sábado, 12 de março de 2011

O LEGADO DE ATATÜRK: UM MODELO PARA OS PAÍSES ISLÂMICOS?


O general Mustafá Kemal
Neste mês comemoram-se os 130 de nascimento de Mustafá Kemal Atatürk, o pai da Turquia moderna. Ele realizou uma revolução cujos efeitos perduram até hoje e cujas conquistas podem servir de modelo aos países islâmicos que estão vivendo processos revolucionários. Oficial do Exército integrante do movimento dos "Jovens Turcos" que tentou modernizar autoritariamente o Império Otomano entre 1908 e 1918, Mustafá Kemal se destacou como líder militar brilhante nas guerras balcânicas (1912 e 1913) e na Primeira Guerra Mundial. Teve participação destacada na Batalha de Galípoli (1915), onde os otomanos derrotaram as tropas britânicas, australianas e neozelandezas, impedindo a invasão de Istanbul. No fim da guerra, contudo, com a derrota da Tríplice Aliança, da qual o Império Otomano era aliado, o Sultão estava preparado para aceitar os termos que os aliados queriam impor à Turquia. Quando os gregos desembarcaram em Smirna em 1919, tentando anexar a maior parte da Anatólia, o Sultão ordenou que as tropas turcas não resistissem. Mustafá Kemal foi enviado para Samsun, no Mar Negro, para desmobilizar o 9º Exército Turco. Ao invés disso, ele organizou a resistência nacional contra a partição da Anatólia. Em oposição ao Sultão, uma Assembléia Nacional foi formada em Ancara, elegendo Mustafá Kemal presidente e rejeitando as duras exigências do Tratado de Sèvres (1920), que privaria a Turquia de várias de suas ricas províncias. A luta contra os gregos terminou em 1921, com a vitória militar dos turcos liderados por Mustafá Kemal. Com isso, os turcos obtiveram termos muito mais favoráveis no Tratado de Lausanne, que reconheceu a independência da Turquia.

Atatürk, em trajes ocidentais
Fascinado pelo Iluminismo, Mustafá Kemal foi um désposta esclarecido e modernizador. Realizou reformas para fortalecer o Estado turco por meio da ocidentalização das instituições e da sociedade, destruindo o poder e a influência do islamismo no país. Laicizou do Estado num grau nunca visto em qualquer país muçulmano. Em 1923, Mustafá Kemal aboliu o Sultanato Otomano e a Assembléia Nacional declarou a Turquia uma República. O Califado foi extinto em 1924; os ulemás (líderes religosos) e as madrassas (escolas religiosas), colocadas sob controle do Estado. O calendário gregoriano substituiu o calendário muçulmano e o governo impôs o fim do uso de trajes tradicionais, como o fez (chapéu otomano tradicional) para os homens e o hijab e o shador para as mulheres. Até hoje, a Turquia é o único país muçulmano onde não se vê a maioria das mulheres com a cabeça coberta por algum tipo de véu. Na época de Atatürk, era proibido inclusive sair em público com trajes que denotassem filiação religiosa.

Basília de Santa Sofia: templo ortodoxo, depois mesquista e agora museu
Em 1925, depois de uma tentativa de rebelião curda liderada por dervixes, todas as ordens sufis foram abolidas e suas mesquistas transformadas em museus. Aliás, a própria Basília de Santa Sofia (Hagia Sofia), templo ortodoxo que os otomanos transformaram em mesquista depois da conquista de Constantinopla (1453), virou museu. Um  novo código civil, baseado no código da Suíça, substituiu a sharia (lei islâmica). Mustafá Kemal também aboliu a poligamia e a possibilidade do marido repudiar unilateralmente a mulher, instituindo o casamento civil e o divórcio, a igualdade de homens e mulheres perante a lei, inclusive no direito à educação e ao emprego. Em 1934, o voto feminino foi estabelecido e no ano seguinte a primeira mulher turca era eleita para o Parlamento. O governo adotou a escrita romana para o turco e obrigou os cidadãos a adotarem sobrenomes ocidentais. O próprio Mustafá Kemal acrescentou "Atatürk" (pai dos turcos) como sobrenome. A religião perdeu todo papel que tinha na vida pública turca.

A Turquia evoluiu de regime de partido único sob Atatürk para o multipartidarismo. Mas as fundações laicas do Estado turco permanecem até hoje, mesmo depois de o governo ter sido conquistado por um partido islâmico. Tentativas de reverter a laicização do Estado turco sempre encontraram forte oposição da sociedade civil. As reformas ocidentalizantes, contudo, tiveram um calcanhar de Aquiles: a tutela do Exército, que sempre foi o guardião da República laica. Em nome da manutenção do legado de Atatürk, os militares intervieram várias vezes na política, inclusive com golpes de Estado.

Mas hoje a Turquia consolidou sua democracia. Seu modelo político pode ser uma alternativa às teocracias islâmicas e às ditaduras do Oriente Médio que vêm sendo sacudidas por revoluções democráticas. Seria a Revolução Francesa chegando à região 200 anos depois de ter acabado com o domínio da aristocracia feudal na Europa.      

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