quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

OS "BOLCHEVIQUES" DA UNIÃO EUROPEIA


Um documento aprovado pela União Europeia, depois de diferenciar liberdade de imprensa de liberdade de expressão, defende explicitamente a formação de conselhos independentes de mídia, com composição socialmente diversificada, para investigar reclamações e propor multas, publicação de retratações e até cassação do status jornalístico. Se fosse proposto aqui, seria acusado de instrumento bolchevique de controle da mídia e o outras sandices que já se tornaram senso comum.


Depois de Leveson, a União Europeia
Por Venício A. de Lima em 20/01/2013 na edição 731 do Observatório da Imprensa
Sob o ensurdecedor silêncio da grande mídia brasileira, foi divulgado em Bruxelas, na terça-feira (22/1), o relatório “Uma mídia livre e pluralista para sustentar a democracia europeia”, comissionado pela vice-presidente da União Europeia, Neelie Kroes, encarregada da Agenda Digital [ver aqui a íntegra do relatório, acesso em 23/1/2013].
Preparado por um grupo de alto nível (HLG) presidido pela ex-presidente da Letônia, Vaira Vike-Freiberga, e do qual faziam parte Herta Däubler-Gmelin, ex-ministra da Justiça alemã; Luís Miguel Poiares Pessoa Maduro, ex-advogado geral na Corte de Justiça Europeia; e Ben Hammersley, jornalista especializado em tecnologia, o relatório faz trinta recomendações sobre a regulamentação da mídia como resultado de um trabalho de 16 meses que começou em outubro de 2011. As recomendações serão agora debatidas no âmbito da Comissão Europeia.

O relatório
O relatório, por óbvio, deve ser lido na íntegra. Ele começa com um sumário das principais conclusões e recomendações e, na parte substantiva, está dividido em cinco capítulos que apresentam e discutem as bases conceituais e jurídicas que justificam as diferentes recomendações: (1) por que a liberdade da mídia e o pluralismo importam; (2) o papel da União Europeia; (3) o mutante ambiente da mídia; (4) a proteção da liberdade do jornalista; e, (5) o pluralismo na mídia.
Há ainda um anexo de 12 páginas que lista as autoridades ouvidas, as contribuições escritas recebidas e os documentos consultados. A boa notícia é que quase todo esse material está disponível online.

Para aqueles a favor da regulamentação democrática da mídia – da mesma forma que já havia acontecido com o relatório Leveson – é alentador verificar como antigas propostas sistematicamente taxadas pela grande mídia e seus aliados da direita conservadora de autoritárias, promotoras da censura e inimigas da liberdade de expressão, são apresentadas e defendidas por experts internacionais, comissionados pela União Europeia.
Fundamento de todo o relatório são os conceitos de liberdade de mídia e pluralismo. 

Está lá:
“O conceito de liberdade de mídia está intimamente relacionado à noção de liberdade de expressão, mas não é idêntico a ela [grifo meu]. A última está entronizada nos valores e direitos fundamentais da Europa: ‘Todos têm o direito à liberdade de expressão. Este direito inclui a liberdade de ter opiniões, de transmitir (impart) e receber informações e ideias sem interferência da autoridade pública e independente de fronteiras’ (…).

“Pluralismo na mídia é um conceito que vai muito além da propriedade. Ele inclui muitos aspectos, desde, por exemplo, regras relativas a controle de conteúdo no licenciamento de sistemas de radiodifusão, o estabelecimento de liberdade editorial, a independência e o status de serviço público de radiodifusores, a situação profissional de jornalistas, a relação entre a mídia e os atores políticos etc. Pluralismo inclui todas as medidas que garantam o acesso dos cidadãos a uma variedade de fontes e vozes de informação, permitindo a eles que formem opiniões sem a influência indevida de um poder [formador de opiniões] dominante.”

Encontram-se no relatório propostas como: (1) a introdução da educação para a leitura crítica da mídia nas escolas secundárias; (2) o monitoramento permanente do conteúdo da mídia por parte de organismo oficial ou, alternativamente, por um centro independente ligado à academia, e a publicação regular de relatórios que seriam encaminhados ao Parlamento para eventuais medidas que assegurem a liberdade e o pluralismo; (3) a total neutralidade de rede na internet; (4) a provisão de fundos estatais para o financiamento da mídia alternativa que seja inviável comercialmente, mas essencial ao pluralismo; (5) a existência de mecanismos que garantam a identificação dos responsáveis por calúnias e a garantia da resposta e da retratação de acusações indevidas.
Pelo histórico de feroz resistência que encontra entre nós, vale o registro uma proposta específica. Após considerações sobre o reiterado fracasso de agências autorreguladoras, o relatório propõe:

“Todos os países da União Europeia deveriam ter conselhos de mídia independentes, cujos membros tenham origem política e cultural equilibrada, assim como sejam socialmente diversificados. Esses organismos teriam competência para investigar reclamações (…), mas também certificariam de que as organizações de mídia publicaram seus códigos de conduta e revelaram detalhes sobre propriedade, declarações de conflito de interesse etc. Os conselhos de mídia devem ter poderes legais, tais como a imposição de multas, determinar a publicação de justificativas [apologies] em veículos impressos ou eletrônicos, e cassação do status jornalístico.”

E no Brasil?

A publicação de mais um estudo oficial sobre regulamentação da mídia, desta vez pela União Europeia, menos de dois meses depois do relatório Leveson na Inglaterra, revela que o tema é pauta obrigatória nas sociedades democráticas e não apenas em vizinhos latino-americanos como a Argentina, o Uruguai e o Equador, mas, sobretudo, na Europa.

No Brasil, como se sabe, “faz-se de conta” que não é bem assim e o tema permanece “esquecido” pelo governo, além de demonizado publicamente pela grande mídia como ameaça à liberdade de expressão.
Quem se beneficia com essa situação? Até quando seguiremos na contramão da história?

[Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros]

O HOMEM E A MASSA


Trechos do livro Massa e Poder, de Elias Canetti (1905-1994), uma reflexão fundamental sobre o fenômeno das massas:  
Elias Canetti
“Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido. Ele quer ver aquilo que está tocando, que ser capaz de classificá-lo ou, ao menos, de classificá-lo. Por toda parte, o homem evita o contato com o que lhe é estranho. À noite ou no escuro, o pavor ante o contato inesperado pode intensificar-se até o pânico. Nem mesmo suas roupas proporcionam segurança suficiente – quão facilmente se pode rasgá-las, quão fácil é avançar até a carne nua, lisa, indefesa da vítima”.
(...)
“Tal aversão ao contato não nos deixa nem quando caminhamos em meio a outras pessoas. A maneira como nos movemos na rua, em meio aos muitos transeuntes, ou em restaurantes, trens e ônibus, é ditada por esse medo. Mesmo quando nos encontramos bastante próximos das pessoas; mesmo quando podemos observá-las bem e inspecioná-las, ainda assim evitamos, tanto quanto possível, qualquer contato com elas. Se fazemos o contrário, é porque gostamos de alguém, e, nesse caso, a iniciativa da aproximação parte de nós mesmos”.
(...)
“A presteza com que nos desculpamos quando do contato não intencional; a tensão com que se aguardam tais desculpas; a reação veemente e, por vezes, violenta quando elas não vêm; a repugnância e o ódio sentidos em relação ao “malfeitor”, mesmo quando não nos é possível ter certeza de quem foi que nos tocou – todo esse emaranhado de reações psíquicas em torno do contato com o estranho demonstra, pela instabilidade e irritabilidade extremas, tratar-se aí de algo muito profundo, sempre desperto e melindroso, algo que, uma vez tendo o homem estabelecido as fronteiras de sua pessoa, nunca mais o abandona. Mesmo o sono, estado em que nos encontramos muito mais indefesos, é facilmente perturbado por este tipo de temor”.
(...)
“Somente na massa é possível ao homem libertar-se do temor do contato. Tem-se aí a única situação na qual esse temor transforma-se no seu oposto. E é da massa densa que se precisa para tanto, aquela na qual um corpo comprime-se contra o outro, densa inclusive em sua constituição psíquica, de modo que não atentamos para quem é que nos “comprime”. Tão logo nos entregamos à massa não tememos o seu contato. Na massa ideal, todos são iguais. Nenhuma diversidade conta, nem mesmo a dos sexos. Quem quer que nos comprima é igual a nós. Sentimo-lo como sentimos a nós mesmos. Subitamente, tudo se passa então como no interior de um único corpo. talvez essa seja uma das razões pelas quais a massa busca concentrar-se de maneira tão densa: ela deseja libertar-se tão completamente quanto possível do temor individual do contato. Quanto mais energicamente os homens se apertam uns contra os outros, tanto mais seguros eles se sentirão de não se temerem mutuamente. Essa inversão do temor do contato é característico da massa”.

(...)

“Absoluta e indiscutível, tal igualdade jamais é questionada pela própria massa. Ela é de tão fundamental importância que se poderia definir o estado da massa como um estado de igualdade absoluta. Uma cabeça é uma cabeça; um braço é um braço – as diferenças não importam. É por causa dessa igualdade que as pessoas transformam-se em massa. O que quer que possa desviá-la desse propósito é ignorado. Toda demanda de justiça, todas as teorias igualitárias retiram sua energia dessa experiência de igualdade que todos, cada um a seu modo, conhecem a partir da massa”. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A MODERNA INQUISIÇÃO

O escritor português José Saramago, no Índex da Opus Dei
A Opus Dei, organização católica ultraconservadora abençoada pelo Vaticano e cuja presença e influência nos órgãos de imprensa latino-americanos são notórias, soltou um Índex, típico dos tempos da Inquisição, no qual lista vários livros considerados “perigosos” para os fiéis. Entre os autores condenados pelos homens do cilício (com “c” mesmo; trata-se do instrumento de autoflagelo que os membros da seita usam) estão os escritores Mário Vargas Llosa, um liberal, e José Saramago, um comunista. Não se pode dizer que a Opus Dei não é coerente: apesar de todo o seu discurso “modernizante”, é herdeira do Concílio de Trento, parteiro da Contra-Reforma e da Segunda Inquisição. Por isso, liberais, socialistas, comunistas e outros herdeiros do Iluminismo são alvos preferenciais. Mas na lista há também apenas escritores, como Eça de Queirós.        
Doze livros de Saramago são “proibidos” pela Opus Dei, revela DN
Da Fundação José Saramago
Doze livros de José Saramago estão entre os classificados com os mais altos níveis de interdição do Opus Dei a nível internacional, num índex que envolve 79 obras de autores portugueses, incluindo Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Vergílio Ferreira, Miguel Torga, Lídia Jorge ou David Mourão-Ferreira. Esta é uma das revelações de um extenso trabalho de reportagem feito pelo jornalista Rui Pedro Antunes e publicado no dia 28 de janeiro no Diário de Notícias.
O dossiê analisa as formas de financiamento e o milionário patrimônio do Opus Dei, organização criada por Escrivá de Balaguer e presente em Portugal em várias áreas do poder político e econômico. Inclui uma entrevista com o líder do Opus Dei em Portugal, José Rafael Espírito Santo, e depoimentos de responsáveis da Igreja Católica.
Imagem de Escrivá Balaguer, lider da Opus Dei 
A existência de um Índex de livros – de ficção e de não ficção – é outro tema essencial deste conjunto de textos do Diário de Notícias, que entrevista a propósito a presidenta da Fundação José Saramago. “Só me surpreende que não estejam nessa lista todos os livros de José Saramago”, diz Pilar del Río, que considera o Opus Dei “uma seita castradora”. Sublinha que José Saramago nunca escreveu sobre a mesma porque “essa seita é uma formiga e por isso não lhe interessava para nada”. Os livros de Saramago que a Opus Dei proíbe aos seus membros são: CaimO Evangelho segundo Jesus CristoManual de Pintura e Caligrafia e Memorial do Convento
Lídia Jorge, cujos livros A Costa dos Murmúrios e O Dia dos Prodígios têm também o nível mais alto de interdição, diz que este Índex é “uma vergonha”, uma listagem “feita por gente retrógrada e abstrusa”. E acrescenta: “São pessoas que desprezo porque se armam em mentores, em guardas morais, quando, no fundo, revelam uma ignorância absoluta sobre o papel da literatura”.
De Eça de Queirós, o Opus Dei proíbe, com o nível mais alto, A RelíquiaO Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio. Os Maias, A Capital e Correspondência de Fradique Mendes estão no segundo nível mais alto de proibição, isto é, são “livros que não é possível ler exceto com a autorização da Cúria”.
Os autores portugueses não estão sozinhos nesta lista que tem seis níveis de interdição, o mais alto dos quais é de “leitura absolutamente proibida”. Dela fazem parte 14 dos 15 últimos prêmios Nobel da Literatura (apenas se exclui Le Clézio). Mario Vargas Llosa é o que tem mais obras indiciadas, num total de 17, vindo logo a seguir José Saramago com doze.
Também na não-ficção a lista revelada pelo Diário de Notícias é e extensa e variada, incluindo Marx, Freud, Jean-Jacques Rousseau, Charles Darwin e Hitler. Entre as obras portuguesas, estão Portugal Amordaçado de Mário Soares, A Revolução de 1383 de António Borges Coelho e até a História da Literatura portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.

