quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O 'ALAGÃO' DE SÃO PAULO: DE QUEM É A CULPA?


O governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab reagem como se não tivessem nada a ver com o caos provocado pelo dilúvio que desabou sobre São Paulo nos últimos dias e que causou a morte de 12 pessoas - até agora. O governador sumiu do mapa e seus acólitos jogaram a culpa na prefeitura (as tais bombas da estação elevatória de Traição); já Kassab culpou a natureza ("a chuva muito intensa") e ainda encontrou um "aspecto positivo" (sic) no aguaceiro: o fato de as obras da prefeitura terem "evitado" problemas ainda maiores. E parte da grande mídia, rápida no gatilho para cobrar responsabilidades quando se trata do Governo Federal, agiu como se em São Paulo não existissem poderes públicos.

O debate sobre as responsabilidades pelas consequências de desastres naturais é antigo. Como sempre lembra o Hélio Schwartsman na Folha, o mais memorável ocorreu no século XVIII e opôs dois dos maiores expoentes do Iluminismo, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. O motivo foi o Terremoto de Lisboa que, no dia 1º. de novembro de 1755, destruiu a cidade e matou cerca de 60 mil pessoas - a maioria sob os escombros das igrejas, já que assistiam à missa do dia de Todos os Santos. No Poème sur le désastre de Lisbonne (http://membres.lycos.fr/jccau/ressourc/fra18/lisbonne.htm), Voltaire se perguntava como Deus, onipotente, onipresente e benevolente, poderia ter permitido tamanha desgraça. Rousseau, em sua resposta ("Lettre sur la Providence"), argumenta que não havia como culpar Deus quando os responsáveis pela cidade permitiram que milhares de casas de seis ou sete andares fossem construídas numa área exígua. Ou seja, ele lembrava o fato, hoje comezinho - mas não para nossos insígnes administradores -, de que as consequências dos desastres naturais são inseparáveis do modelo urbanístico da cidade sobre a qual eles recaem.
Voltando à Paulicéia: na década de 70, o então prefeito Olavo Setúbal estimava em 30 anos o tempo necessário para que as obras de contenção de enchentes fossem concluídas em São Paulo. Parecia uma eternidade e, no entanto, o tempo passou e continuamos a ver, ano a ano, o espetáculo dantesco que atinge principalmente a população carente. O fato é que obras dessa natureza nunca foram prioridade para as nossas administrações municipais e estaduais.

Veja-se o que acontece agora. Desde 2006, a Prefeitura de São Paulo deixou de investir R$ 353 milhões em obras de combate às enchentes - cerca de 60% da verba total prevista para drenagem, canalização e piscinões. E o governo do Estado investiu menos da metade do previsto em obras na Bacia do Alto Tietê: R$ 71 milhões de R$ 188 milhões. Já para a construção de pontes, viadutos e publicidade oficial nunca falta dinheiro

Depois do terremoto, Lisboa teve um marquês de Pombal, que reconstruiu e remodelou a cidade, transformando-a numa das mais belas da Europa. Já São Paulo continua à mercê de políticos medíocres, cujo horizonte não ultrapassa o da minoria abastada da cidade.

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