segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O DIA EM QUE A ESPANHA TREMEU


Tejero Molina, o tenente-coronel golpista e fanfarrão

E já que estamos falando de efemérides, passou completamente em branco aqui no Brasil os 30 anos da tentativa de golpe militar ocorrida na Espanha em 23 de fevereiro de 1981, lá conhecido como 23F. Na época a Espanha vivia um processo de transição para a democracia, depois de 36 anos de ditadura franquista. Como pano de fundo, uma grave crise econômica açoitava o país. Setores significativos das Forças Armadas se opunham ao desmonte do franquismo comandado pelo primeiro-ministro Adolfo Suárez. A legalização do Partido Comunista, em 1977, por exemplo, causou forte comoção no Exército.

O golpe foi articulado pelos generais Jaime Milans del Bosch e Alfonso Armada e executado por um fanfarrão, o tenente-coronel Tejero Molina, da Guarda Civil, que fizera uma tentativa de quartelada três anos antes. Esse sujeito invadiu as Cortes (Parlamento) com vários soldados da Guarda Civil no dia em que seria votada a substituição do primeiro-ministro Adolfo Suárez. As cenas são impagáveis: com a pistola na mão, Tejero grita, gesticula e ordena a todos os deputados que se abaixem no chão. O vice-presidente do governo, general Gutierrez Mellado, valendo-se de sua patente, repreende Molina e exige que os soldados deponham as armas. Os soldados respondem com tiros. Mellina fica em pé, enquanto o premiê Adolfo Suárez e Santiago Carrillo, líder do Partido Comunista, são os únicos deputados a permanecer sentados. Enquanto isso, o general Milans del Bosch sublevava-se em Valência.

O rei Juan Carlos I exige respeito à democracia
A atitude firme do rei Juan Carlos I - que fora escolhido por Franco para sucedê-lo e por isso pesavam dúvidas sobre sua lealdade à democracia - foi fundamental para o fracasso do golpe. Em uniforme militar de capitão-geral dos Exércitos - ou seja, comandante-em-chefe das Forças Armadas - chamou os militares à ordem, desautorizou-os e exigiu respeito à Constituição democrática aprovada em referendo pelo povo espanhol. Foi o golpe no golpe, já que os golpistas diziam estar agindo em nome da monarquia e dos "valores eternos" da Espanha franquista. O rei lhes puxou o tapete e o golpe fracassou. A experiência uniu os partidos democráticos de centro, direita e esquerda na tarefa de consolidar a transição à democracia. E Juan Carlos se legitimou como monarca. A tal ponto que socialistas e comunistas, historicamente republicanos - na guerra civil espanhola, a esquerda era republicana e a direita, monárquica - se converteram à monarquia...

O 23F

UM REFORMISTA REVOLUCIONÁRIO


Olof Palme (1927-1986)
Hoje completam-se 25 anos do assassinato do líder social-democrata sueco Olof Palme. Ele foi alvejado por um atirador solitário quando saía com sua mulher, Lisbet, de um cinema em Estocolmo. Não tinha guarda-costas e foi socorrido por transeuntes. Até hoje a autoria e os motivos do crime são um mistério. Na falta de evidências, sobraram teorias conspiratórias; Palme teria sido assassinado: a) pelo Mossad; b) pela CIA; c) pelos serviços secretos sul-africanos; d) pelo grupo de extrema esquerda alemão Bader-Meinhof; e)pela guerrilha curda; f) por um ex-agente da Dina (polícia política de Pinochet); g) pelo serviço secreto iugoslavo; h) por um pistoleiro isolado; i) etc. etc.  

Olof Palme e Yasser Arafat: o Mossad certamente não gostava dele
Motivos para ele ser morto por qualquer uma dessas entidades, de fato, não faltavam. Como primeiro-ministro da Suécia (1969-1976 e 1982-1986) Palme foi descrito como "reformista revolucionário". Sua política externa independente irritou particularmente os Estados Unidos: ele foi um crítico feroz do envolvimento norte-americano no Vietnã e da corrida armamentista (mas também havia criticado duramente o esmagamento da Primavera de Praga em 1968 pelos soviéticos). Apoiou politica e financeiramente o Congresso Nacional Africano (CNA, considerado "terrorista" pelo regime do apartheid), a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), a guerrilha esquerdista salvadorenha - que lutava contra um governo apoiado por Washington - e o governo sandinista da Nicarágua. Também se tornou um inimigo figadal da ditadura chilena do general Pinochet. Mas o que teria irritado particularmente os norte-americanos foi a denúncia que Palme fez do contrabando de armas patrocinado por Washington para fins escusos, que resultaria no chamado escândalo Irã-Contras: a operação comandanda pelo coronel Oliver North de compra ilegal de armas do regime dos aiatolás para revendê-las à guerrilha dos "contras" nicaraguenses, financiada pelos EUA. 

Internamente, Olof Palme foi um social-democrata de velha cepa. Implementou leis que aumentaram a garantia de emprego, dificultando as possibilidades de os empresários despedirem seus empregados - uma heresia para os atuais idólatras do mercado, especialmente social-democratas. Palme também liderou grandes reformas constitucionais, abolindo o Senado, acabando com o que restava dos poderes constitucionais da monarquia e com a exigência de linhagem masculina para a sucessão real. 

