terça-feira, 2 de agosto de 2011

VISÕES DA CRISE

Duas análises sobre a crise da dívida norte-americana, uma da Carta Maior, outra de Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia e articulista do New York Times:

A NOVA AGENDA POLÍTICA DO PÓS-CRISE: ESTADOS ENGESSADOS, DESEMPREGO E RADICALIZAÇÃO SOCIAL

“A rendição de Obama à lógica do arrocho fiscal imposta pelo extremismo conservador não é um ponto fora da curva. Não vai passar logo. Seus efeitos não recairão apenas sobre os idosos e os loosers norte-americanos. Obama protagoniza de forma assustadoramente passiva – até para quem desconfia de lideranças-twiter – um enredo que se espalha urbi et orbi. Na Europa como nos EUA, a desordem gerada pelo colapso das finanças desreguladas está sendo ‘equacionada’ pelo cânone dos interesses que a originaram. Nos EUA quem os vocaliza é o liberal-fascismo do Tea Party, que reduziu Obama a coadjuvante da cena política. Na Europa, três mosqueteiros de cepa correlata, Merkel, Sarkozy e Trichet, anunciaram há 15 dias um acordo ‘redentor’ para escalpelar a Grécia sem ferir os mercados. A promessa era interromper o contágio que já tomava de assalto o Tesouro espanhol e italiano, obrigados a pagar juros crescentes a credores em fuga. Durou pouco. Nesta 3º feira, numa apoteose da espiral assistida desde então, a Espanha teve que pagar os maiores juros desde 1995 para renovar papagaios no mercado. Agosto promete ser o mais quente da história italiana. Berlusconi terá que repactuar juros incidentes sobre umvoume de dívidas equivalente ao passivo da Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda juntos. Na zona do euro ou na do dólar, os Estados, grosso modo, quebraram na luta contra as chamas do incêndio especulativo de 2007/2008. No rescaldo recessivo os captais incendiários exigem que o bombeiro reduza o hidrante fiscal a um conta gotas orçamentário ortodoxo. E assegure assim a solvência da dívida privada reciclada em déficit público. A desaceleração econômica embutida nessa lógica tem implicações práticas ascendentes: o desemprego nos EUA é de 9%; a média na Europa é de 10%. Projeções indicam que o patamar de emprego pré-crise só será reposto nos EUA dentro de uns cinco anos, ou 60 meses. Mas quem já caminha sobre brasas recessivas tem pela frente um longo e traumático ciclo de retração fiscal feito de cortes sobre receitas declinantes. Anos e anos de eclipse econômico e destruição de conquistas sociais se anunciam. Capitais especulativos continuarão a buscar praças mais apetitosas, como a dos juros oferecidos pelo Brasil, agravando desequilíbrios cambiais conhecidos. As ruas do mundo ficarão lotadas de desempregados e manifestantes. A proporção vai depender da reação dos partidos e sindicatos progressistas diante dos fatos pedagógicos que marcaram a história dos EUA nos últimos dias.”


(Carta Maior, 02/08/ 2011)

O presidente se rende
Médicos medievais escolhem sangrar o paciente

PAUL KRUGMAN
New York Times

Um acordo para elevar o teto de endividamento [do governo americano] está sendo fechado. Se passar, muitos comentaristas vão declarar que um desastre foi evitado. Mas eles estarão errados.

Pois o acordo, dada a informação sobre ele disponível, é um desastre, e não apenas para o presidente Obama e seu partido. Vai danificar uma economia já deprimida; provavelmente vai tornar o antigo déficit dos Estados Unidos ainda pior, não melhor; e, mais importante, ao demonstrar que extorsão nua e crua funciona, sem causar custo político, vai colocar os Estados Unidos no caminho para o status de república das bananas.

Comecemos pela economia. Nós atualmente temos uma economia profundamente deprimida. Vamos continuar a ter uma economia deprimida por todo o próximo ano. E provavelmente teremos uma economia deprimida até 2013, se não além.

