sexta-feira, 29 de julho de 2011

GOEBBELS APENAS COPIOU...


Edwuard Bernays, mestre da propaganda

As técnicas de propaganda em massa foram aplicadas pela primeira vez nos Estados Unidos no início do século XX. Os responsáveis foram o jornalista americano Walter Lippman e o psicólogo austríaco Edward Bernays - este autor, entre outros, do livro Propaganda. Ambos trabalharam para o governo do presidente Woodrow Wilson durante a Iira Guerra Mundial. A missão deles era convencer a opinião pública norte-americana, fortemente isolacionista, a entrar no conflito ao lado da Entente Cordiale (França e Reino Unido) contra as "potências centrais" (Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano). 

Joseph Goebbels, o chefe da propaganda nazista, foi um mero aprendiz dessas técnicas. O texto a seguir, do grande jornalista Mauro Santayana, publicado no JB Online, recupera um pouco dessa incrível história da propaganda:


Os assaltantes da consciência


Mauro Santayana

"Muitos cometemos o engano de atribuir a Goebbels a ideia da manipulação das massas pela propaganda política. Antes que o ministro de Hitler cunhasse expressões fortes, como Deutschland, erwacht!, Edward Bernays começava a construir a sua excitante teoria sobre o tema.

Bernays, nascido em Viena, trazia a forte influência de Freud: era seu duplo sobrinho. Sua mãe foi irmã do pai da psicanálise, e seu pai, irmão da mulher do grande cientista. Na realidade, Bernays teve poucas relações pessoais com o tio. Com um ano de idade transferiu-se de Viena para Nova Iorque, acompanhando seus pais judeus. Depois de ter feito um curso de agronomia, dedicou-se muito cedo a uma profissão que inventou, a de Relações Públicas, expressão que considerava mais apropriada do que 'propaganda'. Combinando os estudos do tio sobre a mente e os estudos de Gustave Le Bon e outros, sobre a psicologia das massas, Bernays desenvolveu sua teoria sobre a necessidade de manipular as massas, na sociedade industrial que florescia nos Estados Unidos e no mundo. O texto que se segue é ilustrativo de sua conclusão:

'A consciente e inteligente manipulação dos hábitos e das opiniões das massas é um importante elemento na sociedade democrática. Os que manipulam esse mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível, o verdadeiro poder dirigente de nosso país. Nós somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos formados, nossas idéias sugeridas amplamente por homens dos quais nunca ouvimos falar. Este é o resultado lógico de como a nossa “sociedade democrática” é organizada. Vasto número de seres humanos deve cooperar, desta maneira acomodada, se eles têm que conviver em sociedade. Em quase todos os atos de nossa vida diária, seja na esfera política ou nos negócios, em nossa conduta social ou em nosso pensamento ético, somos dominados por um relativamente pequeno número de pessoas. Elas entendem os processos mentais e os modelos das massas. E são essas pessoas que puxam os cordões com os quais controlam a mente pública.'

Bernays entendeu que essa manipulação só é possível mediante os meios de comunicação. Ao abrir a primeira agência de comunicação em Nova Iorque, em 1913 – aos 22 anos – ele tratou de convencer os homens de negócios que o controle do mercado e o prestígio das empresas estavam 'nas notícias', e não nos anúncios. Foi assim que inventou o famoso press release. Coube-lhe também criar 'eventos', que se tornariam notícias. Patrocinou uma parada em Nova Iorque na qual, pela primeira vez, mulheres eram vistas fumando. Contratou dezenas de jovens bonitas, que desfilaram com suas longas piteiras – e abriu o mercado do cigarro para o consumo feminino. Dele também foi a idéia de que, no cinema, o cigarro tivesse, como teve, presença permanente – e criou a merchandising. É provável que ele mesmo nunca tenha fumado – morreu aos 103 anos, em 1995.

Joseph Goebbels
A prevalência dos interesses comerciais nos jornais e, em seguida, nos meios eletrônicos, tornou-se comum, depois de Bernays, que se dedicou também à propaganda política. Foi consultor de Woodrow Wilson, na Primeira Guerra Mundial, e de Roosevelt, durante o New Deal. É difícil que Goebbels não tivesse conhecido seus trabalhos.

A técnica de manipulação das massas é simples, sobretudo quando se conhecem os mecanismos da mente, os famosos instintos de manada, aos quais também ele e outros teóricos se referem. O 'instinto de manada' foi manipulado magistralmente pelos nazistas e, também ali, a serviço do capitalismo. Krupp e Schacht tiveram tanta importância quanto Hitler. Mas, se sem Hitler poderia ter havido o nazismo, o sistema seria impensável sem Goebbels. E Goebbels, ao que tudo indica, valeu-se de Bernays, Le Bon e outros da mesma época e de idéias similares.

A propósito do 'instinto de manada' vale a pena lembrar a definição do fascismo por Ortega y Gasset: um rebanho de ovelhas acovardadas, juntas umas às outras pêlo com pêlo, vigiadas por cães e submissas ao cajado do pastor. Essa manipulação das massas é o mais forte instrumento de dominação dos povos pelas oligarquias financeiras. Ela anestesia as pessoas – mediante a alienação – ao invadir a mente de cada uma delas, com os produtos tóxicos do entretenimento dirigido e das comunicações deformadas.

