quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

TREVAS AO MEIO DIA


"Aqueles que não conseguem se lembrar dos erros do passado estão condenados a repeti-los." George Santayana

"Encurradalada, a ditadura firmou-se. A tortura foi seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional nº 5 libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada foi substituída por um regime a um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões. Foram os Anos de Chumbo".
[...]
"Os comandantes militares que incorporaram Fleury à 'tigrada' sabiam que tinham colocado um delinqüente na engrenagem policial do regime. Nos anos seguintes, o delegado tornou-se um paradigma da eficácia da criminalidade na repressão política. Um raciocínio que começara com a idéia de que a tortura pode ser o melhor método para obter uma confissão, transbordava para o reconhecimento de que um fora-da-lei pode ser o melhor agente para a defesa do Estado".
[...]
"O que se apresentava como uma militarização das operações policiais tornou-se uma policialização das operações militares. O delegado Sérgio Fleury não ficou parecido com um oficial do Exército. Eram oficiais do Exército que ficavam parecidos com ele".
Elio Gaspari, A Ditadura Escancarada


A reação dos comandantes militares e do ministro da Defesa, Nelson Jobim, à criação da Comissão de Verdade, prevista no Programa Nacional de Direitos Humanos, é vexaminosa, além de constituir-se num inaceitável desafio ao Estado Democrático de Direito. A Argentina e o Chile, por exemplo, extinguiram democraticamente leis de anistia feitas à ponta de baionetas e levaram altos oficiais e comandantes ao banco dos réus por violações de direitos humanos perpetrados durante as respectivas ditaduras; a África do Sul optou por não julgar os responsáveis pelos crimes do apartheid, mas criou a Comissão de Verdade e Reconciliação para esclarecer as circunstâncias desses crimes e estabalecer responsabilidades.
Aqui, o establishment militar defende abertamente a "legitimidade" da tortura e dos assassinatos de prisioneiros políticos que estavam sob custódia do Estado durante a ditadura com argumentos enviesados. Tenta-se, por exemplo, comparar esses crimes àqueles que foram provocadas por guerrilheiros ("terroristas", segundo eles). Como lembrou o Clóvis Rossi, os crimes da guerrilha já foram mais do que punidos - alguns com a morte. Mas quando se sentem ameaçadas, as viúvas da ditadura ressuscitam o espantalho do "revanchismo" - com o auxílio de seus amigos na mídia, como Alexandre Garcia (que foi assessor do general-presidente João Figueiredo). Com isso, sequer os arquivos da repressão podem vir a público. Até o Paraguai está mais adiantado do que nós nessa matéria...
Essa postura, além de subversiva, acaba associando a corporação militar a psicopatas assassinos como o brigadeiro João Paulo Burnier, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e o ex-capitão Ailton Guimarães. Sem falar em Sérgio Fleury, o capo do Esquadrão da Morte. Como lembra Elio Gaspari, "os oficiais-generais que ordenaram, estimularam e defenderam a tortura levaram as Forças Armadas brasileiras ao maior desastre de sua história". Os comandantes deveriam saber que a defesa da guerra suja também conspurca a memória da gloriosa Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutou na Itália contra o fascismo.
Só quando expiar esse período de trevas é que o Brasil irá se reconciliar consigo mesmo e com suas Forças Armadas.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

LET'S PLAY THAT



Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let's play that
Torquato Neto (1944-1972)

HISTÓRIA A CONTRAPELO?

"Não existe documento da cultura que também não seja um documento de barbárie... portanto, na medida do possível, o materialismo histórico se distancia dela. Considera que sua missão é escovar a História a contrapelo"
(Walter Benjamin, Sobre o conceito de História, tese VII)


