quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

QUANDO OS ALIADOS SE TORNAM INCÔMODOS

A guerra de Hitchens
Que as preocupações americanas com os direitos humanos sempre foram politicamente motivadas é um segredo de polichinelo. Mas o trauma do 11 de setembro fez com que parte da intelligentsia liberal nos Estados Unidos, Reino Unido e até da França abraçasse o messianismo de Bush e seus neocons: em 2003, quando Tio Sam invadiu o Iraque sob o pretexto fajuto de encontrar “armas de destruição em massa”, intelectuais progressistas, ou outrora progressistas, como Christopher Hitchens, Paul Berman e Bernard Kouchner, entre outros, escreveram rios de tinta para defender não apenas aquela invasão, mas o princípio ideológico de intervenção militar externa (no caso, americana) para derrubar tiranias como a de Saddam Hussein.

Donald Rumsfeld (à esq.) cumprimenta Saddam em 1983
A tirania de Saddam Hussein, no entanto, no passado tinha sido útil aos interesses americanos. Quanto os aiatolás iranianos derrubaram o xá Rezha Pavlevi, em 1979, Washington e os países ocidentais insuflaram o dirigente iraquiano para entrar em guerra contra o Irã. A guerra durou oito anos e provocou a morte de um milhão de pessoas. Saddam não hesitou em usar armas químicas contra as tropas iranianas, mas as atrocidades de seu regime só causariam indignação a partir de 1990, quando o ditador entrou em rota de colisão com os interesses americanos. Então, veio à tona o medonho prontuário de direitos humanos do regime iraquiano e a opinião pública mundial soube que Saddam Hussein era um tirano sanguinário – como só agora, 30 anos depois, soube que o presidente egípcio Hosni Mubarak era um ditador.

Tony Blair e o "grande amigo" Gaddafi
Essa mudança de papéis de líderes políticos – de vilões a aliados e vice-versa, de acordo com os interesses americanos – chegou à esquizofrenia com Muammar Gaddafi, o ditador perpétuo da Líbia. Durante muito tempo, ele foi o “cão louco do Oriente Médio”, o monstro que apoiava quase todos os grupos terroristas que combatiam interesses americanos, de palestinos a europeus. Então, veio o 11 de setembro e a reconversão de Gaddafi. Ele se tornou inimigo dos fundamentalistas islâmicos, renunciou às armas de destruição em massa e fez um acordo para entregar os culpados e pagar indenizações pelo atentado terrorista contra um avião da Pam Am em 1988, que matou 270 pessoas em Lockerbie (Escócia). Também prometeu combater a Al Qaeda. A Líbia, é bom lembrar, é um grande produtor de petróleo. Foi o suficiente para o antigo demônio fosse quase canonizado. Agradecido, George W. Bush retirou as sanções contra a Líbia e Condeleezza Rice foi recebida com tapete vermelho em Trípoli. Tony Blair e Silvio Berlusconi viraram amigos de infância de Gaddafi. Agora, com as massas líbias pedindo a cabeça do ditador, os ocidentais se vêem constrangidos a mudar de opinião pela segunda vez sobre esse malfadado personagem.

Ngo Dinh Diem, católico como Kennedy
No passado os EUA também mudavam de opinião em relação a aliados incômodos, mas jamais admitiam isso publicamente. Foi o caso de Ngo Dinh Diem, presidente do Vietnã do Sul entre 1955 e 1963. Ele era um déspota corrupto, nepotista e truculento. De uma família que se convertera ao catolicismo, Diem perseguia implacavelmente a maioria budista do país. Seu regime foi responsável pela tortura e morte de cerca de 50 mil dissidentes acusados de simpatia pelos comunistas. A repressão possibilitou o surgimento da Frente Nacional de Libertação do Vietnã do Sul – o vietcong –, que faria causa comum com o norte comunista e seria o pretexto para a desastrosa intervenção americana no país entre 1963-1973. O descontentamento da população com Diem levou os militares a depô-lo. Ele acabou assassinado. O golpe teve a bênção do presidente americano, o católico John Kennedy.

Trujillo, o "generalíssimo" do Caribe
Pior foi Rafael Leónidas Trujillo, general e ditador da República Dominicana entre 1939 e 1961. Ele tomou o poder com o apoio explícito dos Estados Unidos e governou o país como se fosse sua fazenda particular, acumulando uma gigantesca fortuna pessoal. Sua família chegou a ser proprietária de 70% das terras do país. O regime de Trujillo era mantido à custa de uma selvagem repressão, que não hesitava em mandar matar dissidentes, mesmo que eles estivessem nos Estados Unidos. Aliava-se a isso o culto à personalidade: a capital, Santo Domingo, foi rebatizada para Ciudad Trujillo. O anticomunismo do generalíssimo garantia o irrestrito apoio de Washington. Mas a Revolução Cubana de 1959 tirou o sono do caudilho. Fidel Castro apoiou tentativas de depô-lo. Mas o pior foi quando Trujillo tentou matar outro desafeto, o presidente da Venezuela, Rómulo Betancourt, eleito democraticamente. Por conta disso, a República Dominicana acabou expulsa da OEA e os americanos perceberam que tinham que se livrar do velho aliado. Com o apoio ostensivo da CIA, Trujillo foi assassinado a tiros em 30 de maio de 1961. Essa conspiração foi contada em detalhes no belíssimo livro A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa.

Mark Twain
"Os Estados Unidos conquistarão o México", escreveu Ralph Waldo Emerson em 1846. "Mas será como o homem que engole o arsênico que o derrubará. O México vai nos envenenar", concluiu. Troque-se o México por outro país ou região do mundo que sofreu ou sofre o peso do império e se entenderá por que o poder americano é tão odiado por esses povos. "Nós fomos traiçoeiros. Mas apenas para que o bem surgisse do mal aparente... Conspurcamos a honra da América, cobrimos de opróbio seu rosto perante o mundo, mas sempre com a melhor das intenções. Vamos desfraldar a bandeira, mas com as listras brancas pintadas de preto e as estrelas substituídas pela caveira e pelos ossos cruzados", escreveu Mark Twain.

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