segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O CHEFE DO MOSSAD FUGIU DAS AULAS DE HISTÓRIA?



Meir Dagan, chefe do Mossad

Uma das mais surpreendentes revelações dos documentos secretos provenientes das embaixadas americanas pelo mundo que foram divulgados pelo site Wikileaks é a de que o Mossad (serviço de inteligência externa israelense) propunha aos EUA articular um golpe militar para derrubar o regime dos aiatolás no Irã. O plano era um programa em cinco fases com o objetivo de impedir a qualquer custo que Teerã obtivesse êxito no desenvolvimento de seu programa nuclear - o que lhe daria condições de produzir a bomba atômica, quebrando o monópolio que Israel mantém sobre a arma de destruição total na região. A proposta foi apresentada em 2007 pelo general Meir Dagan, chefe do Mossad, ao então subsecretário de Estado americanos para assuntos políticos, William Burns.

É impressionante como a mentalidade de caserna de Israel atingiu tal paroxismo que provocou uma abissal decadência do nível político dos militares israelenses. Antigamente, o país dispunha de líderes militares que, mesmo sendo "duros" no campo de batalha, se revelaram estadistas realistas, capazes de entender o inimigo e a complexidade do conflito, como Moshe Dayan e Yitzhak Rabin. Hoje, dominam a cena israelense tipos messiânicos como esse Dagan, que além de tudo parece ter fugido das aulas de História ou saído da famigerada Escola das Américas - aquela instituição que os EUA tinham no Panamá nos tempos da Guerra Fria que ensiva técnicas de contra-insurgência aos milicos latino-americanos. Uma proposta doidivanas dessas supõe um desconhecimento atroz do passado histórico do Irã.

Revolução Islâmica no Irã em 1979

Mossadegh
Em 1953, instigado pelos britânicos, os Estados Unidos patrocinaram, por meio da recém-criada CIA (Agência Central de Inteligência), um golpe de Estado no Irã contra o então primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh, que havia expropriado a British Petroleum e nacionalizado a indústria petrolífera do país. Em seu lugar, foi reinstaurado o poder do xá Reza Pahlevi, um testa de ferro dos interesses ocidentais que governou e tentou modernizar o Irã a ferro e fogo. A memória desse golpe contra Mossadegh marcou o país e alimentou ressentimentos contra os americanos, que explodiriam décadas depois, em 1979, quando a ditadura do xá foi derrubada por um grande movimento de massas, que depois seria instrumentalizado pelo clero xiita liderado por Khomeini  

O analista americano Chalmers Johnson, morto este mês, retomou um conceito que a velha escola de espionagem emprestara dos militares - Blowback - e o redefiniu para explicar o processo de "bumerangue" provocado pelas "operações encobertas" - ou não tão encobertas - dos EUA em vários países do Terceiro Mundo ao longo da Guerra Fria; em suma, ele tentou entender como essas ações acabaram inevitavelmente se voltando contra os próprios interesses americanos. Irã, Nicarágua, El Salvador, China, Vietnã e Camboja são apenas alguns exemplos. Que um chefe do Mossad desconheça tudo isso a ponto de propor a repetição de ações desse tipo mostra a condição lastimável do atual establishment israelense.    

Aroeira (1967), Geraldo Vandré

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