O socialista francês Léon Blum
Uma "vingança" póstuma de seus inimigos surgiu há alguns anos, quando um ex-agente da CIA afirmou que Palme teria ajudado a agência americana no tempo em que era líder estudantil, nos anos 1950. A denúncia nunca foi comprovada, mas mesmo que seja verdadeira, a ação anti-imperialista que Palme desenvolveu quando se tornou um político importante e chegou ao poder neutralizou qualquer eventual açodamento juvenil. Recém formado, Palme de fato viveu alguns anos nos Estados Unidos; posteriormente ele diria que aquela experiência na América - o contato com o racismo e as desigualdades na "terra de oportunidades" - fez dele um socialista. Seu legado político radical o coloca na linhagem de autênticos socialistas como Jean Jaurès, Léon Blum, Enrico Berlinguer e Willy Brandt,do mesmo modo como causa constrangimento a neoliberais travestidos de social-democratas como Felipe González, Tony Blair, Massimo D'Alema e Lionel Jospin.  

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

OS BÁRBAROS JÁ SE INSTALARAM


Protestos em Madison, Wisconsin
A Assembleia Legislativa de Wisconsin aprovou uma lei que proíbe negociações coletivas entre servidores públicos e o estado. Segundo os termos da nova legislação, os trabalhadores sindicalizados terão que votar ano a ano se autorizam o sindicato de seu setor a representá-los, enfraquecendo as centrais. A lei também proíbe debitar taxas sindicais diretamente do salário dos funcionários, o que poderá quebrar muitas entidades que têm nas taxas a principal forma de sobrevivência. O objetivo da medida, defendida pelos ultraconservadores do Tea Party, seria reduzir o déficit fiscal do estado. Na verdade, ela golpeia o poder dos sindicatos, como disse o presidente Barack Obama.

Paul Krugman
Na avaliação do Nobel de Economia Paul Krugman, colunista do jornal The New York Times, a proposta do governador Scott Walker representa um “sério ataque contra direitos democráticos conquistados nos últimos 50 anos”. Para ele, “o que está acontecendo no Wisconsin é o fim do processo democrático. Em princípio, qualquer cidadão americano é igual aos demais. Na prática, claro, alguns são mais iguais que outros. Bilionários podem colocar em campo seus exércitos de lobistas; eles podem financiar políticos que os defendem [...]. No papel, nós somos uma nação 'um homem-um voto'; na realidade, o sistema é uma oligarquia em que um punhado de ricos dominam. Dada essa realidade, é importante ter instituições que possam agir como contrapesos ao poder do grande capital. E os sindicatos estão entre as mais importantes dessas instituições. Você não precisa amar os sindicatos, nem precisa acreditar que as posições políticas deles estão sempre corretas para reconhecer que eles são um dos poucos atores influentes do nosso sistema político, e que representam os interesses da classe trabalhadora e da classe média americana em oposição aos da riqueza. De fato, se os Estados Unidos se tornaram mais oligárquicos e menos democráticos nos últimos 30 anos isso se deve, em grande medida, ao declínio do poder dos sindicatos”, conclui o economista.

Robert S. La Follette
A ironia é que o Wisconsin foi o estado americano pioneiro em direitos trabalhistas. Durante o governo de Robert S. La Follette (1901-1906), foram implantadas leis criando o salário mínimo e compensações por desemprego. Representante da ala progressista do Partido Republicano, La Follette fundou um clã liberal - no sentido americano - que liderou a política do Estado durante décadas. Como senador, fez várias leis contra as grandes corporações. Seu filho, Philip La Follette, também foi governador (entre 1931 a 1933 e 1935 a 1939) de Wisconsin, sendo o responsável pela implementação de várias leis keynesianas do New Deal no Estado.

Os bárbaros já se instalaram. O império está à deriva?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

QUANDO OS ALIADOS SE TORNAM INCÔMODOS

A guerra de Hitchens
Que as preocupações americanas com os direitos humanos sempre foram politicamente motivadas é um segredo de polichinelo. Mas o trauma do 11 de setembro fez com que parte da intelligentsia liberal nos Estados Unidos, Reino Unido e até da França abraçasse o messianismo de Bush e seus neocons: em 2003, quando Tio Sam invadiu o Iraque sob o pretexto fajuto de encontrar “armas de destruição em massa”, intelectuais progressistas, ou outrora progressistas, como Christopher Hitchens, Paul Berman e Bernard Kouchner, entre outros, escreveram rios de tinta para defender não apenas aquela invasão, mas o princípio ideológico de intervenção militar externa (no caso, americana) para derrubar tiranias como a de Saddam Hussein.

Donald Rumsfeld (à esq.) cumprimenta Saddam em 1983
A tirania de Saddam Hussein, no entanto, no passado tinha sido útil aos interesses americanos. Quanto os aiatolás iranianos derrubaram o xá Rezha Pavlevi, em 1979, Washington e os países ocidentais insuflaram o dirigente iraquiano para entrar em guerra contra o Irã. A guerra durou oito anos e provocou a morte de um milhão de pessoas. Saddam não hesitou em usar armas químicas contra as tropas iranianas, mas as atrocidades de seu regime só causariam indignação a partir de 1990, quando o ditador entrou em rota de colisão com os interesses americanos. Então, veio à tona o medonho prontuário de direitos humanos do regime iraquiano e a opinião pública mundial soube que Saddam Hussein era um tirano sanguinário – como só agora, 30 anos depois, soube que o presidente egípcio Hosni Mubarak era um ditador.

