islâmica e seus planos nucleares infernais — se eles existirem — e não tem nada a ver com direitos humanos ou com o direito à vida ou à morte dos bebês sírios. Quelle horreur!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

EVITA, UM MITO ARGENTINO


Eva Duarte Perón, a Evita
Idolatrada e odiada na Argentina mesmo depois de morta há tanto tempo, Evita Perón foi uma figura política complexa e contraditória, como seu marido, o general Juan Domingo Perón. Ela foi a principal inspiração da esquerda peronista, de onde o casal Kirchner se originou, embora essa expressão seja um oxímoro. Nada parece mais distante das bandeiras progressistas do que o peronismo, que se inspirou no fascismo. Mas não se pode negar que, em alguma medida, Perón incorporou as massas à política argentina e contrariou os interesses das grandes oligarquias, tanto que ele acabou deposto em 1955 por conta disso. Como disse um jornalista argentino amigo meu, é impossível explicar a realidade latino-americana em termos cartesianos.
Abaixo, trechos de um interessante texto do jornalista Ariel Palácios, correspondente do Estadão em Buenos Aires, sobre mitos acerca de Evita.         


MITOS SOBRE EVITA PERÓN

Ariel Palácios

O enterro de Evita atraiu milhões  
Hoje completam-se 60 anos da “passagem à imortalidade de Eva Perón” (essa é a expressão usada, inclusive oficialmente, pelos peronistas para referir-se à morte de Evita). A denominada “porta-estandarte dos humildes” morreu no dia 26 de julho de 1952, às 20:25 horas. Seis décadas depois de sua morte ela é usada como símbolo político pela direita e a esquerda. Veremos aqui uma série de mitos e fatos sobre a primeira-dama mais famosa da História da Argentina.

NASCIMENTO
- Evita dizia, quando estava viva, que havia nascido no dia 7 de maio de 1919
- Mas, a partir dos anos 70, historiadores peronistas descobriram que ela havia nascido, na realidade, no dia 7 de maio de 1922.
MORTE
Evita morreu oficialmente às 20:25 horas do dia 26 de julho de 1952 no Palácio Unzúe, a residência presidencial, localizada no bairro da Recoleta, onde hoje está a Biblioteca Nacional. Durante muitos anos os argentinos acreditaram que ela havia morrido com 30 anos. Mas, na realidade, morreu com 33.
TÚMULO
Evita está enterrada desde 1976 no cemitério da Recoleta, no mausoléu da família. Na realidade, o mausoléu pertencia a um cunhado seu, o major Arrieta. Ali, além de Evita e sua mãe, estão Arrieta e outros cinco parentes. Além desses caixões, duas urnas funerárias com as cinzas de duas empregadas da família.
[...]

MITOS
Ao longo da vida de Evita Perón – e especialmente após sua morte – surgiram uma série de lendas sobre a “porta-estandarte dos humildes”. Além dos próprios militantes, os principais mitos foram divulgados por intermédio do musical Evita, de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, sucesso na Broadway a partir de 1976 que transformou-se em filme de Hollywood. Entre as principais falhas e lendas estão…
1 – Classe social: A lenda mostra Evita como uma menina de uma família que vivia na miséria. Ao contrário, a mãe de Eva tinha um pensionato na cidade de Junín e eram integrantes de uma austera classe média.

2 – Partida para a cidade grande, na cara e na coragem: Aos 15 anos Evita partiu dali rumo à cidade grande, Buenos Aires. Mas, ao contrário do filme, não foi nem com o cantor Agustín Magaldi e sequer transformou-se em sua amante. Magaldi, que era solteiro, nunca havia visto Evita. A jovem foi à capital com sua mãe e foi morar com seu irmão mais velho, Juan.

3 – Expulsa do velório: Evita era filha extramatrimonial de Juan Duarte. Mas, quando morreu em 1926, não foi expulsa do velório do pai por sua viúva oficial, Estela Grisolía, já que a mulher havia morrido em 1922. Segundo o historiador Pablo Vázquez, chefe do Arquivo do Museu Evita, as duas famílias – a oficial e a paralela – “se davam bastante bem. Não houve expulsão alguma do velório”.

4 – Líder revolucionária: Outra falha do musical e do filme é mostrar Evita como a pessoa que liderou os trabalhadores para liberar seu namorado – e posterior marido – Juan Domigo Perón. Ao contrário, Evita saiu de Buenos Aires e foi pra casa da mãe, em Junín. Só depois da liberação de Perón é que ela voltou à capital. Ela não tinha protagonismo político na época. Só com a posse de Perón como presidente no ano seguinte, ela começou a ter uma acelerada atividade política, transformando-se no no braço-direito do marido.

5 – Che Guevara, pé de valsa: Outro erro é o de colocar Ernesto “Che” Guevara como narrador da História. Che Guevara, na época em que Evita chegou ao poder tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos de Medicina. E o Che – que jamais encontrou-se com Eva ou com Perón – considerava Evita e seu marido uns “representantes do fascismo”. E, evidentemente, nunca ocorreu a cena de Evita dançando com o Che Guevara. Ele, que a partir de 1956 foi um dos protagonistas da guerra de guerrilhas na Sierra Maestra contra o regime de Batista, admitia que dançava péssimo.

