terça-feira, 17 de maio de 2011

A PAIXÃO INSANA PELA VERDADE


Alexandre VI, o papa devasso 
Num livro famoso, A Marcha da Insensatez, a historiadora americana Barbara Tuchman atribui a Reforma Protestante do século XVI à corrupção e concupisciência dos papas da Renascença, particularmente a Rodrigo Bórgia, o famoso Alexandre VI, pai dos não menos famosos César e Lucréia Bórgia. O contraponto a esse pontífice  foi o frade dominicano Girolamo Savonarola, considerado por muitos um protestante avant la lettre, que arrebatava multidões com um discurso fundamentalista e purista e fundou uma teocracia em Florença até ser deposto e enviado à fogueira por ordem de Alexandre VI. A distância histórica permite afirmar que a ação deste último trouxe muito mais avanços do que a do frade extremista que queimava livros hereges e queria destruir a “cultura pagã” da Renascença. Afinal, como disse Orson Welles um famoso “caco” do filme O Terceiro Homem: “Na Itália, por trinta anos sob os Bórgias, eles tiveram guerra, terror, assassinato e derramamento de sangue, mas produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, eles tiveram amor fraternal, quinhentos anos de democracia e paz, e o que eles produziram? O relógio-cuco”.

Lucrécia Bórgia, "devoradora de homens"
Os Bórgias eram oriundos de Valência (Espanha), na época um rico entreposto comercial e principado regido pelo rei Fernando de Aragão. A ascensão de Rodrigo Bórgia na estrutura de Igreja Católica foi favorecida pelo seu tio Afonso de Bórgia, papa Calisto III (1455-1458). Ordenado padre em 1468 e criado cardeal em 1471, Rodrigo era uma combinação renascentista de excelente formação teológica com  enorme avidez por riquezas materiais e pela luxúria. Chegou a Roma com sete filhos naturais de diversas mulheres. Em 1492, aos 61 anos, foi eleito ao trono de São Pedro, ao que parece comprando todo o colégio de cardeais. O "papa espanhol" adotou o nome de Alexandre VI e rodeou-se de catalães e valencianos de confiança. Ele transformou a Santa Sé num antro de orgias, simonias, conspirações e assassinatos. Desregramentos à parte, foi sob o papado de Alexandre VI que nasceu o Tratado de Tordesilhas, que separou as terras americanas entre Espanha e Portugal. Sob seu pontificado Roma também deu proteção aos judeus – um fato inusitado numa igreja de longa tradição antissemita.


César Bórgia, modelo de O Príncipe
O Vaticano não tinha exército e a Itália de então era um amontoado de ducados, principados, e repúblicas, como Veneza e Florença, que guerreavam entre si. A Espanha e a França tinham interesses em manter o Vaticano sob controle. O papa fez de César Bórgia, seu filho legítimo, o comandante de seu exército. Maquiavel irá elogiar o espírito guerreiro e a liderança de César Bórgia, em quem se inspirou para escrever O Príncipe. Para formar o seu exército, Alexandre VI recorreu aos judeus perseguidos pelos reis espanhóis Fernando e Isabel. Essa postura inusitada e o fato de que a corte de Alexandre VI era um antro de corrupção desenfreada - um exagero até mesmo para os elásticos padrões da Renascença - alimentaram uma virulenta reação de cunho messiânico ao seu papado.    

Girolamo Savonarola...
Sob estímulo dos reis católicos de Espanha e França, então inimigos do Vaticano, prosperou em Florença um movimento político de caráter religioso comandado pelo frade dominicano Girolamo Savonarola, que arrebatava multidões com um discurso fundamentalista, denunciando a “imoralidade” e a vida de prazeres dos florentinos e a bandalheira do Vaticano. Com esse discurso, Savonarla implantou uma teocracia em Florença. Inimigo do renascimento artístico e cultural, esse clérigo messiânico estimulou a destruição de livros e obras de arte, incluindo trabalhos de Botticelli, de inestimável valor. Proibiu o jogo, a bebida, as festas e elevou a sodomia, até então punida com multa, a crime capital, punível com a pena de morte. Em 1497, o fanático líder religioso promoveu a famosa Fogueira das Vaidades: seus emissários recolheram objetos que pudessem caracterizar alguma forma de frouxidão moral, como espelhos, tabuleiros de jogos, cartas, vestidos luxuosos, livros sobre temas pagãos, cosméticos, perfumes, quadros mostrando figuras nuas e outros objetos, fazendo de tudo uma imensa fogueira no centro de Florença.

... para quem matar pela verdade era uma virtude
Os desmandos de Savonarola foram tantos que, em 4 de maio de 1497, explodiu uma a revolta popular. Os florentinos reabriram tavernas e promoveram a jogatina em locais públicos. A família Médici foi reconduzida ao poder, enquanto Savonarola, preso e excomungado por Alexandre VI, acabou enforcado em 23 de Maio de 1498. Seu corpo foi queimado na Piazza della Signoria, onde muitas de suas vítimas tinha morrido na fogueira. Diz-se que Leonardo da Vinci teria retratado Savonarola na sua famosa obra A Última Ceia no rosto de Judas Iscariotes. Si non è vero... 


Até hoje, Alexandre VI simboliza a devassidão e a corrupção; enquanto Savonarola representa a pureza dos princípios. Entre  devassos e virtuosos, fico com os primeiros. Afinal, sempre é bom lembrar a advertência de Guilherme de Bakersville a Adso de Melk em O Nome da Rosa, de Umberto Eco: "Teme, Adso, os profetas e os que estão dispostos a morrer pela verdade, pois de hábito levam à morte muitíssimos consigo, frequentemente antes de si, às vezes em seu lugar. [...] Talvez a tarefa de quem ama os hOmens seja fazer rir da verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade".  

Um comentário:

  1. Excelente texto, caro dublê, conciso e profuso, portanto denso, mas admiravelmente claro.

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