Tony Blair e o "grande amigo" Gaddafi
Essa mudança de papéis de líderes políticos – de vilões a aliados e vice-versa, de acordo com os interesses americanos – chegou à esquizofrenia com Muammar Gaddafi, o ditador perpétuo da Líbia. Durante muito tempo, ele foi o “cão louco do Oriente Médio”, o monstro que apoiava quase todos os grupos terroristas que combatiam interesses americanos, de palestinos a europeus. Então, veio o 11 de setembro e a reconversão de Gaddafi. Ele se tornou inimigo dos fundamentalistas islâmicos, renunciou às armas de destruição em massa e fez um acordo para entregar os culpados e pagar indenizações pelo atentado terrorista contra um avião da Pam Am em 1988, que matou 270 pessoas em Lockerbie (Escócia). Também prometeu combater a Al Qaeda. A Líbia, é bom lembrar, é um grande produtor de petróleo. Foi o suficiente para o antigo demônio fosse quase canonizado. Agradecido, George W. Bush retirou as sanções contra a Líbia e Condeleezza Rice foi recebida com tapete vermelho em Trípoli. Tony Blair e Silvio Berlusconi viraram amigos de infância de Gaddafi. Agora, com as massas líbias pedindo a cabeça do ditador, os ocidentais se vêem constrangidos a mudar de opinião pela segunda vez sobre esse malfadado personagem.

Ngo Dinh Diem, católico como Kennedy
No passado os EUA também mudavam de opinião em relação a aliados incômodos, mas jamais admitiam isso publicamente. Foi o caso de Ngo Dinh Diem, presidente do Vietnã do Sul entre 1955 e 1963. Ele era um déspota corrupto, nepotista e truculento. De uma família que se convertera ao catolicismo, Diem perseguia implacavelmente a maioria budista do país. Seu regime foi responsável pela tortura e morte de cerca de 50 mil dissidentes acusados de simpatia pelos comunistas. A repressão possibilitou o surgimento da Frente Nacional de Libertação do Vietnã do Sul – o vietcong –, que faria causa comum com o norte comunista e seria o pretexto para a desastrosa intervenção americana no país entre 1963-1973. O descontentamento da população com Diem levou os militares a depô-lo. Ele acabou assassinado. O golpe teve a bênção do presidente americano, o católico John Kennedy.

Trujillo, o "generalíssimo" do Caribe
Pior foi Rafael Leónidas Trujillo, general e ditador da República Dominicana entre 1939 e 1961. Ele tomou o poder com o apoio explícito dos Estados Unidos e governou o país como se fosse sua fazenda particular, acumulando uma gigantesca fortuna pessoal. Sua família chegou a ser proprietária de 70% das terras do país. O regime de Trujillo era mantido à custa de uma selvagem repressão, que não hesitava em mandar matar dissidentes, mesmo que eles estivessem nos Estados Unidos. Aliava-se a isso o culto à personalidade: a capital, Santo Domingo, foi rebatizada para Ciudad Trujillo. O anticomunismo do generalíssimo garantia o irrestrito apoio de Washington. Mas a Revolução Cubana de 1959 tirou o sono do caudilho. Fidel Castro apoiou tentativas de depô-lo. Mas o pior foi quando Trujillo tentou matar outro desafeto, o presidente da Venezuela, Rómulo Betancourt, eleito democraticamente. Por conta disso, a República Dominicana acabou expulsa da OEA e os americanos perceberam que tinham que se livrar do velho aliado. Com o apoio ostensivo da CIA, Trujillo foi assassinado a tiros em 30 de maio de 1961. Essa conspiração foi contada em detalhes no belíssimo livro A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa.

Mark Twain
"Os Estados Unidos conquistarão o México", escreveu Ralph Waldo Emerson em 1846. "Mas será como o homem que engole o arsênico que o derrubará. O México vai nos envenenar", concluiu. Troque-se o México por outro país ou região do mundo que sofreu ou sofre o peso do império e se entenderá por que o poder americano é tão odiado por esses povos. "Nós fomos traiçoeiros. Mas apenas para que o bem surgisse do mal aparente... Conspurcamos a honra da América, cobrimos de opróbio seu rosto perante o mundo, mas sempre com a melhor das intenções. Vamos desfraldar a bandeira, mas com as listras brancas pintadas de preto e as estrelas substituídas pela caveira e pelos ossos cruzados", escreveu Mark Twain.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AS PORTAS DA PERCEPÇÃO


Francis Fukuyama
Muitos defensores da ideia do Fim da História, by Francis Fukuyama - a maioria caudatária da escola reacionária dos neocons - parecem acreditar que a História começou somente depois que eles nasceram. Tão dogmáticos quanto os seguidores do generalíssimo Francisco Franco, de Pol Pot ou mesmo dos defensores do pensamento "politicamente correto", esses niveladores do pensamento só conseguem ver os fatos históricos com as lentes do presente. Fazem tábula rasa do passado e das condições históricas que o geraram. Assim, o movimento operário internacional, por exemplo, que tem quase 200 anos de uma rica e complexa experiência, é jogado na vala comum do stalinismo e dos regimes soviéticos que entraram em colapso no final dos anos 1980.

