sexta-feira, 30 de abril de 2010

1975: O ANO EM QUE O IMPÉRIO FOI HUMILHADO

Em 30 de abril de 1975, as tropas do Vietcong (guerrilha sul-vietnamita) e do Vietnã do Norte entravam em Saigon, então capital do Vietnã do Sul, acabando com uma guerra que durou 30 anos, matou mais de dois milhões de vietnamitas e devastou o país. Duas imagens deste dia são paradigmáticas: o tanque T-54 norte-vietnamita arrombando os portões do palácio presidencial de Saigon e o helicóptero sobre o teto da embaixada americana levando os últimos trânsfugas desesperados.
Entre 1940 e 1975 os vietnamitas enfrentaram e venceram os japoneses, franceses e americanos. Envolvidos desde a saída dos franceses depois do desastre de Dien Bien Phu em 1954, os Estados Unidos engajaram mais de 500 mil soldados no país e a mais sofisticada tecnologia bélica disponível, bombardearam intensamente a população civil e usaram armas químicas, como o famoso desfolhante "agente laranja". Perpetraram massacres contra a população - no mais conhecido deles, My Lai, 504 civis vietnamitas foram assassinados pelas tropas do tenente William Caley Jr., em 1968. Nada disso arrefeceu os ânimos do povo vietnamita, a maioria miseráveis camponeses. As imagens de soldados mortos voltando para casa em sacos plásticos horrorizaram a classe média americana, que foi às ruas protestar contra a guerra. Os protestos foram decisivos para pôr fim ao conflito. Depois de muitos bombardeios e negociações, os EUA abandonaram seus aliados sul-vietnamistas em 1973.

“A supremacia deles era tecnológica. Mas o armamento deles era para guerra à distância, com aviões, foguetes e bombas. Nós reduzimos o espaço, forçamos o combate no quintal de suas tropas. As armas modernas não tiveram serventia nem substituíram sua falta de moral para a luta” (Do Xuan Cong, veterano general vietnamita).
Nas palavras de Martin Luther King: "A guerra do Vietnã é apenas um sintoma de um mal muito mais profundo que afeta o espírito americano"

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O ELOGIO DA IMPUNIDADE

"Os nazistas alemães retiravam a pele dos condenados para fabricar abajures. Os policiais brasileiros esmagavam testículos com uma espécie de alicate [...] Os nazistas alemães matavam seus presos e faziam sabão com os cadáveres. Os policiais brasileiros [...] enfiavam arames nos ouvidos dos presos. Os nazistas alemães faziam experiências científicas com os recolhidos dos campos de concentração. Os policiais brasileiros enfiavam arames na uretra dos presos e com um maçarico aqueciam esses arames até ficarem em brasa. Os nazistas alemães executavam os presos em câmaras de gás. Os policiais brasileiros apertavam o crânio dos presos até que eles morressem ou enlouquecessem. [...] Enquanto os nazistas alemães pagaram ou estão em vias de pagar seus crimes espantosos, os policiais brasileiros, autores de crimes contra a humanidade, mantêm-se em seus postos, impunes e felizes, quase todos bem instalados na vida".

Este é o prefácio do livro Falta alguém em Nuremberg, escrito em 1948 pelo jornalista David Nasser, sobre os métodos da polícia política do Estado Novo. O "alguém" que faltava era o chefe da polícia do Distrito Federal, capitão Filinto Strubing Müller (acima, à esq.), que aprendeu com a Gestapo a profissionalizar a repressão e a tortura no Brasil. Ele não só nunca foi punido como virou senador e líder da Arena, o partido da ditadura militar. É considerado o patrono dos torturadores e assassinos do DOPS, da Oban e do Doi-CODI. Morreu num acidente aéreo em Paris em 1973.