O governo da China condenou a 11 anos de prisão o mais conhecido dissidente do país, Liu Xiaobo, que está detido desde 2008 por ter ajudado a elaborar uma petição - a "Carta de Direitos 08" -, reivindicando liberdades democráticas no país. Essa carta ecoa a "Carta 77", assinada por dissidentes tchecoslovacos na época em que o então país - a Tchecoslováquia - vivia sob a órbita soviética. Xiaobo, 53 anos, participou das manifestações da Praça da Paz Celestial em 1989, reprimidas manu militari pelas autoridades chinesas. Mas o que é interessante no caso chinês não é tanto a quantidade de dissidentes que, volta e meia, chamam a atenção da mídia ocidental - fenômeno comum a qualquer regime autocrata - mas a quantidade - e a vacuidade - de vozes dissonantes provenientes do círculo do poder. Talvez o mais proeminente dessas vozes tenha sido a do ex-premier e ex-secretário-geral do PCC Zhao Ziyang (1919-2005). Ele foi o grande mentor das reformas econômicas de Deng Xiaoping, que projetaram a China como potência mundial, mas, mais importante, ele liderou um esforço - inútil, logo se veria - para democratizar o regime, na esteira da glasnost do líder soviético Mikhail Gorbatchóv. Defendia a separação das funções do Estado e do partido e a introdução de um regime parlamentar democrático. Dialogou abertamente com os estudantes da Praça da Paz Celestial, mas foi vencido pela gerontocracia linha-dura - Deng à frente - ciosa de seu poder. Caiu em desgraça pouco antes do massacre na praça levado a cabo por tanques do Exércicto. Antes de Zhao, também tinham sido tragados pela lógica de ferro da Nomenklatura dirigentes liberais ou moderados, conforme o gosto, como Zhou Enlai (1898-1976) e Hu Yaobang, cuja morte, em 1989, desencadeou os protestos em Pequim. Zhao ficou em prisão domiciliar até sua morte, em 2005, mas conseguiu escrever um livro, Prisioner of the State (prisioneiro do Estado), publicado no Ocidente, em que relata os bastidores da luta pelo poder no partido.
Ao contrário do que pensavam deslumbrados neoliberais como Francis Fukuyama, nem a História terminou nem todos os países tendem necessariamente a se tornar sociedades mais democráticas. Se as reformas políticas implodiram os regimes comunistas do Leste europeu, o modelo chinês sobreviveu ao combinar abertura econômica capitalista com regime de partido único. Os dissidentes chineses - do poder ou fora dele - são a expressão da história dos vencidos, como a dos cátaros e dos albigenses na Idade Média. Com o êxito do modelo chinês, quem se importará com suas razões?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O ANJO AZUL DA ALEMANHA



MARLENE DIETRICH (1901-1992). A atriz de beleza exótica, celebridade na Alemanha, disse não a Hitler e foi cantar para as tropas aliadas.



Neste 27 de dezembro, comemorou-se o 108º aniversário de seu nascimento


Lili Marleen (Lili Marlene), a canção do soldado, intepretada em alemão por Dietrich

domingo, 27 de dezembro de 2009

UM VERDADEIRO LIBERAL


No centenário de sua morte (17 de janeiro), Joaquim Nabuco (1849-1910) ainda é pouco conhecido no Brasil. O Estadão deste domingo publicou várias de suas cartas inéditas; pouco se fala, contudo, do ineditismo de suas posições políticas para a época. Nabuco é considerado - ao lado de André Rebouças - o patrono da reforma agrária no Brasil. O autor de Um Estadista do Império não desvinculava a abolição da escravatura da necessidade de "democratização do solo". Esse filho da aristocracia do açucar era um verdadeiro liberal e denunciava o liberalismo de fachada de sua classe. Nas palavras de Nabuco, não há outra solução possível para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e vossos filhos, pela posse e cultivo da terra. É preciso que os brasileiros possam ser proprietários de terra, e que o Estado os ajude a sê-lo [...] A propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra ao Estado. Eu [...] não separarei mais as duas questões: a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão”.
Visionário, Nabuco estava muito à frente de seu tempo. O fato de o autor de O Abolicionismo ter permanecido fiel à monarquia não lhe diminui os méritos. Mas a oligarquia agrário-exportadora brasileira adotou o caminho excludente, a chamada modernização conservadora, que aboliu a escravidão e substitituiu a mão-de-obra escrava pela de trabalhadores imigrantes, lançando a massa de ex-cativos na marginalidade. Por conta dessa opção, a bandeira da reforma agrária continua na agenda dos movimentos sociais cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco.

