terça-feira, 6 de julho de 2010

O PODER (AINDA) NASCE DA PONTA DO FUZIL


Num livro relativamente recente (2008), The Charming Offensive - How China Soft Power is Transforming the World, o jornalista americano Joshua Kurlantzick mostra como a China, além de potência econômica ascendente, está se tornando uma potência global na arena das relações internacionais. E isso vem sendo feito, segundo o analista, por meio do que outro scholar americano, Joseph Nye, denomina soft power, a capacidade de um país de seduzir, por uma hábil diplomacia, outras nações para sua esfera de influência. Tal modalidade de poder se contrapõe ao hard power, que é a imposição dos interesses unicamente pelo poder militar e econômico. Segundo esse raciocínio, a China vem projetando uma imagem nacional positiva em vários países e forjando alianças estratégicas. A nova diplomacia de Pequim já alterou a paisagem do sudeste asiático e de outras partes do mundo, como a África, onde os chineses ocuparam o vácuo deixado pelas ex-potências coloniais e pelos americanos. Kurlantzick prevê que a China será o primeiro país depois da finada União Soviética a desafiar a influência americana no cenário internacional.
A análise é deveras interessante, mas talvez incompleta. Segundo o professor indiano Brahma Chellaney, do Center for Policy Reserach de Nova Déli, o fundamental foi a China ter se tornado uma potência militar mundial antes de ser uma potência econômica. O poderio militar da China foi conquistado por Mao Tsé-tung, o que permitiu a Deng Xiaoping - o sucessor que colocou o país na via das reformas capitalistas - concentrar esforços e expandir com rapidez o poderio econômico chinês. "Sem a segurança militar criada por Mao, poderia não ter sido possível que a China desenvolvesse força econômica na escala que desenvolveu. [...] A ascensão da China, portanto, é tanto obra de Mao como de Deng. Porque se não fosse o poder militar chinês - o hard power, poderíamos acrescentar - os EUA tratariam a China como outro Japão", diz Chellaney em artigo publicado no Valor.
Ele refere-se ao fato de que o Japão se tornou, nos anos 70 e 80, uma potência econômica mundial, mas não uma potência militar. Por essa razão, quando os japoneses mantinham o iene subvalorizado, como a China faz hoje com o yuan para alavancar suas exportações, ou erguiam barreiras alfandegárias, os EUA pressionavam e obtinham concessões de Tóquio - coisa impensável hoje em relação a Pequim.
A velha metáfora maoísta de que o poder nasce da ponta do fuzil, portanto, continua valendo.    

Um comentário:

  1. PS.: mas, é claro, tudo isso não invalida o soft power. Só lhe dá o devido peso.

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