O pior que se pode fazer nestas circunstâncias é cortar os gastos do governo, já que isso vai deprimir a economia ainda mais. Não preste atenção naqueles que invocam a fadinha da confiança, alegando que ações duras no corte do orçamento vão dar segurança aos empresários e consumidores, fazendo com que eles gastem mais. Não funciona desse jeito, um fato que é confirmado por muitos estudos históricos.

Na verdade, cortar gastos quando a economia está deprimida não vai nem mesmo ajudar muito na situação do orçamento, pode até piorar. De um lado, os juros em empréstimos federais já estão bem baixos; assim, os cortes vão fazer pouco para reduzir os custos de juros futuros. De outra parte, enfraquecer a economia agora vai prejudicá-la a longo prazo, o que por sua vez vai reduzir a arrecadação futura. Assim, aqueles que exigem cortes são como médicos medievais que tratam os pacientes com sangramento, tornando-os ainda mais doentes.

E então temos os termos do acordo, que representam uma rendição abjeta da parte do presidente. Primeiro, haverá grande corte de gastos, sem aumento da arrecadação. Em seguida, um comitê fará recomendações sobre futuras reduções do déficit — e se estas recomendações não forem aceitas, haverá novos cortes de gastos.

Os republicanos supostamente terão um incentivo para fazer concessões da próxima vez, porque gastos em defesa poderão ser incluídos nos cortes subsequentes. Mas o Partido Republicano acaba de demonstrar que aceita o risco de um colapso financeiro até obter o que os mais extremistas de seus integrantes querem. Por que esperar que serão mais razoáveis da próxima vez?

Na verdade, os republicanos vão se sentir encorajados pela maneira como o sr. Obama se entrega diante de ameaças. Ele se rendeu em dezembro passado, ao estender todos os cortes de impostos de Bush; ele se rendeu na primavera, quando os republicanos ameaçaram fechar o governo; e ele se rendeu em grande estilo agora, sob extorsão pura e simples, na questão do teto da dívida. Talvez só eu veja uma tendência nisso.

Desta vez o presidente tinha alguma alternativa? Sim.


Em primeiro lugar, ele poderia e deveria ter exigido um aumento no teto da dívida em dezembro passado. Quando perguntado porque não o fez, respondeu que estava certo de que os republicanos agiriam com responsabilidade. Boa!

Mesmo agora, o governo Obama poderia ter recorrido a manobras legais para driblar o teto da dívida, usando qualquer uma de várias opções. Em circunstâncias normais, isso poderia parecer um passo extremo. Mas Obama enfrentava a realidade do que está acontecendo, ou seja, da extorsão de um partido que, afinal, controla apenas uma das casas do Congresso, e assim seria totalmente justificável.


Pelo menos o sr. Obama poderia ter usado a possibilidade de uma disputa legal para fortalecer sua posição de barganha. Em vez disso, no entanto, ele descartou isso desde o começo.


Mas se ele jogasse duro isso não ia preocupar os mercados? Provavelmente, não. Na verdade, se eu fosse um investidor eu ia me sentir seguro, não desanimado, com a demonstração de que o presidente era capaz e desejava enfrentar a chantagem dos extremistas de direita. Em vez disso, ele escolheu demonstrar o oposto.


Não se enganem, o que estamos testemunhando aqui é uma catástrofe em múltiplos níveis.


É, naturalmente, uma catástrofe política para os democratas, que por algumas semanas pareciam ter os republicanos em fuga por causa do plano deles de desmantelar o Medicare [programa federal de saúde]; agora o sr. Obama jogou tudo aquilo fora. E os danos não acabaram: haverá outros pontos de estrangulamento que os republicanos poderão usar para criar uma crise a não ser que o presidente se renda e agora eles podem agir confiantes de que Obama vai se render de novo.

No longo prazo, no entanto, os democratas não serão os únicos perdedores. O que os republicanos conseguiram foi colocar em questão nosso próprio sistema de governo. Afinal, como a democracia americana pode funcionar se a política é ditada pelo partido mais preparado para ser cruel e para ameaçar a segurança econômica da Nação? E a resposta é… talvez não possa.

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