quinta-feira, 1 de setembro de 2011

OS ABUTRES DO MERCADO

Francis Bacon, Self Portrait (1949)
A tigrada neoliberal que domina o colunismo econômico da nossa grande mídia está babando! Incapazes de prever a decisão do Copom, que ontem reduziu em 0,5 ponto percentual a taxa Selic, baixando os juros para 12% ao ano, saíram acusando o golpe, sugerindo que o Banco Central "cedeu às pressões" do governo ou enlouqueceu. Como é que pode, dizem eles, num momento em que o Brasil estaria “costeando o alambrado” de uma inflação de 7% ao ano, o Copom não manter os juros altos para conjurar essa ameaça?

É impressionante a incapacidade desses setores de enxergar um palmo além de suas viseiras monetaristas. Dias antes, o governo federal anunciara a decisão de aumentar o superávit primário em R$ 10 bilhões. Em vez de gastar mais, como alerdeiam esses comentaristas falando em nome do "mercado", a União se propõe a usar a sobra da receita do ano para diminuir a dívida pública, em vez de, por exemplo, redirecioná-lo para investimentos como o PAC (Programa de Aceleração do Desenvolvimento), como poderiam defender os bons keynesinos.

Francis Bacon, Study of George Dyer (1969) 
No início do ano, o governo segurou os aumentos do salário mínimo e o dos aposentados. À época já se sabia que em 2011 haveria superávit fiscal, mas o governo preferiu beneficiar os credores, sinalizando ao mercado seu compromisso com a responsabilidade fiscal. Assim, ficou-se com folga para dar aumentos substantivos ao mínimo em 2012 sem comprometer o caixa. A medida também abria caminho para a redução imediata dos juros - uma maneira não-ortodoxa de enfrentar a crise. Mas nossos monetaristas, obcecados com a relação taxa de juros/inflação, não abriram a boca.
Os órfãos de Roberto Campos e Milton Friedman deveriam olhar para a conjuntura internacional e nacional em vez de ficar repetindo seus mantras thatcheristas. É sabido que os mercados europeus e americanos estão em recessão, o que afeta as economias dos países que exportam para eles, como o Brasil, China e Índia. E a excessiva liquidez está realimentando a especulação financeira. Isso sem falar nas ameaças que estão colocadas para as contas públicas brasileiras com a redução global da demanda por commodities e a política norte-americana de resgatar títulos públicos, injetando ainda mais dólares no mercado financeiro internacional. O Brasil está sofrendo com a valorização do real, agravada pela taxa de juros mais alta do mundo; logo, adivinhem para onde irão esses dólares?
 
 Bacon, Central panel of the ‘Triptych of George Dyer’ (1973)

Para o professor Antonio Carlos Lacerda, da PUC-SP,
“contraditoriamente, apesar do relativamente bom desempenho fiscal, o país permanece no topo no ranking dos países que mantêm as maiores taxas de juros reais. Como efeito dessa distorção, o custo de financiamento da dívida pública atingiu, nos últimos 12 meses acumulados, R$ 224,8 bilhões, ou 5,7% do PIB! É uma verdadeira 'bolsa-rentista', equivalente a 17 vezes o custo anual do programa Bolsa-Família, que com R$ 13 bilhões atendeu cerca de 60 milhões de pessoas no ano que passou.”


Como disse o jornalista Luís Nassif, “qualquer gestor responsável trabalhará sempre com o cenário de maior risco, aquele capaz de trazer maiores danos à economia”. No caso brasileiro, “inegavelmente é o cenário de aumento da recessão mundial (que ninguém duvida mais), retomada da crise financeira (alertas cada vez mais frequentes) e desvalorizações competitivas (em curso). Somando-se esses fatores, a maior ameaça ao país, à economia e ao controle da inflação seria a crise do balanço de pagamentos com uma desvalorização repentina do real. A maioria dos analistas ouvidos que critica do Banco Central após a decisão do Copom move-se exclusivamente pelo “efeito manada”, relação Selic/inflação. Não há sofisticação em suas análises, não há diversidade de ângulos, não há visões complexas da economia, há total incapacidade de incluir qualquer variável adicional, especialmente as essenciais. A única coisa que sabem é pegar a correlação Selic-juros – que alguém montou – e repeti-las indefinidamente com o ar sábio de uma coruja. E bater na tecla de que a redução da Selic afeta a credibilidade do Banco Central”.

Não concordo apenas com o "ar sábio de uma coruja" - os próceres da "pátria financeira" costumam grasnar como os abutres. 

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