Extracomunitários, os indesejáveis da Europa "civilizada"

É o que ocorre, com a demonização dos imigrantes 'extracomunitários' nos países europeus, mas, sobretudo, dos procedentes dos países islâmicos. Acossados pela crise econômica, nada melhor do que encontrar um 'bode expiatório'- como foram os judeus para Hitler, depois da derrota na Primeira Guerra - e, desesperadamente, organizar nova cruzada para a definitiva conquista da energia que se encontra sob as areias do Oriente Médio. Se essa conquista se fizer, há outras no horizonte, como a dos metais dos Andes e dos imensos recursos amazônicos. Não nos esqueçamos da 'missão divina' de que se atribuía Bush para a invasão do Iraque – aprovada com entusiasmo pelo Congresso.

É preciso envenenar a mente dos homens, como envenenada foi a inteligência do assassino de Oslo – e desmoralizar, tanto quanto possível, as instituições do Estado Democrático – sempre a serviço dos donos do dinheiro. Quem conhece os jornais e as emissoras de televisão de Murdoch sabem que não há melhor exemplo de prática das idéias de Bernays e Goebbels do que a sua imensa empresa.

Quisling, o colaboracionista norueguês

São esses mesmos instrumentos manipuladores que construíram o Partido Republicano americano e hoje incitam seus membros a impedir a taxação dos ricos para resolver o problema do endividamento do país, trazido pelas guerras, e a exigir os cortes nos gastos sociais, como os da saúde e da educação. Essa mesma manipulação produziu Quisling, o traidor norueguês a serviço de Hitler durante a guerra, e agora partejou o matador de Oslo."

quarta-feira, 27 de julho de 2011

OS DEFENSORES DO OCIDENTE

O extremista norueguês Anders Breivik não é louco nem desajustado, como mostrou seu "manifesto"; é um fanático e assassino, assim como Hitler, Mussolini, Ante Pavelic e Radovan Karadzic. É preciso parar com essa estultice politicamente correta de medicalizar a política e dar nome aos bois. O argumento da insanidade de Breivik é uma manifestação do desconforto pelo fato de ele ser "igual" a nós (branco, ocidental e cristão)... Não dá pra esquecer que a xenofobia europeia contemporânea, mesmo aquela que se apresenta com "face humana", é herdeira direta do nazi-fascismo, com a única diferença que trocou a demonização de judeus pela de muçulmanos. 
  
Deu na BBC Brasil:


"Deputado italiano elogia ideias de atirador norueguês

O deputado italiano Mario Borghezio causou polêmica em seu país ao dizer que algumas das ideias do atirador norueguês Anders Behring Breivik são 'boas' e outras 'ótimas'.
Loucos, não; criminosos

O militante de extrema-direita matou 76 pessoas na última sexta-feira, em um atentado a bomba contra a sede do governo da Noruega, em Oslo, e ao abrir fogo contra jovens do Partido Trabalhista (do governo) que se reuniam em um acampamento de verão na ilha de Utoeya.


Membro da Liga Norte, partido de extrema-direita que faz parte do governo de Silvio Berlusconi, e deputado italiano no Parlamento Europeu, Borghezio disse concordar com Breivik "na oposição ao Islã e na sua acusação explícita de que a Europa se rendeu antes mesmo de lutar contra a islamização".


'Algumas das ideias que ele expressou são boas, exceto a violência. Algumas outras são ótimas', disse Borghezio.


Apoio e renúncia
As declarações de Borghezio à rádio Il Sole-24 Ore causaram revolta entre outros eurodeputados e políticos italianos. Membros da oposição já pedem sua renúncia.

A eurodeputada britânica Nikki Sinclaire criticou Borghezio e a Liga Norte, dizendo que seu 'coração está com as vítimas' e que não há 'justificativa' para o massacre na Noruega.


O partido de Borghezio, a Liga Norte, tem base no norte da Itália, é contra a entrada de imigrantes na Europa e é conhecido pelo discurso anti-Islã.

O italiano, no entanto, não é o único político europeu a mostrar admiração pelo atirador norueguês. Jacques Coutela, membro da Frente Nacional, de Jean Marie Le Pen, na França, foi suspenso do partido de direita ao descrever Breivik como 'o maior defensor do Ocidente'.

'A razão para os ataques terroristas na Noruega: lutar contra a invasão muçulmana, que é o que não querem que você saiba' escreveu o francês em seu blog.

Anders Breivik

Por outro lado, Stephen Lennon, líder do partido de extrema-direita britânico Liga de Defesa Inglesa (EDL), condenou os ataques na Europa.

'O que aconteceu em Oslo mostra como as pessoas estão desesperadas na Europa', disse o líder direitista britânico.


Breivik chegou a veicular na internet sua admiração por Stephen Lennon, conhecido pela retórica anti-imigração."



Abaixo, um documentário da BBC sobre o racismo muito bem feito. São quase três horas, mas vale a pena!











ADEUS À LINGUAGEM

Grande Godard! Aos 80 anos, ele está em plena forma. Apesar de ele ser um chato e, por vezes, pernóstico, não dá pra negar sua genialidade e seu espírito iconoclasta, bem típico dos rebeldes anos 1960. “Os gregos nos deram a lógica. Temos uma dívida com eles por isso. Foi Aristóteles quem propôs o grande ‘logo’... Usamos essa palavra milhões de vezes para tomar nossas decisões mais importantes. É hora de começarmos a pagar por ela”, disse o diretor de Film Socialisme. “Se formos obrigados a pagar à Grécia cada vez que usarmos a palavra ‘logo’, a crise acabará em um dia. A cada vez que Angela Merkel disser aos gregos: “nós emprestamos todo esse dinheiro a vocês, logo vocês precisam nos pagar de volta com juros’, ela será obrigada, logo, a pagar primeiro aos gregos pelos royalties.”


