quarta-feira, 31 de agosto de 2011

UM HOMEM MUITO À FRENTE DE SEU TEMPO

Êta mês de efemérides! Francisco Clementino de San Tiago Dantas, um dos grandes pilares do governo João Goulart, faria cem anos neste dia 30 de agosto. Integralista na juventude, ele se afastou de suas origens e virou assessor pessoal de Getúlio Vargas durante o seu segundo governo (1951-1954), participando da discussão da criação da Petrobras e da Rede Ferroviária Federal. Em 1958 elegeu-se deputado federal por Minas Gerais pelo Partido Trabalhista Brasileiro (o PTB de Getúlio, Jango e Brizola, não essa legenda de aluguel de hoje).

Nomeado embaixador do Brasil na ONU pelo presidente Jânio Quadros em 22 de agosto de 1961, San Tiago Dantas não chegou a assumir o cargo em virtude da renúncia do presidente. A crise que se seguiu à renúncia foi controlada com a instalação do parlamentarismo. San Tiago Dantas foi escolhido para a pasta das Relações Exteriores do gabinete do premiê Tancredo Neves (PSD).

Seguidor da chamada “politica externa independente”, iniciada no governo Quadros – curiosamente sob a batuta do udenista Afonso Arinos –, San Tiago Dantas promoveu o reatamento das relações com a União Soviética. Na reunião de chanceleres dos países americanos de janeiro de 1962, em Punta del Este (Uruguai), discordou da posição de Washington, que exigia a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em março, San Tiago Dantas chefiou a delegação brasileira enviada a Genebra para participar da Conferência de Desarmamento, onde o Brasil se definiu como “potência não-alinhada”. Deixou o ministério em junho, para poder disputar um novo mandato na Câmara. Ainda em junho, Tancredo Neves renunciou e Goulart encaminhou ao Congresso o nome de San Tiago Dantas para substituí-lo. Como ele era apoiado pelos setores nacionalistas e de esquerda do Parlamento e pelos sindicatos, as forças reacionárias vetaram sua indicação. Em outubro de 1962, foi reeleito deputado federal.

Tancredo Neves (à esq.)  e San Tiago Dantas
Em janeiro de 1963, um consulta popular determinou por larga margem de votos o retorno ao regime presidencialista. João Goulart formou um novo ministério e San Tiago Dantas assumiu a pasta da Fazenda, comprometendo-se com um programa de austeridade econômica baseado no Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, de autoria de Celso Furtado, ministro extraordinário para o Planejamento. O plano previa a retomada de um índice de crescimento econômico em torno de 7% ao ano e a redução da taxa de inflação -que em 1962 chegara a 52% - para 10% em 1965. Logo após sua posse no ministério, San Tiago Dantas tomou medidas voltadas para a estabilização da moeda e aboliu os subsídios para as importações de trigo e de petróleo a fim de aliviar a situação do balanço de pagamentos, conforme exigência do Fundo Monetário Internacional. Em março, viajou para os EUA para discutir a ajuda norte-americana ao Brasil e a renegociação da dívida externa.

Em meio à crescente polarização entre conservadores e reformistas, San Tiago Dantas fez um pronunciamento pela televisão em abril, apontando a existência de duas esquerdas: a “positiva”, onde ele mesmo se inseria; e a “negativa”, formada por radicais como Brizola, as Ligas Camponesas e o PCB. Diante das dificuldades encontradas na aplicação do Plano Trienal, Goulart mudou mais uma vez seu ministério, do qual saíram Celso Furtado e San Tiago Dantas.

Quando San Tiago Dantas reassumiu seu mandato na Câmara, setores militares, políticos e empresariais já se organizavam para depor Goulart. A pedido do presidente, ele começou a articular as correntes políticas próximas do governo com o objetivo de evitar o golpe. Em janeiro de 1964, concluiu a elaboração de um programa mínimo voltado para a formação de um governo de frente única, que incluiria desde o PSD até o Partido Comunista Brasileiro. Entretanto, o PSD e a Frente de Mobilização Popular (FMP), liderada por Brizola, manifestaram-se contra. A FMP acusava Goulart de conciliar com grupos contrários às reformas de base e só passou apoiar a formação da frente única quando o golpe militar era iminente. Significativamente, ele morreu em 6 de setembro de 1964, meses depois do golpe militar de derrubou Goulart e instalou a ditadura militar no país
(informações retiradas do site do CPDOC/FGV)Num discurso pronunciado em 1963, quando recebeu o título “Homem do Ano” da revista Visão, San Tiago Dantas definiu seu projeto político:

“a) a certeza de que a sobrevivência da democracia e da liberdade, no mundo moderno, depende de nossa capacidade de estendermos a todo o povo, e não de forma potencial, mas efetiva, os benefícios hoje reservados a uma classe dominante, dessa liberdade e da própria civilização;

b) a certeza de que a continuidade da civilização, com o seu resultado final que é a reconciliação dos homens, depende da nossa capacidade de preservar a paz, substituindo a competição militar entre os povos por técnicas cada vez mais estáveis de cooperação e de convivência, e caminhando para uma integração econômica que nivele as oportunidades, com a rápida eliminação dos resíduos do imperialismo e das rivalidades nacionais.”


Que San Tiago Dantas seja pouquíssimo conhecido e estudado no Brasil de hoje é um dos legados da miséria cultural da ditadura.

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