6 – As pichações “Viva o câncer”: A lenda diz que os inimigos de Evita picharam os muros de Buenos Aires – e da própria residência presidencial – com os dizeres “Viva o câncer” quando ela agonizava com um devastador câncer de útero. No entanto, isso nunca teria passado de uma única parede no bairro da Recoleta com a frase supracitada. “Só temos o registro da existência de uma. Seria quase impossível fazer uma pichação do gênero nas redondezas da residência presidencial, com toda a segurança da época”, explica Vázquez.

POSIÇÕES POLÍTICAS, MEDIDAS, ATITUDES
- Evita sempre detestou a esquerda e o marxismo. Ela perseguiu os militantes do partido Comunista e expulsou os sindicalistas comunistas
Evita discursa para o general Franco
- Evita respaldou ativamente o regime do ditador espanhol Francisco Franco. O respaldo foi político e também em alimentos, que permitiram que o generalíssimo conseguisse driblar o bloqueio feito pelos aliados. Assim, sua ditadura que prolongou-se por mais tempo.
- Evita usava vestidos da Casa Dior, que importava – em avião – direto de Paris. Segundo Dior, “a única rainha que vesti em minha vida foi Evita”.

- Evita promoveu o voto feminino
- Evita opunha-se ao divórcio
- Evita dizia que as feministas eram “feias e ressentidas”

- Evita colaborou ativamente com Perón, especialmente em sua viagem à Europa, na entrada de milhares de criminosos de guerra nazistas. Nesta vinda dos nazistas participou o Vaticano, na época comandado pelo papa Pio XII, com quem Evita se reuniu em Roma.

CORPO
- Morre, passa por um tratamento de embalsamamento inicial e é levada ao Ministério do Trabalho, atual Assembléia Legislativa de Buenos Aires.
- Depois, é levada o Congresso Nacional, onde é velada por 14 dias. Dois milhões de pessoas dão seu últimos adeus.
- Na seqüência é levada à sede da central sindical CGT, onde continua com o tratamento de embalsamamento realizado pelo doutor Pedro Ara.
- Em 1955 Perón é derrubado. Os militares seqüestram o corpo.
- Até 1957 peregrina por vários lugares do exército e a casa de oficiais.
- Em 1957 é levado pelo governo de Aramburu, em conjunto com o Vaticano para Milão, onde é enterrado no Cemitério Maior com o nome de Maria Maggi de Magistiris.
Evita o general Juan Perón 
- Em 1971, depois de um acordo entre o ditador argentino Alejandro Lanusse e Perón, que estava no exílio, o corpo é exumado: dia 1 de setembro. No dia 3 de setembro o caixão vai a Madri. Ali, fica na casa de Perón no bairro de Puerta de Hierro.
- O corpo é levado a Buenos Aires no dia 17 de novembro de 1974. Evita é colocada em uma sala na residência presidencial de Olivos ao lado do corpo de Perón.
- Quando o general Videla derruba Isabelita Perón (a última esposa de Perón, que havia assumido a presidência depois da morte do marido e presidente), os dois corpos são separados. Evita é enviada ao cemitério da Recoleta, onde um cunhado seu, o Major Arrieta, tinha um mausoléu. Nesse lugar estão enterrados Arrieta, a mãe de Evita, a própria Evita, e outros cinco parentes, além de duas urnas com cinzas de duas empregadas da família.
O DESCAMISADO - Quarenta e cinco metros mais alto que a Estátua da Liberdade, três vezes maior que o Cristo Redentor. Assim teria sido “El Descamisado”, um anabolizado funéreo monumento que contaria com um total de 137 metros de altura, divididos entre 70 metros da colossal base e 67 metros da estátua que representaria um operário peronista.
Seria uma espécie de “Colosso de Rodes” que em vez de estar à beira do mar Egeu, seria instalado à beira do Rio da Prata. Seu objetivo, que variou ao longo de anos de projetos e idas e vindas, foi o de ser o lugar de descanso do sarcófago de Evita, feito com 400 quilos de prata.
Seria um misto de pirâmide de Quéops com altura quase equivalente à Catedral de Notre Dame. Tudo isso com um look característico das esculturas fascistas na moda na Europa dos anos 30 e 40.
No entanto, todos os verbos relativos ao “Descamisado” ficaram no condicional. Este monumento começou a ser construído mas nunca passou de suas bases de concreto no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.
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FRASES
“Gracias por existir” (Obrigado por existir): A suposta frase teria sido pronunciada em 1944 durante o encontro de Eva e Perón no Luna Park em um festival para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto de San Juan. Mas, na realidade, foi inventada pelo escritor Tomás Eloy Martinez, que a colocou na boca de Evita no romance “Santa Evita”. A cena: Evita, uma atriz de rádio e cinema, foi apresentada a Perón e disse como forma de impactá-lo a frase “Obrigado por existir”. “Nos últimos três anos, essa frase piegas foi aceita como verdade. Mas Eu a inventei”, me explicou Martinez em 1999. “Mas quando expliquei isso, alguns sindicatos não acreditaram que era falsa. Protestaram, me perguntando como ousava macular a memória de Eva Perón…”, disse rindo.

