segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O ÚLTIMO LIBERAL AMERICANO?

Daniel Ellsberg em 1971
As revelações sobre ações do governo americano que estão sendo feitas pelo site Wikileaks lembram a façanha de quase 40 anos atrás de Daniel Ellsberg, analista militar que era funcionário da RAND Corporation. Ele resolveu não mandar às favas os escrúpulos de consciência e arriscou a carreira, a reputação e até a vida para revelar segredos governamentais que considerava obscenos. Ellsberg copiou 7 mil papéis do Departamento de Defesa e os enviou para o The New York Times. Os chamados “Papéis do Pentágono” constituíam um estudo do Departamento de Defesa dos EUA em 47 volumes que analisava o envolvimento militar norte-americano no Vietnã entre 1959 e 1967. Entre outras revelações, os documentos mostravam que os EUA deliberadamente expandiram sua ação militar na guerra, com bombardeios aéreos contra o Laos, ataques costeiros contra o Vietnã do Norte e ações terrestres dos marines - tudo isso depois que o presidente Lyndon Johnson tinha prometido que a guerra não seria expandida. “Os documentos demonstravam um comportamento inconstitucional por uma sucessão de presidentes, a violação de seus juramentos e a violação dos juramentos de cada um de seus subordinados”, disse Ellsberg para justificar sua atitude, considerada "impatriótica" por grupos conservadores.


(Há inclusive um filme recente, The Most Dangerous Man in America)


Os artigos começaram a ser publicados no Times em 13 de junho de 1971 e provocaram profundo mal-estar no governo federal. Quando o presidente Richard Nixon conseguiu um mandado de segurança que obrigava o jornal a cessar as publicações dos documentos, Ellsberg enviou cópias deles para o Washington Post, que também começou a publicá-los. O caso foi parar na Suprema Corte, que em 30 de junho decidiu, por 6 a 3, que os mandados concedidos para impedir as publicações eram inconstitucionais. Foi uma vitória decisiva da Primeira Emenda da Constituição americana – que garante a liberdade de expressão e proíbe a censura no país.

Há um dado interessante, revelado tempos atrás, quando Ellsberg deu uma entrevista à revista britânica The Economist. A decisão da Suprema Corte diz respeito tanto à liberdade de imprensa - a liberdade de determinados órgãos de veicular informações que consideram relevantes - quanto à liberdade de expressão em sentido amplo, ou seja, do direito inalienável que os cidadãos têm de serem informados sobre as atividades do Estado, independentemente da conveniência da mídia em publicá-los.
"The Economist – Qual o papel da mídia no processo de vazamento? Ouvi uma frase na qual você declarava que se estivesse divulgando os Papéis do Pentágono hoje em dia, você não os daria à imprensa, e simplesmente os colocaria na internet.
Daniel Ellsberg – Acho que fui mal-interpretado nessa frase. O que eu disse foi que minha primeira opção ainda seria a imprensa. Na verdade seria a imprensa, e não o Congresso, onde perdi cerca de um ano e meio tentando audiências. È claro que se a imprensa demorasse ou recusasse os documentos, eu iria ao WikiLeaks. Mas essa não seria minha primeira opção, mesmo nos dias de hoje.

Ellsberg hoje
Por exemplo, o New York Times tinha uma matéria sobre o uso de escuta não-autorizada da Agência de Segurança Nacional antes das eleições de 2004. Eles a seguraram por cerca de um ano. Acho que as fontes foram negligentes, dada a importância do assunto, em não usar a tecnologia e divulgar as informações. Se eu estivesse nessa posição, teria comprado um scanner e colocado eu mesmo as informações na internet. Na verdade, estive nessa posição na época dos Papéis do Pentágono, mas não havia internet (..). A maneira como tudo terminou foi ótima, mas nos dias atuais, se o Times me dissesse que não usaria as informações, eu as disponibilizaria na internet."

É preciso lembrar que mesmo o New York Times, hoje considerado baluarte da liberdade da expressão, nem sempre foi fiel ao público leitor. Em 1961, por exemplo, o jornal deixou de publicar informações sobre a invasão da Baía dos Porcos por um contigente anticastrista treinado pela CIA para não prejudicar a "segurança nacional". E mais recentemente, na era George W. Bush, o jornal embarcou na campanha da Casa Branca sobre as armas de destruição em massa do Iraque para justificar a invasão do país.   

Tony Judt
Já Ellsberg continua sendo um liberal de velha cepa e coerente. Recentemente, ele publicou uma carta aberta à Amazon em que acusava a empresa de "covardia e servilismo" frente ao poder, pelo fato de a empresa ter retirado de seus servidores o site Wikileaks depois de ameaças de políticos de direita, como o senador Joe Lieberman. Cliente habitual da Amazon, Ellsberg, 79 anos, pede que os clientes boicotem a empresa pela retirada do site sem sequer uma explicação oficial de sua atitude. Muito diferente dos novos liberais americanos - lembrando aqui que o conceito de liberal nos EUA corresponde ao de social-democrata na Europa - que, como escreveu Tony Judt, traíram sua herança progressista e produziram um ensurdecedor "silêncio dos inocentes" ao aceitar a catastrófica política externa de George W. Bush fornecendo o arcabouço ideológico à "guerra preventiva" no Afeganistão e no Iraque.

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