segunda-feira, 17 de outubro de 2011

RELEMBRAR FOUCAULT - EM TODOS OS SENTIDOS

Michel Foucault
Michel Foucault (1926-1984) inovou ao escrever que era preciso parar de descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele “exclui”, “reprime”, “recalca”, “censura”, “mascara”. Para o filósofo francês, o poder produz; produz domínios de objetos e rituais de verdade. O poder possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, uma positividade. E é esse aspecto que explica o fato de que o poder tem como alvo o corpo humano, não para suplicá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo. Portanto, o poder não poderia ser reduzido ao poder de Estado.

Em suas palavras,
“O que aparece como evidente é a existência de formas de exercício do poder diferentes do Estado, a ele articuladas de maneiras variadas e que são indispensáveis inclusive a sua sustentação e atuação eficaz. (...) é preciso distinguir as grandes transformações do sistema estatal, as mudanças de regime político ao nível dos mecanismos gerais e dos efeitos de conjunto e a mecânica de poder que se expande por toda a sociedade, assumindo as formas mais regionais e concretas, investindo em instituições, tomando corpo em técnicas de dominação. Poder este que intervém materialmente, atingindo a realidade mais concreta dos indivíduos – o seu corpo – e que se situa ao nível do próprio corpo social, e não acima dele, penetrando na vida cotidiana e por isso podendo ser caracterizado como micro-poder ou sub-poder."

Em resumo, ele diz o seguinte em Microfísica do Poder:
O poder deve ser analisado como algo que circula, que funciona em cadeia, nunca está apenas nas mãos de alguns. O poder funciona e se exerce em rede. Os indivíduos, em suas malhas, exercem o poder e também sofrem sua ação. Cada um de nós é titular de um certo poder e, por isso, veicula o poder ao mesmo tempo em que sofre seus efeitos.


Os poderes periféricos e moleculares (extra-estatais) não são necessariamente criados pelo Estado nem confiscados e absorvidos por este. Os poderes se exercem em níveis variados e em pontos diferentes da rede social e neste complexo os micro-poderes existem, sejam integrados ou não ao Estado.


É preciso dar conta deste nível molecular de exercício do poder sem partir do centro para a periferia, do macro para o micro.

Estrutura centrífuga
Os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funcionam como uma rede de dispositivos ou mecanismos (tecnologia do corpo, olhar, disciplina) que nada ou ninguém escapa. O poder não é algo que se detém como uma coisa, como uma propriedade. Não existe de um lado os que têm o poder e de outro aqueles que se encontram dele apartados. Rigorosamente falando, o poder não existe; existem sim práticas ou relações de poder. O poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona.


O poder não é substancialmente identificado com um indivíduo que o possuiria; ele torna-se uma maquinaria de que ninguém é titular. Nesta máquina ninguém ocupa o mesmo lugar; alguns lugares são preponderantes e permitem produzir efeitos de supremacia. De modo que eles podem assegurar uma dominação de classe, na medida em que dissociam o poder do domínio individual.


Poder e resistência: pontos móveis
Onde há poder há resistência, não existe propriamente o lugar de resistência, mas pontos móveis e transitórios que também se distribuem por toda a estrutura social. A guerra é luta, confronto, relação de força; não é um lugar estático que se ocupa, nem um objeto que se possui. Ele se exerce, se disputa. Nessa disputa ou se ganha ou se perde.

Objeto do poder: o corpo
O poder atinge a realidade concreta dos indivíduos: o corpo. Ele se exerce por meio de procedimentos técnicos sobre o corpo são, como controle detalhado e minucioso de gestos, atitudes, comportamentos, hábitos e discursos.

É preciso parar de descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele exclui, ele reprime, ele recalca, ele censura, etc. O poder, em sua positividade, tem como alvo o corpo humano não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo. O corpo só se torna força de trabalho quando trabalhado pelo sistema político de dominação característico do poder disciplinar.

A disciplina
A disciplina visa gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades.


Objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito do seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos do contra-poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Portanto, aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos, aumentar a força econômica e diminuir a força política. É o diagrama de um poder que não atua no exterior, mas trabalha o corpo dos homens, manipula seus elementos, produz seu comportamento, enfim, fabrica o tipo de homem necessário ao
funcionamento e manutenção da sociedade capitalista.
Aiatolá Khomeini



Pena que, com toda essa capacidade analítica, Foucault tenha subestimado o poder da religião e dos aiatolás na Revolução Iraniana de 1979, saudando-a como “libertadora” só pelo fato de ela procolar um antiocidentalismo militante...


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