EPITÁFIO PARA UM SONHO

Charles De Gaulle (esq.0 
Há 50 anos Konrad Adenauer e Charles De Gaulle enterravam séculos de hostilidades entre a Alemanha e a França e lançavam as bases da União Europeia, criada para abrir uma nova era de cooperação e desenvolvimento. Capturada pela lógica do capital financeiro nos anos 1990, o sonho de um Estado multinacional no velho continente está se esvaindo, senão morrendo, como mostra essa carta de alguns intelectuais europeus.
Paris - “A unidade da Europa era o sonho de uns poucos. Tornou-se uma esperança para muitos. Hoje é uma necessidade para todos nós”. A frase do ex-chanceler alemão Konrad Adenauer tem um lugar na história. Foi pronunciada dez anos antes de a França e a Alemanha firmarem, em 22 de janeiro de 1963, o tratado de cooperação franco-alemão conhecido como “Tratado do Eliseu”. Esse texto marca um passo definitivo para a reconciliação entre Paris e Berlim e reforçou a construção europeia.

Transcorreram exatamente 50 anos e esse “sonho” e essa “necessidade” estão hoje em pleno marasmo. A Europa está indo a pique. Isso é precisamente o que constata um grupo importante de intelectuais europeus que publicou um manifesto cujos três primeiros parágrafos constatam a orfandade que ameaça o Velho Continente: “A Europa não está em crise, está morrendo. Não a Europa como território, naturalmente, mas sim a Europa como Ideia. A Europa como sonho e como projeto”.

Este grupo de filósofos, escritores, psicanalistas e jornalistas, entre os quais se encontram personalidades como Umberto Eco, Salman Rushdie, Fernando Savater, Bernard-Henri Levy, Claudio Magris e Julia Kristeva apela à consciência dos dirigentes para que não se apague o sonho da unidade europeia surgido logo depois da Segunda Guerra Mundial. Neste sentido, os intelectuais assinalam que “esta Europa como vontade e representação, como quimera e como obra, essa Europa que nossos pais colocaram em pé, essa Europa que soube se tornar uma ideia nova, que foi capaz de aportar aos povos que acabavam de sair da Segunda Guerra Mundial uma paz, uma prosperidade e uma difusão da democracia inéditas, mas que, ante nossos próprios olhos, está se desfazendo uma vez mais”.

Em termos de Produto Interno Bruto (PIB), a Europa é, sem dúvida, a maior potência econômica que existe. Mas isso não basta porque, para os autores do manifesto, essa potência econômica tragou a ideia de Europa e o Velho Continente sonhado por seus pais fundadores está “se desfazendo em Atenas, uma de suas cunhas, em meio à indiferença e ao cinismo de suas nações irmãs”.

Modelo de integração e de paz para muitas democracias do mundo, a Europa vai morrendo por várias veias, começando por um de seus pilares, a Grécia: “dá a impressão de que os herdeiros daqueles grandes europeus, enquanto os gregos travam uma nova batalha contra outra forma de decadência e sujeição, não têm nada melhor a fazer que castigá-los, estigmatizá-los, pisoteá-los e, a partir dos planos de austeridade, despojá-los do princípio de soberania que, há tanto tempo, eles próprios inventaram”.

Esse diagnóstico é válido também para a Itália, país onde se inventou a “distinção entre a lei e o direito, entre o homem e o cidadão”, país que está na “origem do modelo democrático que tanto contribuiu” e, hoje, “está enfermo de um berlusconismo que não tem fim”. Enfermidade crucial que envolve também o ideal europeu e que faz da Itália o “doente do continente. Que miséria! Que ridículo!”.
O chamado destes intelectuais do Velho mundo é tão dramático quanto lúcido. Em sua breve e apaixonada demonstração, o texto mergulha na grande miséria europeia contemporânea: miséria moral, ética, miséria da solidariedade, miséria dos ideais que os europeus impulsionaram pelo mundo.

Daí que o manifesto insista em que a Europa faz água por todos os lados: “de leste a oeste, de norte a sul, com a ascensão dos populismos, dos chauvinismos, das ideologias de exclusão e ódio que a Europa tinha precisamente como missão marginalizar, esfriar, e que voltam vergonhosamente a levantar a cabeça. Quão longe está a época na qual, pelas ruas da França, em solidariedade com um estudante insultado pelo responsável de um partido de memória tão escassa como suas ideias, se cantava “todos somos judeus alemães!”.
Distúrbios na Grécia, onde nasceu (e morreu?) a democracia
Que longe parecem hoje os movimentos solidários, em Londres, Berlim, Roma, Paris, com os dissidentes daquela outra Europa que Milan Kundera chamava a “Europa cativa” e que parecia o coração do continente! E quanto à pequena internacional de espíritos livres que lutavam, há 20 anos, por essa alma europeia que Sarajevo encarnava, sob as bombas e presa de uma impiedosa ‘limpeza étnica’, onde está, por que já não é mais ouvida?”.

Sonho e realidade dos quais, de pronto, milhões de indivíduos despertam sacudidos pela crise do euro, “essa moeda única abstrata, flutuante porque não está ancorada na economia, nos recursos, em um sistema fiscal convergente”. O horizonte desenhado pelos signatários do manifesto para voltar a dar corpo ao sonho europeu é a união política do Velho Continente, sem a qual não haverá vida possível: “O teorema é implacável. Sem federação, não há moeda que se sustente. Sem unidade política, a moeda dura algumas décadas e depois, aproveitando uma guerra ou uma crise, será dissolvida”.

O chamado divulgado neste fim de semana apresenta um paradigma curioso: “antes se dizia: socialismo ou barbárie; hoje é preciso dizer: união política ou barbárie. Melhor dizendo: federalismo ou explosão e, na loucura da explosão, regressão social, precariedade, desemprego galopante, miséria. Melhor dizendo: ou a Europa dá um passo decisivo a frente, na direção da integração política, ou sai da História e desaparece. Já não resta outra opção: unidade política ou a morte”.

A corrida vertiginosa para esse fim da Europa já começou, dizem os autores, e se não forem tomadas as medidas adequadas e não simples maquiagens nada a deterá: “a Europa sairá da História. De uma forma ou de outra, se não for feito algo ela desaparecerá. Isso deixou de ser uma hipótese, um vago temor, um trapo vermelho que se agita ante os europeus recalcitrantes. É uma certeza. Um horizonte insuperável e fatal. Todo o resto – truques de mágica de alguns, pequenos acordos de outros, fundos de solidariedade por aqui, bancos de estabilização por ali – só serve para adiar o fim e distrair o moribundo com a ilusão de uma sobrevida”.