Paralelamente, o cineasta se lança numa batalha por uma “nova república das imagens” livre do domínio das leis de propriedade intelectual, segundo definiu o jornal britânico The Guardian. “Este novo cinema será recortado e colado em um mundo para além do copyright, onde o direito do autor passará a ser visto com o algo tão medieval como o ‘droit du seigneur’ (o suposto direito dos senhores feudais de deflorar donzelas que viviam em seus domínios, antes de elas se casarem)”, diz o jornal. “Nos anos 1930-1950, Hollywood sabia fazer filmes como ninguém. Hoje, nem mesmo os noruegueses conseguem fazer filmes tão ruins quanto os americanos”, alfineta Godard. “Houve uma época em que pensávamos que fôssemos autores, mas não éramos. O cinema acabou. É triste que ninguém esteja explorando o cinema realmente. De qualquer maneira, com os celulares e tudo o mais, hoje todo mundo é autor”.




segunda-feira, 25 de julho de 2011

O FRACASSO LHES SUBIU À CABEÇA

Uma análise extremamente lúcida do Nobel de Economia Joseph Stiglitz sobre o tamanho da bomba-relógio que a viseira ideológica da direita republicana e europeia está produzindo e que pode explodir em todo o mundo globalizado.  

A crise ideológica do capitalismo ocidental


Joseph Stiglitz (*)

O economista Joseph Stiglitz
Apenas alguns anos atrás, uma poderosa ideologia – a crença nos mercados livres e sem restrições – levou o mundo à beira da ruína. Mesmo em seus dias de apogeu, desde o princípio dos anos oitenta até o ano de 2007, o capitalismo desregulado ao estilo norte-americano trouxe maior bem estar material só para os mais ricos no país mais rico do mundo. De fato, ao longo dos 30 anos de ascensão dessa ideologia, a maioria dos norte-americanos viu suas receitas diminuir ou estancar ano após ano.

Mais do que isso, o crescimento da produção nos Estados Unidos não foi economicamente sustentável. Com tanto da receita nacional do país sendo destinada para tão poucos, o crescimento só podia continuar por meio do consumo financiado por uma crescente acumulação da dívida. Eu estava entre aqueles que esperavam que, de alguma maneira a crise financeira pudesse ensinar aos norte-americanos (e a outros) uma lição acerca da necessidade de maior igualdade, uma regulação mais forte e um melhor equilíbrio entre o mercado e o governo. Desgraçadamente, isso não ocorreu. Ao contrário, um ressurgimento da economia da direita, impulsionado como sempre, por ideologia e interesses especiais, uma vez mais ameaça a economia mundial – ou, ao menos, as economias da Europa e dos EUA, onde estas ideias continuam florescendo.

Nos EUA, este ressurgimento da direita, cujos partidários, evidentemente, pretendem derrogar as leis básicas da matemática e da economia, ameaça provocar uma moratória da dívida nacional. Se o Congresso ordena gastos que superam as receitas, haverá um déficit e esse déficit deve ser financiado. Em vez de equilibrar cuidadosamente os benefícios da cada programa de gasto público com os custos de aumentar os impostos para financiar tais benefícios, a direita procura utilizar um pesado martelo – não permitir que a dívida nacional aumente, forçando os gastos a limitarem-se aos impostos.


Isso deixa aberta a interrogação sobre quais gastos terão prioridade – e se os gastos para pagar juros da dívida nacional não forem prioridade, uma moratória é inevitável. Além disso, cortar os gastos agora, em meio de uma crise em curso provocada pela ideologia de livre mercado, simples e inevitavelmente só prolongaria a recessão.

Há uma década, em meio a um período de auge econômico, os EUA enfrentavam um superávit tão grande que ameaçou eliminar a dívida nacional. Reduções de impostos insustentáveis e guerras, uma recessão importante, crescentes gastos com saúde – impulsionados em parte pelo compromisso da administração de George W. Bush de outorgar às companhias farmacêuticas liberdade para a fixação de preços, inclusive com dinheiro do governo em jogo – rapidamente transformaram um enorme superávit em déficits recordes em tempos de paz.

Os remédios para o déficit dos EUA surgem imediatamente deste diagnóstico: os EUA devem trabalhar para estimular sua economia; deve-se por um fim às guerras sem sentido; controlar os custos militares e com medicamentos; aumentar impostos, ao menos para os mais ricos. Mas a direita não quer saber nada disso e está pressionando para obter ainda mais reduções de impostos para as corporações e os ricos, juntamente com os cortes de gastos em investimentos e proteção social, o que coloca o futuro da economia dos EUA em perigo e destrói o que resta do contrato social. Enquanto isso, o setor financeiro dos EUA pressiona fortemente para libertar-se das regulações, para que possa voltar às suas anteriores práticas desastrosas e despreocupadas.

Mas as coisas estão um pouco melhores na Europa. Enquanto a Grécia e outros países enfrentam crises a medicina em voga consiste simplesmente em pacotes de austeridade e privatização desgastados pelo tempo, os quais só deixarão os países que os adotarem mais pobres e vulneráveis. Esse remédio fracassou no leste da Ásia, na América Latina e em outros lugares e fracassará também na Europa. De fato, já fracassou na Irlanda, Letônia e na Grécia.


