terça-feira, 29 de dezembro de 2009

HISTÓRIA A CONTRAPELO?

"Não existe documento da cultura que também não seja um documento de barbárie... portanto, na medida do possível, o materialismo histórico se distancia dela. Considera que sua missão é escovar a História a contrapelo"
(Walter Benjamin, Sobre o conceito de História, tese VII)


O governo da China condenou a 11 anos de prisão o mais conhecido dissidente do país, Liu Xiaobo, que está detido desde 2008 por ter ajudado a elaborar uma petição - a "Carta de Direitos 08" -, reivindicando liberdades democráticas no país. Essa carta ecoa a "Carta 77", assinada por dissidentes tchecoslovacos na época em que o então país - a Tchecoslováquia - vivia sob a órbita soviética. Xiaobo, 53 anos, participou das manifestações da Praça da Paz Celestial em 1989, reprimidas manu militari pelas autoridades chinesas. Mas o que é interessante no caso chinês não é tanto a quantidade de dissidentes que, volta e meia, chamam a atenção da mídia ocidental - fenômeno comum a qualquer regime autocrata - mas a quantidade - e a vacuidade - de vozes dissonantes provenientes do círculo do poder. Talvez o mais proeminente dessas vozes tenha sido a do ex-premier e ex-secretário-geral do PCC Zhao Ziyang (1919-2005). Ele foi o grande mentor das reformas econômicas de Deng Xiaoping, que projetaram a China como potência mundial, mas, mais importante, ele liderou um esforço - inútil, logo se veria - para democratizar o regime, na esteira da glasnost do líder soviético Mikhail Gorbatchóv. Defendia a separação das funções do Estado e do partido e a introdução de um regime parlamentar democrático. Dialogou abertamente com os estudantes da Praça da Paz Celestial, mas foi vencido pela gerontocracia linha-dura - Deng à frente - ciosa de seu poder. Caiu em desgraça pouco antes do massacre na praça levado a cabo por tanques do Exércicto. Antes de Zhao, também tinham sido tragados pela lógica de ferro da Nomenklatura dirigentes liberais ou moderados, conforme o gosto, como Zhou Enlai (1898-1976) e Hu Yaobang, cuja morte, em 1989, desencadeou os protestos em Pequim. Zhao ficou em prisão domiciliar até sua morte, em 2005, mas conseguiu escrever um livro, Prisioner of the State (prisioneiro do Estado), publicado no Ocidente, em que relata os bastidores da luta pelo poder no partido.
Ao contrário do que pensavam deslumbrados neoliberais como Francis Fukuyama, nem a História terminou nem todos os países tendem necessariamente a se tornar sociedades mais democráticas. Se as reformas políticas implodiram os regimes comunistas do Leste europeu, o modelo chinês sobreviveu ao combinar abertura econômica capitalista com regime de partido único. Os dissidentes chineses - do poder ou fora dele - são a expressão da história dos vencidos, como a dos cátaros e dos albigenses na Idade Média. Com o êxito do modelo chinês, quem se importará com suas razões?

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