Hoje, o Supremo Tribunal Federal recusou, por 7 votos a 2, o pedido da OAB para que os torcionários da ditadura militar fossem excluídos da Lei da Anistia de 1979. Os torturadores e assassinos de 1964 ficarão tão impunes quanto Filinto e sua polícia. Parece que o Judiciário não aprendeu nada com a História. Países como Argentina, Chile e Uruguai, com ditaduras muito mais truculentas, estão punindo agentes do Estado que violaram direitos humanos. "Estamos na contramão do mundo em matéria de direitos humanos", disse o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão.

Lamentavelmente, a decisão do STF consagra a impunidade em nome da democracia. A Suprema Corte deu as costas ao legado do advogado Sobral Pinto (à dir.), paladino dos direitos humanos na época do Estado Novo. E, indiretamente, prestou uma homenagem ao capitão Filinto Strubing Müller.

E ELE NÃO TIROU OS SAPATOS...


O presidente Lula foi escolhido pela revista TIME como um dos líderes mais influentes do mundo de 2010. Ele encabeça uma lista de cem personalidades - entre as quais o presidente Barack Obama e o ex-presidente Bill Clinton - que a revista americana faz todo ano.
Segundo Michael Moore, que escreveu sobre o presidente brasileiro, "aquilo que Lula quer para o Brasil é o que nós costumávamos chamar de sonho americano". Isso depois de Lula ter sido considerado homem do ano em 2009 pelo Wall Street Journal, pelo Le Monde e pelo El Pais.
Imaginem o clima na Fiesp, nos Jardins e nos clubes de elite paulistanos...

terça-feira, 27 de abril de 2010

UM POUCO DE CETICISMO, PARA VARIAR



"Não sonho mais com paisagens ideais, nem tento me apegar a elas. Todas as paisagens terminam virando terra; o ouro da imaginação acaba sendo o chumbo da realidade. [...] Não tento encontrar beleza nas vidas mesquinhas dos oprimidos. Odeie a opressão; tema os oprimidos"
(V. S. Naipaul, Os Mímicos)



segunda-feira, 26 de abril de 2010

SURREALISMO ESPANHOL

Como todo personagem autoimbuído de uma missão, o juiz espanhol Baltasar Garzón deve ter muito de megalomania e de ego inflado. Mas apenas uma de suas ações já seria suficiente para inscrevê-nos anais da história dos direitos humanos: a prisão em Londres em 1998, a seu pedido, do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, por genocídio, terrorismo e tortura. Até então, o tirano gozava de imunidade autoconferida como "senador vitalício" do Chile. Depois de um ano de prisão domiciliar em Londres, o governo britânico resolveu não extraditar Pinochet para a Espanha e o devolveu ao Chile por "razões humanitárias". Mas o gesto de Garzón mexeu com os brios da Justiça chilena, que cassou as regalias do general, colocando-o no banco dos réus, embora ele tenha morrido sem ter sido punido pelos crimes da ditadura.

Garzón jamais foi um esquerdista empedernido. Na sua cruzada pela Justiça, por vezes messiânica, ele criou inimigos de todos os matizes. Abriu processos tanto para investigar crimes dos GAL, os grupos paramilitares montados pelos socialistas espanhois durante o governo de Felipe González para combater os terroristas do ETA, quanto para os próprios terroristas do ETA; tentou pegar tanto militantes da Al Qaeda quanto integrantes do governo Bush, como o vice-presidente Dick Cheney. Garzón também tentou processar a máfia siciliana, os carteis colombianos de Cali e Medellín, o premiê italiano Silvio Berlusconi; militares da ditadura argentina e o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, além de outras autoridades menos conhecidas.