Serão escutados estes herdeiros do pensamento crítico que ainda parece conservar essa dimensão tão europeia que consiste em nunca perder a capacidade crítica frente ao comportamento dos Estados? Apostar nisso seria outro sonho: entre social-democratas que desenham políticas liberais, socialistas de joelhos diante de grandes corporações e capazes de voltar a servir o prato da “guerra contra o terrorismo islâmico” para justificar intervenções militares em outros países – como o Mali – enquanto as pessoas morrem como moscas na Síria, entre governos liberais sacudidos por níveis de corrupção e fatos dignos de comédias, não se vê por onde possa aparecer alguém capaz de encarnar o grande sonho europeu. Ao menos que aqueles que o fomentaram se levantem de suas tumbas.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

SAUDADES DO FASCISMO


Numa cerimônia em memória às vítimas do Holocausto, ocorrida no domingo em Milão, o fanfarrão ex-primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, defendeu o legado do ditador fascista Benito Mussolini. “As leis raciais foram a pior falha de Mussolini, que, em outros aspectos, se saiu bem... Mussolini fez muitas coisas boas”, afirmou o imperador da mídia italiana, que cogita disputar novamente as eleições, em fevereiro.

A declaração gerou reação do Partido Democrata (ex-comunista), de centro-esquerda, que lidera as pesquisas eleitorais. “É simplesmente asqueroso que justamente no dia da memória, Berlusconi reabilite a ação do ditador que colocou a Itália na II Guerra Mundial”, retrucou Débora Sarracchiani, deputada do Partido Democrata. A televisão italiana, boa parte dela controlada por Berlusconi, deu pouco destaque à declaração.

Berlusconi é dono da corporação Mediaset, que controla as três maiores emissoras privadas de televisão da Itália. Ele também é dono de bancos e presidente do clube de futebol Milan. Segundo a revista Forbes, o admirador de Mussolini é a segunda pessoa mais rica da Itália e o 74º homem mais rico da Europa, com uma fortuna estimada em US$ 9 bilhões. Eleito primeiro-ministro da Itália por três vezes, Berlusconi é acusado de desvio de recursos públicos, evasão de divisas, associação com a Máfia e de elaborar leis para escalar da Justiça.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

NÃO É PRECISO LER O LE MONDE PARA DESMENTIR ALI KAMEL


Numa reportagem especial no ano passado, o jornal francês Le Monde disse que o Brasil apresentava uma imagem enganadora de uma sociedade tão miscigenada que a cor da pele das pessoas não tinha nenhuma importância. O jornal ironiza essa imagem autoindulgente das nossas elites - seria melhor dizer, da nossa direita -, tão a gosto de Ali Kamel e de outros propagadores do mito da “democracia racial”. Parece que o Brasil se esqueceu que “foi a nação mais escravagista da América”, alfinetava a reportagem, e que “as discriminações contra os negros - escola, universidade, trabalho – ainda são tamanha hoje em dia que o país adotou cotas.” OK, a França não é lá nenhum exemplo de democracia racial – longe disso –, mas isso não tira a razão do Le Monde. Dois fatos ocorridos nos últimos dias – a ordem de um capitão da PM de Campinas para a abordagem de jovens negros e pardos e a discriminação de uma criança negra numa loca de carros no Rio - reforçam a ideia de que, apesar de todos os avanços dos anos recentes, o racismo continua incrustado em vastos setores da sociedade e do Estado. Não, não somos racistas...


PM dá ordem para abordar “negros e pardos”

Do Diário de S. Paulo

Instrução de comandante do batalhão se baseou na descrição de vítima de assalto em bairro luxuoso
Thaís Nunes
Desde o dia 21 de dezembro do ano passado, policiais militares do bairro Taquaral, um dos mais nobres de Campinas, cumprem a ordem de abordar “indivíduos em atitude suspeita, em especial os de cor parda e negra”. A orientação foi dada pelo oficial que chefia a companhia responsável pela região, mas o Comando da PM nega teor racista na determinação.
O documento assinado pelo capitão Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci orienta a tropa a agir com rigor, caso se depare com jovens de 18 a 25 anos, que estejam em grupos de três a cinco pessoas e tenham a pele escura. Essas seriam as características de um suposto grupo que comete assaltos a residências no bairro.
A ordem do oficial foi motivada por uma carta de dois moradores. Um deles foi vítima de um roubo e descreveu os criminosos dessa maneira. Nenhum deles, entretanto, foi identificado pela Polícia Militar para que as abordagens fossem direcionadas nesse sentido.
Para o frei Galvão, da Educafro, a ordem de serviço dá a entender que, caso os policiais cruzem com um grupo de brancos, não há perigo. Na manhã de hoje, ele pretende enviar um pedido de explicações ao governador Geraldo Alckmin e ao secretário da Segurança Pública, Fernando Grella.
O DIÁRIO solicitou entrevista com o capitão Beneducci, sem sucesso. A reportagem também  pediu outro ofício semelhante, em que o alvo das abordagens fosse um grupo de jovens brancos, mas não obteve resposta até o fim desta edição.
Confira a íntegra da nota de esclarecimento enviada pelo Comando da Polícia Militar:
A Polícia Militar lamenta que um grupo historicamente discriminado pela sociedade, que são os negros, seja usado para fazer sensacionalismo.
O caso concreto trata de ordem escrita de uma autoridade policial militar, atendendo aos pedidos da comunidade local, no sentido de reforçar o policiamento com vistas a um grupo de criminosos, com características específicas, que por acaso era formado por negros e pardos. A ordem é clara quanto à referência a esse grupo: “focando abordagens a transeuntes e em veículos em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra com idade aparentemente de 18 a 25 anos, os quais sempre estão em grupo de 3 a 5 indivíduos na prática de roubo a residência naquela localidade”.

A ordem descreve ainda os locais (quatro ruas) e horário em que os crimes ocorrem. Logo, não há o que se falar em discriminação ou em atitude racista, tendo o capitão responsável emitido a ordem com base em indicadores concretos e reais. Discriminação e racismo é o fato de explorar essa situação de maneira irresponsável e fora de contextualização. 