Há uma alternativa: uma estratégia de crescimento econômico apoiada pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional. O crescimento restauraria a confiança de que a Grécia poderia pagar suas dívidas, fazendo com que as taxas de juros baixem e deixando mais espaço fiscal para mais investimentos que propiciem o crescimento. O crescimento por si mesmo aumenta as receitas por meio dos impostos e reduz a necessidade de gastos sociais, como o pagamento de seguro-desemprego, por exemplo. Além disso, a confiança que isso engendra conduz a mais crescimento ainda.

Lamentavelmente, os mercados financeiros e os economistas de direita entenderam o problema exatamente ao contrário. Eles acreditam que a austeridade produz confiança e que a confiança produz crescimento. Mas a austeridade solapa o crescimento, piorando a situação fiscal do governo ou ao menos produzindo menos melhorias que as prometidas pelos promotores da austeridade. Em ambos os casos, se solapa a confiança e uma espiral descendente é posta em marcha.

Realmente precisamos de outro experimento custoso com ideias que fracassaram repetidamente? Não deveríamos precisar, no entanto, parece cada vez mais que teremos que suportar outro fracasso. Um fracasso na Europa ou nos Estados Unidos para voltar ao crescimento sólido seria ruim para a economia mundial. Um fracasso em ambos os lugares seria desastroso – inclusive se os principais países emergentes conseguirem um crescimento autossustentável. Lamentavelmente, a menos que prevaleçam as mentes sábias, este é o caminho para o qual o mundo se dirige.

(*) Economista, Prêmio Nobel de Economia de 2001


 

VIDA LOUCA, VIDA BREVE

Amy Winehouse (1983-2011).
Como disse meu amigo Thales de Menezes, é hora de esquecer a imagem dos últimos anos, em que Amy Winehouse aparecia bêbada, esquecendo letras e cantando pouco. "Amy resgatou para este século a tradição das divas do soul dos anos 1950 e 1960, sejam negras ou brancas, americanas ou britânicas. [...] Ser atrevida, casca-grossa e tatuada atraiu atenções. Ao deixar isso de lado e ouvir suas canções, fica a certeza de que ali está uma intérprete única, um vozeirão", escreveu Thales.

















E outros astros pop que morreram aos 27 anos: 

Janis Joplin (1943-1970)







Jimi Hendrix (1942-1970)



sexta-feira, 22 de julho de 2011

E QUANDO O INFERNO NÃO SÃO OS OUTROS?

Vítimas do atentado terrorista em Oslo
Várias explosões e um franco-atirador abalaram hoje a pacata capital da Noruega, Oslo, fazendo 93 vítimas fatais. As bombas atingiram edifícios do governo no centro, entre eles o prédio onde trabalha o primeiro-ministro Jean Stoltenberg, que não foi atingido. Sete pessoas morreram e 15 ficaram feridas nesse atentado. Pouco depois das explosões, um homem vestido de policial abriu fogo num acampamento de verão da ilha de Utoya repleto de jovens militantes do Partido Trabalhista (no poder). Segundo a polícia, 87 pessoas morreram. O responsável pelos dois atentados foi Anders Breivik, 32, um norueguês de extrema-direita e fundamentalista cristão.  

Desta vez, o extremismo islâmico não teve nada a ver com os atentados - o que causou certo incômodo para explicar tanta violência. Aliás, num manifesto divulgado pela internet Breivik vitupera contra a "islamização da Europa" e descreve os muçulmanos como "animais selvagens", classificando como "traidores" os políticos que permitem a entrada de muçulmanos na Noruega como parte das medidas para o "multiculturalismo".

É interessante notar que, neste caso, embora seja conhecida a motivação política do crime, procura-se desculpas para o fato de o perpetrador do massacre ser branco de olhos azuis, norueguês e de ter chachinado seus próprios compatriotas. O crime seria um ato de "loucura" de um desajustado. Nem tanto. Freud explica: "o eremita rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele. Pode-se, porém, fazer mais do que isso: pode-se tentar recriar o mundo, construir em seu lugar um outro mundo, no qual os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos" (O Mal-estar da civilização).          

Atentado terrorista ao King David, perpetrado pelo Irgun em 1946 
Curiosamente, num dia como hoje, 22 de julho de 1946, um atentado a bomba atingiu o King David Hotel em Jerusalém, e também matou 91 pessoas (28 britânicos, 41 árabes, 17 judeus e cinco de outras nacionalidades) e provocando ferimentos graves em outras 45 pessoas. Daquela vez também os responsáveis não foram terroristas árabes, mas a organização terrorista judaica Irgun Zvai Leumi (Organização Militar Nacional), liderada por um tal de Menachem Begin, que acabaria primeiro-ministro de Israel. A Palestina então estava sob mandato britânico, um status semicolonial.

