"Algo precisa mudar para que tudo permaneça como está", dizia Tancredi, príncipe de Falconieri, ao seu tio, o príncipe Fabrizio Salinas, da Sicília. Era uma provocação para que o tio, conservador e aristocrata, abandonasse a lealdade aos Bourbouns e ao reino das duas Sicílias e se aliasse aos Sabóia para manter os privilégios apesar da mudança de regime. O diálogo faz alusão aos episódios finais do Risorgimento(processo de unificação da Itália que culminou em 1861) e aparece no romance Il Gattopardo (O Leopardo), de Giuseppe Tomaso di Lampedusa. A metáfora pode explicar a metamorfose do Front National, a extrema-direita francesa, analisada nessa matéria que reproduzi do site Operamundi. O fato de o episódio mencionado no início do artigo ter ocorrido numa localidade chamada Lampedusa é mera coincidência...
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Alain Delon (Tancredi) e Burt Lancaster (Fabrizio) em O Leopardo (Il Gattopardo), de Luchino Visconti |
Marine Le Pen: de salto alto, extrema-direita francesa
avança e 'repagina' discurso contra imigrantes

Na França, o discurso de Marine agrada a muitos. Menos de uma semana após a viagem à Lampedusa, no primeiro turno das eleições locais de 20 de março, mais de 15% dos eleitores escolheram candidatos da FN. “Não é pouca coisa, especialmente para uma eleição que era pouco favorável ao partido”, afirmou ao Opera Mundi Christophe Forcari, jornalista do jornal Libération e autor do livro Le Pen, o último combate. No segundo turno, domingo (27/03), a FN confirmou o bom desempenho. “Isso significa que o potencial de Marine Le Pen para as próximas eleições presidenciais é muito alto”, alertou Forcari.


Início da mudança na FN
Até 2007, Marine trabalhou para construir sua legitimidade eleitoral por meio de eleições locais, escolhendo a cidade de Henin-Beaumont, devastada pelo desemprego. Com o objetivo de seduzir um eleitorado popular, ela testou um novo discurso de cunho social. Deu certo. A filha de Le Pen achava que a FN precisava mudar de estratégia para atrair as vítimas da crise econômica. Ela também mudou fisicamente e na vida pessoal: emagreceu 15 quilos, cortou os cabelos, trocou o guarda-roupa e se divorciou. Todas as revistas de celebridades lhe dedicaram matérias de capa. Marine ficou famosa.
“Paradoxalmente, a chegada de Le Pen ao segundo turno em 2002 traumatizou Marine e toda uma geração de militantes da FN”, explicou o sociólogo Sylvain Crépon na Universidade Paris-X-Nanterre. “Quando viram que a maioria da população se mobilizou contra Le Pen, permitindo a reeleição de Chirac com 82% dos votos, eles perceberam que seu líder nunca seria presidente”. Os jovens ativistas pareciam estar cansados de Le Pen. Nascida em 1968, Marine se distanciou de temas tradicionais de extrema-direita.
Desde 2002, confirmam as pesquisas, a FN é o partido mais votado pelos operários – os mesmos que, há 20 anos, votavam maciçamente em comunistas e socialistas – e por isso, precisa refletir suas preocupações. De acordo com a plataforma de Marine, o FN deve ser um “partido de direita, nacional, social e popular” e não um grupo de extrema-direita. Ao defender idéias sociais, ela procura atrair os eleitores de todas as origens. De acordo com o instituto de pesquisas Sofres, entre os eleitores de Marine, 23% dizem que estão próximos da extrema-esquerda e 36% se dizem sem preferência política. É uma pista para entender porque alguns não se identificam mais com o discurso dos partidos de esquerda após o colapso do comunismo e das batalhas fratricidas entre socialistas.
A estratégia da FN é fazer um trabalho de base, “como o Partido Comunista Francês em sua grande época”, explicou Forcari. Seus militantes estão presentes nas feiras todos os domingos, e não apenas antes das eleições. Eles distribuem panfletos e convidam para reuniões. “Isso é ainda mais impressionante considerando que o partido não tem dinheiro”, completa o jornalista. Essa presença nas ruas mudou a imagem do FN.

Outro tema novo é a defesa dos funcionários públicos, antes resistentes às teorias da FN. Marine abandonou a visão liberal ou mesmo “thatcherista” do pai para defender a “restauração de um estado forte” e uma política de obras públicas. Por esta mesma razão, ela defende o serviço público, denunciando a desaparição de escolas e hospitais, um argumento até então defendido prioritariamente pela esquerda.
Enquanto isso, Marine transformou a FN em um partido mais respeitável aos olhos da população. Ela não tolera qualquer deslize como os do pai, que classificou as câmaras de gás de Hitler como um “detalhe da história”. Esse novo posicionamento causou descontentamento nos antigos quadros do partido, como Roger Holeindre, veterano da guerra da Indochina e da Argélia. “Marina não sabe nada sobre a nossa história e não representa nossas idéias”, disse o político ao abandonar o partido. Porém, o posicionamento de Marine agrada os jovens, que a elegeram como nova presidente do partido com quase 67% dos votos.
Novas metas
Marine tinha dois grandes projetos: por um fim à demonização do partido e oferecer uma imagem de competência. O primeiro teve sucesso. “Ela conseguiu quebrar o cordão sanitário em torno da FN”, disse Crépon. Na semana passada, o UMP (União por um Movimento Popular), partido de Sarkozy, estava dividido quanto à estratégia para o primeiro turno das eleições locais: barrar ou não o caminho da FN e pedir votos para os socialistas. Há dez anos, 22% dos eleitores da direita tradicional afirmavam que poderiam votar na FN nesse tipo de situação. Hoje, a proporção passou a 43%. “Isso significa que estamos passando de um voto de protesto ao de adesão”, analisou Forcari.
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Diante do “fenômeno Marine”, a direita acaba relançando as palavras de ordem da FN. Em 2009, Sarkozy convocou um debate sobre a “identidade nacional” e há um mês, um sobre o lugar do Islã na sociedade francesa. Uma tática que pode disseminar as ideias da FN na sociedade. “Nesse caso, os franceses sempre preferem o original à cópia”, argumentou Marine.
As forças de esquerda, por sua vez, parecem paralisadas. “Marine é um sintoma, ela demonstra nossas fraquezas”, admitiu o socialista Jean-Christophe Cambadélis em um artigo no Le Monde. O partido não elaborou, porém, nenhuma estratégia para voltar a atrair o eleitorado popular. Seus líderes preferem expor suas divisões por meio de eleições primárias que devem acontecer em três meses. O candidato mais forte parece ser Dominique Strauss-Kahn, atual presidente do FMI (Fundo Monetário Internacional). Um currículo que dificilmente poderá convencer a classe operária que o PS ficou mais sensível à causa dos mais pobres, afetados pela globalização e as consequências sociais na França.
Il Gattopardo (1963), Luchino Visconti
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