sábado, 26 de dezembro de 2009

UM LÍDER PRAGMÁTICO

Rafael Caldera, presidente da Venezuela por duas vezes (1969-1974 e 1994-1999) morreu às vésperas do Natal aos 93 anos. Ele foi um estadista relativamente progressista no primeiro mandato, numa época em que os ventos de mudança radical sopravam tão fortemente na região que era quase impossível fazer avaliações objetivas. Membro do establishment político e fundador do Copei, a versão democrata-cristã da Venezuela, Caldera foi um dos articuladores do chamado Pacto de Punto Fijo, acordo assinado em 1958 entre os principais partidos políticos venezuelanos para restabalecer a democracia depois da ditadura do general Pérez Jiménez. Na prática, o pacto criou um sistema político cuja estabilidade era garantida pelo condomínio entre o Copei e a Acción Democrática (socialdemocrata), que se revezaram no poder durante quase 40 anos. Na primeira vez como presidente, Caldera mostrou-se pragmático. Apesar de sua origem conservadora, ele estabeleceu a paz com grupos guerrilheiros de esquerda, integrando-os à vida política, e legalizou partidos clandestinos, como o Partido Comunista. Aumentou para 60% o imposto sobre a receita das empresas petrolíferas estrangeiras e implementou o complexo petroquímico de El Tablazo. Poderia passar à História com esse legado, mas a sedução pelo poder o levou-o a um final patético. Na segunda presidência, um envelhecido Caldera, desta vez dissidente do Copei, pegou um país em crise econômica profunda com a queda dos preços de petróleo e aplicou a desastrosa fórmula de ajuste do FMI - corte de gastos públicos, aumento de tarifas, liberalização cambial. Isso depois da catástrofe que tinha sido o governo de seu antecessor, Carlos Andrés Pérez, que quase mergulhou o país numa guerra civil na tentativa de aplicar o mesmo receituário neoliberal. O esgotamento do modelo - econômico e político - venezuelano acabou abrindo caminho para Hugo Chávez, a quem Caldera anistiou em 1994 - o então tenente-coronel estava preso por uma tentativa de golpe militar em 1992.

Um dos ministros de Caldera no segundo governo foi o antigo guerrilheiro Teodoro Petkoff, ex-integrante da direção do Partido Comunista Venezuelano e depois do Movimento ao Socialismo (MAS). Convertido à socialdemocracia, Petkoff saiu-se bem melhor como analista do que como ministro (quando foi o responsável pelo programa do FMI). O atual diretor da revista Tal Cual é um dos maiores críticos de Chávez, mas pela esquerda. Diz que o presidente venezuelano é um caudilho militar com veleidades messiânicas, a expressão acabada - ao lado do vetusto Fidel Castro - daquilo que ele classifica como "esquerda bourbônica" (referência à dinastia Bourboun, tipos que "não perdoam e não aprendem"). Para Petkoff, a essa esquerda autoritária e "pré-conciliar" (outra ironia, menção ao Concílio Vaticano II) se contrapõe uma esquerda moderna e democrática, representada pelos presidentes Lula, Tabaré Vázquez e Michelle Bachelet - pragmáticos como foi Caldera em seu primeiro mandato.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A ALMA DO NEGÓCIO

"Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias, casa, alimento, roupa, a produção irresistível da indústria de diversão e informação, trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais, que prendem os consumidores aos produtos. Os produtos doutrinam, manipulam, promovem uma falsa consciência. Estando tais produtos à disposição de maior número de indivíduos e classes sociais, a doutrinação deixa de ser publicidade para tornar-se um estilo de vida"
Herbert Marcuse (1898-1979) O Homem Unidimensional

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

E POR FALAR EM CABARET...




MONEY MAKES THE WORLD GO AROUND





Liza Minelli e Joel Grey, Money
http://www.youtube.com/watch?v=rkRIbUT6u7Q

AS SEMENTES DO ÓDIO: O VOLKSGEIST CONTRA A RAZÃO

"Uma vez que [segundo os filósofos tradicionalistas] o homem é obra de sua nação, é produto de seu meio ambiente, a humanidade deve se declinar no plural: ela não é senão a soma dos particularismos que povoam a Terra. E (Joseph) De Maistre une-se a Herder: 'As nações têm uma alma geral e uma verdadeira unidade moral que as constituem no que são. Essa unidade é sobretudo anunciada pela língua'"
[...]
"Teocratas querem salvar o mundo deste desastre fundamental - a dissolução do direito divino, mas o que chamam Deus não é mais o Ser supremo, é a razão coletiva. Identificado à tradição, garantido no espírito de cada povo, esse Deus abandonou a região celeste no Soberano Bem pelas regiões obscuras e subterrâneas do inconsciente. Está, daqui em diante, situado aquém, e não mais além, da inteligência humana e orienta as ações, modela o pensamento de todos sem que o saibam, em vez de, como fazia seu homônimo, comunicar-se com as criaturas por via da Revelação. Deus falava ao homem uma língua universal, doravante fala nele a língua de sua nação".
Alain Finkielkraut, A Derrota do Pensamento


No cinema, a melhor tradução da apropriação desse Volksgeist (espírito de um povo) pelo nazismo está nesta cena do filme Cabaret (1972), de Bob Fosse: http://youtube.com/watch?v=LNMVMNmrqJE

(prestem atenção no velhinho, o único em direção contrária e obstinada em meio à multidão de ovelhas ferozes...)

