segunda-feira, 2 de maio de 2011

POR QUE NÃO INVESTIGAR O ATENTADO DO RIOCENTRO?


O sargento Rosário, um dos terroristas do Riocentro
Há pelo menos um crime perpetrado pela ditadura militar que poderia ser perfeitamente investigado - e alguns de seus autores eventualmente punidos - sem que houvesse a necessidade de revogar a Lei de Anistia de 1979: a tentativa de atentado terrorista no Riocentro em 30 de abril de 1981, levada a cabo por militares do Exército. Naquela noite, dois agentes do DOI-CODI que estavam dentro de um Puma se preparavam para explodir bombas num megashow de MPB que acontecia no Riocentro, que era promovido pelo Cebrade (Centro Brasil Democrático) - centro de "notórios comunistas", segundo os milicos, e organizado por Chico Buarque de Hollanda - um compositor "subversivo". Imagine-se quantas pessoas morreriam em decorrência das explosões e/ou do tumulto. Depois, como no caso ParaSar em 1968, os militares culpariam a esquerda. Mas a operação fracassou porque uma das bombas explodiu no colo do sargento Guilherme do Pereira do Rosário, matando-o, e ferindo gravemente o capitão Wilson Luís Chaves Machado. A outra bomba, mal arremessada, explodiu no pátio da miniestração de energia do Riocentro e abriu uma cratera.

José Ribamar Freitas perdeu um braço
Era uma época em que os militares da área de informações tentavam intimidar a oposição praticando atos terroristas - contra bancas que vendiam jornais alternativos, contra a Associação Brasileira de Imprensa, e o gabinete do vereador Antonio Carlos Carvalho, entre outros. O atentado na OAB matou uma secretária, Lyda Monteiro, e o do gabinete feriu gravemente o assessor José Ribamar Freitas, que perdeu um braço e ficou cego. Esses atentados não eram atos isolados ou de insubordinação de militares inconformados. No caso do Riocentro, o próprio comandante geral da Polícia Militar, o coronel Nilton Cerqueira - homem do esquema da repressão, responsável pela morte de Carlos Lamarca - havia determinado a retirada do policiamento do Riocentro. 

E o general Newton Cruz, ligado ao SNI, afirmou recentemente em entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto que os militares planejavam realizar mais atentados como os do Riocentro. Na época, o alto comando do Exército cerrou fileiras em defesa dos terroristas e da versão estapafúrdia de que o atentado era obra de militantes de esquerda. Fizeram até um Inquérito Policial Militar a respeito. A farsa foi tão grotesca que levou à renúncia do general Golbery do Couto e Silva, um dos artífices, junto com o ex-ditador Geisel, da "distensão lenta e gradual" do regime. 
O capitão Wilson chegou a coronel e hoje está na reserva. Nunca abriu o bico. Recentemente, o jornal O Globo revelou vários nomes da agenda do sargento Rosário - arapongas que, depois do fim da ditadura, fizeram carreira na vida civil. Um deles, o ex-agente da PF Wilson Pina, foi recentemente exonerado do cargo de assessor de inteligência da Agência Nacional de Petróleo (ANP) por ter montado um falso dossiê contra um então diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do ex-ministro Franklin Martins - dossiê esse explorado pela grande mídia e por José Serra. A seguir, transcrevo parte da reportagem de O Globo do dia 25/4:

"O GLOBO identificou metade dos 107 nomes anotados na agenda. Entre eles havia integrantes de cinco segmentos: o chamado Grupo Secreto, organização paramilitar de direita que desencadeou atos terroristas para deter a abertura política; nomes da Secretaria estadual de Segurança, incluindo do órgão responsável por investigar justamente os atentados a bomba da época; organizações civis, como empresas de construção e de material elétrico; veículos de comunicação; e militares que formariam depois a atual comunidade civil de informações e arapongagem.O que impede o Judiciário de investigar esse crime?  

João Figueiredo não controlava seus pares
A presença de alguns desses militares entre os contatos de um ativo participante de atividades terroristas de direita como Rosário mostra que, quando veio a distensão, esse grupo preencheu o vazio de poder utilizando, para fins civis, os conhecimentos de inteligência que tinham adquirido. Além disso, a agenda de Rosário traz indicações de que, já na época do fim do regime, essa comunidade de informações já começava a se articular.


Na lista, nomes do grampo do BNDES
Sargento paraquedista com 12 anos de experiência na guerra suja, Guilherme do Rosário pertencia, quando morreu, à Subseção de Operações Especiais, unidade de elite do DOI I, especializada em estouro de "aparelhos subversivos com o uso de força". Porém, à medida que as missões foram encolhendo - em decorrência do aniquilamento das organizações de esquerda da luta armada e da nova orientação do governo para os DOIs, que foram reestruturados para seguir uma linha mais de inteligência que de força -, o sargento passou a empregar a sua experiência nas operações clandestinas. Um dos seus principais contatos, na articulação com outros órgãos da repressão, era o coronel Freddie Perdigão Pereira, ex-DOI e na época agente, no Rio, do Serviço Nacional de Informações (SNI) - o grande órgão de inteligência do regime militar.


Frequentador do destacamento da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Perdigão tinha encontros periódicos com os agentes de operações especiais no bar Garota da Tijuca, a poucos metros da unidade, que ficou conhecida como o principal centro de torturas do Rio.

Da comunidade de informações, a caderneta de telefones de Guilherme do Rosário trazia, por exemplo, o nome de Wilson Pinna, agente da Polícia Federal aposentado. Entre 1979 e 1985, Pinna trabalhava no DOPS, na coleta e análise de informações. Era um dos que, por exemplo, iam a assembleias, protestos, comícios e outras reuniões para ver quem dizia o quê. Pinna chegou a, por exemplo, coordenar a análise de informações do movimento operário da época."

Aposentado da PF em 2003, Wilson Pinna foi exonerado, em 2009, de cargo comissionado que ocupava na assessoria de inteligência da Agência Nacional de Petróleo (ANP), após ter sido acusado pela Polícia Federal como o autor do falso dossiê contra o então diretor do órgão, Victor de Souza Martins, irmão do então ministro da Comunicação Social, Franklin Martins. Pinna foi denunciado na 2ª Vara Federal Criminal do Rio pelos crimes de interceptação telefônica ilegal e quebra de sigilo fiscal.

Wilson Pinna disse não se lembrar de ter conhecido Guilherme do Rosário, mas, segundo ele, podem ter se encontrado em algum dos cursos da área de inteligência feitos pelo agente federal, como aulas no DOI, no CIE e no Cenimar."

Nenhum comentário:

Postar um comentário