terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A QUEM SERVE A AUSTERIDADE?

Emnquanto a Europa afunda como Titanic na crise fiscal e financeira, os mercados continuam exigindo austeridade, austeridade e austeridade - à custa de empregos, salários e da soberania cada vez maior dos países da zona do euro. O artigo de Paul Krugman discute esse obsessão e as alternativas a ela. 

Dor sem ganho



Paul Krugman, no New York Times



Paul Krugman

Na semana passada, a Comissão Europeia confirmou o que todo mundo já suspeitava: as economias que ela monitora estão encolhendo, não estão crescendo. Ainda não é oficialmente uma recessão, mas a única pergunta verdadeira é: qual será a profundidade do declínio?

E este declínio está atingindo nações que nunca se recuperaram da última recessão. Apesar de todos os problemas dos Estados Unidos, o seu produto interno bruto finalmente ultrapassou o pico pré-crise; o da Europa, não. E algumas nações estão sofrendo em níveis da Grande Depressão: Grécia e Irlanda têm quedas de dois dígitos na produção, a Espanha tem desemprego de 23%, o colapso da Grã-Bretanha agora já dura mais do que o declínio dos anos 30.


Ainda pior, os líderes europeus – e um bocado de jogadores influentes aqui – ainda defendem a doutrina econômica responsável por este desastre.

As coisas não precisavam ir tão mal. A Grécia estaria afundada em problemas, não importa qual fosse a decisão de política adotada, e o mesmo é verdade, em menor extensão, a respeito de outras nações da periferia da Europa. Mas os problemas foram agravados mais do que o necessário pela forma com que os líderes europeus — e mais amplamente a política da elite — substituiram análises por moralização, lições da história por fantasias.


Especificamente, no começo de 2010 a austeridade econômica – a insistência de que os governos devem cortar gastos mesmo diante de altas taxas de desemprego – se tornou um mantra nas capitais europeias. A doutrina garantia que os efeitos negativos diretos do corte de gastos sobre o desemprego seriam cancelados pelas mudanças na “confiança”, que a economia com o corte de gastos levaria ao aumento do consumo e dos gastos das empresas, enquanto as nações que não fizessem esses cortes veriam uma evasão de capitais e alta das taxas de juros. Se isso soa, para você, como algo que Herbert Hoover teria dito, você está certo: soa e ele disse.


Agora, os resultados apareceram – e eles mostram exatamente o que três gerações de análises econômicas e todas as lições da história já deveriam ter lhes dito que aconteceria. A confiança praticamente não apareceu: nenhum dos países que cortou os gastos vivenciou a recuperação do setor privado que era prevista. Ao contrário, os efeitos depressivos da austeridade fiscal foram reforçados pela queda dos gastos do setor privado.


Ainda por cima, os mercados de bonds [títulos da dívida] continuam se recusando a cooperar. Até mesmo as grandes estrelas pupilas da austeridade, países que, como Portugal e Irlanda, fizeram tudo que foi exigido deles, ainda estão diante de altíssimos custos para tomar empréstimos. Por quê? Porque o corte de gastos deprimiu suas economias profundamente, reduzindo a base de arrecadação de impostos a ponto da relação dívida-PIB, o indicador padrão do progresso fiscal, estar piorando e não melhorando.


Enquanto isso, países que não embarcaram no trem da austeridade – mais notavelmente Japão e Estados Unidos – continuam a ter baixo custo de empréstimo, desafiando as previsões calamitosas dos falcões fiscais.

Mas nem tudo deu errado. No ano passado, os custos de empréstimo na Espanha e na Itália dispararam, ameaçando um desastre financeiro geral. Esses custos agora caíram, entre suspiros de alívio generalizados. Mas essa boa notícia foi, na verdade, um triunfo da antiausteridade: Mario Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu, deixou de lado as preocupações com a inflação e comandou uma grande expansão de crédito que era exatamente a “receita do médico”.


Então, o que vai ser preciso para convencer a Convenção da Dor, as pessoas dos dois lados do Atlântico que insistem que podemos cortar nosso caminho rumo à prosperidade, de que elas estão erradas?


