quarta-feira, 26 de outubro de 2011

AS VÁRIAS FACES DE UMA MÁSCARA

E não é que a Veja, na maior cara de pau, se apropriou da máscara do Guy Fawkes, símbolo da luta contra as corporações, para promover sua cruzada udenista contra a corrupção?... Bom, nenhuma estranheza; já se disse que é uma ironia o fato de militantes anticapitalistas usarem um símbolo identificado com uma grande corporação, a Warner Bros. Afinal, a famosa foto do Che Guevara feita pela Korda não virou ícone pop?
Aqui, uma história desse símbolo publicado pelo portal Terra.
 
Máscara inspirada em revolucionário é adotada por manifestantes

Do Terra
A sinistra máscara usada por um personagem de quadrinhos inspirado no revolucionário inglês Guy Fawkes e popularizada pelo filme V de Vingança tornou-se um símbolo dos protestos contra a ganância corporativa realizados em todo o mundo. De Nova York a Londres, passando por Sydney, Colônia e Budapeste, as manifestações têm em comum, além da temática, o estranho adereço, que inclui um bigode e uma barba pontuda.

Guy Fawkes e outros revolucionários católicos foram condenados à morte após uma tentativa fracassada de explodir as Casas do Parlamento, [assassinar o rei Jaime I, NR] e tomar o poder na Inglaterra, no século XVII  [foi a chamada Conspiração da Pólvora, NR] . O aniversário do golpe fracassado, no dia 5 de novembro de 1.605 [na verdade, 1606, NR], é comemorado na Inglaterra com festas e fogueiras [as Noite das Fogueiras, NR].

Ídolo Anarquista
Quatro séculos mais tarde, o autor de quadrinhos Alan Moore se inspirou na história do revolucionário Guy Fawkes para criar o personagem "V", um enigmático anarquista que, tendo Fawkes como ídolo, luta para derrubar do poder um partido fascista fictício que assumiu o controle da Grã-Bretanha. No começo do livro, "V" leva a cabo o plano original de Fawkes e explode as Casas do Parlamento.

O desenhista David Lloyd, responsável pelas ilustrações, criou a imagem original da máscara, popularizada em 2006 pelo filme V de Vingança, da produtora de cinema Warner. Distribuídas como brinde no lançamento do filme, as máscaras tinham sido usadas, em 2008, pelo grupo de hackers militantes Anonymous durante um protesto contra a Igreja da Cientologia.

Desde então, foram incorporadas pelos manifestantes em protestos anticapitalistas. O fundador do site de denúncias WikiLeaks, Julian Assange, chegou ao protesto Occupy London Stock Exchange (em tradução livre, Ocupemos a Bolsa de Londres), há duas semanas, usando uma das máscaras. Assange, que foi à manifestação para fazer um discurso, tirou a máscara antes de falar – segundo relatos, a pedido da polícia.

Falando à BBC, o desenhista Lloyd vê uma relação entre sua máscara e a famosa foto do revolucionário argentino Che Guevara feita pelo fotógrafo Alberto Korda. Para ele, tanto a foto como a máscara viraram moda, um símbolo entre jovens de todo o mundo. “A máscara de Guy Fawkes tornou-se uma marca, um cartaz conveniente para ser usado em protestos contra a tirania”, disse Lloyd. “Fico feliz com seu uso pelas pessoas, parece uma coisa única, um símbolo da cultura popular sendo usado dessa forma”.

Anonimidade Coletiva
Curioso, o desenhista visitou a manifestação Occupy Wall Street (Ocupemos Wall Street) em Nova York para ver as pessoas usando sua máscara. Lloyd explicou que quando ele e o escritor Moore criaram o personagem "V", imaginavam uma guerrilha urbana lutando contra uma ditadura fascista, mas queriam adicionar um pouco de teatralidade à história. “Sabíamos que 'V' seria um homem que havia escapado de um campo de concentração onde tinha sido submetido a experimentos médicos”, disse.

“Mas tive a ideia de que, em sua loucura, ele decidia adotar a personalidade e a missão de Guy Fawkes – nosso grande revolucionário histórico”. O filme baseado no livro leva a ideia da guerrilha urbana mais adiante, e termina com a imagem de uma multidão de londrinos vestindo a máscara de Guy Fawkes, sem armas, marchando em direção ao Parlamento. Esta imagem de identificação coletiva e de anonimidade simultânea estaria exercendo um apelo sobre grupos como o Anonymous, entre outros.

As máscaras, manufaturadas pelos estúdios Warner para promover o filme, são vendidas hoje para todo tipo de gente, de militantes a pessoas em busca de algo para vestir em uma festa a fantasia.

Um fenômeno interessante é que o adereço está sendo vendido em países onde o personagem histórico Guy Fawkes não é conhecido.

He-Man e Guerra nas Estrelas
O blogueiro Paul Staines, que escreve sob o pseudônimo de Guido Fawkes, disse achar irônico que militantes anticapitalismo e anticorporativismo usem um adereço identificado com a gigante do cinema Warner Bros – que está entre as cem maiores companhias americanas, com lucros, no ano passado, de mais de US$ 2,5 bilhões. Uma integrante do grupo Anonymous que protestava acampada à sombra da catedral St. Paul, em Londres, disse que ela e outros militantes estavam usando a máscara não apenas para proteger sua identidade.

“É uma coisa visual, que nos separa dos hippies e dos socialistas e nos dá identidade própria. Queremos ultrapassar o governo e começar do zero". O especialista em quadrinhos Rich Johnston acha que a máscara tem conotações violentas. "Não é um símbolo de resistência passiva, mas de terrorismo ativo. Ela está associada com a ideia de se derrubar um governo e um país. Isso pode ser muito assustador e alienante para algumas pessoas”.

Por outro lado, a ideia da máscara V sendo apropriada como um símbolo político lhe parece ingênua. “É como achar que você pode derrubar um governo usando um sabre iluminado (alusão à série de filmes Guerra nas Estrelas) ou a espada do He-Man”.

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