sábado, 30 de outubro de 2010

BENTO XVI VAI EXCOMUNGAR SÃO TOMÁS DE AQUINO?

Joseph Ratzinger, um papa "leninista"
Vladimir Lênin
Joseph Ratzinger passou 1/4 de século no papel de “grande inquisidor” do papa João Paulo II, expurgando a Igreja dos defensores da Teologia da Libertação e de todos os que questionavam a visão integrista e reacionária do catolicismo. Essa contrarrevolução permanente praticamente enterrou as promessas renovadoras de João XXIII e de Paulo VI no Concílio Vaticano II e fez a Igreja Católica retroceder aos tempos do ultramontanismo de Pio IX, no século XIX, quando o Vaticano queria subverter as sociedades laicas e liberais baseadas nos valores iluministas da Revolução Francesa por uma teocracia católica. Bento XVI completou a contrarrevolução de João Paulo II com um toque “leninista”: para ele, a Igreja precisa aferrar-se à tradição e à ortodoxia para sobreviver num mundo dominado pelo relativismo, ainda que isso signifique a perda cada vez maior de fiéis. Como o útlimo Lênin, o implacável líder bolchevique, o atual pontífice acredita que “mais valem poucos, mas bons”. A vanguarda iluminada é sempre uma minoria...

Agora, Bento XVI retoma outro aspecto do ultramontanismo: a exigência de total obediência que os católicos devem ao Vaticano, passando por cima das peculariedades nacionais. Só isso pode explicar o apoio do pontífice à guerra dos bispos católicos contra os governo da Espanha por conta das leis que autorizaram o aborto e o casamento gay. Agora, o papa se meteu abertamente em assuntos internos do Brasil ao declarar que é dever os bispos brasileiros intervir na campanha eleitoral para condenar o aborto. Essa declaração é uma afronta à soberania nacional, ao Estado de Direito brasileiro e à cidadania. Como se não bastasse, o pastor alemão afirmou que a descriminalização do aborto constituia uma “traição aos ideais democráticos”. É como se Francisco Franco ou Augusto Pinochet se arvorassem em defensores do Estado Democrático de Direito.

O arcebispo Bernard Law
Bento XVI deveria cuidar do seu rebanho promíscuo. Desde os tempos de João Paulo II, a Igreja Católica vem sendo alvo de denúncias de pedofilia em vários países do mundo, principalmente nos EUA. Neste país, os escândalos ocorreram em quase todas as dioceses e envolveram 1,2 mil sacerdotes, que abusaram de mais de quatro mil crianças. O Vaticano tentou se fazer de morto para proteger os clérigos envolvidos nos abusos, mas a manobra fracassou  e a Igreja teve que pagar milhões de dólares em indenizações. O arcebispo de Boston, Bernard Law, um dos grandes acobertadores, teve que renunciar.

Entre 2001, quando o Vaticano adotou um novo protocolo para tratar dessas denúncias, e 2010, a Congregação para a Doutrina da Fé recebeu três mil denúncias de abusos sexuais contra padres. Apenas 10% deles foram expulsos da Igreja; outros 10% saíram por iniciativa própria. Os julgamentos são secretos e a Igreja não leva os suspeitos espontaneamente à Justiça.

Abaixo, uma pequena lista dos mais recentes escândalos de pedofilia revelados:

Maio/2006 – O Vaticano obrigou Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, a abandonar suas funções sacerdotais depois de várias acusações contra ele por abuso sexual apresentadas por antigos membros desta congregação ultraconservadora mexicana. Maciel faleceu em janeiro de 2008;

Protestos de vítimas de abuso de padres católicos
 Novembro/2009 – O governo da Irlanda revelou a ocorrência de 30 mil casos de abuso nas últimas décadas em várias instituições para crianças administradas pela Igreja Católica no país. Bento XVI expressou “vergonha” e “arrependimento” de toda a Igreja pelos atos pedófilos e criticou o episcopado local. Seis bispos acabaram apresentando sua renúncia, quatro das quais foram aceitas;

Janeiro/2010 – Em Berlim, o reitor do colégio jesuíta Canisius reconheceu que alguns alunos sofreram abusos sexuais nos anos 70 e 80. Mais casos foram revelados posteriormente em outras escolas alemãs;
Março/2010:
- Na Holanda, a ordem dos salesianos abriu uma investigação sobre denúncias de abusos sexuais contra alunos de um internato da região de Arnhem (leste) nos anos 60;

