quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A GRANDE TRAGÉDIA - ATO I

Hoje completam-se 50 anos da renúncia de Jânio da Silva Quadros à Presidência da República, ocorrida sete meses depois de ele tomar posse e sete anos depois do suicídio de Getúlio Vargas. E, para quem aprecia a Cabala, a renúncia abriu uma crise institucional que desembocaria, sete anos depois, no Ato Institucional nº 5, o “golpe dentro do golpe”.

Eleito por uma coalizão liderada pela UDN, Jânio teve a maior votação já obtida por um candidato a presidente até então (6 milhões de votos). Em apenas 13 anos, ele ocupara os cargos de vereador, deputado federal, prefeito de São Paulo, governador do estado e presidente. Sua eleição ao Planalto ocorreu na sequência dos anos de euforia de JK, quando o país estava confiante em seu futuro. Na posse, Jânio pintou um quadro desastroso das finanças públicas. Mas sua política errática – conservadora e alinhada ao FMI no plano interno e voltada ao bloco socialista e não-alinhado na política externa – desconcertou tanto aliados quanto inimigos. Em pouco tempo, Jânio Quadros estava em guerra com o Congresso e com o mentor de sua candidatura, o golpista-mór Carlos Lacerda.

Em depoimento ao neto John, pouco antes de morrer, Jânio confirma o que já se suspeitava: a renúncia foi uma tentativa de voltar “nos braços do povo” com mais poderes – um golpe de Estado. Abaixo, as declarações do próprio Jânio sobre a renúncia ao neto, publicadas em 1996 no livro Memorial à História do Brasil, inacreditavelmente ignorado pela mídia:

“Quando assumi a presidência, eu não sabia da verdadeira situação político-econômica do País. A minha renúncia era para ter sido uma articulação: nunca imaginei que ela seria de fato aceita e executada. Renunciei à minha candidatura à presidência, em 1960. A renúncia não foi aceita. Voltei com mais fôlego e força. Meu ato de 25 de agosto de 1961 foi uma estratégia política que não deu certo, uma tentativa de governabilidade. Também foi o maior fracasso político da história republicana do país, o maior erro que cometi (…). Tudo foi muito bem planejado e organizado. Eu mandei João Goulart (vice-presidente) em missão oficial à China, no lugar mais longe possível. Assim, ele não estaria no Brasil para assumir ou fazer articulações políticas. Escrevi a carta da renúncia no dia 19 de agosto e entreguei ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, no dia 22. Eu acreditava que não haveria ninguém para assumir a presidência. Pensei que os militares, os governadores e, principalmente, o povo nunca aceitariam a minha renúncia e exigiriam que eu ficasse no poder. Jango era, na época, semelhante a Lula: completamente inaceitável para a elite. Achei que era impossível que ele assumisse, porque todos iriam implorar para que eu ficasse (…). Renunciei no Dia do Soldado porque quis sensibilizar os militares e conseguir o apoio das Forças Armadas. Era para ter criado um certo clima político. Imaginei que, em primeiro lugar, o povo iria às ruas, seguido pelos militares. Os dois me chamariam de volta. Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26. Achei que voltaria de Santos para Brasília na glória. Ao renunciar, pedi um voto de confiança à minha permanência no poder. Isso é feito frequentemente pelos primeiros-ministros na Inglaterra. Fui reprovado.O país pagou um preço muito alto. Deu tudo errado’’.

Há tempos, o jornalista Geneton de Moraes Neto postou em seu blog um ácido comentário sobre a cochilada dos editores da grande mídia em relação às revelações contidas no livro:

“A mais sincera confissão já feita por Jânio Quadros sobre os reais motivos que o levaram a renunciar à Presidência da Republica no dia 25 de agosto de 1961 somente foi publicada em 1995, em escassas sete páginas de um calhamaço lançado por uma editora desconhecida de São Paulo em louvor ao ex-presidente.

[...]

Jânio morreria no dia 16 de fevereiro de 1992, aos 75 anos de idade. O neto fez segredo sobre o que ouviu. Somente publicou as palavras do avô quatro anos depois. Ao contrário do que fazia diante dos jornalistas – a quem respondia com frases grandiloqüentes, mas pouco objetivas sobre a renúncia – Jânio Quadros disse ao neto, sem rodeios e sem meias palavras, que renunciou simplesmente porque tinha certeza de que o povo, os militares e os governadores o levariam de volta ao poder. Não levaram.


Talvez porque já pressentisse o fim próximo, Jânio admite,diante do neto, pela primeira vez,que a renúncia foi “o maior fracasso político da história republicana do Pais,o maior erro que cometi”.


A já vasta bibliografia sobre a renúncia ganhou, assim, um acréscimo fundamental, feito pelo próprio Jânio – a única pessoa que poderia explicar o enigma. Desta vez, a explicação parece clara.


Um detalhe inacreditável – que revela como as redações brasileiras são povoadas por uma incrível quantidade de burocratas que vivem assassinando o jornalismo: a confissão final de Jânio mereceu destaque zero nas páginas da imprensa brasileira, o que é estranho, além de lamentável.


A imprensa – que passou três décadas perguntando a Jânio Quadros por que é que ele renunciou – resolve deixar passar em brancas nuvens a confissão final do ex-presidente sobre a renúncia, acontecimento fundamental na historia recente do Brasil.


Tamanha desatenção parece ser um subproduto típico de uma doença facilmente detectável nas redações – a Síndrome da Frigidez Editorial. Joga-se notícia no lixo como quem se descarta de um copo de papel sujo de café . Leigos na profissão podem estranhar, mas a verdade é que há notícias que precisam enfrentar uma corrida de obstáculos dentro das próprias redações, antes de merecerem a graça suprema de serem publicadas! Isto não tem absolutamente nada a ver com disponibilidade de espaço, mas com competência, faro jornalístico.


Se a última palavra do um presidente sobre um fato importantíssimo não merece uma linha sequer em jornais e revistas que passaram anos e anos falando sobre a renúncia, então há qualquer coisa de podre no Reino de Gutenberg. Quem paga a conta, obviamente, é o leitor, a quem se sonegam informações.


O caso da confissão de Jânio sobre a renúncia é exemplar: a informação fica restrita aos magros três mil exemplares do livro do neto. E os milhares,milhares e milhares de leitores de jornais e revistas, onde ficam ? A ver navios. É como dizia o velho Paulo Francis: “Nossa imprensa: previsível, empolada, chata. Como é chata, meu Deus!”.


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