Numa prova que o discurso antiterrorista das autoridades de Israel é enviesado, o próprio Begin, quando primeiro-ministro, se orgulhava de seu passado de terrorista. E mais recentemente, em julho de 2006, Benjamin Netanyahu, atual premiê, e outros políticos da direita, participaram de um evento comemorativo ao 60º aniversário do atentado ao King David. Foi colocada uma placa comemorativa no local em homenagem ao Irgun. O episódio gerou descontentamento por parte do Reino Unido, cujo embaixador em Israel lamentou o fato das autoridades israelenses terem autorizado a colocação da placa para homenagear um ato terrorista. Imaginem os palestinos fazendo algo semelhante... 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

OS MISTÉRIOS DE RUDOLF HESS

Os restos mortais de Rudolf Hess, um dos principais dignatários do regime nazista, foram retirados hoje do cemitério de Wunsiedel, na Bavária, exumados, queimados e jogados ao mar e seu túmulo foi destruído. A medida, segundo o jornal Süddeustsche Zeitung, foi tomada pelas autoridades para acabar com a peregrinação de neonazistas, que desde 2005 vêm acorrendo ao local todo dia 17 de agosto, aniversário da morte de Hess na prisão de Spandau, em Berlim.


Rudolf Hess
A trajetória de Rudolf Hess foi uma das mais enigmáticas do III Reich. Ele participou do fracassado putsch da cervejaria em Munique, em 1923, e ficou preso com Adolf Hitler. Na prisão de Landsberg, Hess transcreveu e editou o Mein Kampf, livro onde o futuro führer expunha suas ideias políticas. Com a ascensão dos nazistas ao poder, em 1933, Hess chegou a ser o terceiro na hierarquia do III Reich. Em maio de 1941, ele protagonizou um rocambolesco episódio que até hoje está envolto em mistério: voou para a Grã-Bretanha num Messerschmitt Bf-110 e saltou de paraquedas na Escócia. Uma das versões é de que Hess pretendia se encontrar o duque de Hamilton, a quem entregaria uma proposta de acordo pelo qual a Alemanha teria as mãos livres na Europa em troca de não mexer com o império britânico. O episódio ocorreu um mês antes de Hitler invadir a União Soviética na Operação Barbarossa. Hess foi preso e enviado à Torre de Londres. Na Alemanha, divulgou-se a versão de que ele “enlouquecera”. Em 1946, Hess foi condenado à prisão perpétua pelo Tribunal de Nuremberg. Mas, ao contrário de Albert Speer, Rudolf Hess não renegou seu credo nazista, mesmo depois de esse regime ter custado a aniquilação da Alemanha. Talvez por isso os neonazistas prestassem tantas homenagens a ele.

Os restos do Messerschmitt Bf-110 de Hess na Escócia
 O episódio da Inglaterra gerou inúmeras teorias conspiratórias. Uma das mais famosas diz que Hess foi vítima de uma armadilha montada pelo MI-6 (serviço de inteligência britânico), que teria interceptado a correspondência entre Hess e o duque de Hamilton. Os agentes então escreveram a Hess como se fossem o duque e Hitler, estimulado, teria mandado seu pupilo à Inglaterra com a proposta de que a Alemanha sairia da Europa ocidental em troca de ter as mãos livres para ocupar o leste europeu e a União Soviética. Outra versão, mais recente, diz que o MI-6 armou um complô para fazer Hess acreditar que alguns membros da família real, como o duque de Kent, conspiravam para depor Churchill.

A verdade, porém, só será conhecida em 2016, quando os últimos documentos oficiais secretos sobre o episódio forem liberados.

Rudolf Hess em Spandau
Rudolf Hess morreu em 1987 aos 93 anos na prisão de Spandau, onde ele era o único prisioneiro. Sobre sua morte também não existe consenso e as teorias conspiratórias correm solto. A versão oficial é de ele se suicidou por enforcamento. Mas há outra, a de que Hess teria sido assassinado por agentes britânicos. Esta versão sustenta que Hess estava tão debilitado que não teria conseguido se enforcar e que agentes do MI-6 infiltrados na prisão o teriam estrangulado para evitar que, uma vez em liberdade, pudesse revelar segredos embaraçosos para o governo britânico. Uma terceira versão sustenta que o homem julgado em Nuremberg em 1946 e mantido em Spandau por 40 anos não era Hess, mas um sósia. O argumento é que a autópsia de Hess não revelou a cicatriz de uma ferida que uma bala provocara em seu pulmão esquerdo durante a I Guerra Mundial. O verdadeiro Hess teria sido executado logo após sua captura. Um simples teste de DNA poderia esclarer essa dúvida, mas agora que queimaram o corpo...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

JORNALISMO NO BANCO DOS RÉUS

Rupert Murdoch faz contrição na Câmara dos Comuns
O escândalo Murdoch talvez seja o caso mais grave de manipulação de grandes conglomerados de mídia. Mas essas práticas espúrias do jornalismo não foram criação do magnata; elas existem desde que os jornais eram feitos em linotipos e vendidos nas ruas por moleques que gritavam as manchetes. O problema é que esses escândalos respingam na própria reputação do jornalismo investigativo, tido como “o verdadeiro jornalismo”. Como escreveu o articulista Alexander Lebedev, no Guardian de hoje: suponha que, em vez de usar táticas sujas contra uma adolescente de 13 anos seqüestrada, ou famílias de soldados mortos no Afeganistão, os jornalistas de Murdoch estivessem fazendo isso contra corruptos e poderosos como Madoff ou Gadaffi? “O jornalismo investigativo está se tornando uma espécie em extinção”, diz Lebedev. “Os ricos e poderosos são sempre protegidos por inúmeros advogados e leis de privacidade. Depois dessas lições sobre jornalismo ilegal e obscuro, quem se arriscará a praticar o jornalismo investigativo apropriado? Vamos agora permitir que apenas os mercados e as mídias sociais façam esse trabalho? [...] Não vamos esquecer o outro lado da moeda. E, antes de jogar toda a culpa em Murdoch, vamos produzir dezenas de concorrentes de Murdoch que iluminem cantos escuros [...]”.