O “mal-entendido” em uma concessionária BMW
Do G1
Casal acusa concessionária BMW de racismo conra filho de 7 anos no Rio
Representante da loja se desculpou e disse ter sido um 'mal-entendido'. “Aqui não é lugar para você. Saia”, teria dito gerente a criança, que é negra.
Uma ida à concessionária da BMW Autokraft, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, na tarde de sábado (12), deixou o casal Ronald Munk e Priscilla Celeste indignado. Pais de cinco filhos, foram à loja acompanhados do caçula, de 7 anos, que é negro e adotado, em busca de um automóvel novo para família. Enquanto conversavam com o gerente de vendas sobre os carros, dizem ter sido surpreendidos com uma atitude preconceituosa do funcionário quando a criança se aproximou dos três. O BMW Group enviou uma nota ao G1 em que pede desculpas ao casal.
O casal contou como foi a conversa do gerente. “Ele disse: ‘Você não pode ficar aqui dentro. Aqui não é lugar para você. Saia da loja. Eles pedem dinheiro e incomodam os clientes’”, contou a professora Priscilla, lembrando que o gerente não havia se dado conta de que o menino era filho do casal.
“Imediatamente peguei meu filho pela mão e saí da loja. Somos clientes da concessionária há anos. Inclusive temos um vendedor que sempre nos atende. Esperamos dias por uma retratação, não tomamos nenhuma atitude imediata e não acionamos a polícia para preservar nosso filho”, acrescentou.
Ronald, que é consultor, conta que não é a primeira vez que acontece esse tipo de situação com seu filho, e que indagou o gerente sobre a sua atitude.
“Cheguei a perguntar o motivo daquela reação. Quando eu afirmei que aquela criança negra era o nosso filho, ele ficou completamente sem ação, gaguejou e pediu desculpas. Sem entender nada, nosso filho chegou a questionar por que não aceitavam crianças naquela loja já que havia uma televisão passando desenhos animados”, diz o consultor.
Na nota da assessoria de imprensa, encaminhada nesta quarta-feira (23) ao G1, o BMW Group informou que tomou conhecimento do fato em e-mail enviado por Ronald e Priscilla, em janeiro deste ano. Veja a íntegra da nota abaixo:
Nota da empresa
"O BMW Group gostaria de esclarecer que tomou conhecimento dos fatos relatados na matéria abaixo, através do e-mail enviado em 16/01/2013 pelos Senhores Ronald e Priscilla Munk e prontamente solicitou esclarecimentos à concessionária Autokraft através de uma notificação entregue na mesma data.
O BMW Group informa ainda que nenhum funcionário seu esteve presente na data do acontecimento narrado, não podendo dessa forma atestar a veracidade dos fatos relatados por parte dos clientes, tão pouco da concessionária.
Confirmamos que o BMW Group, apesar de não ter conhecimento dos fatos, em respeito aos seus clientes, enviou mensagem aos mesmos, desculpando-se pelo ocorrido e explicando a sua relação jurídica e comercial com a concessionária, a qual é regida pela lei nº 6729/79, que proíbe o BMW Group de adotar qualquer postura que influencie a gestão administrativa da concessionária e desautoriza a empresa a intervir ou influenciar nas atividades diárias de seus concessionários."
Retratação da BMW
Ronald e Priscilla aguardaram quatro dias por uma retratação da concessionária. Segundo eles, a pretensão não era acionar a Justiça, e sim não deixar que esse fato acontecesse novamente e com outras pessoas. Decidiram, então, enviar um e-mail para a BMW Brasil relatando o ocorrido.
A reposta veio rapidamente através do gerente regional de vendas. No e-mail, a empresa diz lamentar o fato ocorrido, pede desculpas pela situação e enfatiza que o compromisso da BMW é prestar um atendimento com excelência.
O casal agradeceu a resposta, sobretudo por reconhecer que o fato realmente ocorreu nas dependências da loja, mas não achou que somente isso era suficiente. Os pais exigiram então uma reposta sobre quais medidas seriam tomadas em relação ao funcionário e como a empresa agiria para que esse fato não acontecesse nunca mais.
Sete dias após o incidente dentro da loja, um novo e-mail com o assunto “desculpas” foi enviado ao casal, desta vez por um representante da Autokraft. Nele, a empresa se diz ciente do ocorrido e afirma que o gerente da loja “entendeu que o casal não estava acompanhado por qualquer pessoa, incluindo a criança. E já que ela estava absolutamente desacompanhada na loja, o funcionário teria alertado o garoto que ele não poderia ali permanecer e que tudo não passou de um mal-entendido”. O correio é finalizado com a seguinte mensagem: “Tenho imenso prazer em tê-lo sempre como cliente amigo”.
‘Mal-entendido’
O termo “mal-entendido” provocou especial indignação em Priscilla e Ronald, que criaram, no último domingo (20), a página no Facebook “Preconceito racial não é mal-entendido”. A intenção, segundo eles, é reunir histórias de preconceito e alertar as pessoas para que não aceitem desculpas e explicações descabidas. A página teve 1,2 mil acessos, segundo ela, em três dias. Até o fim da noite de quarta, 230 pessoas haviam “curtido”.
“Compartilhamos a página só com amigos. Agora já tem um monte de gente contando histórias muito parecidas com a nossa. Preconceito racial é crime. As pessoas têm que tomar conhecimento disso e não se calarem”, concluiu Priscilla.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FUTEBOL

As mulheres do Congresso Nacional Africano, principal partido da África do Sul, estão denunciando discriminação sexista na 29ª edição da Copa Africana de Nações.  

Quatro seleções pedem restrição de mulheres nas arquibancadas da Copa Africana de Nações


Gana, Congo, Mali e Nigéria argumentam que torcedoras levam má sorte e estão relacionadas com bruxaria

Mulheres do Congresso Nacional Africano protestam contra descriminação sexista dos cartolas locais
Do Opera Mundi, com informações da Agência Efe

Apesar do pedido, não foi registrado nenhum incidente dentro dos estádios até o momento


A 29ª edição da Copa Africana de Nações começou no último sábado (19/01) e já levantou uma grande polêmica. Os representantes de alguns times africanos se mostraram preocupados com a presença de mulheres nas arquibancadas, alegando que isso traria “má sorte”.

O fato se tornou público quando um jornal local reportou que as seleções de Gana, Congo, Mali e Nigéria teriam pedido a exclusão de mulheres da parte de baixo dos estádios.

Um organizador do evento que preferiu não se identificar afirmou que a crença de algumas seleções é de que, além de má sorte, mulheres também podem estar associadas à bruxaria. Com esse argumento, algumas seleções teriam solicitado que somente homens pudessem sentar perto do campo durante as partidas.

Contatados por Opera Mundi, tanto o time nacional de futebol da Nigéria como do Congo preferiram não se pronunciar sobre o ocorrido. Não foi possível contato com a seleção de Gana e o representante da equipe de Mali disse estar disposto a falar somente sobre “futebol”.  O comitê local de organização da Copa Africana de Nações ainda não emitiu nenhum comunicado oficial sobre o assunto, mesmo depois de o ANC (Congresso Nacional Africano, na sigla em inglês) ter se posicionado publicamente sobre os fatos.

A porta-voz da Liga Feminina do ANC, Troy Martens, publicou nota oficial se dizendo “chocada e estrarrecida” com as informações divulgadas. “Estamos confiantes que a discriminação contra as mulheres não acontecerá neste campeonato e esperamos que a organização da Copa Africana de Nações se retifique imediatamente”, afirmou.

Martens também pediu que as torcedoras africanas “não abaixem a cabeça para esse tipo de tratamento”. “As sul-africanas são fãs fervorosas de futebol e é um insulto que sejamos excluídas desta maneira, com base em uma crença absurda e sem sentido”, disse.

A polícia da África do Sul afirmou estar preparada para agir caso presencie algum caso de discriminação dentro dos estádios durante o campeonato, que dura até o dia 10 de fevereiro.

No último domingo (20), todos os países que solicitaram a restrição do acesso feminino participaram de jogos no estádio de Johannesburgo. As partidas ocorreram normalmente, sem nenhum registro de problema para as mulheres presentes no local. A Copa Africana de Nações decide a seleção que disputará a Copa das Confederações, no Brasil, em junho deste ano.

