quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

MILITARIA LUSITANA

Em janeiro completaram-se 50 anos de um episódio insólito e quase esquecido, mas que foi importante para desmascarar a ditadura salazarista instalada em Portugal desde 1932. Trata-se do assalto ao navio português Santa Maria por um grupo de antifascistas portugueses e espanhóis. O navio de passageiros, que saíra de Tenerife (Espanha) no dia 13 de janeiro de 1961, navegava no Mar das Antilhas com destino a Miami. A operação, denominada Dulcinéia, era comandada pelo capitão do Exército português Henrique Galvão e foi levada a cabo pelo Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL).

Integravam a liderança da operação os espanhóis Jorge Sotomayor e José Velo Mosquera, além da inusitada presença do jornalista português Miguel Urbano Rodrigues, então exilado no Brasil e trabalhando como editorialista do Estadão. O DRIL era ligado ao general português Humberto Delgado, líder da oposição ao salazarismo. Os revoltosos batizaram o Santa Maria de “Santa Liberdade” e conseguiram atrair a atenção do mundo para os desmandos do salazarismo. O navio entrou no Recife e o governo brasileiro deu asilo aos revoltosos, devolvendo o navio a Portugal.

O general Humberto Delgado e as massas
O episódio põe luz no protagonismo dos militares na vida política portuguesa, que seria responsável, finalmente, pela derrubada da ditadura em 25 de abril de 1974, mas também pela instabilidade política que se seguiria à queda do regime. O general Delgado tentou inicialmente derrotar o salazarismo pelas urnas, disputando a eleição presidencial de 1958 contra o almirante Américo Thomaz. Depois de ter sua vitória eleitoral fraudada e de ter sido ameaçado de morte, Delgado exilou-se no Brasil. Ele voltaria clandestinamente a Portugal para participar de uma tentativa de insurreição civil-militar no Regimento de Infantaria 3 no quartel de Beja, em dezembro de 1961, que acabaria sufocada pelo governo. Outra fracassada tentativa de golpe militar ocorreria no ano seguinte. Delgado foi assassinado por agentes da PIDE, a polícia política de Salazar, em 13 de fevereiro de 1965.

Spínola, general de pouca visão
A interminável guerra colonial em África fez o Exército se voltar contra o regime salazarista. Oficiais intermediários (capitães) organizaram o Movimento das Forças Armadas (MFA) e tomaram a iniciativa, derrubando o regime – a essa altura chefiado por Marcelo Caetano – em 25 de abril de 1974 no episódio que ficou conhecido como Revolução dos Cravos. Foi uma situação atípica em que um golpe militar se transformou numa revolução popular. Para conter o ímpeto revolucionário dos capitães, que eram muito influenciados por organizações de esquerda, o veterano general António de Spínola, crítico da guerra colonial, embora conservador, foi chamado para chefiar o novo governo.

Otelo, o jacobino (esq.) e Gonçalves, o comunista
A politização perpassou o MFA e as Forças Armadas de cima a baixo. Peixe fora d’água num ambiente francamente revolucionário, Spínola foi afastado da presidência, sendo substituído pelo general Costa Gomes. Inconformado com a profunda viragem à esquerda, particularmente com a independência das colônias africanas, o general de monóculo tentou, quixotescamente, desfechar um golpe militar de direita em março de 1975; o fiasco da empreitada o levou a se exilar no Brasil, onde veio fazer companhia a Marcelo Caetano. No poder, os militares se dividiam entre o Grupo dos Nove (apoiadores do Partido Socialista), o grupo apoiado pelo Partido Comunista – ao qual pertencia o primeiro-ministro, general Vasco Gonçalves –, e a ala de extrema-esquerda, liderada pelo major Otelo Saraiva de Carvalho, estrategista da Revolução dos Cravos e comandante do Copcon (Comando Operacional do Continente). Otelo enveredou pelo jacobinismo militar e tentou tomar o poder de assalto com apoio da esquerda revolucionária em 25 de novembro de 1975; derrotado, caiu em desgraça.
Ramalho Eanes


Em 1976, o general conservador Ramalho Eanes – que comandara a operação militar contra o putsch de Otelo – se tornaria o primeiro presidente da República portuguesa eleito democraticamente e, paradoxalmente, aquele que poria fim ao protagonismo dos militares na política do país.

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