segunda-feira, 26 de julho de 2010

TRANSFORMISMO, DOENÇA SENIL DO ESQUERDISMO

Não, não é o que você está pensando. Não estou falando em transgressão de  identidades sexuais, como os travestis, drag queens ou pessoas que mudam de sexo. Tampouco me refiro às teorias científicas da Biologia, de Lamarck a Darwin, que defendem que a adaptação das espécies ao meio ambiente é a chave para explicar sua evolução biológica. Trata-se, na verdade, de um conceito da Ciência Política elaborado pelo pensador marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937), para quem "transformismo" é a maneira pela qual as classes dominantes cooptam lideranças políticas radicais das classes subalternas para excluír estas últimas de qualquer protagonismo nos processos de transformação social. Ele distingue dois períodos: o "transformismo molecular", em que personalidades políticas progressistas se incorporam individualmente ao "status quo" conservador; e o transformismo orgânico, em que grupos inteiros, antes radicais, se passam para o campo da reação.   

Isso explica os mecanismos que marcam a ação de antigos socialistas, comunistas e radicais no apoio a muitos governos contra-reformistas em países europeus. Ironicamente, o maior exemplo de transformismo na Europa seria o partido fundado por Gramsci, o Partido Comunista Italiano (PCI). Líder da resistência ao fascismo, tornou-se o maior Partido Comunista do Ocidente. Depois de propor uma aliança com a Democracia Cristã nos anos 70,  virou social-democrata na década seguinte e perdeu sua identidade. Hoje, unido ao que sobrou dos democratas-cristãos, sob o nome anódino de "Partido Democrático", foi para o centro do espectro político e é incapaz sequer de construir uma alternativa a um governo proto-fascista como o de Silvio Berlusconi. Fenômeno semelhante ocorreu com os socialistas franceses sob François Mitterrand (1981-1995) e com os socialistas espanhóis sob Felipe González (1982-1996).
  
No Brasil, o fenômeno é antigo mas sua expressão mais recente é o presidenciável tucano José Serra. Oriundo da esquerda estudantil católica radical dos anos 60 (a Ação Popular), Serra foi presidente da UNE e apoiou o governo João Goulart. No exílio,  converteu-se à social-democracia, mas ainda permaneceu no campo da esquerda. Como economista e parlamentar era alinhado aos chamados "desenvolvimentistas" inspirados pelas teses da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), que eram visceralmente contrárias ao monetarismo dos liberais e favoráveis ao papel estratégico do Estado. Como ministro de FHC José Serra disputou - e perdeu - espaço para os monetaristas radicais do governo como Gustavo Franco e Pedro Malan. Serra  tinha - ou parecia ter - mais afinidade teórica com as idéias da economista petista Maria da Conceição Tavares.
Mas no governo do Estado de São Paulo, Serra mandou às favas sua herança keynesiana e abraçou de vez  o ideário de Friedrich Hayek e Milton Friedman. Adaptou-se, dessa maneira, ao programa do PSDB, que desde os anos 80 e 90 já defendia a ideia de um "choque de capitalismo" baseada na crítica thatcherista ao welfare state e na defesa  das privatizações "à outrance" (sem tréguas), expressão cara a Mário Covas.
Agora, ávido por chegar à Presidência, o ex-desenvolvimentista José Serra não apenas reforçou a aliança dos tucanos com a direita mais tacanha - vide o Índio do Neardenthal - como também tornou-se o porta-voz de suas teses mais reacionárias. De quebra, o entorno demo-tucano-serrista capturou o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira. O transformismo parece ser a doença senil do esquerdismo.   

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