A TRAGÉDIA DO MALI II

Outro texto sobre a intervenção francesa no Mali, este destacando a cobiça colonial pelas riquezas minerais do país. Adaptando-se a famosa máxima de Tancredi em Il Gattopardo, de Tommaso di Lampedusa, é preciso que alguma coisa mude - neste caso, as justificativas - para que tudo permaneça como está. Ou, em bom francês, plus ça change, plus c'est la même chose.

Riquezas minerais, além do combate ao terror, explicam intervenção francesa no Mali

Do Opera Mundi


Ao mesmo tempo em que é julgada como necessária, fatores como a riqueza natural malinesa são levados em conta por críticos


O Mali, país localizado na região da costa oeste africana, está desde o dia 11 de janeiro sob intervenção das Forças Armadas da França, país de quem foi colônia até 1959. O país enfrenta uma guerra civil iniciada no ano passado por rebeldes separatistas de origem tuaregue e que, posteriormente, teve o envolvimento de uma coalizão de milícias de orientação religiosa que se aproximava rapidamente da capital, Bamako, sudoeste do país.

Oficialmente, a justificativa do presidente francês François Hollande para a ação militar é que ele recebeu um pedido de emergência do presidente malinês, Dioncounda Traoré, e que o único objetivo do país europeu seria assegurar a segurança do país africano, afastando-o do risco de ser tomado por forças militares terroristas.

Por um lado, a versão oficial é apoiada pela população francesa, pelo governo do Mali e pelos países vizinhos. No entanto, os críticos apontam outros motivos (como a riqueza dos recursos naturais malineses) para que a intervenção seja interpretada como uma nova ofensiva neocolonialista da França na região. Outro aspecto levado em conta para criticar a iniciativa é a baixa popularidade de Hollande, que poderá reverter a tendência de queda livre em caso de sucesso militar.

[...]

As razões da França e o subsolo do Mali

“Temos um único objetivo: assegurar que, quando sairmos, ao fim de nossa intervenção, o Mali esteja seguro, com autoridades legítimas, um processo eleitoral em curso e sem mais terroristas ameaçando seu território”. Essa declaração é de um dos trechos em que Hollande justifica os motivos da França ter entrado no conflito.

“O Mali enfrenta uma agressão de elementos terroristas que vêm do norte [do país] e que todo o mundo conhece pela brutalidade e pelo fanatismo. Está em jogo a própria existência deste Estado amigo, a segurança de sua população e a de nossos seis mil cidadãos que estão lá”, acrescentou o presidente francês.

“A intervenção no Mali é completamente legal e legítima: acima de tudo, ela pretende combater uma coalizão de grupos terroristas que tomou o norte do país e impôs a sharia a essa população, submetendo-os a violações graves dos direitos humanos. As tropas do Mali não tinham condição alguma de combatê-los, era impossível. Se a França não tivesse entrado, as forças rebeldes já teriam tomado em Bamako”, afirma o senegalês Hamidou Anne, especialista em Relações Internacionais e membro do think tank africano Teranga em entrevista a Opera Mundi.

Ele lembra que, diferentemente de outras ocasiões, essa ofensiva foi solicitada pelo presidente malinês e teve apoio do Conselho de Segurança da ONU.

O marfinense Joel Te-Lessia, especialista em Relações Internacionais, lembra também que um dos principais argumentos justificados por Hollande, a integridade territorial do Mali, “não é verdadeiro. Tanto que seu antecessor, Nicolas Sarkozy, no início do conflito, havia orientado o governo malinês a negociar, não com os terroristas, mas com o MNLA (Movimento Nacional de Libertação de Azawad, grupo separatista secular). Quando os rebeldes perderam o controle para os islamistas, a situação mudou”.

Te-Lessia lembra que, inicialmente, estava previsto que a ofensiva seria comandada por países africanos, coordenados pela Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), com os franceses apoiando na logística. “No mês desde outubro (quando o CS da ONU deu o sinal verde), eles não se mostraram prontos. Acredito que Hollande não tinha o desejo que a França interviesse, não era interessante para ele que a imagem da França como um Estado policial voltasse ao imaginário africano, mas as forças do Mali não podiam fazer mais nada, nem as africanas; e os outros países vizinhos estariam em perigo”.

No entanto, para o jornalista suíço Gilles Labarthe, fundador da agência de notícia Datas, as intenções da França passam longe de termos como “guerra ao terror” e “ajuda humanitária”. Especialista em colonialismo francês e autor de livros como L'or africain. Pillages, trafics & commerce international (em tradução livre “O ouro africano: pilhagens, tráfico e comércio internacional”; editora Agone, 2007), ele afirma, em entrevista ao site espanhol Publico.es, que parece “claro que a França e o resto dos países implicados no Mali estão se movendo pelo interesse de assegurarem os recursos minerais da região, como já ocorreu há dois anos na Líbia”.

A TRAGÉDIA NO MALI I

O velho filme de novo, desta vez protagonizado por um governo "socialista". Uma intervenção "humanitária" de uma potência ocidental para salvar um país do Terceiro Mundo da "ameaça terrorista". Depois do Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria, agora é a vez do Mali, ex-colônia francesa. Esta análise de um jornalista britânico é uma das melhores que já foi publicada até agora sobre a intervenção da França no Mali.     
Forças francesas chegam ao Mali
 Sem qualquer controle, sem debate, sem votação parlamentar, sem nenhuma sutileza. A Grã-Bretanha está agora envolvida em mais um conflito militar em um país muçulmano, fiquem sabendo. Aeronaves britânicas estão voando rumo ao Mali, enquanto a França bombardeia o país, argumentando que a milícia islâmica malinesa poderia criar um “estado terrorista” que ameaçaria a Europa. A Anistia Internacional e especialistas da África Ocidental alertam para o potencial desastre da intervenção militar estrangeira, mas as bombas “chovendo” nas cidades malinesas de Konna, Léré e Douentza sugerem que eles foram definitivamente ignorados.
A população civil, sempre a principal vítima
A agonia no Mali surgiu apenas atualmente em nossas manchetes, mas as raízes são antigas. Como as outras potências coloniais ocidentais que invadiram e conquistaram a África a partir do século XIX, a França usou táticas de dividir para reinar no Mali, levando a amargura entrincheirada entre os povos nômades tuaregues – a base da revolta atual – e outras comunidades do país.

Para alguns ocidentais, este é um passado distante que deve ser ignorado, não remexido, e certamente não será usado para impedir nobres intervenções, mas as consequências ainda são sentidas diariamente. Inicialmente, o ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, sugeriu que o legado colonial descartaria uma intervenção liderada pela França, mas pode se dizer que o envolvimento direto francês ocorreu de forma muito mais rápida do que o esperado.