POR QUE TIO SAM AINDA É A ÚNICA SUPERPOTÊNCIA

Segundo a revista britânica The Economist, os gastos dos Estados Unidos com Defesa atingirão mais de meio trilhão de dólares em 2010, um aumento de 4% em relação a 2009. E o custo do envolvimento ianque no Afeganistão ultrapassará pela primeira vez o do Iraque: US$ 65 bilhões contra US$ 61 bilhões. "Os gastos militares dos EUA representam nada menos de 40% do total mundial, SEIS A OITO VEZES MAIS DO QUE A CHINA, o reticente segundo lugar", diz a Economist. Ainda de acordo com a revista britânica, o Paquistão vai receber US$ 1,5 bilhão em auxílio militar nos próximos cinco anos; Israel terá US$ 2,8 bilhões só em 2010, em parte para financiar o sistema de defesa de mísseis balísticos Arrow, criado contra a ameaça iraniana.
No curto e médio prazo, não há nada no horizonte que possa contrastar esse poder.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

TEMPOS SOMBRIOS

Henning Albert Boilesen (1916-1971) foi um empresário nascido na Dinamarca que se naturalizou brasileiro. Presidente da Ultragas e anticomunista ferrenho, ele foi um dos que mais incentivou o financiamento da repressão por empresários durante a ditadura militar. Essa "ação entre amigos" foi fundamental para a montagem da Oban (Operação Bandeirante), origem dos DOI-Codis, o núcleo duro do aparelho repressivo da ditadura. A Oban transformou a tortura artesanal do Estado Novo em método "científico", como fizeram a Gestapo e os franceses durante a Guerra da Argélia. Mas Boilensen não apenas foi o pivô do financiamento da Oban; ele se comprazia em assistir pessoalmente, no DOPS ou no quartel da rua Tutóia, às sessões de tortura contra prisioneiros políticos. Em abril de 1971, Boilensen foi executado em São Paulo por um comando guerrilheiro da ALN e do MRT. A memória desse cápítulo tenebroso da História do Brasil foi agora resgatada com um filme imperdível, Cidadão Boilensen, de Chaim Litewski (trailer:http://www.youtube.com/watch?v=9TrocKiappo)


Em tempo:
Morreu aos 96 anos o ex-embaixador americano no Brasil Abraham Lincoln Gordon, peça fundamental na garantia de apoio logístico dos EUA ao golpe cívico-militar de 1964 - o que acabou não sendo necessário. Gordon sempre negou sua participação nos eventos, mas ela foi confirmada por documentos oficiais americanos desclassificados. O diplomata era tão próximo do governo militar chefiado pelo marechal Castello Branco que, na época, se popularizou uma frase cunhada por Otto Lara Resende: "Chega de intermediários; Lincoln Gordon para presidente!"

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

REESCREVENDO A PRÓPRIA HISTÓRIA


A trajetória do aiatolá Hossein Ali Montazeri, morto no domingo dia 20 aos 87 anos, é o mais recente exemplo da dificuldade que regimes fechados têm para lidar com divisões em seu inner circle e de como esses rachas acabam gerando dissidências perigosas à estabilidade do poder. Montazeri foi o "número dois" do aiatolá Ruhollah Khomeini, tendo sido indicado por este para sucedê-lo como Líder Supremo do país. Mas o temor de que Montazeri, um teólogo e scholar respeitado, pudesse lhe fazer sombra, levou Khomeini a defenestrá-lo em 1987. Montazeri passou então a defender os direitos políticos e civis dos cidadãos negados pelo regime teocrático que ele ajudou a construir. Chegou a ficar em prisão domiciliar, mas o fato de ser um Grande Marja - autoridade religiosa do islamismo xiita - o preservou de um destino mais trágico. Seu canto de cisne foi a queda de braço com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, a quem ele acusou de ter fraudado a reeleição.

