terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O URUGUAI ENTRE DOIS JOSÉS

O Uruguai acaba de eleger como presidente um ex-guerrilheiro tupamaro, José Mujica, de 75 anos. Trata-se de um político conciliador, no melhor sentido da palavra, herdeiro do reformismo "battlista", movimento progressista liderado José Battle y Ordóñez, presidente do Uruguai por dois períodos (1903-1907 e 1911-1915). Foi o battlismo que transformou o Uruguai na "Suíça da América do Sul" - metáfora um tanto desbotada hoje pela xenofobia helvética. Graças à prosperidade e à pacificação política interna, o primeiro governo Batlle criou pensões e aposentadorias. Em seu segundo mandato foram instituídas a jornada de trabalho de oito horas e a isenção de impostos sobre bens de consumo, antecipando o Welfare State (Estado de Bem-Estar) que bem depois a Europa criaria para abrandar as desigualdades do capitalismo laissez-faire. A precoce laicidade do Estado uruguaio é um fato inusitado na América católica: em 1906, foram banidos símbolos religiosos de locais públicos e no ano seguinte foi instituído o divórcio (no Brasil, a Igreja impediu o divórcio até 1977 e na Argentina o catolicismo é religião oficial até hoje).

Entre 1973 e 1985 o Uruguai viveu o interregno de uma violenta ditadura civil-militar. A volta da democracia trouxe também as ilusões neoliberais que quase destruíram o país. A herança battlista só seria - parcialmente - retomada em 2004, com a eleição de Tabaré Vázquez, da centro-esquerdista Frente Ampla, numa eleição que também rompeu o condomínio bipartidário blanco-colorado. Mas Vázquez, mais conservador do que a Frente, vetou leis progressistas aprovadas pelo Congresso. Se tudo der certo, Mujica pode ser o Battle do século XXI.

Um comentário:

  1. O engraçado é que, ao mesmo tempo que voce dá uma aula de história, voce entrega toda a sua a sua história.

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