É que esta intervenção é, na verdade, consequência de outra. A guerra da Líbia é frequentemente apontada como uma história de sucesso para o intervencionismo liberal. No entanto, a queda da ditadura de Muammar Kaddafi teve consequências que os serviços de inteligência ocidentais provavelmente nunca sequer se preocuparam em imaginar. Tuaregues – que tradicionalmente vieram do norte do Mali – compunham grande parte do exército de Kaddafi. Quando o ditador foi expulso do poder, eles voltaram para sua terra natal: às vezes à força. Do mesmo modo, negros africanos foram atacados no pós-Kaddafi na Líbia, um fato incômodo amplamente ignorado pela mídia ocidental.


Guerrilheiros muçulmanos do Mali
Inundados com armas da Líbia em tumulto, tuaregues viram uma abertura para seu sonho de longa data rumo à autodeterminação nacional. Com a propagação de uma rebelião, o democraticamente eleito presidente malinês Amadou Toumani Touré foi deposto em um golpe militar e o Exército manteve a sua dominação – apesar de permitir que um governo civil lidere a transição para tomar o poder.

Pode não haver certamente simpatia pela milícia agora em luta contra o governo do Mali. Originalmente, eram os nacionalistas seculares do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad que lideravam a revolta, mas eles já foram deixados de lado por jihadistas islâmicos com uma velocidade que chocou os analistas estrangeiros. Em vez de alcançar a independência tuaregue, eles têm ambições muito mais amplas, ligando-se a grupos semelhantes do norte do Nigéria. A Anistia Internacional relata atrocidades horrendas: amputações, violência sexual, o uso de crianças-soldados, e desenfreadas execuções extrajudiciais.

Mas não caiam em uma narrativa tão frequentemente empurrada pela mídia ocidental, que estereotipa aquilo que se considera o mal, assim como temos visto a brutal guerra civil imposta na Síria. A Anistia relata também brutalidades por parte das forças do governo de Mali. Quando o conflito originalmente explodiu, tuaregues foram presos, torturados, bombardeados e mortos pelas forças de segurança, “aparentemente, apenas por motivos étnicos”, diz a Anistia. Em julho passado, 80 presos detidos pelo Exército foram despojados de suas roupas íntimas, encarcerados em uma cela de 5m², cigarros foram queimados em seus corpos, e eles foram obrigados a sodomizar um ao outro. Já em setembro de 2012, 16 pregadores muçulmanos pertencentes ao grupo Dawa foram presos em um posto de controle e sumariamente executados pelo Exército. Estes são atos cometidos por aqueles que agora são nossos aliados.

Quando o Conselho de Segurança da ONU, por unanimidade, abriu o caminho para a força militar ser usada, especialistas fizeram avisos claros e que ainda devem ser ouvidos. O International Crisis Group pediu foco em uma solução diplomática para restaurar a estabilidade, argumentando que a intervenção poderia exacerbar um conflito étnico crescente. A Anistia advertiu que “uma intervenção armada internacional pode aumentar a escala de violações dos direitos humanos que já estamos vendo neste conflito”. Paul Rogers, professor de estudos de paz na Bradford University argumentou que as guerras passadas mostram que “uma vez iniciadas, elas podem tomar direções alarmantes, ter resultados muito destrutivos, e muitas vezes aumentar os próprios movimentos que se destinam a combater”.
É concebível que esta intervenção pode – por um tempo – atingir seus objetivos de empurrar as milícias islâmicas e reforçar o governo do Mali. Mas a guerra da Líbia foi vista como um sucesso, também, e aqui estamos agora, envolvidos com a seu efeito bumerangue catastrófico. No Afeganistão, as forças ocidentais permanecem engajadas em uma guerra sem fim, que já ajudaram a desestabilizar o Paquistão, levando a ataques que mataram centenas de civis e desencadeando mais caos. O preço das intervenções ocidentais pode muitas vezes ser ignorado pelos nossos meios de comunicação, mas ainda é pago.

A intervenção ocidental liderada pela França, apoiada pela Grã-Bretanha e com possíveis ataques dos norte-americanos, sem dúvida, estimula a narrativa promovida pelos grupos radicais islâmicos. Como aponta o professor Rogers, a ação no Mali vai ser retratada como “mais um exemplo de um ataque contra o Islã”. Com o alcance rápido e moderno da comunicação, grupos radicais na África Ocidental usarão esta escalada de guerra como prova de outra frente aberta contra os muçulmanos.

[...]

Mas as consequências podem ser mais profundas. Além de espalhar caos pela região, a França já mapeou seus alvos que podem ser atingidos por terroristas, e o mesmo podem acontecer com seus aliados. É uma responsabilidade de todos nós questionar o que nossos governos estão fazendo em nossos nomes. Se não aprendermos com o que ocorreu no Iraque, Afeganistão e Líbia, então não haverá esperança.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

OBAMA, LINCOLN E LUTHER KING


Posse de Barack Obama em 21 de janeiro de 2013

Martin Luther King na Marcha sobre Washington, agosto de 1963
Emancipação? Soa muito bem.

Chega o dia 21 e nós já nos familiarizamos com o fato de que 2013 começa com a segunda posse de Barack Obama no dia de Martin Luther King. O ano também coincide com o 50º aniversário da Marcha a Washington e o 150º aniversário da Proclamação da Emancipação. Muitos aniversários. É só uma coincidência curiosa? As conexões podem ser mais profundas. 

Por começar com a Emancipação. A declaração, efetivada em 1º de janeiro de 1863, proclamava a liberdade de todos os escravos que viviam nos Estados Confederados – mas já houvera emancipações anteriores. Na guerra revolucionária, foi prometida emancipação aos africanos escravizados que lutassem contra os britânicos. Posteriormente, outros garantiram sua liberdade por trabalho duro ou fuga, ou ambos. 

A Emancipação não foi tão boa quanto diziam que seria. Por uma coisa: a declaração de 1863 não se referia aos escravos da União. Em Delaware e Kentucky, 40 mil pessoas tiveram que esperar dois anos pela 13º emenda. Mesmo nos anos revolucionários havia um problema: a liberdade legal não chegava necessariamente com os meios para se viver livremente.

APAGÃO E APAGÕES


A oposição e a mídia conservadora falam em “apagão” tentando confundir a opinião pública – que não esquece o apagão de 2001 e o racionamento de energia subseqüente – e defendendo com unhas e dentes o legado de FHC e dos tucanos. Só não pregam no deserto porque existe uma classe média paulistana que adora lhe dar ouvidos, audiência e solidariedade.

O exterminador do passado

por Gilson Caroni Filho

Obra do governo FHC: apagão seguido de racionamento
É difícil dizer o que mais impressiona: se a grande imprensa ter perdido a importância que detinha até os anos 1990  – quando ainda tinha relativa influência no cenário político -, ou a desfaçatez com que seus jornalistas, amadurecidos no tapa na arte de reescrever a história, sonegam dados e fatos, rei dos instrumentos. Por sua extraordinária capacidade de reproduzir os sons orquestrais do reacionarismo brasileiro, realizando recitais a pedidos do Instituto Millenium, Merval Pereira personifica a figura paradigmática do teclado da grande mídia corporativa.