“Volveré y será millones” (Voltarei e serei milhões) foi a apócrifa frase de Eva Duarte de Perón – chamada de “Evita” pelo povo – supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte, ocorrida na noite do dia 26 de julho de 1952. A lenda sustenta que Evita, que estava morrendo por um devastador câncer de útero, indicava com essa frase que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder total. Mas, na realidade, é uma frase posteriormente atribuída a ela. A oração é parte de um poema do peronista Castiñeira de Dios e também era uma das frases pronunciadas pelo personagem de Espártaco quando é crucificado. O livro é de Howard Fast, de 1951, um anos antes de Evita morrer.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A DIREITA QUE NÃO OUSA DIZER SEU NOME


Carlos Lacerda, o primeiro "liberal"?

É impressionante como os direitistas, no Brasil, seja na versão troglodita ou na versão pós-moderna, não conseguem assumir que são de direita. Eles se denominam liberais, libertários, democratas e o escambau, mas nunca se assumem como direitistas. Renegam a própria tradição, já que, no passado, expoentes dessa corrente política como Plínio Salgado, Gustavo Corção e Plínio Correa de Oliveira não tinham medo de se proclamar enquanto tais. Creio que Carlos Lacerda foi o primeiro vestir a pele de "democrata" – talvez pelo seu passado comunista.
Este trecho de um texto do Juremir Machado da Silva tenta identificar o pensamento conservador que se esconde sob o véu da neutralidade e da racionalidade.          


Dez maneiras de identificar um "lacerdinha":
Juremir Machado da Silva

1 – Um sujeito que, em nome da direita, diz que não há mais direita e esquerda, fazendo, em seguida, um discurso furioso, radical e fanático contra a esquerda que não existe.
2 – Um cara que, em defesa da sua ideologia, afirma que não existem mais ideologias e, na sequência, faz um discurso ideológico fanático contra o ideologismo de esquerda.
3 – Um sujeito que treme de fúria ideológica, chamando seus oponentes de burros, atrasados, imbecis, perigosos e radicais, em nome da neutralidade analítica.
4 – Um cara que, ao ouvir uma crítica a um ditador de direita, acha que haverá necessariamente a defesa de um ditador de esquerda.
Plínio Salgado (centro), pelo menos, assumia ser de direita 
5 – Uma figura que jamais criticou a Lei do Boi – cotas para filhos de fazendeiros em universidades públicas –, mas é contra cotas raciais e até sociais.
6 – Um tipo que defende a democracia, mas está disposto a apoiar ditaduras de direita se elas lhe trouxeram benefícios econômicos e silenciarem seus oponentes.
7 – Um “ponderado” analista, defensor do Estado mínimo, que exigirá um Estado máximo quando sua empresa estiver falindo ou precisando de um empréstimo a juros baixos.
8 – Um crítico ferrenho de políticas de compensação por falta de oportunidades equivalentes salvo quando, como produtor, exige compensações por se sentir sem condições equivalentes para competir, por exemplo, no mercado internacional.
9 – Um indivíduo que passa a vida classificando as pessoas em nós e eles, fanáticos e razoáveis, estúpidos e racionais, xiitas e ponderados, e, quando classificado de lacerdinha, faz longos discursos contra esse tipo de simplificação classificatória.
10 – O representante de grupos que sempre encontraram maneiras de obter benefícios a partir de casuísmos, leis de exceção, contingências mais ou menos justificadas, contextos sociais e históricos, mas que, quando seus oponentes se organizam para tirar-lhes privilégios ou reparar prejuízos históricos, transformam-se em defensores de princípios pretensamente racionais, abstratos e universais de concorrência.

Há outras maneiras de identificar um lacerdinha, mais práticas:
– Contra o golpismo de Chávez, mas a favor do golpe no Paraguai
– Contra cotas, aquecimento global, áreas de proteção permanente, pagamento de multas por destruição do meio ambiente, código florestal ambientalista, impostos sobre grandes fortunas, bolsa-família, Prouni e outras políticas ditas assistencialistas.
– A favor de incentivos fiscais para empresas multinacionais.
– Contra comissão da verdade e qualquer investigação que possa deixar mal os torturadores do regime militar brasileiro implantado em 1964.
Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé e Álvaro Dias
– Contra a corrupção, especialmente se envolver políticos de esquerda, sem a mesma verve quando se trata de alguma corrupto de direita.
– Sempre pronto a chamar de petista quem lhe pisar nos calcanhares.
– Estrategicamente convencido de que a corrupção no Brasil foi inventada pela esquerda.
– A favor da universidade pública para os melhores, desde que o sistema não se alterne e os melhores continuem sendo majoritariamente os filhos dos mais ricos e com melhores condições de preparação e de ganhar uma corrida pretensamente objetiva e neutra.
– A favor, quando se fala em cotas, de melhorar o nível do ensino básico e de ampliar as vagas para evitar políticas discriminatórias, esquecendo das tais melhorias assim que o assunto sai da pauta da mídia ou é superado por alguma final de campeonato.
– Defensor da ideia de que, na vida, é cada um por si, salvo se houver quebra de safra, redução nos lucros, crise econômica internacional ou qualquer prejuízo maior. Nesses casos, o Estado deixa de ser tentacular, abstrato e opressor para ser uma associação de pessoas em favor dos interesses da sociedade na sua totalidade.