À moda de Plutarco, podemos traçar dois destinos paralelos, embora distintos, ao de Montazeri. O primeiro é o do marechal Lin Piao, o poderoso ministro da Defesa da China nos anos 60, nomeado sucessor de Mao Tsé-tung em 1969. O fiel discípulo do Grande Timoneiro morreu em 1971 num misterioso acidente aéreo na Mongólia, depois de fugir, segundo a versão oficial, de uma fracassada tentativa de golpe de Estado contra Mao. O fato é que, com Lin Piao fora do poder, o Exército perdia a força que conquistara ao ser chamado por Mao para conter os guardas vermelhos durante a Revolução Cultural (1966-1976).

O segundo destino paralelo é o de Leon Trotsky, um dos grandes líderes da Revolução Bolchevique de 1917, ao lado Vladimir Lênin. Comisário da Guerra, Trotsky não só chefiou a repressão à revolta dos marinheiros de Kronstadt e à dos anarquistas de Makhno, que contestavam o monopólio bolchevique do Estado, como defendeu a militarização do trabalho, a estatização dos sindicatos e a disciplina de ferro do Partido sobre a sociedade. Só depois que foi apeado do poder é que ele virou crítico da autocracia bolchevique. Acabou assassinado no exílio no México em 1940 por um serviçal de Stálin.

As revisões que Trotsky e Montazeri foram obrigados a fazer ao menos salvaram parte de suas reputações para a História. Já Lin Piao deixou-nos apenas o legado de suas misérias.

domingo, 20 de dezembro de 2009

ENTRE O PASSADO E O FUTURO: PROGRESSO?



"Há um quadro de Paul Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso"
Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O CAOS ETERNO


"O célebre Sonho, de Jean-Paul Ritcher, é o sonho da morte de Deus [...]: não é um filósofo nem um poeta, mas o próprio Jesus Cristo, o filho da divindade, que afirma a não-existência de Deus. O lugar da anunciação é a igreja de um imenso cemitério. Talvez seja meia-noite, mas como sabê-lo realmente? O mostrador do relógio não tem números nem ponteiros e uma mão negra traça incansavelmente, sobre essa superfície, sinais que se apagam imediatamente e que os mortos querem decifrar em vão. No meio do clamor da multidão das sombras, Cristo desce e diz: percorri os mundos, subi até os sóis e não encontrei Deus algum: baixei até os últimos limites do universo, olhei os abismo e gritei: Pai, onde estás? Porém só escutei a chuva que caía no precipício e a eterna tempestate que não é regida por nenhuma ordem... A eternidade repousava sobre o caos, o roía e, ao roê-lo, devorava-se lentamente a si mesma. As crianças mortas aproximavam-se de Cristo e lhe perguntavam: Jesus, não temos pai? E ele responde: somos todos órfãos".
[...]
"O universo não é um mecanismo, mas uma imensidade informe agitada por movimentos, aos quais não é exagero chamar-se passionais: essa chuva que cai desde o príncípio sobre o abismo sem fim e essa tempestade perpétua sobre a paisagem da convulsão são a própria imagem da contingência".
[...]
"A filosofia havia concebido um mundo movido, não por um criador, mas por uma ordem inteligente; para Jean-Paul e seus descendentes, a contigência é uma consequência da morte de Deus: o universo é um caos porque não tem criador".
Octavio Paz, Os Filhos do Barro

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

TEM GENTE COM FOME


Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dzier
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu!!!!
Solano Trindade (1908-1974)

FACÍNORA E COVARDE


Volta ao banco dos réus na Argentina um dos símbolos mais sinistros da ditadura militar, o ex-capitão-de-fragata Alfredo Astiz, conhecido como El ángel de la muerte. Ele pertencia ao Grupo de Tarefas 332, que atuava na ESMA (Escola de Mecânica da Armada), o centro de torturas onde foram assassinadas quase cinco mil pessoas. Em 1977, Astiz se infiltrou em organizações que lutavam contra o regime, entre elas Las Madres de Plaza de Mayo. Em função da sua espionagem, foram presas, torturadas e mortas as fundadoras do grupo, além das freiras francesas Alice Domon e Leónie Duquet. No mesmo ano, a sueca-argentina Dagmar Hagelin, que não tinha atividade política, fora baleada por Astiz, presa e entregue à ESMA. Ela nunca mais foi vista. Esses casos provocaram escândalo internacional e desmascararam Astiz como agente infiltrado. Durante a Guerra das Malvinas, em 1982, o valente torcionário se entregou aos britânicos sem dar um único tiro (acima, à dir.). Com o fim da ditadura, em 1983, ele escapou de processo devido à Lei de Obediência Devida. Sua Nemesis começou em 1990, quando foi condenado à prisão perpétua na França pela morte das freiras. Em 2003, foram anuladas as leis do Ponto Final e Obediência Devida; em 2006 Astiz foi processado pelo caso das Madres, das freiras e de Dagmar Hagelin. Ele também foi processado na Espanha e condenado na Itália. Seu julgamento - finalmente - começou agora na Argentina. O ex-capitão, de 58 anos, sofre de câncer no pâncreas. Que a terra lhe seja pesada.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