Curiosamente, num dia como hoje (20 de julho), só que de 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, começava o julgamento de Henriette Caillaux, que assassinara a tiros o editor do Le Figaro, Gaston Calmette. Ela era mulher de Joseph Caillaux, líder político radical que tinha sido primeiro-ministro e ministro das Finanças da França. Sintomaticamente, o público francês estava mais preocupado com esse affaire, que tinha pitadas de corrupção, sexo e fofocas, do que com a grande tensão internacional provocada pelo assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando, em 28 de junho em Sarajevo (Sérvia), que desembocaria na Grande Guerra pouco depois.



Henriette Caillaux
Como o socialista Jean Jaurès, Joseph Caillaux era pacifista e isso lhe valeu o ódio da direita nacionalista e clerical, que o acusava, em 1911, de ser “leniente” com a Alemanha. Ele foi obrigado a renunciar ao cargo de primeiro-ministro em 1912. Raymond Poincaré, eleito presidente da República em 1913, defendia uma legislação para estender o pagamento de impostos para financiar as Forças Armadas – medida que Caillaux, ministro das Finanças, apoiava em público, mas boicotava nos bastidores. Gaston Calmette, o mais poderoso jornalista da França e editor do Le Figaro, porta-voz da direita, ameaçava publicar documentos que provariam que Caillaux obstruíra a Justiça que investigava num escândalo financeiro em que ele estaria envolvido. O editor também dizia que publicaria cartas de amor trocadas entre Caillaux e Henriette quando ele ainda estava casado com sua primeira esposa.

Gaston Calmette
Quando Calmette fez menção de publicar a intercepção de comunicações telegráficas que demonstrariam a simpatia de Caillaux pela Alemanha, este apelou para o presidente Poincaré, ameaçando tornar públicos telegramas que revelavam negociações secretas de Poincaré com a Santa Sé. Diante da ameaça, o presidente negou oficialmente a existência dos telegramas germânicos. Calmette, entretanto, mantinha a ameaça publicar as cartas de amor de Caillaux a Henriette. Isso era inédito numa época em que os jornais respeitavam a vida privada – por mais picante que fosse – dos figurões da sociedade. Calmette foi assassinado na redação com seis no dia 16 de julho de 1914.   

Joseph Caillaux
Apenas uma semana depois de iniciado, o júri chegou a um veredicto sobre Henriette Caillaux: inocente. A alegação era que se tratava de um crime passional. Numa época em que o feminismo apenas engatinhava, nem mesmo os socialistas e republicanos tiham coragem de levantar bandeiras em defesa da mulher. Paradoxalmente, no entanto, foi esse machismo acabou beneficiando Henriette Caillaux: seu advogado, Fernand Labori, convenceu o júri de que o crime de Henriette não fora um ato premeditado, mas um crime passional, resultado de “incontroláveis emoções femininas”. Como na época era amplamente aceito a ideia de que as mulheres não eram tão fortes emocionalmente quanto os homens, madame Caillaux foi absolvida. A Grande Guerra que se seguiu encobriu o caso Henriette Caillaux. E seria outra mulher, a bailarina-espiã Mata Hari, faria ressuscitar, em pleno conflito, o gosto da imprensa por fofocas e celebridades.

Prisioneiros famosos de Saint-Lazare: Henriette Caillaux



terça-feira, 19 de julho de 2011

SUICÍDIO ANUNCIADO


O corpo de Salvador Allende
Hoje, depois de exumar o corpo de Salvador Allende, uma perícia médica concluiu o que já se sabia há tempos: o presidente socialista chileno suicidou-se com um tiro de fuzil AK-47 no dia 11 de setembro de 1973, depois que o Palácio de La Moneda foi bombardeado e atacado por forças militares golpistas. À frente deles estava um general calhorda chamado Augusto Pinochet, comandante do Exército, que dias antes havia jurado “sacrificar a vida” pelo presidente. O homem que tentou implantar o socialismo pela via democrática no Chile se recusou a se entregar às forças da direita, como Getúlio Vargas, repetindo-lhe o gesto dramático de agosto de 1954 – algo que Allende admirava, segundo o jornalista Flávio Tavares. Desta vez, no entanto, a História desmentiu Marx e se repetiu não como farsa, mas como tragédia ampliada. Ou tragédia organizada, como disse o escritor colombiano Gabriel García Márquez, já que o golpe estava sendo orquestrado por Washington desde 1970. A infame ditadura de Pinochet infelicitou o povo chileno por 17 longos anos, mas finalmente as “novas alamedas” se abriram – embora muito mais tarde do que cedo...

Abaixo, o último discurso de Allende – sua “carta-testamento”.

"Certamente esta será a última oportunidade de falar para vocês. A Força Aérea bombardeou as torres da Rádio Postales e Rádio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção que são elas o castigo moral para aqueles que traíram o juramento que fizeram: soldados do Chile, comandantes titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Marinha, e o senhor Mendoza, general rasteiro que ainda ontem manifestara sua fidelidade ao governo, e também se autodenominou diretor geral da polícia. Perante estes fatos, só posso dizer aos trabalhadores: Eu não vou renunciar!