Afinal, os suspeitos de sempre foram ligeiros em decretar como morta para sempre a ideia de estímulo fiscal depois que os esforços do Presidente Obama para produzir uma rápida queda no desemprego falharam – apesar de muitos economistas terem alertado antecipadamente que o estímulo era muito pequeno. Ainda assim, até onde posso ver, a austeridade ainda é considerada responsável e necessária, apesar de seu fracasso catastrófico na prática.

O fato é que poderíamos fazer muito para ajudar nossas economias simplesmente revertendo a austeridade destrutiva dos últimos dois anos. Isso também é verdade nos Estados Unidos, que evitaram austeridade total na escala federal, mas registraram grandes cortes de gastos e de empregados nos governos estaduais e municipais.

Apesar de tudo, Obama não embarcou na política de austeridade

Você se lembra de toda a barulheira sobre a existência de projetos prontos, em número suficiente, para tornar viável um grande programa de estímulo? Bem, não importa: tudo o que o governo federal precisa fazer para injetar ânimo na economia é dar ajuda aos governos locais, permitindo que esses recontratem centenas de milhares de professores que eles demitiram e retomem projetos de construção e manutenção que cancelaram.

Veja, eu compreendo porque as pessoas influentes relutam em admitir que ideias de políticas que achavam refletir profundo conhecimento na verdade resultaram em completa insensatez destrutiva. Mas já é hora de deixar para trás crenças ilusórias sobre as virtudes da austeridade em economias deprimidas.


(*) Do dito popular norte-americano: no pain, no gain (Se não há dor, não há cura).


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

VIRTUDES CÍVICAS E REALPOLITIK


Niccolò Macchiavelli

"A virtude pagã de Maquiavel é uma virtude pública, ao passo que a virtude judaico-cristã é, em geral, uma virtude mais privada. Um exemplo famoso de boa virtude pública e de virtude privada inadequada pode ser o do presidente Franklin Delano Roosevelt e suas nocivas fugas da verdade para fazer com que um Congresso isolacionista aprovasse a Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) de 1941, que permitia o empréstimo e arrendamento de materiais bélicos para os países aliados durante a Segunda Guerra Mundial. 'Na verdade', escreve o dramaturgo norte-americano Arthur Miller sobre Roosevelt, 'a humanidade está em dívida com suas mentiras'. Em seu Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, Maquiavel aprova a fraude quando ela é necessária ao bem-estar da pólis. Essa não é uma ideia nova ou cínica: Sun-Tzu escreque a política e guerra constituem 'a arte de enganar', a qual, se praticada com sabedoria, pode levar à vitória e à redução de baixas. O fato de esse preceito ser perigoso e facilmente manipulável não o despoja de suas aplicações positivas.

O cardeal Richelieu, pai da raison d'etat

"A característica que define o realismo é que as relações internacionais são governandas por princípios morais diferentes dos princípios de política interna - uma noção justificada pelas obras de Tucídides, Maquiavel, Hobbes, Churchill e outros. A necessidade de tal distinção foi enfatizada pelo nascimento do capitalismo moderno; o ímpeto pelo raison d'etat de Richelieu. O que é, afinal, o capitalismo moderno senão a raison d'économie? O racionalismo exigido para gerenciar as complexas operações econômicas do Estado francês burocratizado, que surgiu no início do século XVII, foi suplantando gradualmente a arbitrariedade individual dos barões feudais, propiciando o contexto ao pragmatismo de Richelieu em questões externas. George Kennan observa que a moralidade privada não é um critério para julgar o comportamento de Estados ou para comparar um Estado ao outro. 'Aqui, precisamos permitir que outros critérios, mais amargos, mais limitados, mais práticos, prevaleçam'. O historiador Arthur Schlesinger Jr. avisa que quando se trata de questões externas, a moralidade não está em 'alardear valores morais absolutos', mas na 'premissa de que outros países possuem suas próprias tradições,interesses, valores e direitos legítimos'.