LIBERDADE: DUAS VISÕES




"A liberdade é um bem tão precioso que deve ser racionado"


(Vladimir Illitch Lênin, líder da Revolução Bolchevique)




"Liberdade somente para os que defendem o governo, somente para os membros de um partido - por mais numeroso que ele seja - não é liberdade. A liberdade é sempre e exclusivamente liberdade para aqueles que pensam diferentemente de nós"

(Rosa Luxemburgo, líder revolucionária da esquerda alemã, assassinada em 1919)

COERÊNCIA NÃO É SINÔNIMO DE INTRANSIGÊNCIA


No final do século XIX e início do XX, os socialistas franceses Jean Jaurès (à esq.) e Jules Guesde protagonizaram um acalorado debate no seio da esquerda. Enquanto o primeiro defendia uma eventual participação dos socialistas num "governo burguês" para fazer frente aos setores mais reacionários da sociedade francesa, Guesde classificava essa postura como "traição" ao proletariado. (Por causa das posições maximalistas de Guesde, que se proclamava um marxista intransigente, o próprio Karl Marx chegou a dizer que ele, Marx, não era marxista...)

Jaurès considerava que o poder dos monarquistas, militaristas e católicos ultramontanos era ainda muito forte na França e que por isso deveria ser combatido em aliança com as forças liberais e progressistas. Ele lembrava o Affaire Dreyfus (à dir.), o caso do oficial judeu falsamentente acusado de espionagem e cujo processo opôs, de um lado, republicanos, socialistas e radicais franceses e, de outro, o Exército, a Igreja Católica e os nostálgicos do ancién regime.

O moderado Jaurès era, contudo, coerente: antimilitarista convicto, liderou campanhas contra o crescente rufar de tambores e a tentação patrioteira. Foi assassinado por um nacionalista em 31 de julho de 1914. Menos de um mês depois, a Europa mergulhou no conflito que iria arrastar no sangue e na lama das trincheiras as esperanças civilizatórias da Belle Époque.

Ironicamente, o intransigente Guesde (à esq.) mudou de opinião e integrou um governo de "união nacional". Ele se convertera ao nacionalismo, na espectativa de que a guerra levaria o país à revolução social - uma espécie de leninismo de gabinete (alguns diriam de fancaria).

Qualquer semelhança entre a trajetória do guesdismo - da intransigência ao oportunismo - a de certos dirigentes de esquerda de outros tempos e meridianos não é mera coincidência...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

RUÍNAS DA GRÉCIA


Famosa pelos ruínas de sítios históricos que foram o berço da civilização ocidental, a Grécia vive hoje dias de ruína financeira. O país tem uma dívida de cerca de 300 bilhões de euros (mais de US$ 440 bilhões), o que representa 110% do PIB, e um déficit orçamentário que equivale a 13% do PIB. Os sinais de alerta soaram na semana passada, quando as agências de classificação de risco - elas, de novo - rebaixaram a posição da Grécia, colocando em dúvida a capacidade de Atenas de honrar seus compromissos financeiros. A consequência inevitável é que os gregos terão que aumentar dramaticamente sua taxa de juros para obter empréstimos. Para evitar que isso se torne um Trabalho de Sísifo (heroi da mitologia grega condenado a carregar eternamente uma pedra até o cume da montanha), a Grécia precisará de ajuda da União Européia. Esta, por sua vez, fará tudo para evitar que o desastre se espalhe pelo resto da comunidade. Afinal, já há sinais de que o país balcânico pode ser apenas a ponta do iceberg: Espanha, Portugal e Irlanda também enfrentam sérias dificuldades financeiras, sem falar dos países bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia), da Hungria e da Bulgária. Pelo menos em termos financeiros, é como se o Terceiro Mundo tivesse mudado de hemisfério...