sexta-feira, 15 de outubro de 2010

DUAS PERCEPÇÕES ANTAGÔNICAS: VARGAS LLOSA E JOSÉ CARLOS MARIATÉGUI


Mário Vargas Llosa
O Prêmio Nobel de Literatura concedido este ano ao escritor peruano Mário Vargas Llosa é mais do que merecido. Ele é um dos maiores nomes da literatura universal e latino-americana, ao lado de Jorge Luís Borges, Júlio Cortázar, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo, Mário Benedetti, Guimarães Rosa e Juan Carlos Onetti. Escreveu obras-primas como As Travessuras da Menina Má, Cadernos de Don Rigoberto, A Guerra do Fim do Mundo, Elogio da Madrasta, Tia Júlia e o Escrevinhador, Pantaleão e as Visitadoras e Conversa na Catedral, entre outras. Mas sua percepção política é absolutamente oligárquica, independentemente da opção econômica neoliberal que ele abraçou há mais de 20 anos, quando tentou ser presidente do Peru. Seu livro mais recente, Sabres e Utopias - na verdade uma coletânea de suas reflexões políticas – trai o desprezo que, como representante da aristocracia branca peruana, sente pela maioria indígena de seu país e da América Latina. Seu conterrâneo, o pensador marxista José Carlos Mariatégui (1894-1930), ao contrário, soube captar exatamente esse sentimento de superioridade da oligarquia em relação à maioria do povo. Para Mariatégui, esse descompromisso com o povo revelava a impossibilidade de a burguesia nacional peruana ter qualquer papel na luta anti-imperialista não só no Peru, mas em toda a América Latina: 

“La aristocracia y la burguesía criollas no se sienten solidarizadas con el
José Carlos Mariatégui
pueblo por el lazo de una historia y de una cultura comunes. En el Perú, el aristócrata y el burgués blancos, desprecian lo popular, lo nacional. Se sienten, ante todo, blancos. El pequeño burgués mestizo imita este ejemplo. La burguesía limeña fraterniza con los capitalistas yanquis, y aún con sus simples empleados, en el Country Club, en el Tennis y en las calles. [...] Tampoco tiene este escrúpulo la muchacha de la clase media. La ‘huachafita’ que puede atrapar un yanqui empleado de Grace o de la Foudation lo hace con la satisfacción de quien siente elevarse su condición social. El factor nacionalista, por estas razones objetivas... no es decisivo ni fundamental en la lucha anti-imperialista en nuestro medio.”


Qualquer semelhança com a oligarquia paulista, que se acha a quintessência da sofisticação e tem ojeriza ao Lula e ao “Zé Povinho”, NÃO É mera coincidência. Figueiredo, o ditador que não gostava de cheiro de povo, é sua mais completa tradução...

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