O historiador grego Tucídides

"Reconhecendo que o bem e o mal em geral são dicotomias falsas quando se trata de Estados, Raymond Aron escreveu (mais uma vez ecoando Tucídides e Sun-Tzu) que a crítica ao idealismo 'não é apenas pragmática, mas também moral', porque 'a diplomacia idealista quase sempre escorrega para o fanatismo... Na verdade, a aceitação de um mundo governado pela noção pagã do interesse próprio, exemplificada por Tucídides, garante mais chances de sucesso à arte de governar: ele abrevia ilusões e reduz o espaço para erros de cálculo. O liberalismo fundamentado na história reconhece que a liberdade não surgiu de uma reflexão ou moral abstrata, ou de qualquer outra forma, mas das difíceis opções políticas feitas por governantes que agiam em seu próprio interesse. Conforme observa o clássico historiador dinamarquês David Gress, a liberdade surgiu no Ocidente principalmente porque servia ao interesse do poder." 

Robert D. Kaplan, Warrior politics: why leadership demands a pagan ethos  

domingo, 19 de fevereiro de 2012

PRÓ-MEMÓRIA: 50 ANOS DA NACIONALIZAÇÃO DA IT&T

Uma efeméride quase esquecida: os 50 anos da nacionalização da II&T no Rio Grande do Sul, pelo então governador Leonel Brizola. Trecho do blog Tijolaço, do deputado federal Brizola Neto: 

[...] Como se diz no recorte, a Companhia Telefônica Nacional, controlada pela americana IT&T – International Telephon and Telegraph – tinha o contrato de concessão vencido e exigia um novo prazo e subsídios para investir na rede de comunicações gaúchas.



Ao contrário do que muitos pensam, a encampação não foi um ato de força de Leonel Brizola. Ele tentou um acordo, com a criação de uma empresa de economia mista, dividida em 25% para o Estado do Rio Grande do Sul, 25% por cento para a IT&T e 50% para os usuários – a linha telefonica dava ações da empresa, para quem se recorda. A ITT não aceitou.

Foi nomeada, então, uma comissão arbitral, para apurar o valor da empresa. A ITT indicou um e Brizola indicou outro avaliador, o professor Luis Leuseigneur de Faria, diretor da Faculdade de Engenharia da UFRGS e seu adversário político. A IT&T recusou-se a aceitar o laudo arbitral e exigiu nova avaliação.


Só então Brizola ajuizou uma ação judicial, desapropriando a empresa pelo valor arbitrado, do qual se descontou o valor dos investimentos do Estado na rede telefônica e as remessas de lucro obtidas fora do período da concessão. E foi naquele fevereiro de 1962 que, imitido na posse da empresa, o Governo gaúcho assumiu o controle do que seria a CRT, hoje.


Apesar de negociada e judicialmente amparada, a atitude de Brizola soou, para a direita, como um ato “revolucionário”. Já marcado pela desapropriação da elétrica Bond and Share, dois anos antes, Brizola foi transformado por isso, num perigoso “Fidel Castro” brasileiro, como se vê nos trechos do The Washington Post publicados no Jornal do Brasil de 27 de fevereiro daquele 1962, que recolho da dissertação do professor César Rolim.

"Os norte-americanos estão finalmente se dando conta de quem é o brasileiro considerado o candidato mais provável a fazer o papel de Fidel Castro, num país muito mais importante para a segurança do Hemisfério do que a pequena ilha de Cuba. Seu nome é Leonel de Moura Brizola e é atualmente governador do Rio Grande do Sul, um demagogo perigoso, hábil e infinitamente ambicioso. Este governador sabe que os países estrangeiros são alvos fáceis no Brasil. Pouco se importa pelo efeito que as expropriações possam ter sobre a opinião pública norte-americana, e conta com a confusa situação no Brasil para dar-se oportunidade de exercer um papel destacado no mais populoso país da América Latina. A prosseguirem esses acontecimentos no Brasil, será bom recordar que o ditador de Cuba pode dirigir o destino de uma pequena ilha, mas o líder do Brasil poderá influenciar o curso da história em toda a América Latina."       

