sábado, 26 de dezembro de 2009

UM LÍDER PRAGMÁTICO

Rafael Caldera, presidente da Venezuela por duas vezes (1969-1974 e 1994-1999) morreu às vésperas do Natal aos 93 anos. Ele foi um estadista relativamente progressista no primeiro mandato, numa época em que os ventos de mudança radical sopravam tão fortemente na região que era quase impossível fazer avaliações objetivas. Membro do establishment político e fundador do Copei, a versão democrata-cristã da Venezuela, Caldera foi um dos articuladores do chamado Pacto de Punto Fijo, acordo assinado em 1958 entre os principais partidos políticos venezuelanos para restabalecer a democracia depois da ditadura do general Pérez Jiménez. Na prática, o pacto criou um sistema político cuja estabilidade era garantida pelo condomínio entre o Copei e a Acción Democrática (socialdemocrata), que se revezaram no poder durante quase 40 anos. Na primeira vez como presidente, Caldera mostrou-se pragmático. Apesar de sua origem conservadora, ele estabeleceu a paz com grupos guerrilheiros de esquerda, integrando-os à vida política, e legalizou partidos clandestinos, como o Partido Comunista. Aumentou para 60% o imposto sobre a receita das empresas petrolíferas estrangeiras e implementou o complexo petroquímico de El Tablazo. Poderia passar à História com esse legado, mas a sedução pelo poder o levou-o a um final patético. Na segunda presidência, um envelhecido Caldera, desta vez dissidente do Copei, pegou um país em crise econômica profunda com a queda dos preços de petróleo e aplicou a desastrosa fórmula de ajuste do FMI - corte de gastos públicos, aumento de tarifas, liberalização cambial. Isso depois da catástrofe que tinha sido o governo de seu antecessor, Carlos Andrés Pérez, que quase mergulhou o país numa guerra civil na tentativa de aplicar o mesmo receituário neoliberal. O esgotamento do modelo - econômico e político - venezuelano acabou abrindo caminho para Hugo Chávez, a quem Caldera anistiou em 1994 - o então tenente-coronel estava preso por uma tentativa de golpe militar em 1992.

Um dos ministros de Caldera no segundo governo foi o antigo guerrilheiro Teodoro Petkoff, ex-integrante da direção do Partido Comunista Venezuelano e depois do Movimento ao Socialismo (MAS). Convertido à socialdemocracia, Petkoff saiu-se bem melhor como analista do que como ministro (quando foi o responsável pelo programa do FMI). O atual diretor da revista Tal Cual é um dos maiores críticos de Chávez, mas pela esquerda. Diz que o presidente venezuelano é um caudilho militar com veleidades messiânicas, a expressão acabada - ao lado do vetusto Fidel Castro - daquilo que ele classifica como "esquerda bourbônica" (referência à dinastia Bourboun, tipos que "não perdoam e não aprendem"). Para Petkoff, a essa esquerda autoritária e "pré-conciliar" (outra ironia, menção ao Concílio Vaticano II) se contrapõe uma esquerda moderna e democrática, representada pelos presidentes Lula, Tabaré Vázquez e Michelle Bachelet - pragmáticos como foi Caldera em seu primeiro mandato.

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