IMPRIMA-SE A LENDA


John Wayne
No filme O homem que matou o facínora, de John Ford, o editor que estava escrevendo a biografia de um senador famoso, típico self made man, ao saber que um detalhe fundamental de sua biografia era uma lenda, diz: “Quando a lenda é mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda”.  Essa incapacidade de se aceitar a realidade parece ser constitutivo da sociedade americana, como mostra esse artigo do Santayana.   


OS EUA E SUAS FICÇÕES

Mauro Santayana

Os EUA, enquanto sociedade, sempre transitaram entre a fantasia e a realidade. A construção do mito americano e a sua disseminação pelo mundo, foram essenciais para o “american way of life” e a vitória sobre os soviéticos na Guerra Fria.

Usando o cinema como arma de propaganda e cooptação cultural, os Estados Unidos, de Tom Mix a John Wayne, sempre exploraram o mito do cavaleiro solitário, que é rápido no gatilho e vive à margem do sistema, embora, na verdade, Calamity Jane tenha morrido de alcoolismo, Buffallo Bill, de um problema renal, e Bat Masterson, do coração.

O cidadão típico norte-americano acredita piamente nisso, e de vez em quando sua convicção no individualismo vai além da crença, e explode como as bombas do “Unabomber” John Kaczynski, ou do veterano da Guerra do Golfo Timothy McVeigh, que implodiu em 1995 o Edifício Federal de Olklahoma City, com centenas de pessoas em seu interior.

Do hábito de fantasiar o passado de seus mitos os norte-americanos passaram a dar-lhes outras dimensões, mediante a ficção dos quadrinhos, com o aparecimento, em 1938, do Super-Homem, e, não por acaso, um ano antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

O menino de Krypton seria logo seguido de uma longa linhagem de seres dotados de identidades secretas e super-poderes, e alguns deles, como o Capitão América e o Príncipe Submarino, seriam convocados para combater, no plano da fantasia, os inimigos externos dos Estados Unidos.

Com o tempo, os roteiros e os vilões tornaram-se complexos, soturnos e psicologicamente mais bem estruturados. E a utilização de atores como Danny De Vito e Jack Nicholson para interpretá-los elevou a um outro patamar o que antes estava – teoricamente – dirigido apenas ao público infantil.

O cinema foi criado para que fantasia se sobrepusesse à realidade. Mas, de vez em quando, fantasia e realidade, neste novo mundo dominado pela ânsia da ilusão e do escapismo, tornam-se unidimensionais por um instante, e a tragédia eclode – lá e no resto do mundo.

James Holmes, o "Coringa" da vida real
Foi o que aconteceu na semana passada, em uma sala de cinema de shopping center de Aurora, na região de Denver, no Colorado. Como no título do filme, Batman – O Cavaleiro Negro ressurge das Trevas, um universitário de 24 anos, mascarado e vestido de preto, explodiu duas bombas de fumaça e gás lacrimogêneo dentro do cinema, trinta minutos depois do início do filme, e atirou, em seguida, a esmo, matando doze pessoas e ferindo mais de cinquenta, entre elas crianças. Preso pouco depois, fortemente armado, no estacionamento, o matador, James Holmes, identificou-se como o “Coringa”. Apanhadas, como moscas em uma teia de aranha, entre a ilusão e o fato, muitas vítimas foram atingidas por ter continuado onde estavam, acreditando que tudo aquilo era parte do espetáculo.

terça-feira, 24 de julho de 2012

QUEM SÃO OS FASCISTAS?


Serra não se emenda. No desespero de ganhar a eleição a qualquer custo, apela para a pouca memória dos eleitores e reproduz a velha tática de atribuir aos outros suas práticas nefastas, como ensinava Joseph Goebbels. Aqui, uma boa análise da última tripulia do Nosferatu de Sampa.     

A blogofobia de José Serra
Leandro Fortes
Da Carta Capital
A blogosfera e as redes sociais são o calcanhar de Aquiles de José Serra, e não é de agora. Na campanha eleitoral de 2010, o tucano experimentou, pela primeira vez, o gosto amargo da quebra da hegemonia da mídia que o apóia – toda a velha mídia, incluindo os jornalões, as Organizações Globo e afins. O marco zero desse processo foi a desconstrução imediata, on line, da farsa da bolinha de papel na careca do tucano, naquele mesmo ano, talvez a ação mais vexatória da relação imprensa/política desde a edição do debate Collor x Lula, em 1989, pela TV Globo. Aliás, não houvesse a internet, o que restaria do episódio do “atentado” ao candidato tucano seria a versão risível e jornalisticamente degradante do ataque do rolo de fita crepe montado às pressas pelo Jornal Nacional, à custa da inesquecível performance do perito Ricardo Molina.

A repercussão desse desmonte midiático na rede mundial de computadores acendeu o sinal amarelo nas campanhas de marketing do PSDB, mas não o suficiente para se bolar uma solução competente nas hostes tucanas. Desmascarado em 2010, Serra reagiu mal, chamou os blogueiros que lhe faziam oposição de “sujos”, o que, como tudo o mais na internet, virou motivo de piada e gerou um efeito reverso. Ser “sujo” passou a ser um mérito na blogosfera em contraposição aos blogueiros “limpinhos” instalados nos conglomerados de mídia, a replicar como papagaios o discurso e as diatribes dos patrões, todos, aliás, alinhados à campanha de Serra.