"Nós que amávamos tanto a Revolução" ( Paris, 1968)
Veja-se o caso do maoísmo. As revelações recentes sobre as atrocidades da Revolução Cultural e do Grande Salto para a Frente serviram de pretexto para anular o significado histórico da Revolução Chinesa de 1949, que representou uma ruptura do equilíbrio de poder na Ásia que fazia da China um mero quintal dos países ocidentais. Mais grave, essa concepção não consegue entender por que os estudantes de maio de 1968, em Paris e em outros lugares do mundo, libertários ao extremo, carregavam estandartes de Mao Tsé-tung e exaltavam a Revolução Cultural desencadeada em 1966.

Revolução Cultural na China, 1966
Hoje, todos sabemos o que aqueles dramáticos acontecimentos significaram para os chineses e para a esquerda em geral. Mas na época, a percepção que se tinha daqueles fatos no Ocidente era completamente diferente: fazia-se uma leitura radical e libertária deles. Equivocadamente - sabemos hoje, mas não à época - os estudantes interpretavam o "chamado às massas" e a ação da Guarda Vermelha maoísta como um incitamento à rebelião dos jovens contra o establishment conservador ocidental do pós-guerra. E era isso o que importava pois, em nome dessa percepção, os estudantes parisienses tentaram "assaltar os céus" e "ser realistas exigindo o impossível". O filme La Chinoise, de Jean-Luc Godard, apesar de chatíssimo, expressa perfeitamente esse Zeitgeist (espírito da época). 

Fidel e Che Guevara, mitos de uma época
A mesma coisa acontece com a Revolução Cubana e as figuras históricas de Che Guevara e Fidel Castro. Analisar o que isso significou como paradigma da transformações revolucionárias dos anos 1960 e 1970 à luz da atual degenerescência do regime cubano e do que sabemos sobre ele hoje revela miopia política crassa - ou má fé reacionária. Ao ver os manifestantes líbios protestando com figuras de Che Guevara, os sabichões - muitos deles viúvas de Stálin - podem decretar que eles são ingênuos por não perceberem que Guevara era militarista e prisioneiro da ideia marxista-leninista de ditadura de partido único. Mas o que importa não é o personagem histórico do Che, mas a percepção dele como símbolo de rebeldia e inconformismo que impera ainda hoje, a despeito do que significou sua atuação política concreta. 

Talvez por isso seja instrutivo reler o Tema do Traidor e do Heroi, em Ficções, de Jorge Luis Borges, que inspirou o filme A estratégia da aranha, de Bernardo Bertolucci. Nela, um grupo de guerrilheiros irlandeses descobre um traidor entre eles, que era ninguém menos que o líder da insurreição. Resolvem executá-lo, mas manter a história em segredo, pois o mito do heroi era fundamental para alimentar a chama da liberdade até a vitória final.

La Chinoise, Jean-Luc Godard

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A PRIMAVERA DOS POVOS - ONTEM, COMO HOJE


Tomada da Bastilha, 14 de julho de 1789
"O que se passou nessa curta noite, em que ninguém dormiu, para que de manhã, desaparecendo com a sombra todo dissentimento, toda incerteza, eles tivesses os mesmos pensamentos?
Sabe-se o que se fez no Palais-Royal, na prefeitura; mas o que se passou no lar do povo, aí está o que seria preciso saber.

Aí, no entanto, adivinha-se por aquilo que se seguiu, aí cada um fez no coração o juízo final do passado, cada um, antes de atacar, condenou-o sem retorno... A história voltou naquela noite, uma longa história de sofrimentos, no instinto vingador do povo. A alma dos pais que, por tantos séculos, sofreram, morreram em silêncio voltou nos filhos e falou. 

Homens fortes, homens pacientes, até ali tão pacíficos, que devíeis desferir nesse dia o grande golpe da Providência, a visão de vossas famílias, sem outro recurso além de vós, não amoleceu vosso coração. Longe disso, olhando mais uma vez vossos filhos adormecidos, esses filhos cujo destino ia ser feito nesse dia, vosso pensamento engrandecido abraçou as livres gerações que sairiam de seu berço, e sentiu nessa jornada todo o combate do futuro!...
Manifestações contra a ditadura na Líbia

O futuro e o passado davam ambos a mesma resposta; ambos disseram: 'Vai...'

E o que está fora do tempo, fora do futuro e fora do passado, o imutável direito, dizia o também. O imortal sentimento do justo deu uma base de bronze ao coração agitado do homem, disse-lhe: 'Vai tranquilo, o que importa? O que quer que te aconteça, morto, vencedor, estou contigo!'"
Jules Michelet, A Queda da Bastilha, in História da Revolução Francesa 


   

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

BORGES E O ROUXINOL ETERNO DE KEATS

Jorge Luis Borges, o imortal
"Aqueles que freqüentaram a poesia lírica da Inglaterra não esquecerão a Ode a um rouxinol, que John Keats, tísico, pobre e talvez desafortunado no amor, compôs em um jardim em Hampstead, à idade de vinte e três anos, em uma das noites do mês de abril de 1819. Keats, no jardim suburbano, ouviu o eterno rouxinol de Ovídio e de Shakespeare, e sentiu sua própria mortalidade, e contrastou-a com a tênue voz imorredoura do invisível pássaro. Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente, como a árvore dá folhas; duas ou três horas bastaram-lhe para compor essas páginas de inesgotável e insaciável beleza, que ele poliria muito pouco; sua virtude, que eu saiba, não foi discutida por ninguém, mas sim sua interpretação. O nó do problema está na penúltima estrofe. O homem circunstancial e mortal dirige-se ao pássaro, 'que não abatem as famintas gerações' e cuja voz, agora, é aquela que, em campos de Israel, em uma antiga tarde, ouviu Rute, a moabita.