O então governador gaúcho Leonel Brizola

E a IT&T, que não era “subversiva” ajudou a financiar os golpes que deporiam os governos eleitos do Brasil, em 64, e do Chile, em 19743, claro.

O processo de modernização da telefonia brasileira, iniciado por JK com a nacionalização parcial da Companhia Telefônica Brasileira, recebia ali um imenso impulso e seria um brizolista, o Coronel Dagoberto Rodrigues, que criaria as bases para a criação da Embratel.


Hoje, sem ela, e com a Telebras neste “será-que-vai-será-que-não vai”, o Brasil está desprovido de qualquer controle público sobre a atividade de telecomunicações, uma das mais importantes numa economia cada vez mais dependente dela.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

AS METAMORFOSES DO DEMO


Lilith
 DEMÔNIO: do latim daemoniu, tendo vindo do grego daimónion, ente sobrenatural, tido por gênio do bem ou do mal, mas que depois que se fixou apenas no segundo sentido. Apesar de o demônio ser masculino, há uma exceção, a demônia Lilith, a primeira esposa de Adão. Depois de dar-lhes muitos filhos, Lilith, talvez por falta de opção - havia um único homem na face da terra - juntou-se ao demônio Samael. Esta tradição judaica é comentada no famoso livro de Giovani Papini, O diabo: "os antigos hebreus, talvez na esperaça de fazer perdoar mais facilmente a Eva o seu pecado,
contaram que antes dela Adão tivera uma outra esposa, Lilith". O demônio costuma estar em muitos lugares, mas às vezes resolve morar numa pessoa. É quando precisa ser exorcizado, pois é muito mandão e leva seus hospedeiros a praticar todo tipo de safadezas. 
Deonísio da Silva, A vida íntima das palavras.

AS LITANIAS DE SATÃ

Ó tu, anjo mais belo e sábio entre teus pares,
Deus que a sorte traiu e expulsou dos altares,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Ó Príncipe do exílio, a quem fizeram mal
E que, vencido, sempre te ergues mais triunfal,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das trevas soberanas,
Charlatão familiar das angústias humanas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Charles Baudelaire

Tu que, mesmo ao leproso e ao pária, se preciso,
Ensinas por amor o amor do Paraíso,

Tem piedade, ó Satã, da minha atroz miséria!

Tu que da Morte, tua antiga e fiel amante,
Engendraste a Esperança - a louca fascinante!

Tem piedade de mim, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que leva o povo ao pé da forca a desvairar,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
(Charles Baudelaire)
  

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

SAUDADES DA REPÚBLICA VELHA


Redatores do Estadão ao tempo de Olavo Bilac (mão no queixo)

Reproduzo abaixo a excelente análise sobre a preferência dos paulistanos pelo Estadão postada no blog Náufrago da Utopia, do Celso Lungaretti. É a adesão ao ideário liberal-conservador dos Mesquita, capaz de lutar contra a Abolição, o nacional-desenvolvimentismo de Getúlo e JK e de apoiar o golpe de 1964, mas combater o AI-5. E esconjurar tudo o que cheire às esquerdas, a Lula e ao PT.        

O ESTADÃO É O GRANDE FOCO DIREITISTA DO PAÍS

do blog Náufrago da Utopia

Segundo o Instituto Verificador de Circulação, O Estado de S. Paulo é o jornal mais vendido na capital paulista, na Grande São Paulo e no Estado como um todo, enquanto a Folha de S. Paulo só o supera no interior paulista, mas mantém a liderança nacional por circular mais nos outros estados.


Tais dados são perfeitamente coerentes com a realidade política paulista e paulistana.

O Estadão é o veículo de uma direita ideológica que remonta à aristocracia cafeeira. Conservador por excelência, foi peça importante na conspiração para a derrubada do presidente constitucional João Goulart.

Isto conflitava um pouco com o papel que o jornal desempenhou na ditadura getulista, quando esteve até sob intervenção. Então, depois de, segundo alegou, ter ajudado a salvar o País da ameaça comunista, passou a pregar insistentemente a devolução do poder aos civis, uma vez que a intervenção cirúrgica já teria saneado as instituições.

