sábado, 11 de dezembro de 2010

SAINDO DO ARMÁRIO

A Associação dos Ateus e Agnósticos (ATEA) iniciou uma campanha no Brasil, por enquanto restrita e Porto Alegre e Salvador, inspirada em outra que foi veiculada em ônibus em Londres em 2009. Trata-se, segundo a entidade, de "diminuir o enorme preconceito que existe contra os ateus e caminhar rumo à igualdade plena entre ateus e teístas". Uma das peças publicitárias contrapõe as imagens do ateu Charles Chaplin e do crente Adolf Hitler, com o slogan: "Religião não define caráter". Outra peça mostra as imagens dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York, praticados por fanáticos muçulmanos, com a inscrição: "Se Deus existe, tudo é permitido", que é uma inversão da frase do escritor russo Fiodor Dostoiévski nos Irmãos Karamazov, "Se Deus não existe, então tudo é permitido". 

Richard Dawkins
O articulista Fernando de Barros e Silva, da Folha de S. Paulo, que se declara ateu, argumenta que a ATEA, com sua campanha  "parece cultivar uma espécie de religião dos descrentes, de igrejinha dos sem fé [...] Não vamos, por favor, transformar a descrença em Deus num delírio, para parafrasear Richard Dawkins" (referência ao popular biólogo evolucionista, autor do livro Deus, um delírio, no qual defende a ideia de que os ateus devem "sair do armário" para defender suas convicções).

Pessoalmente, tendo a concordar, em tese, com Fernando Barros e Silva. Não será fazendo do ateísmo outra forma de religião que combateremos o obscurantismo religioso. Lembremo-nos da funesta tentativa dos jacobinos de criar um "Culto à Razão", que se revelou tão intolerante quanto as práticas da Igreja. Mas é preciso atentar para a nossa realidade: hoje em dia, graças aos avanços das liberdades democráticas, você pode ser de direita, de esquerda, homossexual e até defensor das drogas - mas ai de quem se declara descrente, seja ateu ou agnóstico. Veja-se, por exemplo, a pesquisa realizada há dois anos nos Estados Unidos pelo Forum Pew, que revelou que 61% dos americanos jamais votariam em um descrente. A mesma pesquisa mostrou que a rejeição dos americanos é menor em relação aos muçulmanos (45%), mórmons (25%), hispânicos (15%) e mulheres (12%). Apenas 6% não votariam num negro - algo espantoso num país historicamente marcado pelo racismo. No mesmo ano, Barack Obama se tornaria o primeiro presidente negro da história de um país em que até pouco tempo a Ku Klux Klan linchava negros nos Estados do sul e o governo federal tinha que mandar tropas para garantir a integração racial nas escolas. 

A atriz Jodie Foster
Apesar da discriminação numa nação majoritariamente religiosa - que quase beirou à teocracia nos tempos sombrios de George W. Bush - o número de ateus americanos dobrou nos últimos anos. Houve e há muitas celebridades americanas que não crêem, como Katherine Hepburn, Marlon Brando, Steve Jobs, Bill Gates, Jodie Foster, Angelina Jolie, Antonio Banderas, Dianne Keaton, George Clooney e Woody Allen - só para ficar nos famosos. Mas o grande público jingoísta americano ignora esse detalhe. Curiosamente, a maioria dos fanáticos religiosos dos EUA é contra o aborto e... a favor da pena de morte!    

Mas fiquemos aqui mesmo no Brasil. Recentemente, o apresentador José Luiz Datena, da Band, foi processado pelo Ministério Público por ter ofendido os ateus em seu programa de televisão. Com o estilo de fascista de picadeiro que lhe é característico, Datena comparou os não-crentes a criminosos e disse que os “ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus”. Como disse o Hélio Schwartsman, também na Folha de S. Paulo, "se é da religião que vem a moral, deveríamos, como vivamente prognosticou Datena, encontrar nas prisões um grupo desproporcionalmente grande de ateus e menor de religiosos. Não é isso, porém, o que sugerem os dados. Estatísticas reveladas por uma funcionária do Birô Federal de Prisões dos EUA de 1997 mostraram que a proporção de cristãos era de 80%, mesmo valor da população geral. Muçulmanos, que correspondem a algo entre 1% e 3% dos norte-americanos, eram 7,2% dos presidiários". 

Campanha de ateus e agnósticos em Londres
Não vamos entrar na discussão estéril de quem cometeu mais crimes: as Igrejas (Cruzadas, colonização, Inquisição, franquismo) ou os regimes declaradamente ateus, como os de Stálin ou Pol Pot. O fato é que em alguns países democráticos, principalmente católicos - exceção feita ao Uruguai e aos EUA, este de maioria protestante - os ateus são discriminados por suas convicções. Isso não vai mudar enquanto os que não crêem não "saírem do armário" para fazer valer seus direitos. Por isso, a campanha da ATEA é bem vinda, pelo menos num primeiro momento. Nessa "guerrilha" pela liberdade de expressão, é preciso chocar, "desafinar o coro dos contentes" e até fazer essas comparações simplistas para sacudir a opinião pública e fazê-la pensar, mesmo que a contragosto. Écrasez l'infâme! (esmagai a infame!),como dizia Voltaire.  

3 comentários:

  1. Parabéns pela matéria.
    Acredito em Deus, mas sonho com o dia em que os homens serão verdadeiramente livre e isso passa pelo direito de crer ou não crer, concordando afinal temos a história para comprovar que as religiões carregam muitas dividas e a maior delas é a de cegar as pessoas.

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  2. É isso, Dea. A questão é garantir a pluralidade, a liberdade e a laicidade, de maneira que crentes e não-crentes possam discutir livremente.

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  3. Infelizmente tudo termina inexoravelmente numa lápide. Ó que triste vida!!! Ser comida de vermes e nada mais...Estou terrivelmente entediada com tudo isso. O que fazer com tanta inteligência aqui desperdiçada... .

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