Arthur Schopenhauer
 [...]

A Ode a um rouxinol data de 1819; em 1844 apareceu o segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação. No capítulo 41, lê-se o seguinte: 'Perguntemo-nos com sinceridade se a andorinha deste verão é outra que não a do primeiro e se realmente o milagre de tirar algo do nada ocorreu milhões de vezes entre as duas para ser fraudado outras tantas pela aniquilação absoluta. Quem me ouvir assegurar que este gato aqui brincando é o mesmo que saltitava e traquinava neste lugar há trezentos anos pensará de mim o que quiser, mas loucura mais estranha é imaginar que é fundamentalmente outro'. Ou seja, o indivíduo é de certo modo a espécie, e o rouxinol de Keats é também o rouxinol de Rute.

Coleridge
Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. Os últimos sentem que as classes, as ordens e os gêneros são realidades; os primeiros, que são generalizações; para estes, a linguagem não passa de um aproximativo jogo de símbolos; para aqueles, é o mapa do universo. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos, uma ordem; essa ordem, para o aristotélico, pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. Através das latitudes e das épocas, os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um é Parmênides, Platão, Spinoza, Kant, Francis Bradley; o outro, Heráclito, Aristóteles, Locke, Hume, William James. Nas árduas escolas da Idade Média, todos invocam Aristóteles, mestre da humana razão (Dante, Convivio, IV, 2), mas os nominalistas são Aristóteles; os realistas, Platão. O nominalismo inglês do século XIV ressurge no escrupuloso idealismo inglês do século XVIII; a economia da fórmula de Occam, entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem permite ou prefigura o não menos taxativo esse est percipi.

John Keats
Os homens, disse Coleridge, nascem aristotélicos ou platônicos; da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotélica. O real, para essa mente, não são os conceitos abstratos, e sim os indivíduos; não o rouxinol genérico, e sim os rouxinóis concretos. E natural, é talvez inevitável, que na Inglaterra a Ode a um rouxinol não seja bem compreendida."

Jorge Luís Borges, Outras Inquisições

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

OS 40 ANOS DA MORTE DE RUBENS PAIVA

Passou quase despercebido o 40º aniversário, no último dia 20 de janeiro, do assassinato do ex-deputado Rubens Beyrodt Paiva, pai do jornalista Marcelo Rubens Paiva. Deputado federal pelo antigo PTB em 1962, Rubens Paiva integrava a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava as atividades do IPES/IBAD - entidades ligadas à UDN e criadas com o financiamento de várias empresas para combater o governo do presidente João Goulart. O IPES era dirigido pelo general Golberi do Couto e Silva, que seria um dos principais articuladores do golpe de 1964. A CPI descobriu que vários cheques recebidos pelo IPES/IBAD eram enviados para alguns militares. 

Cassado em 10 de abril de 1964, Rubens Paiva exilou-se com a família na Iugoslávia e depois na França. Meses depois, contudo, voltou ao Brasil e retomou suas atividades de engenheiro. Não apoiava a luta armada, nem estava ligado a nenhuma organização clandestina, mas mantinha contato com perseguidos políticos. Junto com Fernando Gasparian, fundou o Jornal de Debates e dirigiu o Última Hora de São Paulo, até Samuel Wainer vender o jornal para o grupo Folha. Segundo o depoimento de Marcelo Rubens Paiva, o ex-deputado petebista "escondia perseguidos, tirava-os do Brasil por rotas secretas, dava passaporte falso, dinheiro, mandava relatos para a imprensa internacional [a daqui era censurada] sobre torturas e abusos dos direitos humanos". Numa ocasião, Paiva esteve no Chile para ajudar a filha exilada de um amigo. A prisão de duas pessoas com cartas para o ex-deputado levou a repressão a acreditar que ele tinha contato com o ex-capitão Carlos Lamarca, principal líder da oposição armada ao regime dos generais.  

Quartel da PE na Barão de Mesquita

No dia 20 de janeiro de 1971, uma equipe do CISA (Centro de Informações da Aeronáutica) prendeu Rubens Paiva em sua casa no Leblon. Ele se foi ao quartel dirigindo o próprio carro. Os agentes também prenderam a mulher do ex-deputado, Eunice, e uma de suas filhas, Eliana, de 14 anos. Ele foi barbaramente torturado pela equipe do facínora que atendia pelo nome de brigadeiro João Paulo Burnier - o mesmo que, no mesmo ano, mataria Stuart Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel. Mas, como Paiva era "peixe grande", foi requisitado pelo Exército e levado para o Doi-Codi, no quartel da PE na Barão de Mesquita, onde seria morto. Seu corpo jamais foi encontrado e os órgãos de segurança divulgaram a versão de que ele teria sido sequestrado por desconhecidos quando era tranportado ao Do-Codi. Há versões de que seu corpo teria sido jogado no mar ou esquartejado. Em 1996, a União reconheceu a responsabilidade na sua morte.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

AS METAMORFOSES DE GADDAFI


A "guerra de movimento"
Em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, os estados-maiores europeus acreditavam que os combates seriam rápidos e decisivos. Elaboraram então a estratégia de “guerra de movimento”. A Alemanha, por exemplo, idealizara o Plano Schlieffen, que consistia em lançar uma ofensiva fulminante contra a França, a tempo de voltar-se contra a frente russa. Acreditava-se que quando os russos tivessem completado a mobilização, os alemães já teriam derrotado os franceses e colocado suas divisões contra Moscou. O plano, porém, fracassou e os alemães foram detidos no Marne. Acabaram-se as esperanças de uma guerra curta.

