segunda-feira, 30 de maio de 2011

DUAS DOSES A MAIS (OU A MENOS)


H.  L. Mencken pelo caricaturista David Levine
Henry Louis Mencken (1880-1956)foi um jornalista literário americano, ensaísta, crítico e satírico - o maior iconoclasta de seu tempo. Sua pena era particularmente ácida contra o jingoísmo da classe média da América, os fundamentalistas cristãos e as frivolidades do jornalismo - aquilo que hoje, pseudo-sofisticadamente, chamamos de fait divers e que, desgraçadamente, tentamos levar a sério. O trecho abaixo foi escrito durante a infame Lei Seca - a proibição, em nome de princípios morais, da fabricação e comercialização de álcool nos Estados Unidos. A lei durou entre 1919 e 1933, aumentou a procura pelo álcool e acabou fazendo da Máfia - então um bando de carcamanos desordeiros - um paradigma do crime organizado.    

"O álcool, por assim dizer, nos desenreda. Ele levanta o toldo da sensação e nos torna menos sensíveis aos estímulos eternos e, particularmente, àqueles que nos são desagradáveis. Ao pôr um freio em todas as qualidades que nos permitem tocar a vida e brilhar diante dos colegas - por exemplo, a combatividade, a agudeza, a diligência, a ambição - , o álcool liberta as qualidades que nos enternecem e fazem com que as pessoas gostem de nós: a afabilidade, a tolerância, a generosidade, o humor, a simpatia. [...] Tudo é tão óbvio que me espanto ao ver que nenhum utópico, até hoje, se propôs a abolir todas as lamentações do mundo pelo simples artifício de manter toda a humanidade ligeiramente alta. Note bem, eu não disse bêbada; disse ligeiramente alta - e peço desculpas por não saber como descrever este estado numa frase menos indecorosa. O homem ligeiramente calibrado pelo álcool é capaz de pôr suas melhores qualidades para fora. Ele não é apenas imensamente mais mais amável do que o indivíduo que vive a seco; é também imensamente mais decente. Reage a todas as situações de maneira expansiva, generosa e humana. Torna-se mais liberal, tolerante e agradável. É melhor cidadão, marido, pai e amigo. As inciativas que tornam a vida humana insegura e desconfortável nunca são tomadas por este homem: ele não declara guerras, não rouba nem oprime ninguém. Todas as grandes vilanias da História foram perpetradas por homens sóbrios e, principalmente, por abstêmios. Mas todas as coisas belas, do Cântico dos Cânticos à tartaruga à Maryland, das nove sinfonias de Beethoven ao martini seco, foram concebidas por homens que, na hora certa, trocavam a água de bica por algo mais colorido e com outros ingredientes que não apenas hidrogênio e oxigênio".

H. L. Mencken, Retrato de um mundo ideal (1924)       

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