O Palácio La Moneda sob bombardeio

Colocado numa transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho certeza de que a semente que temos entregue à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente.


Eles têm a força e poderão nos submeter; porém, não se detêm os processos sociais nem com os crimes e nem com a força. A história é nossa, e os povos a fazem.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em respeito à Constituição e a lei, e que assim fez. Neste momento decisivo, o último em que eu posso dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação, criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, aquela que ensinou o general Schneider e reafirmada pelo comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estão em casa esperando com mãos alheias recuperar o poder de continuar a defender os seus lucros e seus privilégios.
Dirijo-me, sobretudo, à mulher simples de nossa terra, a mulher camponesa que acreditou em nós, a avó que trabalhou mais, à mãe que soube de nossa preocupação para as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, os profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição patrocinada por escolas privadas, por classes que defendem também as vantagens de uma sociedade capitalista de uns poucos.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo já se faz presente por muitas horas, nos ataques terroristas, explodindo pontes, cortando a linha férrea, destruindo os oleodutos e gasodutos, frente ao silêncio de quem tinha a obrigação de impedir. Eles não impediram. A história os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará até vocês. Não importa. A audiência vai continuar. Eu sempre estarei com vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria.


O povo deve defender-se, mas não sacrificar-se. O povo não deve deixar-se ser destruído ou crivado de balas, mas também não pode inclinar-se.


Trabalhadores da minha pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens superarão este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores!

Estas são as minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

GIGANTE EM TEMPOS DE PIGMEUS


Franklin Roosevelt
Até os anos 1960, a política internacional era dominada por estadistas do calibre de Franklin D. Roosevelt, Winston Churchill, Konrad Adenauer, Charles De Gaulle e Alcide De Gasperi, entre outros. A sofisticada visão histórica e a habilidade política desses líderes lhes permitiram enfrentar os dramáticos desafios colocados em seu tempo. Mas, de lá para cá, a qualidade dos dirigentes mundiais só vem caindo, atingindo um nível inimaginável apenas 20 anos atrás. Hoje, em meio a líderes tão patéticos como George W. Bush, Tony Blair, Angela Merkel, Nicholas Sarkozy e Silvio Berlusconi, mediocridades como Gerald Ford, Edward Heath, Helmut Schmidt, Georges Pompidou e até Giulio Andreotti se agigantam. É a conseqüência da espetacularização da política trazida pelo mundo pós-moderno – ou “líquido”, na definição de Zigmunt Bauman –, onde tudo que é sólido se desmancha no ar.
Nelson Mandela

Mas há uma exceção importante – e essa exceção impressiona pelo gigantismo do personagem. Trata-se de Nelson Rolihlahla Mandela, que hoje completa 93 anos. Ele se tornou o símbolo da luta contra uma das mais ignominiosas crias da civilização ocidental e cristã, o apartheid, regime de supremacia  branca na África do Sul que se baseava na leitura holandesa "reformada" da Bíblia sobre o “desenvolvimento separado” das raças. Mandela foi o líder da resistência armada ao apartheid, o maior símbolo da luta contra a tirania branca na África. Mas pegar em armas, embora tenha lhe custado 27 anos de prisão, foi mais "fácil" do que a ciclópica tarefa de liderar a transição do apartheid para uma democracia multirracial sem provocar um cataclismo social e político. Mandela reconciliou um país dilacerado por ódios profundos, quando poderia tê-lo mergulhado numa guerra civil em nome da vingança dos oprimidos. E, em vez de se eternizar no poder, como a maioria dos líderes de guerras de libertação, retirou-se depois de apenas um mandato. Poucos na História tiveram essa estatura.

    

domingo, 17 de julho de 2011

E LA NAVE VA




Deu na Agência Estado:
“A presidenta Dilma Rousseff afirmou neste sábado, em solenidade de início da construção do primeiro submarino nacional, que os submarinos construídos pelo País vão compor um quadro de defesa nacional ‘capaz de garantir ambiente pacífico no nosso País e garantir a segurança das nossas riquezas’. Em ato simbólico, Dilma participou do corte de uma chapa de aço na sede da Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep), no município de Itaguaí, a 70 km do Rio de Janeiro.


A chapa não será usada em submarinos. Ficará como uma espécie de marco da entrada do País no ramo da construção de veículos submersíveis de grande porte. Dilma recebeu também uma réplica do submarino convencional. ‘Esses submarinos vão compor um quadro de defesa nacional, jamais de ataque, porque somos um país comprometido com a paz. O País passa a ter um valor muito grande com a descoberta do pré-sal na plataforma continental’, afirmou a presidente.


Ela ressaltou que o início da construção de submarinos é um ‘momento estratégico’ para o País. ‘Sabemos que um pequeno grupo de países domina a construção do submarino, em especial os de propulsão nuclear. O Brasil dá mais um passo em direção à afirmação cada vez maior de sua condição de país desenvolvido, com indústria sofisticada’, disse a presidente, lembrando que o grande mérito da operação foi a transferência de tecnologia.


O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) da Marinha prevê a construção de quatro unidades convencionais (sigla S-BR, de submarino brasileiro), da classe Scorpène, com tecnologia francesa. Firmado em 2008 na França, o contrato, que prevê transferência de tecnologia para o Brasil, está orçado em R$ 6,7 bilhões.