Ironicamente, Garzón se deu mal quando quis tocar em antigas feridas espanholas. Ele está sendo acusado pelo Supremo Tribunal espanhol de "prevaricação" por sua tentativa de instaurar um processo para investigar as atrocidades cometidas pelo regime franquista, a ditadura semifascista do general Francisco Franco, que ensanguentou a Espanha entre 1939 e 1975. Calcula-se em 100 mil o número de mortos e desaparecidos durante esse período. Entre as barbaridades do regime do "mui católico" general Franco, estava a execução pelo "garrote vil", um instrumento medieval no qual a vítima morria estrangulada. Segundo o juiz Fernando Varela, a ação de Garzón ignorou a lei de anistia de 1977. Outras duas ações estão sendo movidas contra o magistrado - uma por corrupção e outra por escuta ilegal - por organizações de direita como o Partido Popular, a Manos Limpias (mãos limpas) e a Falange, partido do franquismo. Se for condenado, Baltasar Garzón, que hoje integra a Audiência Nacional, poderá ser afastado da magistratura por 20 anos. Como ele está com 54 anos, seria praticamente o fim de sua carreira.

Reagindo contra o que consideram linchamento de um defensor de direitos humanos por juizes comprometidos com o franquismo, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas de Madri e de várias cidades espanholas no domingo 25 para protestar contra o julgamento de Garzón. Protestos também foram registrados em Portugal, na França e na Argentina. As manifestações receberam o apoio da Anistia Internacional, da Human Rights Watch e de artistas e intelectuais espanhois, entre eles o cineasta Pedro Almodóvar. Juristas como Carla del Ponte (que atuou junto ao Tribunal Penal Internacional), Eugênio Zaffaroni (um dos principais protagonistas na Argentina para derrubar as leis de anistia aos militares), Juan Guzmán (juiz chileno que abriu processos contra Pinochet e a ditadura chilena) se prontificaram a testemunhar em favor do magistrado espanhol.

Esse processo contra o juiz Garzón revela que a chamada "via espanhola", tida como modelo de transição à democracia e cantada em verso e prosa, ainda carrega muitos esqueletos no armário. Como no Brasil, reluta-se em levar a julgamento as violações de direitos humanos cometidas por um regime que conduziu ou condicionou os caminhos da transição. Essa página trágica está sendo virada na Argentina, no Chile e no Uruguai, mas não no Brasil, nem na Espanha. Pensando bem, o fato de um magistrado que quer esclarecer os crimes do franquismo estar no banco dos réus faz sentido no país onde pontificaram mestres do surrealismo, como Luís Buñuel e Salvador Dali.

sábado, 24 de abril de 2010

A MORTE DE UM NAZISTA PEDÓFILO E AMIGO DE PINOCHET

O mundo ficou melhor hoje com a morte, aos 88 anos, do ex-paramédico nazista Paul Schaefer, preso no Chile desde 2005, condenado a 20 anos de prisão por vários crimes. Depois da guerra, viveu na Alemanha, de onde fugiu acusado de pedofilia. Em 1961 ele fundou no Chile a tenebrosa Colonia Dignidad ou Villa Baviera. Localizada a 380 quilômetros de Santiago, era uma colônia agrícola "religiosa" (batista) e virulentamente anticomunista, composta por três centenas de imigrantes alemães e alguns chilenos, que funcionava à margem das leis do país. Era cercada por arame farpado, holofotes, tinha túneis secretos, armas e munições. Seus integrantes eram submetidos a uma rígida disciplina. Acredita-se que o criminoso de guerra nazista Joseph Mengele tenha passado pelo local nos anos 60. Durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), a Colonia Dignidad foi usada pela DINA (polícia secreta pinochetista) como centro de detenção e tortura. A colônia, definida pelo ex-presidente chileno Patricio Aylwin como um "Estado dentro do Estado", também colaborou com o departamento de guerra bacteriológica do Exército chileno, segundo o ex-agente da CIA Michael Townley. Schaefer fugiu do Chile em 1997, novamente acusado de pedofilia contra 25 jovens, foi julgado à revelia e condenado por abusos sexuais, tráfico de armas e pela morte de opositores chilenos. Localizado e preso na Argentina em 2005, foi deportado para o Chile, onde cumpria prisão no hospital. Que o diabo o carregue.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A FORÇA INDOMÁVEL DA NATUREZA


