sexta-feira, 1 de outubro de 2010

JORNALISMO "ESCULHAMBATIVO"

É inacreditável a presunção, a arrogância e, sobretudo, a ignorância de certos “coleguinhas” da mídia. Hoje pela manhã, um analista que estava sendo entrevistado pela rádio Eldorado FM sobre a tentativa de golpe no Equador foi bruscamente interrompido pela repórter, que insistia em dar seus pitacos na entrevista: “Mas isso é totalitarismo, né?”, perguntava, referindo-se ao estado de exceção decretado pelo governo para controlar a rebelião dos policiais. Pacientemente, o analista tentava explicar: “não, não tem nada a ver com totalitarismo; é um dispositivo constitucional”. Mas a repórter insistia: “bom, mas então é quase um totalitarismo, não?”. Inútil argumentar. Depois reclamam que aboliram a exigência de diploma para exercer o jornalismo. Em primeiro lugar, um repórter jamais deve expressar suas opiniões numa entrevista. Conheço alguns tipos que parecem que são eles os entrevistados de tanto que interrompem a entrevista para fazer suas “ponderações”. Às vezes, nessa profissão, sobram egos e faltam superegos... É um postulado básico do jornalismo que, quando o repórter quer ser a notícia, a coisa desandou. É a banana comendo o macaco!

Policiais equatorianos rebelados
Mas o pior é quando se junta o partidarismo descarado com a indigência intelectual, como a dessa entrevista que ouvi. Aí, dá vontade de cortar os pulsos... Ao classificar a decretação do “estado de exceção” como “totalitarismo”, a repórter quis jogar o governo do presidente Rafael Correa na vala comum das “ditaduras bolivarianas”. Ora, como lembrou o entrevistado, o “estado de exceção” é um dispositivo constitucional de que dispõem as democracias, semelhante ao estado de sítio. Ele pode ser acionado pelo Poder Executivo ou pelo Congresso, a pedido deste, em casos de emergência ou grave crise institucional. Havia no país vizinho um motim armado de policiais contra o governo que tinha que ser combatido. Pode-se questionar as tendências caudilhescas de Rafael Correa – como as de Hugo Chávez –, mas dizer que seu governo é uma ditadura é de uma estupidez crassa. No Equador, há liberdade de imprensa, partidos e Congresso funcionando, eleições periódicas. Ditadura significa Congresso fechado, partidos proibidos, jornais censurados ou fechados e repressão policial. E ditadura ainda não é totalitarismo; além de banalizar um conceito, comparar os dois revela uma profunda ignorância sobre a natureza dos regimes políticos. Imagine-se então o que significa comparar “estado de exceção”, um mecanismo previsto na Constituição, a “totalitarismo”...

Cartaz dos anos 1930 compara Hitler e Stálin
O conceito de totalitarismo surgiu nos anos 1920, primeiramente para definir o fascismo de Mussolini. Até hoje provoca polêmica pelo fato de ter sido usado como arma ideológica na Guerra Fria pelos americanos, que sob essa rubrica colocavam fascismo, nazismo e comunismo. De qualquer maneira, há alguns consensos entre os estudiosos: o totalitarismo é um regime que se apóia numa ideologia oficial veiculada por intensa propaganda, que visa à adesão de todos os cidadãos; num partido único mobilizador de massas que se confunde com o Estado, e no sistemático terror policial, que reprime arbitrariamente e transforma todo cidadão num potencial delator. Muitas vezes esse regime é encarnado pela figura de um chefe incontestável. Autores modernos acreditam que tal conceito só poderia ser aplicado rigorosamente a dois regimes: o de Adolf Hitler depois de 1937 e o de Josef Stálin após os anos 1930. E mesmo assim, há muita controvérsia. Mas é bobagem pensar que nossos apressados e deslumbrados coleguinhas do jornalismo pós-moderno possam estar minimamente preocupados com precisão histórica e conceitual...

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