Ainda em 2010, Serra tentou montar uma tropa de trolls na internet comandada pelo tucano Eduardo Graeff, ex-secretário-geral do governo Fernando Henrique Cardoso. Este exército de brucutus, organizado de forma primária na rede, foi facilmente desarticulado, primeiro, por uma reportagem de CartaCapital, depois, por uma investigação do “Tijolaço.com”, blog noticioso, atualmente desativado, do ministro Brizola Neto, do Trabalho.

Desde então, a única estratégia possível para José Serra foi a de desqualificar a atuação da blogosfera a partir da acusação, iniciada por alguns acólitos ainda mantidos por ele nas redações, de que os blogueiros “sujos” são financiados pelo governo do PT para injuriá-lo. Tenta, assim, generalizar para todo o movimento de blogs uma realidade de poucos, pouquíssimos blogueiros que conseguiram montar um esquema comercial minimamente viável e, é preciso que se diga, absolutamente legítimo.

Nos encontros nacionais e regionais de blogueiros dos quais participo, há pelo menos três anos, costumo dar boas risadas com a rapaziada da blogosfera que enfrenta sozinha coronéis da política e o Poder Judiciário sobre essa acusação de financiamento estatal. Como 99% dos chamados blogueiros progressistas (de esquerda, os “sujos”) se bancam pelo próprio bolso, e com muita dificuldade, essa discussão soa não somente surreal, mas intelectualmente desonesta. Isso porque nada é mais financiado por propaganda governamental e estatal do que a velha mídia nacional, esta mesma que perfila incondicionalmente com Serra e para ele produz, não raramente, óbvias reportagens manipuladas. Sem a propaganda oficial do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Petrobrás, todos esses gigantes que se unem para defender a liberdade de imprensa e expressão nos convescotes do Instituto Millenium estariam mendigando patrocínio de açougues e padarias de bairro para sobreviver.
 
Como nunca conseguiu quebrar a espinha dorsal da blogosfera e é um fiasco quando atua nas redes sociais, a turma de Serra tenta emplacar, agora, a pecha de “nazista” naqueles que antes chamou de “sujo”. É uma estratégia tão primária que às vezes duvido que tenha sido bolada por adultos.

Um candidato de direita, apoiado pelos setores mais reacionários, homofóbicos, racistas e conservadores da sociedade brasileira a chamar seus opositores de nazistas. Antes fosse só uma piada de mau gosto.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO II


O presidente francês, o socialista François Hollande, reconheceu a responsabilidade da França na deportação de 13 mil judeus durante a Segunda Guerra Mundial, no que ele classificou de “um crime cometido na França e pela França”. A declaração ocorreu durante o 70º aniversário da prisão e concentração de judeus franceses no estádio Vel d’ Hiver (Velódromo do Inverno) para posterior envio a campos de extermínio nazistas. “Nenhum soldado alemão foi mobilizado durante a operação. Foi um crime cometido na França e pela França”, disse o presidente. Dos 76 mil judeus da França que foram deportados, só 2.500 sobreviveram.

Judeus no Vel d' Hiver aguardando deportação em 1942
A questão do colaboracionismo com a ocupação nazista ainda é uma ferida aberta da França. O líder da libertação, general Charles De Gaulle, criou o mito de que toda ou quase toda a França apoiara a Resistência – o que, sabe-se, nunca passou de uma ilusão autocomplacente. Antes de Hollande, apenas outro presidente, o gaullista Jacques Chirac, havia admitido – em 1995, genericamente – o papel do Estado francês na perseguição aos judeus durante o regime de Vichy. Já seu antecessor, o socialista François Mitterrand, que governou a França por 14 anos (1981-1995), manteve a postura defendida por De Gaulle de que, durante a Segunda Guerra Mundial, o único regime legítimo da França – e, portanto, o Estado francês –, era aquele da França Livre, sediado em Londres.

Antes tarde do que nunca. Afinal, o não-reconhecimento do papel da França e de muitos franceses na obra de terror e miséria do III Reich é o que alimenta – além da crise econômica e da desigualdade social, é claro – o antissemitismo, a xenofobia e os 18% de votos da Frente Nacional.
                   

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO I


O ex-ditador da Argentina, general Jorge Rafael Videla, cumprindo pena de prisão perpétua por crimes contra a humanidade, revelou que autoridades da Igreja Católica não só sabiam do destino dos desaparecidos políticos do país como assessoravam os militares no “trabalho” com as famílias. Videla disse que falou sobre o assunto com diversas autoridades eclesiásticas, entre elas o então núncio apostólico Pio Laghi e o cardeal-primaz Raúl Primatesta. A Igreja Católica argentina sempre se caracterizou por sua herança ultramontana e por posturas políticas arqui reacionárias.  

“Conversamos muito com eles. Era uma situação muito dolorosa e eles nos assessoravam sobe a melhor maneira de lidar com o assunto”, disse Videla à revista El Sur. “A Igreja ofereceu seus bons préstimos e, aos familiares sobre os quais havia a certeza de que não fariam uso político da informação, foi dito que não buscassem mais por seus filhos porque estavam mortos”. A canalhice desses milicos argentinos não conhece limites. Mas ao menos esse calhorda – católico mui praticante – é coerente, não hipócrita como nossos assassinos de farda (Brilhante Ustra à frente).