A "guerra de posições"
Depois do fracasso da guerra de movimento, as frentes ocidentais se estabilizaram e começou a chamada guerra de desgaste, ou “guerra de posições” (1915-1918). Os soldados já não se deslocavam; apenas se escondiam nas trincheiras, esperando um possível ataque inimigo. O uso de artilharia pesada, metralhadoras e aviões impedia qualquer avanço da infantaria. Depois de um ano de guerra e mais de meio milhão de mortos, as frentes não foram modificadas. O impasse só seria resolvido em 1917, com a entrada dos EUA ao lado da Entende Cordiale.

A partir desses eventos, o pensador marxista italiano Antônio Gramsci adaptou os conceitos de “guerra de movimento” e “guerra de posições” para definir a estratégia das revoluções socialistas no Oriente e no Ocidente. No primeiro, em países como a Rússia, o Estado era tudo, e “a sociedade civil era primitiva e gelatinosa”. Neste caso, a conquista do poder se daria pela “guerra de movimento”, por meio da derrubada violenta da velha ordem. Mas nos países ocidentais, “havia uma justa relação entre Estado e sociedade civil e, diante dos abalos do Estado, podia-se divisar imediatamente uma robusta estrutura de sociedade civil. O Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual se situava uma cadeia de fortalezas e casamatas”. Nesse caso, a estratégia adequada era a “guerra de posições”, a conquista da hegemonia na sociedade civil como precondição para a conquista do poder político.

O coronel Gaddafi, inicialmente nasserista
Fiz essa longa digressão para falar um pouco da trajetória do ditador líbio Muammar al-Gaddafi. Ele chegou ao poder em 1969 por meio de um golpe militar contra a monarquia pró-ocidental do rei Ídris. Nos anos 1950, o monarca autorizara a instalação de bases americanas e britânicas no país; em 1959, foram descobertas jazidas de petróleo na Líbia. O regime chefiado por Gaddafi, uma combinação de nacionalismo árabe nasserista com islamismo, nacionalizou as empresas e bancos, retirou as bases militares anglo-americanas e expulsou estrangeiros, principalmente os judeus. O toque da shari’a, a lei islâmica, ficou por conta do fechamento de boates e da proibição de bebidas alcoólicas e jogos de azar.

Avião americano derrubado por terroristas líbios em Lockerbie
Durante os primeiros 25 anos de seu reinado, Gaddafi seguiu a estratégia da “guerra de movimento”: patrocinou grupos anti-israelenses e antiamericanos, como a Al-Fatah, o Setembro Negro e os Panteras Negras. Teve participação nos eventos das Olimpíadas de Munique de 1972, que resultaram no assassinato de 11 atletas israelenses pelo Setembro Negro. Gaddafi também teve um papel decisivo na decisão da Opep em 1973 de boicotar a exportação de petróleo aos países ocidentais depois da Guerra do Yom Kippur, o que gerou a primeira crise de energia dos anos 1970. Patrocinou ataques terroristas contra instalações militares americanas na Europa, o que levou os EUA a bombardearem as cidades líbias de Trípoli e Benghazi em 1986 (episódio em que morreram 130 pessoas, entre elas uma filha de Gaddafi). O ápice da ação de Gaddafi foi o atentado terrorista de Lockerbie, em 1992, quando agentes líbios colocaram uma bomba num avião de passageiros americano da Pam Am, fazendo-o explodir sobre a Escócia. Morreram 270 pessoas. Como Gaddafi se recusava a extraditar os dois líbios acusados pelo atentado, o Conselho de Segurança da ONU impôs um embargo comercial e aéreo contra a Líbia. O país e seu líder viraram párias internacionais.

Como profeta do "apelo islâmico"
A partir daí, Gaddafi fez uma inflexão mudou sua estratégia para a “guerra de posição”. Depois de ter apoiado o Irã contra o Iraque na guerra de 1980-1988, Trípoli rompeu relações com Teerã em 1993, denunciando o fundamentalismo islâmico. Gaddafi aceitou entregar os acusados e a pagar indenizações (US$ 2,7 bilhões) aos familiares do atentado de Lockerbie. As sanções da ONU foram suspensas em 1999. O ditador também suprimiu seu programa de armas de destruição em massa. Os EUA responderam tirando a Líbia da lista de “estados terroristas”. Internamente, Gaddafi promoveu reformas econômicas de cunho neoliberal para atrair investimentos estrangeiros. Logo, o “o cão louco do Oriente Médio” (Reagan) virou amiguinho de infância do Ocidente. Silvio Berlusconi é um dos que lhe fazem corte.