De acordo com a Marinha, o primeiro dos quatro submarinos deverá estará pronto em 2016, com a entrada em operação marinha em meados do ano seguinte. O Ministério da Defesa informou que o corte da chapa de aço significa o primeiro passo para a construção do submarino brasileiro com propulsão nuclear (SN-BR), cuja previsão de entrega é 2023.


Na solenidade, também foi anunciada a construção de um estaleiro, com término da obra fixado em 2014. Também será erguida em Itaguaí uma base naval e a Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (Ufem). A Nuclep produzirá os cilindros que formarão os corpos dos submarinos.


Segundo o Ministério, as obras físicas gerarão 9.000 empregos diretos e 27 mil indiretos. As obras dos submarinos empregarão 10 mil trabalhadores, dos quais 2.000 diretos.”

Janot de Matos, o almirante-bucaneiro

E pensar que, no governo do iluminado FHC, estivemos quase a ponto de enterrar o projeto de submarino nuclear, numa operação comandada pelo almirante Euclides Janot de Matos, que foi chefe do Estado-Maior da Armada e quase chegou ao comando da Marinha. Em 2009, Janot se tornou o primeiro oficial de quatro estrelas das Forças Armadas brasileiras a ser preso por corrupção. Ele foi fisgado na Operação Luxo, da Polícia Federal do Ceará, junto com os donos do estaleiro Inace (Indústria Naval do Ceará) e da empresa Marimar. Todos são acusados de integrar um esquema de importação ilegal de artigos subfaturados. O ponto de partida foi uma denúncia oferecida em 2006 pelo Ministério Público Federal do Ceará. Nela, Matos é acusado de receber de presente o Bucaneiro, um trawler (espécie de superiate), por intermediar ilegalmente negócios do Inace com a Marinha.

sábado, 16 de julho de 2011

NAOMI KLEIN E O "CAPITALISMO DE DESASTRE"


Naomi Klein
Em setembro 2007, a jornalista e ativista canadense Naomi Klein publicou o livro The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism (A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre), no qual descreveu como as grandes corporações multinacionais e os Estados, principalmente o americano, aproveitam dos desastres naturais, das guerras ou outros choques culturais para avançar políticas de liberalização econômicas. Isso produz empobrecimento das populações, enriquecimento de uma minoria de capitalistas sem escrúpulos e, normalmente, tumultos que são duramente reprimidos. Para ela, esses modelo nasceu há 50 anos, na Universidade de Chicago, por inspiração direta de Milton Friedman, o papa do neoliberalismo e guru econômico de Pinochet.



Numa entrevista, ela ligou o conceito de capitalismo de desastre ao de "destruição criativa", de Joseph Schumpeter, no sentido de que o capitalismo cria crises e executa constantemente criação e destruição. Segundo a autora, “trata-se aqui de uma estratégia política deliberada, de uma filosofia de poder; não apenas de ciclos naturais do capitalismo, em que uma nova tecnologia destrói um modelo econômico anterior e, a partir dessa destruição, um novo nível de criação surge. Trata-se de um conceito que foi profundamente compreendido e articulado por Williamson: que você precisa de uma crise para aprovar um conjunto específico de diretrizes econômicas. Acho que há algo de novo e antigo no que estou documentando.

Vítima do furacão Katrina, que atingiu New Orleans em 2005
Veja o que aconteceu com após o furacão Katrina, exemplo clássico do capitalismo do desastre. Não considero o Katrina um desastre "natural" porque foi envolveu uma clara omissão do Estado - no sentido de que as barragens estavam deterioradas. Imediatamente depois do ocorrido, um político republicano, Richard Baker, disse ‘não pudemos limpar os projetos de conjuntos habitacionais, mas Deus fez isso por nós’. Isso é o capitalismo do desastre! [...]. Mas, o que há de novo aqui, e que vimos em Nova Orleans, é que não apenas o desastre foi utilizado para a privatização do sistema educacional e habitacional, mas a resposta ao próprio desastre foi vista como oportunidade de mercado. E essa é realmente a última fronteira para o neoliberalismo. Todas as partes do estado foram privatizadas: estradas, eletricidade, telefone, água. Havia sobrado apenas as funções fundamentais: os militares, a polícia, os bombeiros. Mas agora estamos assistindo ao surgimento de um complexo do capitalismo do desastre: negócios que dependem diretamente desse conjunto de crises e desastres. Bombeiros privados, empresas como a Blackwater (empresa militar privada), que apareceu em Nova Orleans pronta para substituir a policia, o Helpjet, um serviço que proporciona um plano de fuga rápido e luxuoso, com direito a limosine, no caso de furacão. Acho que estamos vendo isso agora na crise dos alimentos, no sentido de que esse desastre torna altamente lucrativo o setor corporativo do agrobusiness. Acho que precisamos entender os desafios que enfrentamos, principalmente relativos à mudança climática. Está muito claro que existe uma parcela da economia cujo desempenho é favorecido conforme a situação piora. Não são apenas as empresas de armamentos. São as companhias de petróleo, de agronegócios, de biocombustíveis, farmacêuticas, empreiteiras, companhias de segurança. Precisamos mapear essas empresas que, com um lobby poderoso, impedem mudanças efetivas para nos tirar desse processo de crises contínuas”.

Abaixo, um vídeo extremamente elucidativo - apesar da tradução capenga - sobre a “doutrina do choque e capitalismo de desastre”:


A Doutrina do Choque from Muito Aterrorizado on Vimeo.