Uma nuvem que os ares escurece
Sobre nossas cabeças aparece.
[...]
Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo o negro mar, de longe brada
Como se desse em vão nalgum rochedo.
- Ó Potestade, disse, sublimada!
Que ameaço divino, ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?" —

[...]
Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mim, que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pela terra,
Que ainda hás de sojugar com dura guerra.
(Luís de Camões, O Gigante Adamastor, em Os Lusíadas)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

AS GRANDES EMPREITEIRAS PERDERAM

O governo federal peitou o lobby das grandes empreiteiras do país e costurou um acordo para garantir o lance de R$ 78,00 por Megawatt-hora (MWh)- o teto era R$ 82,00 MWh - no leilão para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. O lance garantiu a vitória do consórcio Norte Energia, liderado pela Chesf-Eletrobras, com participação da J. Malucelli, Mendes Jr., Galvão Engenharia e Cetenco, entre outras. Segundo matéria do jornal Valor, Camargo Corrêa, Odebrecht, Andrade Guitierrez e até a Queiroz Galvão, que estava no consórcio vencedor, fizeram ao longo do tempo manobras e pressões variadas para tentar aumentar o preço final e ditar as regras do jogo. No ano passado, as três primeiras ameaçaram formar um consórcio único. Ainda segundo o Valor, a modalidade do contrato assinado é conhecida como "porteira fechada", no qual as construtoras assumem o riscos do empreendimento - ou seja, nada de intermináveis aditivos. "Nessa licitação de Belo Monte eu disse aos empresários: se vocês não quiserem participar, nós vamos fazer sozinhos. Nós vamos provar que não vamos ficar reféns de nenhum empresário. Queremos construir parcerias juntas, mas não ficaremos reféns", disse o presidente Lula. Na nova formatação, as grandes empreiteiras ainda poderão entrar, mas dentro das novas regras fixadas para beneficiar o Estado brasileiro. Também deverão participar a Eletronorte e os fundos de pensão Previ, Petros e Funcef, além da Gerdau e de Inter Rau Ues, uma empresa russa.

Belo Monte será a terceira maior hidrelétrica do mundo e sua construção - junto com as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio - evitará futuros apagões. Sua implantação foi feita num contexto democrático, depois de amplas audiências públicas. O impacto ambiental e humano, inevitável numa obra desse porte, terá compensações. “Belo Monte é um projeto marcado pelas lições do passado, desenhado e redesenhado para retirar energia das florestas sem destruí-las. Este desafio – de desenvolver as florestas e ao mesmo tempo mantê-las – é, de muitas formas, o enigma do Brasil moderno, ao qual o resto do mundo em desenvolvimento está assistindo de perto para ver se ele pode ser solucionado”, diz a revista britânica The Economist. Quem não gostou foram os ambientalistas "xiitas" que querem manter a floresta como santuário, trazendo até celebridades estrangeiras para protestar contra a obra, ongs que mascaram interesses escusos com bandeiras ecológico-indigenistas e a oposição tucana, que está se mordendo de raiva porque o Brasil não entrou em colapso econômico nem está paralisado como na época de FHC.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

BRASÍLIA AOS 50 ANOS


UMA UTOPIA MODERNISTA QUE SE TRANSFORMOU NUM
PESADELO PÓS-MODERNO

"Cem vezes pensei que Nova York é uma catástrofe; cinquenta vezes, que é uma bonita catástrofe" (Le Corbusier, cuja arquitetura inspirou Lucio Costa e Oscar Niemayer. Troque-se Nova York por Brasília...)

terça-feira, 20 de abril de 2010

COMEÇOU A GUERRA SUJA




"A propaganda jamais apela à razão, mas sempre à emoção e ao instinto"
Joseph Goebbels, ministro da propaganda do III Reich