Mas a estratégia da “guerra de posição” de Gaddafi é bem mais sofisticada. Com os dólares do petróleo, ele financia a World Islamic Call Society (Wics), entidade que promove ações econômicas, humanitárias, educativas e, principalmente, religiosas, nos países da África. Países como Mali, Níger, Burkina Fasso, Chade, Senegal, Benin, Gana, Uganda, entre outros, já receberam professores, escolas do Alcorão, mesquitas, hospitais, remédios, roupas etc. Gaddafi persegue o sonho de unificação política do continente africano sob a bandeira do islamismo e hegemonia líbia. A intenção da Wics é a islamização e a arabização dos países africanos. Sua finalidade faria corar os aiatolás iranianos: “difundir o árabe, língua do glorioso Alcorão, pedindo a todos os estado que o adotem como língua oficial e fazer pressão sobre os Estados islâmicos para que adotem o sagrado Alcorão como fonte do direito e modifiquem as leis existentes para que estejam de acordo com os princípios do Islã". Na Líbia já vigora a shari’a, embora não sejam aplicadas as penas corporais como na Arábia Saudita. Depois de Gaddafi virou persona grata nas chancelarias ocidentais, não se tem notícia de essas ações causem preocupações em Washington.

Dize-me com quem andas...

Agora Gaddafi começa a ser desafiado por protestos populares contra sua ditadura - a mais recente manifestação do que parece ser a "primavera dos povos árabes e muçulmanos". Manifestantes saem às ruas de Benghazi, a segunda cidade líbia em importância. Ninguém sabe o que pode acontecer. Mas é irônico pensar que o líder que trocou a “guerra de movimento” pela “guerra de posição” possa acabar tendo o mesmo destino das monarquias na Primeira Guerra Mundial.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

CINEMA TRANSGRESSIVO


O Porteiro da Noite, de Cavani
Até 30 anos atrás, o cinemão, Hollywood incluído, se dirigia a um público adulto, esclarecido e liberal - no sentido americano da palavra. Mesmo sem a densidade dos filmes de Bergman, Godard, Truffaut e Buñuel, os diretores dos anos 1970 eram intelectualizados e apostavam na discussão de tabus ligados à sexualidade - que Freud chamava de o "mal-estar da civilização" - transgressões como incesto, sadomasoquismo e a tênue fronteira entre o prazer e a dor. Foi-se o tempo. Hoje, somos inundados por produções imbecilizantes, infantiloides, sagas de herois e arremedos de videogames. De olho no mercado, a indústria cinematográfica passou a ver o mundo com os olhos de adolescente mimado, consumista, conformista e bobalhão. É "estética de shopping center". Diretores remanescentes da velha escola, como Clint Eastwood, Woody Allen, Francis Ford Copolla, os irmãos Coen e Almodóvar, entre outros, são exceções que confirmam a regra.



Algumas das grandes produções polêmicas dos anos 1970:
O Porteiro da Noite (Liliana Cavani)


O Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci)

Sopro no Coração  (Louis Malle)


La Luna  (Bernardo Bertolucci)


COMO UM "CAPO" MAFIOSO


JFK e a estonteante Marilyn Monroe
Tradicionalmente, os escândalos sexuais de líderes políticos costumam ter maior repercussão em países anglo-saxônicos, onde o puritanismo calvinista ainda cobra seu dízimo de moralismo exacerbado. Nem sempre foi assim, no entanto: toda a mídia americana sabia que John Kennedy era priápico, mas seus casos rumorosos, como o envolvimento com Marilyn Monroe, jamais foram parar nas páginas dos jornais, a não ser depois de sua morte. Mas desde que o furor puritano renasceu sob a máscara do comportamento “politicamente correto”, há uns 30 anos, acostumamo-nos a ver políticos americanos e britânicos serem crucificados simplesmente por terem “pulado a cerca”. O senador Gary Hard e o ex-presidente Bill Clinton, ambos democratas, foram os exemplos mais paradigmáticos, embora também houvesse casos de políticos ultraconservadores moralistas apanhados com a, digamos, boca na botija - muitas vezes com pessoas do mesmo sexo.  

Anne Pingeot e Mazzarine, segunda família de Mitterrand
 Já nos países latinos, o público costuma fechar os olhos para as “escapadas” de seus dirigentes. O presidente francês François Mitterrand (1981-1995) é o caso mais notório: ele tinha uma filha com uma amante de longa data; os franceses sabiam disso o tempo todo e ninguém jamais se importou. Quando Mitterrand morreu, as duas famílias compareceram civilizadamente ao funeral e não houve escândalo. Por isso, chega a ser estranho que o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi – cuja carreira foi marcada por uma sucessão de ilegalidades, corrupção, obstrução da Justiça, intimidação de jornalistas e abuso do poder, esteja sendo colocado nas cordas justamente por exacerbação de comportamento machista e patriarcal. No domingo, cerca de um milhão de pessoas, a grande maioria mulheres, foram às ruas de mais de 200 cidades italianas para exigir a renúncia do Cavaliere, acusado de promover bacanais com prostitutas, inclusive menores de idade - ele está sendo processado por supostamente ter tido relações sexuais com Ruby, uma menina de 17 anos.

Curiosamente, uma das observações mais argutas sobre a manifestações de domingo partiu da deputada Giulia Bongiorno, do partido Futuro e Liberdade, grupo dissidente de Gianfranco Fini: “Não estou aqui para criticar as festas hard, mas para denunciar que se converteram em um sistema de seleção da classe dirigente. Quem cala pode converter-se em cúmplice. Este não é um protesto de moralistas, como disseram nesses dias com o intento de diminuir o comparecimento. Eles têm medo de nós”.

