segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A ETERNA VÍTIMA

Samuel Johnson
"A primeira vítima da guerra é a verdade". Atribuída ao senador progressita americano Hiram Warren Johnson (1866-1945), essa frase, na verdade, foi cunhada pelo escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784), que disse: "entre as vítimas da guerra, pode ser enumerada a diminuição pelo amor à verdade, ditada pelas falsidades criadas pelos interesses e encorajada pela credulidade". Em 1975, o jornalista australiano Phillip Knightley, ele mesmo correspondente de várias guerras, escreveu um livro, The First Casualty, no qual mostra como seus pares - alguns, inclusive, se tornariam grandes escritores, como Ernest Hemingway - ajudaram a forjar uma percepção das guerras na opinião pública e até em historiadores que depois se revelaria falsa ou deformada. Hoje, na era da informação on line, quando, em tese, haveria melhores condições para o público ser mais bem informado sobre a conduta da guerra, as coisas parecem estar piores ainda. Mesmo no Vietnã, onde predominou uma postura crítica da grande imprensa americana ante o conflito, o massacre de My Lay, por exemplo, foi denunciado por um repórter independente, Seymour Hearsch. Depois do Vietnã, os militares tomariam certos cuidados: os repórteres agora só vão à guerra em pool, junto com as tropas, e só conseguem transmitir, invariavelmente, a visão oficial sobre os conflitos. O Iraque foi o exemplo mais trágico dessa tendência. O monopólio da informação foi quebrado pela guerrilha virtual do site WikiLeaks. O repórter britânico John Pilger, também veterano correspondente de guerra, escreveu no The Guardian um texto devastador sobre essas relações perigosas e a importância das revelações feitas pelo WikiLeaks:

General David Petraeus
"No manual do Exército americano sobre contra-insurgência, o general David Petraeus descreve o Afeganistão como uma ‘guerra de percepção ... conduzida continuamente com a utilização das novas mídias’. O que realmente importa não são tanto as batalhas do dia-a-dia contra o Taliban e sim o modo como o caso é vendido nos EUA, onde ‘a mídia influencia diretamente a atitude de audiências-chave’. Ao ler isto, recordei-me do general venezuelano que dirigiu um golpe contra o governo democrático em 2002. ‘Tínhamos uma arma secreta’, jactou-se. ‘Tínhamos a mídia, especialmente a TV. Temos de ter a mídia’.

[..]

Derrubada da estátua de Saddam em Bagdá (2003) 
O apogeu foi a entrada vitoriosa em Bagdá e as imagens da TV mostrando multidões saudando a queda de uma estátua de Saddam Hussein. Por trás desta fachada, uma equipe americana de operações psicológicas (Psyops) manipulava com êxito o que um ignorado relatório do Exército americano descreve como um ‘circo da mídia, com quase tantos repórteres quanto iraquianos’. Rageh Omaar, que estava ali pela BBC, informou no noticiário principal da noite: ‘O povo saiu saudando [os americanos], mostrando sinais de vitória. Isso é uma imagem que acontece por toda a capital iraquiana’. De fato, na maior parte do Iraque, em grande parte não relatada, estava em marcha a conquista sangrenta e a destruição de toda uma sociedade.

[...]

Na Grã-Bretanha, David Rose, cujos artigos no Observer desempenharam um papel importantes ao ligar falsamente Saddam Hussein à Al-Qaeda e ao 11 de setembro, deu-me uma entrevista corajosa na qual afirmou: ‘Não posso dar desculpas ... O que aconteceu [no Iraque] foi um crime, um crime em escala muito grande ...’


‘Será que isso torna os jornalistas cúmplices?’, perguntei-lhe.


‘Sim ... talvez inconscientes, mas sim’.

Dan Rather, que foi a âncora dos noticiários da CBS durante 24 anos, foi menos reticente. ‘Havia um medo em toda sala de redação da América’, contou-me, ‘um medo de perder o emprego ... o medo de lhe afixarem alguma etiqueta, impatriótica ou outra’. Rather afirma que a guerra nos transformou em ‘estenógrafos’ e que se os jornalistas tivessem questionado os enganos que levaram à guerra do Iraque, ao invés de amplificá-los, a invasão não teria acontecido. Esta visão não é partilhada por um certo número de jornalistas sêniors que entrevistei nos EUA.

James Cameron
 Qual o valor de jornalistas que falam assim? A resposta é dada pelo grande repórter James Cameron, cuja corajosa e reveladora reportagem filmada, feita com Malcom Aird, do bombardeio de civis no Vietnã do Norte, foi proibida pela BBC. ‘Se nós, cuja missão é descobrir o que os bastardos estão tramando, não informarmos o que descobrimos, se não falarmos alto’, disse-me ele, ‘quem é que vai denunciar toda essa guerra sangrenta acontecendo outra vez?’


Julian Assange, do WikiLeaks
Cameron não podia ter imaginado um fenômeno moderno tal como o WikiLeaks, mas certamente teria aprovado. Na atual avalanche de documentos oficiais, especialmente aqueles que descrevem as maquinações secretas que levaram à guerra – tal como a mania americana sobre o Iraque – o fracasso do jornalismo raramente é notado. E talvez razão porque Julian Assange parece excitar tal hostilidade entre jornalistas que servem uma variedade de lobbies, aqueles a quem o porta-voz de imprensa de George Bush certa vez chamou de ‘possibilitadores cúmplices’, é que o WikiLeaks e a revelação da verdade os envergonha. Por que o público teve de esperar pelo WikiLeaks para descobrir como a grande potência realmente opera? Como revela um documento de 2000 páginas vazado do Ministério da Defesa dos EUA, os melhores jornalistas são aqueles que são percebidos nas sedes do poder não como ‘embebidos’ ou membros do clube, mas como uma ‘ameaça’. Isto é, a ameaça ao poder, 'ameaça' que provém da democracia real, cuja ‘moeda’, disse Thomas Jefferson, é o ‘livre fluxo de informação’.
John Pilger, The Guardian 


WikiLeaks, Collateral Murder, Iraq
http://www.youtube.com/watch?v=5rXPrfnU3G0

WikiLeaks, Iraq Shooting Video Analysis
http://www.youtube.com/watch?v=5rXPrfnU3G0
The War you dont't see, John Pilger
http://www.guardian.co.uk/media/video/2010/dec/10/john-pilger-war-you-don-t-see?INTCMP=SRCH

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