1) A Globo veiculou uma peça publicitária em comemoração aos 45 anos da empresa com propaganda subliminar do slogan do candidato tucano José Serra, "O Brasil pode mais". No texto lido por atores e jornalistas globais repete-se a palavra "mais": "Todos queremos mais. Educação, saúde, e, claro, amor e paz. Brasil? Muito mais. É a sua escolha que nos satisfaz. É por você que a gente sempre faz mais". E, para terminar, aparece o logo da Globo com um 45 (referência ao aniversário) num tipo similar ao 45 dos tucanos. Desmascarada por blogs, a Globo retirou a peça do ar "para não ser acusada de tendenciosa" e disse que a peça foi feita em novembro passado, "quando não existiam nem candidaturas muito menos slogans". Mas o próprio site da Globo mostra artistas gravando os textos da peça no Projac em abril.

um vídeo interessante faz as conexões:


2) A Veja tentou transformar José Serra em Barack Obama, inclusive "se inspirando" numa capa da Time - a prática de clonar textos e fotos de revistas americanas, verdadeira praga que assola as semanais brasileiras, foi inventada pela revista dos Civita nos anos 80







3) O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, afirmou ao site Terra Magazine que, de fato, a pesquisa feita no final de março em que Serra aparece com nove pontos percentuais à frente de Dilma, logo depois de se lançar candidato, tinha um peso desproporcional de eleitores paulistas, porque se tratava de uma pesquisa só sobre intenção de votos para o governo São Paulo. Estranhamente, nenhuma pesquisa sobre eleições paulistas foi publicada. A admissão de Paulino só veio depois de ter sido revelado que, ao contrário do que o Datafolha informou ao TSE, o instituto não fez a seleção de amostras com base no IBGE (censo 2000 e estimativas 2009), dando muito mais peso à região Sudeste, principalmente São Paulo, reduto serrista. E o TSE, que autorizou o PSDB a ter acesso à pesquisa do Sensus que dava Serra e Dilma empatados, será que vai se manifestar?

leia a entrevista de Paulino:
4) O "erramos" da Folha de 11 de abril:
"BRASIL 11.abr. (PÁG. A7): Em parte dos exemplares, foi publicado erroneamente que a pré-candidata do PT à Presidência disse, em evento em São Bernardo no último sábado: 'Eu não fugi da luta e não deixei o Brasil'. A declaração correta, publicada na maior parte dos exemplares, é: “Eu nunca fugi da luta ou me submeti. E, sobretudo, nunca abandonei o barco”.
Isso depois de o jornalão da Barão de Limeira ter repercutido amplamente, por três dias, a declaração falseada, "publicada em parte dos exemplares", inclusive com vários depoimentos de ex-exilados que ficaram possessos com a suposta bravata da candidata. A retratação veio neste erramos minúsculo, para poucos lerem.
Primeiro, teve a matéria da Folha sobre a "terrorista" Dilma Rousseff baseada numa ficha falsa dos órgãos de repressão. Agora, essa manipulação grosseira. Qual será a próxima cartada?

segunda-feira, 19 de abril de 2010

DE COSTAS PARA O MUNDO REAL

Em 19 de abril de 2005, quando um Conclave se reuniu na Capela Sistina para escolher o sucessor do papa João Paulo II, dois candidatos eram favoritos: os cardeais Joseph Ratzinger, prefeito para a Congregação da Fé (antiga Inquisição) e líder da ala mais conservadora da Igreja, e Carlo Maria Martini, arcebispo emérito de Milão, último representante dos "liberais" oriundos do Concílio Vaticano II. Ratzinger foi eleito rapidamente, segundo analistas, por um acordo pelo qual Martini transferia seus votos para o prelado alemão em troca de uma reforma na Igreja. Não se sabe se o Espírito Santo foi consultado.