O ex-ditador não só justificou as ações da repressão – feitos, aliás, com base num decreto de aniquilação assinado por Isabelita Perón antes do golpe de 1976! – como há pouco admitiu que a ditadura militar eliminou “entre sete e oito mil pessoas”. Quando perguntado se as torturas, assassinados, desaparecimentos, roubos de bebês e usurpações de propriedades faziam parte do plano de combate aos inimigos do regime, Videla classificou esses atos como atos da “baixeza humana”, fruto do grande poder desfrutado pelos militares na época.

A Argentina completou o ciclo: julgou e condenou os torturadores, o Exército assumiu os crimes e pediu desculpas à nação e agora o chefe do mais sangrento dos governos da ditadura admite a matança. Tudo isso não diminui a torpeza daquele regime facínora, mas toca na ferida da histórica incapacidade dos brasileiros para lidar de frente com as mazelas do país. Temos dificuldade em aprender o que disse o escritor tcheco Milan Kundera:"a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento". 

Este vídeo mostra que a mesma Igreja Católica que excomungou ou se recusou a dar comunhão a parlamentares que votaram a favor do aborto não via nenhum problema em acolher e dar comunhão a facínoras como Franco, Videla e Pinochet.



           

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A ESCOLA FRANCESA DE TORTURA


General Paul Aussaresses

O documentário Esquadrões da morte: a escola francesa, da jornalista francesa Marie-Monique Robin, mostra que, ao contrário do que imagina o senso comum, foi a França – e não os EUA – quem criou as táticas de contrainsurgência e a prática de torturas contra prisioneiros que seriam aplicados sistematicamente pelas ditaduras militares na América Latina. Humilhados e expulsos da Indochina em 1954 pelo Vietminh, os franceses passaram a estudar as táticas guerrilheiras de Mao Tsé-tung para combater a resistência argelina à dominação francesa, comandada pela Frente de Libertação Nacional (FLN).Um dos principais oficiais envolvidos com esses métodos é o general Paul Aussaresses, de 94 anos, que há alguns lançou um livro defendendo a tortura.  

Robin descreve que a experiência e a prática francesas de jogar pessoas de pés e mãos atados no mar não é invenção dos oficiais argentinos e as piores crueldades cometidas contra a resistência são um aprendizado made in France. Uma exposição de como os paraquedistas franceses desenvolveram esses métodos na Argélia foi feita no filme A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo. Mas como De Gaulle desistiu de manter a Argélia francesa a todo custo – o país conquistaria sua independência em 1962 – e os EUA começavam a se atolar no Vietnã, a expertise da contrainsurgência foi assumida pelos americanos.   

E eles aperfeiçoariam e espalhariam essas técnicas a partir da Escola das Américas, estabelecida no Panamá em 1946. A “escola dos assassinos”, como ficaria conhecida, ensinava a militares latino-americanos treinamento em golpes de Estado, guerra psicológica, intervenção militar e técnicas de interrogatório – eufemismo para tortura. Os brasileiros foram tão bons alunos que até exportaram essas técnicas para seus vizinhos. Mas a primazia foi da pátria da Liberdade, Igualdade e Fraternidade... 


OS NOVOS SENADORES BIÔNICOS


O Senado Federal hoje tem 17 suplentes exercendo mandato. Suplentes que não tiveram um mísero voto. Isso significa que 20% da casa (81 senadores) é composta por uma nova modalidade de "biônicos". Abaixo, o artigo do Mauro Santayana sobre essa anomalidade da República.

A legitimidade do voto, a República e o voto

Por Mauro Santayana, no seu blog

Os escândalos políticos envolvendo o Senado têm conduzido a uma reação equivocada de alguns setores da opinião pública, que o consideram desnecessário e inútil, e propõem o sistema unicameral. Um dos problemas mais graves de nossa vida política é o desconhecimento quase geral do que seja o estado republicano. O mais grave é que ele resulta de uma decisão histórica das oligarquias dirigentes, que sempre consideraram o poder como uma coisa dos ricos proprietários rurais, dos comerciantes abastados das grandes cidades e, logo depois, dos industriais, que transferiram para o pátio das fábricas a mentalidade de senhores feudais. E hoje, sobre todos esses interesses, paira o poder financeiro mundial.

Em razão disso, quando muito, concede-se às crianças do povo que aprendam a ler mal e a escrever também mal. Não se ensina o que é Estado, o que é Nação, o que é Política. 

Desse desconhecimento padecem muitos senadores e deputados. Isso quando não se elegem exatamente para agir contra o povo. Assim, são capazes de elaborar leis que contrariam a razão lógica, sem falar na ética, que, para eles não passa de uma palavra boa para discurso.

O parlamento devia ser a reunião dos delegados eleitos, a fim de elaborar as leis que assegurassem, mediante normas justas, o direito individual e coletivo dos cidadãos, e contrapor-se ao poder executivo. Essa contraposição necessária se realiza, nos estados realmente republicanos, na elaboração do orçamento impositivo – e na fiscalização do respeito da administração ao texto constitucional. Os cidadãos sustentam as instituições do Estado com os tributos, ou seja, com parcelas de seu trabalho. Em razão disso, devem dizer em quê e como esse dinheiro será usado. O orçamento teria que ser o ponto de gravidade dos parlamentos. 

Mas não é assim, como todos sabemos, e da distorção do processo orçamentário surgem algumas das grandes mazelas de nosso sistema.

