segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

CUMPLICIDADE AMERICANA

A versão indonésia do WikiLeaks - IndoLeaks.org - publicou documentos secretos de 1975 com conversas entre o presidente norte-americano Gerald Ford e o ditador indonésio Mohamed Suharto, que governou a Indonésia com mão de ferro entre 1967 e 1998. Nessas conversas, Suharto tenta convencer os EUA de que a invasão do Timor Leste - que deixara de ser colônia portuguesa depois da Revolução dos Cravos de 1974 - seria a única alternativa para evitar o "perigo comunista":

O presidente Gerald Ford e o ditador Suharto (1975)
 "O problema é que aqueles que querem a independência (do Timor) são influenciados pelo comunismo. Aqueles que querem a integração na Indonésia estão sujeitos a uma grande pressão por parte dos que são quase comunistas', aponta Suharto. 'Garanto que a Indonésia não quer interferir na autodeterminação de Timor Leste, mas o problema é gerir o processo de autodeterminação com a maioria a querer a unidade com a Indonésia.

Os dois presidentes tiveram uma reunião a 5 de Julho de 1975 em Camp David, na qual também participou o secretário de Estado Henry Kissinger. Daí a cinco meses, em 7 de Dezembro - data do ataque japonês a Pearl Harbour - a Indonésia iniciava a ocupação de Timor Leste, dez dias depois de Portugal ter declarado a ex-colônia independente. Hoje sabe-se que os EUA tiveram conhecimento prévio da invasão e que os portugueses informaram a administração Ford de que não resistiriam ao "uso da força por parte da Indonésia".

No entanto, estes novos documentos proporcionam um olhar inédito sobre a forma como Suharto convenceu os EUA a permitirem a incursão em Timor. 'Ao auscultar as opiniões do povo timorense, existem três possibilidades: independência; ficar com Portugal ou juntar-se à Indonésia', diz Suharto. 'Com um território tão pequeno e sem recursos, um país independente dificilmente seria viável. Ficar com Portugal é um fardo muito grande, estando Portugal tão longe. Integrarem-se na Indonésia como um país independente não é possível porque somos um Estado unitário. Assim, a única solução é uma integração na Indonésia [não como país independente].

O exército indonésio, ocupante do Timor Leste
A reunião serviu também para Suharto pedir ajuda aos EUA para controlar o comunismo no Sudoeste Asiático, através de uma melhoria das comunicações e da marinha e com mais unidades móveis para "suprimir subversões" na região. Ford aceita estudar uma futura ajuda: "Devíamos criar um comissão conjunta para decidir o que é necessário e o que podemos fazer para satisfazer essas necessidades."

Massacre em Santa Cruz, 1991
 A ocupação durou 24 anos e o Timor Leste foi anexado como a 27ª província indonésia. Nesse período, a ditadura de Suharto, a pretexto de combater a resistência à ocupação, praticou uma política de genocídio contra a população timorense, com centenas de aldeias destruídas por bombardeios do Exército, muitos com bombas de napalm. Em 12 de novembro de 1991, o Exército disparou contra manifestantes no cemitério Santa Cruz, em Dili, matando pelo menos 200 pessoas. Em 1999, sob intensa pressão internacional, a Indonésia permitiu a realização um plebiscito que decidiu pela independência. Antes de se retirar, contudo, milícias indonésias massacraram, sob as vistas grossas do Exército ocupante, centenas de pessoas suspeitas de trabalharem pela independência. Depois, os líderes da resistência Xanana Gusmão e José Ramos Horta lideraram o país.

Significativamente, o 3º volume de memórias de Henry Kissinger, Years of Renewal, um cartapácio de quase 1.300 páginas, não tem uma mísera citação sobre o Timor Leste. E a Indonésia é citada de maneira completamente marginal, em assuntos como o conflito no Sudeste Asiático. Christopher Hitchens tem razão em considerar o ex-secretário de Estado americano um criminoso de guerra - além do Timor, Kissinger se envolveu com crimes no Vietnã, no Chile e em Bangladesh - e compará-lo ao ex-ditador sérvio Slobodan Milosevic.

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