Em 9/1/2013, declarou ele em sua coluna de O Globo que “a imprevidência dos governos petistas no setor energético acabou por neutralizar as críticas feitas à época do apagão de FHC. ”O PT tanto politizou o racionamento de energia ocorrido no Brasil em 2001 que passou a não ter direito de adotá-lo em caso de necessidade, como pode vir a ser o caso proximamente. O problema é que a presidente Dilma, quando ministra, garantiu que o que não ocorrerá mais no Brasil é racionamento de energia, chamando o episódio de “barbeiragem”.

O que Merval, aquele que tanto preza a tese do “domínio do fato” quando se trata de legitimar simulacros de julgamento no STF, faz em sua coluna é submeter, por ação e omissão, os fatos aos desígnios dos que promoveram o festim neoliberal no país durante oito anos.
Se até o início dos anos 1990, o Brasil dispunha de um sistema energético limpo, renovável, barato, capaz de estocar combustível para cinco anos, apto a transferir grandes blocos de energia do Sul para o Norte, do Nordeste para o Sudeste, gerenciando de forma integrada bacias hidrográficas fisicamente distantes milhares de quilômetros, a partir da fronda tucana, tudo isso se desfez.

Ao contrário do que afirma o imortal por encomenda da família Marinho, não só o PT tem plenas condições de continuar criticando a estratégia político-econômica que tanto fragilizou o Estado e a economia brasileira, como podemos atribuir o termo “barbeiragem” a uma incompreensível benevolência da presidente aos que se deixaram levar pelo canto das sereias que habitam os mercados financeiros.

Desde o consórcio demotucano, bloquearam-se os investimentos em expansão do setor de geração de energia. Primeiro em nome do combate à inflação, depois apostando numa chuva de dinheiro decorrente das privatizações e na elasticidade (real) do sistema hidrelétrico. O descaso, é sempre bom lembrar, andou de braços dados no governo incensado pelo prolixo colunista de O Globo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A DIVA AOS 70




Janis Joplin dizia que era “preferível viver dez anos intensamente a viver 70 anos vegetando em frente a uma televisão”. Ela viveu 27, mas foi como se tivesse vivido décadas. Neste sábado, ela finalmente faria 70 anos. Ícone de uma era de rebeldia e transformações, mas também de muita bad trip, Janis Joplin marcou como poucos o “zeitgeist” (espírito da época) dos anos 1960. Morreu de overdose, como Jimmi Hendrix e Amy Winehouse.










ASCENSÃO E QUEDA DA MÍDIA TUPINIQUIM



Há 20 anos, a mídia tupiniquim vivia seu auge, com a vitoriosa campanha contra o presidente Fernando Collor, que ela mesmo havia incensado e ajudado a chegar ao poder. Depois disso, inebriada, perdeu todo e qualquer limite e passou a defender com unhas e dentes seus interesses corporativos.   

O último suspiro de influência da mídia

PAULO NOGUEIRA, Blog Diário do Centro do Mundo

A imprensa construiu e destruiu Collor. Depois disso, se dedicou a defender seus próprios interesses

A queda de Fernando Collor de Mello, há 20 anos, foi a última demonstração de força e influência da imprensa brasileira, para o bem e para o mal. Collor, um político provinciano e oco, tagarela e bonitão, se tornou uma figura nacional graças à mídia, que viu nele uma alternativa salvadora a – sempre ele – Lula na presidência.
Collor seria consagrado como "o caçador de marajás" por jornais e revistas. Era descrito pela mídia como o homem perfeito: combatia marajás – os funcionários públicos de altos salários – e era moderno. Este foi o primeiro empurrão em Collor, e lhe permitiu chegar ao segundo turno das eleições presidenciais.
Sua plataforma era a versão tosca em português da de Margaret Thatcher, que então era tida como uma semideusa. Não haviam aparecido ainda os efeitos sinistros do thatcherismo. Hoje eles são claros, impressos que estão na grande crise econômica e financeira mundial. Mas quando Collor virou um pretendente sério à presidência a fórmula de Thatcher – desregulamentar e privatizar — parecia funcionar.
Como um Thatcher de calças, Collor cortejou e conquistou Roberto Marinho, à época considerado amplamente o homem mais poderoso do país. Isso foi essencial para o segundo empurrão dado em Collor: a edição mal-intencionada da TV Globo do debate entre ele e Lula às vésperas da eleição. Lula não foi bem no debate, mas na edição da Globo – vista por uma audiência gigantesca que já não existe mais para a emissora – ele foi ainda muito pior. E então nosso Thatcher virou presidente.
Collor cometeu o erro de achar que, porque andara de avião, podia voar sozinho. Foi fatal. Não buscou alianças políticas, e não soube manter sequer o apoio da mídia que tanto contribuíra para sua vitória. Sem base política, foi jogado para o abismo pela mesma mídia que o alçara ao Planalto.
Foi o apogeu da imprensa como força política.
Em 1964, ela participara ativamente das ações para a derrubada do presidente João Goulart – mas o papel principal coube aos militares. Em 1992, o protagonismo foi da mídia. Passados vinte anos, o poder da imprensa é uma sombra do que foi. Em parte porque a internet foi ocupando um espaço cada vez maior. Mas também porque as grandes corporações de jornalismo não souberam captar o zeitgeist, o espírito do tempo. E isso é fatal no jornalismo.
Em 1992, por exemplo, ler a Folha era considerado coisa de gente bacana. Ela captara o espírito do tempo na campanha das Diretas Já. Hoje, na nova geração de leitores, quem se importa com a Folha? O espírito do tempo agora se manifesta em coisas como a inconformidade com a iniquidade social monstruosa que varreu o mundo. Na agenda de que grande empresa de mídia se vê algum traço desse inconformismo?
A maior demonstração da crescente falta de potência está nos resultados das três últimas eleições presidenciais. Ganharam candidatos – Lula e Dilma – que jamais gozaram do apoio da mídia, para dizer o mínimo.
É bom ou ruim o enfraquecimento da mídia estabelecida para o Brasil? É difícil lamentar a perda de influência. O Brasil que as grandes empresas de jornalismo ajudaram a construir era simplesmente insustentável em sua iniquidade, na forma absurda com que era distribuído o bolo, no número abjeto de miseráveis amontoados em favelas.
No mundo perfeito, a mídia teria apontado esse drama e lutado para corrigi-lo. Não fez. Fez o oposto, na verdade: se alinhou à manutenção de privilégios e de mamatas. Por isso, vinte anos depois da queda de Collor, fala apenas para os privilegiados – e não todos eles, mas aqueles que em seu egoísmo sem limites ignoram e desprezam os desfavorecidos.