O sistema presidencialista de governo, nas repúblicas federativas modernas, como é o caso do Brasil, se calcam no modelo norte-americano. Os norte-americanos deram à instituição senatorial – que foram buscar entre os romanos – dupla função: a de câmara legislativa e revisora, no exercício da representação dos estados federados. Partiam da idéia de que a Câmara dos Representantes, na base natural de one man, one vote, significaria a ditadura dos estados mais populosos sobre os de menor população. Era preciso, portanto, criar o Senado, não na base da representação proporcional, mas sim, paritária, de forma a que os estados menores moderassem o poder dos mais populosos. Esse foi também o entendimento dos constituintes brasileiros de 91. No sistema norte-americano não existem suplentes de senadores. No caso de vacância de uma cadeira, cada estado, com sua autonomia legislativa, atua de forma particular para suprir o mandato.

Entre outros equívocos de nossa Constituição se encontra a figura do suplente de senador. 
No passado, durante a vigência da Constituição de 1946, e mesmo na primeira legislatura depois de 88, muitos dos suplentes eram políticos conhecidos, que tinham vida partidária ativa, e eram selecionados nas convenções, juntamente com os aspirantes à posição como titulares.

Longe estamos de um tempo em que o suplente de senador tinha todas as condições, políticas, intelectuais e, quase sempre, morais, para substituir o titular. Entre os muitos exemplos, cito um, o de Edgard de Godói da Matta Machado, que foi suplente do Senador Itamar Franco.

Demóstenes Torres deu lugar a seu financiador 
Atualmente, eles são escolhidos entre os financiadores dos candidatos principais, como é notório no caso do suplente do Senador Demóstenes Torres. Sem um só voto, cavalgando na garupa do candidato goiano, o empresário Wilder Morais chega ao Senado. 

Como se informa, o ex-marido da atual senhora Carlos Cachoeira financiou a candidatura de Demóstenes Torres com 700.000 reais. Não será exagero afirmar que ele adquiriu a legenda com esse dinheiro e, provavelmente com mais algum obtido entre seus amigos, amigos muito íntimos, como o próprio Cachoeira.

A opinião pública, em sua nova atitude diante do poder, que não é bem a dos rebanhos bem comportados, está chamando os senadores ao brio. Já é hora de emenda constitucional que acabe com a figura do suplente – esse legislador sem voto – e estabeleça a convocação de novas eleições regionais, no caso de morte ou impedimento do titular, que nunca poderá ser deslocado para o poder executivo, sem perda de seu mandato.

Sem discutir os méritos dos suplentes, o que devemos ter em conta é a legitimidade do mandato. Ninguém com um só voto – o do candidato a titular – pode decidir em nome do povo de um estado, mesmo que seja o mais capaz e o mais honrado.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

MANDELA DAY



Nelson Mandela, pai da moderna África do Sul, já foi considerado um perigoso terrorista. Ele, de fato, era o chefe do Umkhonto we Sizwe (lança da nação), braço militar do Congresso Nacional Africano. Preso em 1962, ele foi condenado à prisão perpétua por traição. Na época, acreditava que só a luta armada poderia acabar com o apartheid. Passou 27 anos na cadeia e, quando foi solto, em 1990, negociou com os líderes brancos a transição para um regime multirracial. Eleito presidente da África do Sul, revelou-se um estadista ao buscar a conciliação com os brancos, embora revelando os crimes do apartheid. Cumpriu apenas um mandato – Robert Mugabe, herói da independência do Zimbábue, está no poder há 32 anos. Hoje, dia de seu aniversário, é o Mandela Day, reconhecido pela ONU.
       
Nesse trecho de uma carta, Mandela fala de sua opção política:

“Eu, que nunca tinha sido um soldado, que nunca havia lutado numa batalha, que nunca tinha disparado uma arma contra um inimigo, tinha escolhido para formar um exército. Seria uma tarefa difícil para um general veterano, quanto mais para um novato militar. O nome desta nova organização era Umkhonto we Sizwe (A Lança da Nação) ou MK. O símbolo da lança foi escolhido porque, com esta simples arma, os africanos tinham resistido às incursões de brancos durante séculos.

[...]

Eu escolhi este caminho, que é o mais difícil e envolve mais riscos e dificuldades do que ficar esperando. Eu tive que me separar de minha querida esposa e filhos, da minha mãe e as irmãs a viver como um bandido na minha própria terra. Eu tive que fechar minha empresa, abandonar minha profissão, e viver na pobreza, como muitos dos meus amigos estão fazendo .... Vou lutar contra o governo, lado a lado com você, centímetro por centímetro, milha a milha, até a vitória final. E você, o que fará? Virá conosco ou irá cooperar com o governo em seus esforços para suprimir as reivindicações e aspirações de seu próprio povo? Você ficará calado e neutro em uma questão de vida ou morte para o meu povo, para o nosso povo? De minha parte, eu fiz a minha escolha. Eu não deixarei a África do Sul, nem vou me render. Somente por meio do sacrifício, de dificuldades, e de ação militante a liberdade poderá ser conquistada. A luta é minha vida. Vou continuar lutando pela liberdade até o fim dos meus dias.”