Ou seja, as cassações de mandatos, a extinção arbitrária de partidos e entidades, os expurgos e mudanças impostas pela força, as prisões e torturas, tudo isso já teria limpado o terreno para a burguesia poder voltar a exibir sua face civilizada...

O Estado, dezembro de 1968, depois do AI-5 

Ressalvas feitas, a resistência dos jornais do Grupo Estado à censura e ao terrorismo de estado merece respeito. Afora o trivial que todos destacam (as poesias de Camões que o Estadão colocava no espaço de trechos ou de notícias inteiras censuradas, bem como as receitas culinárias que tinham a mesma serventia no Jornal da Tarde), houve dois episódios em que seus diretores mostraram, inclusive, coragem pessoal:


• quando mandaram os seguranças impedirem o DOI-Codi de invadir a redação para prender um jornalista, tendo o Mesquita de plantão dito a frase célebre de que "ele pode ser comunista lá fora, mas aqui dentro é meu funcionário" (depois, abrigou-o no próprio sítio);


• quando, depois da morte de Vladimir Herzog, decidiram acompanhar os jornalistas da casa arrolados no mesmo inquérito sempre que chamados a depor no DOI-Codi, a fim de garantirem pessoalmente sua integridade física.


Mas, embora repudie os excessos no exercício do poder burguês, o Estadão é o jornal brasileiro mais afinado com a sua essência - ao contrário dos comerciantes da Folha de S. Paulo, cuja postura oscila oportunisticamente ao sabor dos ventos políticos, ora cedendo viaturas para o serviço sujo da repressão, ora ajudando os Golberys da vida a recambiarem o País para a civilização...

A supremacia do Estadão em São Paulo é consistente com o fato de ser um Estado sob governos tucanos desde 1995; e na cidade de São Paulo, com o de ela, desde a redemocratização, haver tido várias gestões direitistas e somente duas, digamos, desalinhadas (as de Luíza Erundina e Marta Suplicy).

Também faz todo sentido que São Paulo esteja sendo o laboratório de testes das novas fórmulas golpistas, com a franca adoção de respostas policiais para os problemas sociais servindo para aferir a resistência que a fascistização provocará.

Ainda bem que a operação desastrada na cracolândia e a barbárie no Pinheirinho despertaram uma opinião pública que parecia anestesiada quando da invasão da USP por brucutus e da fixação de uma tropa de ocupação em pleno campus universitário (suprema heresia!).

Mas, a cena paulista deve continuar sendo observada com muita atenção pelos verdadeiros democratas. Pois, qualquer atentado às instituições, para quebrar a continuidade de administrações petistas (bem toleradas pelos EUA e pelo grande capital, já que mantiveram seus privilégios, mas não pelas viúvas da ditadura e por alguns setores setores extremados da burguesia), começará, necessariamente, por São Paulo.

Vale lembrar: foi em São Paulo que o Cansei! tentou organizar uma nova (mas frustrada...) Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

E é em São Paulo que a truculência policial volta a ser exercida exatamente como nos tempos da ditadura militar, por efetivos que até hoje cultivam descaradamente a nostalgia do arbítrio.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

CQD – COMO QUERÍAMOS DEMONSTRAR

Segundo a Forbes, o abuso de drogas caiu pela metade em Portugal dez anos depois da descriminalização. Abaixo, reproduzo o texto citado da revista e outro, este cometido por este escriba há uma década na IstoÉ online, quando as medidas de liberalização foram adotadas na terrinha.


Dez anos após a descriminalização, abuso de drogas cai pela metade

Da Forbes

Defensores da guerra contra as drogas frequentemente dizem que o uso de drogas explodiria se nós legalizássemos ou descriminalizássemos seu consumo.


Felizmente, nós temos um exemplo real dos resultados de se por fim na guerra contra as drogas e substituí-la por um sistema de tratamento para usuários e dependentes.


Dez anos atrás, Portugal descriminalizou todas as drogas. Uma década após este experimento sem precedentes, o abuso de drogas caiu pela metade:


"Especialistas em saúde de Portugal disseram na sexta que a decisão de descriminalizar o uso de drogas e tratar viciados, ao invés de puni-los, é um experimento que deu certo.