Savonarola
Esse comentário da parlamentar parece ser uma resposta aos guardiões do premiê, como Giulianno Ferrara, diretor de Il Foglio e conselheiro político de Berlusconi. Ele atribui o repúdio moral a Berlusconi a um suposto puritanismo que aspiraria a converter a Itália em uma “República da virtude”. Ferrara comparou esse puritanismo à Inquisição espanhola, mas poderia ter se lembrado de seu conterrâneo Girolamo Savonarola, frade dominicano que transformou Florença numa teocracia no século XV.

Algumas manifestações da oposição a Berlusconi, de fato, são ambiguas o suficiente para deixar margem a esse tipo de crítica. A líder sindical Susanna Camussoda (CGIL), por exemplo, disse que “o problema é mais cultural do que político: o bombardeio televisivo contra a dignidade da mulher produziu uma mutação antropológica na Itália”. Clamar contra o "bombardeio televisivo contra a dignidade da mulher" cheira à sacristia e à censura das "senhoras de Santana".

Felizmente a maioria dos líderes dos protestos parecem ter se dado conta da armadilha moralista e tentam direcioná as manifestações para além da crítica a Berlusconi. O manifesto Existem outras mulheres, que já reuniu 100 mil assinaturas, por exemplo, diz que a questão central da Itália hoje é “a ausência de educação, de cultura, de consciência, de dignidade. A falta de uma alternativa convincente. Este é o dano produzido pelos 15 anos que temos atravessado, este é o delito político cometido: o vazio, o vôo em queda livre à Idade Média católica, a Itália reduzida a um bordel”. 

Shukri Said, da associação Migrare, vai mais longe: “Vivemos num país de joelhos, com uma classe dirigente apodrecida, feita de fantoches sem credibilidade. Estes homens tentam nos dizer agora que corromper a menores com dinheiro é só um fato privado. Que pressionar a polícia para soltar uma menor é o normal, e que os atacamos por que somos puritanos. Isso sim é relativismo, e não o que preocupa o papa. O berlusconismo é uma patologia porque considera que tudo é comprável." Finalmente, a pediatra Mariolina, uma anônima militante do Partido Democrático - pálido sucessor do Partido Comunista Italiano - põe o dedo na ferida: "Fracassamos como cidadãos, deixamos nossos filhos sem futuro", disse ela ao jornal espanhol El País. Tenho raiva e uma tristeza infinita. Tudo isso seria útil se nos revelasse que existe outro país por aí afora. Mas duvido muito. Este país não se indigna. Há muitas mães que trabalham como mulas e ensinam a seus filhos valores e dignidade, mas elas não protestam. O que estamos passando não é culpa de Berlusconi e suas televisões; é sobretudo culpa nossa, que delegamos poder a uma classe política que não sabe nos representar e não fazemos nada". 

Al Capone

Berlusconi e le sue ragazze
De qualquer forma, o fato de o mafioso Berlusconi estar sendo finalmente enredado na Justiça por corrupção de menores, o menor de seus "pecados", lembra o caso de Al Capone, preso e condenado não por assassinatos e assaltos, mas por sonegação do imposto de renda...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

QUAL SERÁ O PRÓXIMO "DIRIGENTE MODERADO" A CAIR?


Hosni Mubarak. Esse já era


 Rei Abdullah, da Arábia Saudita

Abdelaziz Bouteflika, Argélia




Rei Mohammed VI, Marrocos



















Omar al-Bashir, Sudão

Rei Abdullah II, Reino Hachemita da Jordânia



















"Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra 'ditadura' aplicada a Tunísia de Ben Ali e ao Egito de Mubarak, os franceses devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois 'países amigos' eram 'Estados moderados'? A horrível palavra 'ditadura' não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da 'espantosa tirania' de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia. Sua prodigiosa vitória liberou os europeus da 'retórica hipócrita de ocultamento' em vigor em nossas chancelarias e em nossa mídia. Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que sabíamos há algum tempo, a saber, que as 'ditaduras amigas' não são mais do que isso: regimes de opressão.

Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a 'linha oficial': fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados. Por acaso Nicolás Sarkozy não teve a altivez de assegurar que na Tunísia 'havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida', ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Ali-Trabelsi?

[...]

Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelas democracias europeias, que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical. O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.


Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, na Europa, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso. E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores (conferir o admirável trabalho da Al-Jazeera), preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.


Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de 'exceção árabe', mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: 'Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antissecularismo. As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção'.


Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde. Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de 'amadurecer' e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução. Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que 'tudo mude sem que nada mude', segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: 'Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade'. Nas 'democracias vigiadas' é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.


A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias – as mais velhas do mundo – estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que 'tigres de papel'. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.


Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.

Neste último país, uma monarquia absoluta, na qual o resultado das 'eleições' (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros 'da soberania', algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas. Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.


No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta 'ditadura amiga' se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos responsáveis políticos, os quais minimizam os sinais do começo de um 'contágio' da rebelião. Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat. Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as 'rebeliões do pão'. Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohammed VI e alguns colaboradores teriam viajado à França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês.


Ainda que as autoridades desmintam as duas últimas informações, está claro que a sociedade marroquina está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas feudais. E para cobrar todos aqueles que, na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas 'ditaduras amigas'".

Ignacio Ramonet