Cinco anos depois de Ratzinger ter-se tornado o papa Bento XVI, não só nenhuma mudança ocorreu como a Igreja Católica enfrenta sua mais grave crise de credibilidade desde a Reforma Protestante de Martinho Lutero, no século XVI, segundo avaliação do teólogo dissidente Hans Küng. Grande parte dessa crise deve-se à maneira desastrosa como o Vaticano reagiu às denúncias de milhares de casos de pedofilia praticados por clérigos católicos e as suspeitas de que Ratzinger, como arcebispo, protegeu padres pedófilos. Segundo a brilhante definição de Thomas Rees, padre e pesquisador da Universidade de Georgetown, "João Paulo II foi ator quando jovem e aprendeu a prestar atenção em sua platéia. Bento XVI nunca teve esse tipo de experiência, ele era um professor alemão. Enquanto seu antecessor era muito sensível a como sua mensagem estava sendo ouvida e percebida, Bento XVI está mais preocupado em ter certeza de que sua linguagem está tecnicamente correta". De fato, ele é um intelectual para o qual questões doutrinárias têm primazia sobre o mundo real; ele prefere uma Igreja de "poucos, mas bons", recusando-se a descaracterizar a doutrina para ganhar fiéis - um papa "leninista", em suma.

Já Carlo Maria Martini é a antítese de Ratzinger, embora ele seja um jesuíta. No passado, os jesuítas foram a tropa de choque da Igreja e por isso eram admirados pelos bolcheviques. Mais recentemente, essa ordem fundada por Inácio de Loyola se converteu num dos setores mais progressistas do clero católico. Martini, de qualquer modo, provocou calafrios na Cúria Romana ao questionar a obrigatoriedade do celibato para sacerdotes e ao pedir o fim das proibições da pílula anticoncepcional e da ordenação de mulheres. Ele teve ousadia para defender homossexuais e elogiar Martinho Lutero por ele ter pedido reformas à Igreja. Antes disso, o cardeal teve um debate epistolar público com o escritor Umberto Eco sobre temas como a ética, a mulher e o diálogo com os não-crentes - publicado num livro com o significativo título de Em que crêem os que não crêem? É verdade que Ratzinger também teve seu momento de diálogo com um intelectual laico e de esquerda, Jürgen Habermas. Mas o papa, como bom agostiniano, jamais foi capaz de descer à Cidade dos Homens. (Martini, à propósito, é tomista).

Se Carlo Maria Martini tivesse sido eleito papa em 2005, o Vaticano certamente não estaria tão encrencado...

sábado, 17 de abril de 2010

DOIS FUNERAIS: KACZYNSKI E TITO

A morte do presidente da Polônia, Lech Kaczynski, num acidente aéreo, causou comoção no país e no mundo. Ele morreu quando ia à Rússia para prestar homenagem aos milhares de militares poloneses massacrados pelo Exército soviético nas florestas de Katyn em 1940. A tragédia fez com que a maioria dos obituários se esquecessem de que Kaczynski liderava um governo extremamente nacionalista e reacionário. Ele, seu irmão gêmeo e ex-primeiro ministro Jaroslaw Kaczynski, encarnavam, junto com o ex-presidente Lech Walesa, os piores demônios da Polônia. Seu governo tentava restaurar a pena de morte no país – proibido aos integrantes da União Européia, da qual a Polônia faz parte –, além de alimentar, junto ao setor mais retrógrado da Igreja Católica polonesa, uma campanha contra as feministas, os homossexuais, os estrangeiros e os judeus. Kaczynski promoveu uma “caça às bruxas” na Polônia, com uma lei infame, a “lei da lustração”, com a qual vários de seus antigos companheiros do Solidariedade mais à esquerda, como o historiador Bronislaw Geremek, foram perseguidos e difamados. Kaczynski foi uma espécie de Le Pen eslavo. Agora, vários líderes mundiais prestam homenagem ao “grande estadista”.
Quarenta anos atrás, os funerais do presidente iugoslavo Josip Broz Tito também atraíram a nata dos dirigentes mundiais a Belgrado, capital da então Iugoslávia. Vieram líderes dos dois lados da Guerra Fria, como o dirigente soviético Leonid Brejnev, a primeira-ministra conservadora do Reino Unido, Margaret Thatcher, o líder palestino Yasser Arafat e o chanceler alemão Helmut Schmidt, entre outros. Mas Tito, ao contrário de Kaczynsky, apesar de ditador, foi o líder da resistência comunista contra a ocupação nazista do país, rompeu com Stálin em 1948 sem aderir ao bloco ocidental e manteve a Iugoslávia unida, criando uma fórmula de convivência entre sérvios, croatas, eslovenos, montenegrinos e bósnios. A traição ao seu legado pelos líderes nacionalistas sérvios e croatas mergulharia a Iugoslávia na mais sangrenta guerra civil na Europa depois da II Guerra e esfacelaria o país. Hoje, Tito permanece no limbo da História.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