FAHRENHEIT 451


A “grande democracia do Norte” parece estar seriamente doente. Interessante notar como a extrema direita utiliza o mesmo discurso dos “politicamente corretos”, só que com o sinal trocado.   

“Neomacartismo” cresce nos EUA às vésperas das eleições presidenciais

Professores são o principal alvo de ofensiva da extrema-direita norte-americana contra “ideias subversivas e comunistas”

Do Site Operamundi
A classe intelectual está mais uma vez sob ataque nos Estados Unidos. Por trás dessa recente ofensiva ronda o fantasma do “macartismo”, período de intensa patrulha anticomunista que começou de forma bastante semelhante nos anos 1950. Os alvos preferenciais também eram integrantes da sociedade com ideias “subversivas”.

Hoje, o “anti-intelectualismo” é uma prática em ascensão na sociedade norte-americana, particularmente em estados onde a extrema-direita é maioria. O exemplo mais recente aconteceu em Tucson, no Arizona, possivelmente o mais intolerante em relação aos imigrantes, quando uma junta escolar baniu das bibliotecas escolares os livros da escritora chilena Isabel Allende – mesmo ela vivendo há mais de 40 anos na Califórnia e naturalizada norte-americana.

Segundo Michael Hicks, membro da junta escolar, os livros da escritora foram banidos porque não são “compatíveis com os valores da sociedade”. Ele confessa que nunca leu a obra de Allende. “Não me interessa o que dizem [os livros]. Mas sei que não são bons para os nossos alunos”, disse Hicks recentemente em entrevista ao programa “The Daily Show”.
A escritora chilena Isabel Allende

Allende não está sozinha. Escritores e editores como Junot Díaz, Jonathan Kozol, Rudolfo Anaya, Sandra Cisneros, James Baldwin, Howard Zinn, Rodolfo Acuña, Ronald Takaki, Jerome Skolnick e Gloria Anzaldúa também viram seus livros banidos. Até, A Tempestade, de William Shakespeare, desapareceu das estantes escolares.

A decisão em Tucson obedece a uma lei aprovada pelo congresso estadual do Arizona, que proíbe o ensino de estudos que “promovam a derrubada do governo dos Estados Unidos, o ressentimento contra raças ou classes sociais, estejam orientados para alunos de um determinado grupo étnico e alimentem a solidariedade entre raças em vez do tratamento dos estudantes como indivíduos”. O curioso neste caso é que Tucson, uma cidade com forte imigração latina, proibiu justamente autores da região.

Outra vítima foi a professora Brooke Harris, do Michigan, demitida após pedir autorização para uma campanha em favor da família de Trayvon Martin, jovem negro assassinado por um latino na Flórida em fevereiro – o caso teve repercussão internacional. O diretor do sistema escolar justificou a demissão com o argumento de que Harris era paga para ensinar, “não para realizar atividades políticas”.

Em 2010, um tribunal de apelações em Cincinnati, Ohio, confirmou o desligamento de uma professora do ensino secundário. Shelley Evans Marshall recomendou aos alunos para que estudassem a lista da Associação Norte-americana de Bibliotecas com os “100 livros Banidos e mais questionados” (pelos extremistas), e escrevessem um ensaio sobre a censura.

Ela foi despedida depois que alguns pais protestaram, em particular porque ela recomendou a leitura de livros como Siddhartha, de Hermann Hesse e Como matar um rouxinol, de Harper Lee. Também causou furor Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que descreve uma sociedade futura onde uma polícia intelectual se dedica a queimar livros “proibidos”, como nas fogueiras da Idade Média ou da Alemanha Nazista.

Explicações
Desde a chegada de Barack Obama à Casa Branca, membros dessas elites reacionárias e extremistas políticos decretaram o fim de uma “pureza” ideológica que, até então, controlava os EUA. Muitos vêem Obama como um símbolo dessa ameaça e o “anti-intelectualismo” transformou-se, de repente, em uma espécie de “antiobamismo”.

A reforma do sistema de saúde, de repente, virou um “ato antiamericano”, pois teria um verniz “socialista” por favorecer as classes mais pobres e limitar o enriquecimento das companhias de seguros.
Para o Tea Party, Barack Obama é um "perigoso comunista" 

“Deus fez o mundo à sua semelhança. Devemos acabar com aqueles quem se opõem a Ele banindo todos esses livros e estudos maltrapilhos que atentam contra a pureza da família”, disse recentemente o pastor evangelista Mattew Simmons, conhecido animador dos comícios do “Tea Party”.

O deputado pela Flórida, Allen West, “acusou” os colegas de serem comunistas. “Há uma rede de membros do Partido Comunista, infiltrada em todos os comitês. Eles não querem o retorno de valores da América; preferem nos levar em direção ao socialismo e a um mundo ateu”, disse West.

Os EUA “têm uma longa historia de anti-intelectualismo, é algo que faz parte da nossa cultura e vida política. Somos experts em difundir mensagens contra todos aspectos da vida política e social dos EUA que não nos agradam”, comentou no Huffington Post o escritor e professor de antropologia da Universidade de West Chester, Paul Stoller.

"Vivemos em um país que suspeita dos ‘nerd’, dos sonhadores e dos intelectuais inovadores que guiam Volvos, gostam de comida francesa e bebem cappuccinos. Mas no fundo, são noções artificiais que nos levam a uma ignorância muito perigosa”, acrescentou o intelectual.