- Na Alemanha, revelações de dois casos de abuso sexual foram confirmados, além de vários suspeitos no coro dos meninos cantores de Regensburg (Baviera), dirigido durante 30 anos pelo monsenhor Georg Ratzinger, irmão de Bento XVI;

- No Brasil, o Vaticano admitiu a existência de acusações contra sacerdotes por abuso sexual. Nas semanas seguintes, pelo menos seis outros escândalos de sacerdotes pedófilos vieram à tona;

- Nos EUA, o jornal The New York Times acusou Bento XVI de ter ocultado nos anos 1990 um sacerdote americano acusado de ter maltratado 200 crianças surdas de uma escola no Wisconsin;

Abril/2010 – O bispo de Bruges (Bélgica), Roger Vangheluwe, reconheceu ter abusado sexualmente de seu sobrinho. Será o primeiro bispo a se demitir por ter cometido abusos sexuais;

- Revelado que em 1985 Joseph Ratzinger resistiu em remover o padre Stephen Kiesle da diocese californiana de Oakland. Entre 1970 e 1980, Kiesle cometera uma série de abusos sexuais contra crianças, tendo sido condenado pela Justiça em 1978 por molestar duas meninas. O bispo de Oakland propôs à Santa Sé o afastamento do padre pedófilo, mas Ratzinger procastinou. Kiesle acabou afastado do sacerdócio em 1987; ele seria preso em 2002 por 13 casos de pedofilia nos anos 70.

Junho/2010 – A Conferência Episcopal Suíça indicou haver 104 vítimas de abuso sexual declaradas desde janeiro;

Setembro/2010 – A Igreja Católica da Bélgica publicou uma centena de depoimentos de vítimas de sacerdotes - de quase 500 recolhidos – e revela 13 casos de suicídio.

Mas não apenas de denúncias de pedofilia vive o pontificado de Bento XVI. Ele ofendeu os muçulmanos, sugerindo que o Islã é uma religião guerreira; os índios, afirmando que eles tinham sido “purificados” pela Igreja durante a conquista das Américas e os judeus, ao tentar reintegrar à Igreja Católica um notório antissemita e negador do Holocausto, o bispo tradicionalista Richard Williamson. Para o bispo, “nenhum judeu morreu em câmaras de gás”.

Milhares de crianças africanas são vítimas da Aids 
Não bastasse isso, Bento XVI reafirmou a postura reacionária de João Paulo II de oposição às pesquisas com células-tronco retiradas de embriões, esperança de cura para milhões de pessoas que sofrem de doenças neurovegetativas e incapacitantes. Mas pior ainda, quase criminosa, é a posição do papa de condenar o uso de preservativos para o controle da natalidade, mesmo em países afetados pela epidemia da Aids. Segundo o teólogo católico Hans Küng, a História julgará os dois papas como os maiores responsáveis pela propagação da Aids, especialmente em países africanos com populações católicas.

São Tomás de Aquino

Finalmente, sobre a questão do aborto, é bom lembrar que a posição retrógrada do Vaticano nem sempre foi consenso nem entre os católicos. Há uma doutrina desenvolvida nos primórdios da Igreja, a teoria da "hominalização" tardia, ou seja, o momento em que a alma anima o corpo. Emprestada dos gregos, esta teoria afirma que a alma humana só anima o feto por volta do terceiro mês de gravidez. Antes disso, qualquer forma de vida existente não era considerada humana. Para Santo Agostinho (séculos IV-V), um dos Padres da Igreja, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana, o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. O grande Santo Tomás de Aquino (século XIII), o mais célebre teólogo da Idade Média, detalhou esse ponto de vista na Suma Teológica, baseado na filosofia de Aristóteles. Ele afirma que o embrião era habitado primeiramente por uma alma vegetal, depois pela alma animal, e só quando estava suficientemente formado é que a alma espiritual humana habitava o corpo. A posição de Tomás de Aquino sobre o assunto foi aceita pela Igreja no Concílio de Viena, em 1312. Portanto, a doutrina mais tradicional do cristianismo católico considerava que abortos realizados no início da gravidez não eram homicídios. Foi só em 1869 que Pio IX - o papa do ultramontanismo - declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize.

Para ser coerente, Bento XVI deveria excomungar São Tomás de Aquino...

Um comentário:

  1. Realmente tudo isso me cansa, toda essa influência nociva através dos tempos, religiões prejudicaram mais do que colaboraram

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