TODOS SE CANSAM DE TUDO

"Existem quatro lendas relativas a Prometeu:

De acordo com a primeira, ele foi preso num rochedo do Cáucaso por ter traído os segredos dos deuses em benefício do homem, e os deuses enviaram abutres para se alimentarem de seu fígado, que era perpetuamente renovado.

De acordo com a segunda, Prometeu, atormentado pela dor de bicadas dilacerantes, foi se colando cada vez mais profundamente ao rochedo até vir a se tornar parte dele.

De acordo com a terceira, sua traição foi esquecida ao longo de centenas de anos, esquecida pelos deuses, pelos abutres e por ele mesmo.

De acordo com a quarta, todos foram se cansando daquele caso sem sentido. Os deuses foram se cansando, os abutres foram se cansando, a ferida cicatrizou de cansaço.

Restou a inexplicável massa do rochedo. A lenda tentou explicar o inexplicável. Como ela se originou de um substrato de verdade, era de se esperar que acabasse inexplicável"
Franz Kafka, The Complete Stories

UM PASSO À FRENTE, DOIS ATRÁS

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, havia se firmado como o melhor ocupante da pasta desde que ela foi criada, em 1999. Primeiro, elaborou um Plano Nacional de Defesa (PND) que redefiniu o papel das Forças Armadas brasileiras - até então, elas seguiam parâmetros estratégicos definidos na época da Guerra Fria - e lançou as bases para a reconstrução da indústria bélica nacional. A partir disso, a compra dos caças supersônicos do programa FX foi reprogramada, priorizando-se a transferência de tecnologia; decidiu-se também pela continuidade do programa do submarino nuclear brasileiro, em parceria com a França. E Jobim também soube impor a autoridade do ministério sobre a caserna, chamando para a pasta a responsabilidade de indicar os comandantes militares.

Mas agora, inexplicavelmente, ele anuncia a assinatura de um tratado militar com os Estados Unidos, restaurando, de certa forma, o acordo de 1952, rompido unilateralmente em 1977 pelo governo brasileiro. Como lembrou Mauro Santayana, acordos militares são necessários quando um inimigo comum ameaça os contratantes. Mas o Brasil não tem contencioso com seus vizinhos, nem divergência com algum país que não possa ser resolvido com a diplomacia. As únicas ameaças que sofremos são às soberanias da plataforma continental e da Amazônia. E esta última ameaça - mesmo que hipotética - vem justamente dos Estados Unidos. Não é à toa que os militares brasileiros que atuam na região hoje estudem as táticas de guerrilha na selva do general vietnamita Vo Nguyen Giap, que enfrentou e venceu os franceses e os americanos.

Se o tratado foi assinado por causa da "boa vontade" do governo Obama com o Brasil, trata-se de uma ingenuidade franciscana. Acordos são assinados entre Estados, independentemente de quem os governe. Hoje é Obama, amanhã poderá ser Bush III ou Nixon II. Mas se foi para facilitar a venda de aviões de treinamento Super Tucano da Embraer para os EUA, como sugerem alguns, estaremos igualmente em maus lençóis. Além de uma aliança militar desnecessária, os EUA poderão exigir, em contrapartida, que o governo brasileiro compre os caças F-18 Super Hornet, da Boeing, ficando à mercê dos humores americanos no quesito transferência de tecnologia. Se isso acontecer, estaremos dando, então, dois passos atrás depois de termos dado um grande passo à frente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010