domingo, 28 de novembro de 2010

MUITO ALÉM DA TROPA DE ELITE

















A operação contra o narcotráfico desencadeada pelas forças de segurança pública no Rio de Janeiro não tem paralelo na história desse confronto. Pela primeira vez, uma ação coordenada entre a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal, Marinha e Exército - operação que envolveu 1.200 homens - foi coroada de êxito e provocou baixas mínimas. Primeiramente, a ação policial expulsou os traficantes da Vila Cruzeiro, usando blindados da Marinha para transportar policiais e vencer os obstáculos colocados pelos traficantes. Acuados, cerca de 600 bandidos fugiram para o Complexo do Alemão. Enquanto paraquedistas do Exército com experiência no Haiti cercavam as 44 entradas do complexo, as forças policiais entraram na comunidade e fizeram uma operação de varredura em busca dos criminosos. A experiência dos paraquedistas na pacificação do Haiti evitou o envolvimento direto deles na operação propriamente policial. Não houve o confronto violento que se esperava, provavelmente porque os traficantes perceberam que estavam em nítida desvantagem com as forças de segurança.

O nível inédito de colaboração entre o governo do Rio de Janeiro e o Governo Federal permitiu a execução dessa operação tão bem coordenada. E, ao contrário de outras ações dessa natureza, desta vez não houve violência policial indiscriminada, mas o uso da inteligência para buscar os bandidos, além da colaboração da comunidade, que pela primeira vez se sentiu protegida pelo Estado e não numa "terra de ninguém" em que os civis ficavam sob fogo cruzado da polícia e dos bandidos. Completamente diferente do que aconteceu em São Paulo, em 2006. Depois que o PCC declarou "toque de recolher" na cidade, a polícia executou mais de 400 "suspeitos", num ato de vingança rasteira para encobrir o acordo que as autoridades estaduais tinham feito com o traficante Marcola. Com essa ação do Rio, o poder público começa a retomar áreas onde vigorava um poder paralelo que não tem nenhum escrúpulo e fazia os habitantes das favelas de reféns.

Mas é preciso não ter ilusões. A retomada parcial do controle do Estado sobre a cidade, com a política de ocupação das favelas por meio das UPPs, não vai acabar com o narcotráfico, nem no Rio de Janeiro nem no Brasil. Este é um problema multinacional que não terá solução enquanto não se legalizar as drogas, quebrando de vez a espinha dorsal do crime organizado e da corrupção policial. Mas pensar nessa possibilidade hoje em dia é completamente utópico - e portanto, teremos que conviver com o crime organizado por muito tempo ainda. E é preciso lembrar que no Rio de Janeiro existe também o problema das famigeradas milícias - integrantes da banda podre da corporação policial que "vendem" proteção aos ameaçados pelo narcotráfico e também operam com drogas e outras ilegalidades. Segundo alguns estudiosos, as milícias podem ser o estágio superior do narcotráfico, porque economicamente diversificadas. A estes, o Estado ainda não deu combate, pelo menos combate eficaz.

O "capitão Nascimento"

Washington Luís
Outra ilusão correlata dessa vitória parcial do Estado sobre o narcotráfico é acreditar que ações policiais resolverão por si só todos os problemas ligados à violência urbana e à criminalidade. É a "ideologia do capitão Nascimento", cara a uma certa classe média, que crê que um punhado de salvadores da pátria, do tipo integrantes do BOPE, implacáveis e incorruptíveis, seriam a única resposta do poder público contra esse flagelo, sem levar em conta a necessidade de políticas públicas sociais para eliminar as causas dessa violência. É a "Tropa de Elite III", como a capa da Veja desta semana parece sugerir. Trata-se da velha "tese" das oligarquias brasileiras de que a questão social é um caso de polícia - frase de Washington Luís, o carioca que governou São Paulo até ser deposto pela Revolução de 1930. 

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