segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

REESCREVENDO A PRÓPRIA HISTÓRIA


A trajetória do aiatolá Hossein Ali Montazeri, morto no domingo dia 20 aos 87 anos, é o mais recente exemplo da dificuldade que regimes fechados têm para lidar com divisões em seu inner circle e de como esses rachas acabam gerando dissidências perigosas à estabilidade do poder. Montazeri foi o "número dois" do aiatolá Ruhollah Khomeini, tendo sido indicado por este para sucedê-lo como Líder Supremo do país. Mas o temor de que Montazeri, um teólogo e scholar respeitado, pudesse lhe fazer sombra, levou Khomeini a defenestrá-lo em 1987. Montazeri passou então a defender os direitos políticos e civis dos cidadãos negados pelo regime teocrático que ele ajudou a construir. Chegou a ficar em prisão domiciliar, mas o fato de ser um Grande Marja - autoridade religiosa do islamismo xiita - o preservou de um destino mais trágico. Seu canto de cisne foi a queda de braço com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, a quem ele acusou de ter fraudado a reeleição.

À moda de Plutarco, podemos traçar dois destinos paralelos, embora distintos, ao de Montazeri. O primeiro é o do marechal Lin Piao, o poderoso ministro da Defesa da China nos anos 60, nomeado sucessor de Mao Tsé-tung em 1969. O fiel discípulo do Grande Timoneiro morreu em 1971 num misterioso acidente aéreo na Mongólia, depois de fugir, segundo a versão oficial, de uma fracassada tentativa de golpe de Estado contra Mao. O fato é que, com Lin Piao fora do poder, o Exército perdia a força que conquistara ao ser chamado por Mao para conter os guardas vermelhos durante a Revolução Cultural (1966-1976).

O segundo destino paralelo é o de Leon Trotsky, um dos grandes líderes da Revolução Bolchevique de 1917, ao lado Vladimir Lênin. Comisário da Guerra, Trotsky não só chefiou a repressão à revolta dos marinheiros de Kronstadt e à dos anarquistas de Makhno, que contestavam o monopólio bolchevique do Estado, como defendeu a militarização do trabalho, a estatização dos sindicatos e a disciplina de ferro do Partido sobre a sociedade. Só depois que foi apeado do poder é que ele virou crítico da autocracia bolchevique. Acabou assassinado no exílio no México em 1940 por um serviçal de Stálin.

As revisões que Trotsky e Montazeri foram obrigados a fazer ao menos salvaram parte de suas reputações para a História. Já Lin Piao deixou-nos apenas o legado de suas misérias.

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