'Não há dúvidas de que o vício está em declínio em Portugal', afirmou João Goulão, presidente do Instituto de Drogas e Adicção em Drogas, em uma conferência que marca o décimo aniversário da lei.

Outros fatores também foram importantes, diz Goulão. 'Este resultado não pode ser atribuido apenas à descriminalização, mas também à confluência de tratamento e políticas de redução de danos'".

Muitas dessas políticas de tratamento não teriam surgido se os dependentes continuassem a ser presos e encarcerados ao invés de tratados por médicos especialistas e psicólogos.

E ista é uma maneira bem mais econômica e humana de resolver o problema. Ao invés de prender 10 mil indivíduos, os portugueses estão trabalhando para curar 40 mil pacientes, e fazendo pequenos ajustes no tratamento contra a dependência, ao mesmo tempo em que adquirem mais conhecimento sobre o assunto.


Drogas: um problema de repressão, cidadania ou saúde pública?

Por Cláudio Camargo, editor de Internacional


A Assembléia Nacional (Parlamento) de Portugal acaba de aprovar uma ousada legislação que descriminaliza o uso de drogas no país. Buscando substituir a punição pelo tratamento, a lei prevê que os usuários flagrados com drogas não serão mais presos pela polícia, mas encaminhados para tratamento médico. Já os consumidores que não forem dependentes terão de pagar multas entre US$ 30 e US$ 140. O autor do projeto, o deputado socialista Vitalino Canas, afirma que a nova lei cumpre uma “função social, ao mesmo tempo que deixa claro que o uso de drogas faz mal e continua proibido”.

Apesar de ser ainda discutível em termos de direitos civis – em última instância, é o cidadão quem deveria decidir o que é ruim ou bom para si próprio –, a iniciativa representa um notável avanço, principalmente num país que há apenas uma geração estava mergulhado no obscurantismo salazarista. Com isso, Portugal une-se à Espanha e à Itália no rol dos países que descriminalizaram oficialmente o uso de drogas. Ironicamente, os três são países latinos com forte tradição católica – o que supostamente os faria mais conservadores. Mas o fato de eles terem legislação mais avançada sobre o consumo de drogas deveria fazer pensar aqueles que crêem que a modernidade é um apanágio da mentalidade capitalista e protestante de Tio Sam. Pelo menos em termos de comportamento, o Grande Irmão do Norte ainda está na Idade das Trevas.

Apreensão de drogas na Colômbia

Veja-se, por exemplo, o pacote de ajuda econômica à Colômbia de US$ 1,3 bilhão aprovado recentemente pelo Congresso dos EUA. Trata-se de assistência basicamente militar para o combate ao narcotráfico naquele país, responsável por cerca de 80% das drogas consumidas pelo rico “mercado” do Norte. A mentalidade de Washington sobre o problema beira à infantilidade: já que não conseguem convencer seus cidadãos a deixar de consumir drogas, as autoridades americanas acreditam que o negócio é eliminar o narcotráfico nos países “produtores”. Quem mais sofre com essa política são os camponeses da Colômbia, da Bolívia e do Peru, que, empobrecidos, não têm outra alternativa a não ser cultivar a folha de coca, muito mais rentável do que qualquer outra cultura.


Forma-se o círculo vicioso: os EUA armam Exércitos, que montam milícias paramilitares de extrema-direita, que passam a servir aos barões da droga. Os camponeses morrem no fogo cruzado ou são obrigados a abandonar suas terras. E os lucros do narcotráfico continuam tão promissores – afinal, a demanda sobe em progressão geométrica – que vale a pena correr todos os riscos. Nos últimos dez anos, por exemplo, Tio Sam entupiu a Colômbia de dólares, assessores e equipamento militar, mas a produção de drogas não parou de crescer, assim como a espiral de violência e da violação de direitos humanos. Os cartéis de Medellín e de Cali foram desmantelados apenas para dar lugar, como cogumelos depois da chuva, a uma miríade de microcartéis cada vez mais poderosos.


