quinta-feira, 18 de novembro de 2010

VIEIRA: A PRÉDICA A SERVIÇO DA RAZÃO

"Príncipes, reis, imperadores, monarcas do mundo: vedes a ruína de vossos reinos, vedes as aflições e misérias de vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E, se não o remediais, como o vedes? Estais cegos.

A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas [...] Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira ou, falando medicamente, em cegueira da primeira, da segunda, e da terceira espécie. A primeira é causada pela desatenção: a dos cegos que vêem e não vêem juntamente; a segunda cegueira é causada pela paixão, a de cegos que vêem uma coisa por outra; a terceira, causada pela presunção: a de cegos que vendo o demais, só a sua cegueira não vêem.

Neste mundo conturbado, quem tem muito dinheiro, por mais inepto que seja, tem talento e préstimos para tudo; quem não tem dinheiro, por mais talento que tenha, não presta para nada.

A admiração é filha da ignorância, porque ninguém se admira senão das coisas que ignora, principalmente se são grandes; e mãe da ciência, porque admirados os homens das coisas que ignoram, inquirem e investigam as causas delas até as alcançar, e isto é o que se chama ciência.

Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz.

Para falar ao vento, bastam as palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.
Eu não temo a morte, temo a imortalidade."

Antônio Vieira (1608-1697), Sermões

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