Poucos duvidam que o crescente consumo de drogas no mundo seja hoje um problema dramático. Basta lembrar daquele triste espetáculo representado por jovens drogados perambulando por parques de algumas cidades europeias. Isso sem falar das nossas infames "cracolândias" – mas essa já é outra história. Por isso mesmo, querer separar as duas pontas da questão – a produção do consumo – tratando tudo como se fosse um item de “segurança nacional”, como fazem os EUA, atacando os países produtores, só faz aumentar o poder da máfia globalizada. Parece que Tio Sam se esqueceu da catástrofe que foi o período da famigerada Lei Seca (1919-1933).

Lembra-se da Lei Seca? Ela não funcionou

Dizem que nunca se bebeu tanto nos EUA – e mal, já que muitas bebidas eram falsificadas – quanto naqueles tempos sombrios da proibição. Mas o pior é que aquela estúpida legislação puritana só conseguiu fazer com que um problema de saúde pública, o alcoolismo, virasse uma questão de polícia – ou de bandidagem, já que a criminalidade deixou de ser um empreendimento amador para se tornar empresarial. Nascia o crime organizado. Incapazes de aprender com a própria história, as autoridades americanas, feito avestruzes, reproduzem agora o erro em escala ampliada - ou globalizada.


A iniciativa de Portugal de descriminalizar o consumo de drogas representa um pequeno, mas importante passo adiante na discussão do problema. Trata-se de saber se queremos tirar as drogas do âmbito da criminalidade para inscrevê-las na dupla ótica do direito dos cidadãos e da saúde pública. Como hoje são o cigarro e o álcool. Até setores conservadores como a revista britânica The Economist e o pensador ultraliberal Milton Friedman defendem, há anos, a legalização das drogas como um mal menor à hipocrisia representada pela atual situação, que não impede o crescimento do consumo, da criminalidade e da repressão inócua.


É possível que, se um dia a descriminalização se generalizar, enfrentaremos sérios problemas com o aumento do número de dependentes. Mas talvez o custo econômico e social da prevenção e do tratamento seja muito menor do que manter a proibição ao consumo, tendo de militarizar a periferia do mundo desenvolvido para combater, sem sucesso, a única beneficiária da proibição: uma máfia cada vez mais poderosa, perigosa e globalizada.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

QUEM SÃO OS INDOLENTES?

Do blog Tijolaço, do deputado Brizola Neto:

"É frequente vermos na imprensa os comentários de que é crise grega é resultado da 'gastança' feita pelos gregos, que teriam se acostumado a exigir muito e trabalhar pouco.

Um partido austríaco de direita chegou a espalhar outdoors racistas retratando os gregos como entregues ao descanso perdulário, que a gente reproduz no post.
[...]
 Os gregos, segundo os números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OECD, trabalham em média 2090 horas por ano, 48,6% mais que as 1.419 horas anualmente trabalhadas pelos alemães e 35,7% mais que as 1554 horas anuais do trabalhador francês médio.


É irônico que, na longa lista de países que compõe a estatística da OECD, os gregos só percam – e de pouco – para a maior jornada média anual apurada: a dos sul-coreanos, com 2.193 horas, 4% a mais ou, dividindo-se por uma média de 230 dias úteis por ano, 22 minutos diários de trabalho em relação aos gregos.

Não é exato fazer comparações com o Brasil, para não mudar os critérios de apuração, sobretudo porque é difícil equacionar a questão do emprego rural e do informal neste cálculo, mas andamos por volta de 2.000 horas anuais, embora este número venha se reduzindo em razão da formalização do emprego. Ainda assim, segundo dados do Censo de 2010, 28% dos brasileiros trabalhavam mais de nove horas por dia.

De qualquer forma, há algo positivo nesta história deprimente.

É o fato de vermos como o “mito da indolência”, tantas vezes usados contra nós, brasileiros, encobre desde os interesses de dominação, passando pelo racismo e , sobretudo, pelo encobrimento de sistemas econômicos injustos e empobrecedores, generosos com o capital e mesquinhos com o trabalho."
[...]